12
Jul 19

O AO90 no dia-a-dia

Não se recomenda

 

      É médico, segue, mais por hábito do que por convicção ou conhecimento, as regras do Acordo Ortográfico de 1990 e infelizmente quer publicar um livro. Assim, escreve incontáveis vezes «fato», «contato», mas «aspecto», «colectivo», «percepção», «sector», ou, por outro lado, «direto», «fator»... Enfim, o que calha, sem vislumbre de critério. Reparem: médico (e não um médico qualquer) e não chegou ainda a compreender as novas regras ortográficas. Imaginem agora — tenho de o dizer sempre, porque, afinal, médicos, engenheiros, jornalistas, etc., são milhares, mas o zé-povinho são milhões — o que será no dia-a-dia por esse País fora.

 

[Texto 11 756]

Helder Guégués às 15:40 | comentar | favorito
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10
Jul 19

O AO90 no dia-a-dia

Mal estudado

 

      «O polícia, de 46 anos, e dois cúmplices, de 34 e 43 anos, foram detidos na zona do Montijo, no trajeto entre o Sul de Espanha e o Norte de Portugal, num carro que transportava cerca de 90 kg de haxixe» («Ferrari e Mercedes traem polícia detido com 90 kg de haxixe», Alexandre Panda, Jornal de Notícias, 9.07.2019, p. 18).

      Alexandre Panda, deite-se aí nesse divã e fale-nos da sua relação com o Acordo Ortográfico de 1990.

 

[Texto 11 729]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | favorito
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07
Jul 19

«Capitã Marvel»

Mas cuidado

 

      «Teve a melhor estreia de sempre de um filme protagonizado por uma mulher, no caso a oscarizada Brie Larson: 404 milhões de euros no mundo, 561 mil em Portugal. É de propósito que escrevo no feminino o título da obra, que foi mal traduzido no nosso país» («Capitã Marvel», Pedro Cordeiro, «Revista E»/Expresso, 16.03.2019, p. 10).

      Também eu, quando me deram a rever um editorial em que o autor usara o título Capitã Marvel, deixei passar, o que só pode ter um objectivo pedagógico, mas nada de abusos. Sim, deve dizer-se capitã, já o defendi mais de uma vez. (Mas não vão defendê-lo para nenhuma escola militar, por exemplo.) O título é mesmo Capitão Marvel. Isto faz-me lembrar uma prática muito estúpida dos que aplicam o AO90 e citam qualquer texto que não segue a mesma ortografia — seja porque o autor não é partidário deste abandalhamento da língua, seja porque escreveu, por exemplo, há cinquenta anos — e que eles afeiçoam às regras do AO90. Não podem fazer isso. Isso é tão criminoso como apropriarmo-nos de um texto alheio e fazê-lo passar por nosso. O meu espanto — enfim, relativo — é como permitem isto nas editoras.

 

[Texto 11 702]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | favorito
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06
Jul 19

O AO90 no dia-a-dia

Muitos anos depois

 

      «Já no número 31 da avenida 9 de abril, também no centro da cidade, o restaurante A Bela Palha tem como especialidades pratos típicos da gastronomia nacional: Sopa da Pedra, Cozido à Portuguesa ou Caldeirada de Bacalhau são algumas das iguarias que pode apreciar no espaço» («Estremoz», Correio da Manhã, 5.07.2019, p. 43).

      É uma regrinha que se aprende em escassos segundos — mas, pelos vistos, essa facilidade não é para todos. Habitualmente, só para um QI acima de 55.

 

[Texto 11 694]

Helder Guégués às 14:33 | comentar | favorito
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05
Jul 19

O AO90 no dia-a-dia

A língua vai nua

 

      «Na introdução da sua conferência, Mauss evoca o contexto no qual ele é levado a forjar este conceito de técnicas do corpo. Este conceito impõe-se pouco a pouco nele, de forma “concreta”, em resposta a diferentes observações realizadas ao longo da sua vida. Estas reteriam a sua atenção pelo conjunto de fatos sociais, aparentemente, “heterógenos” e inclassificáveis, que a etnologia da época não sabia como descrever e categorizar, levando, assim, a colocar um item de “diversos”. O conceito de “técnicas do corpo” permitiram-lhe [sic] reunir justamente numa mesma categoria um conjunto de fatos saídos de observações diversas e de ser um objeto digno de análise científica. [...] O estudo do corpo era, antes de mais, um fato das ciências naturais (biologia, medicina), que o tratavam como um objeto natural (exemplo: usos da dissecação para estudar o seu funcionamento)» («As técnicas do corpo e o desporto», Vítor Rosa, A Bola, 5.07.2019, 00h02).

      Não é qualquer pessoa que consegue escrever assim. Eu não consigo. O autor é sociólogo, doutor em Educação Física e Desporto, ramo Didáctica, e investigador integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares de Educação e Desenvolvimento, da Universidade Lusófona de Lisboa. Se é assim com um doutorado, bem se pode imaginar como será com o falante comum.

 

[Texto 11 692]

Helder Guégués às 21:37 | comentar | favorito
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04
Jul 19

O AO90 e o PSD

Não é fácil

 

      Até eu tinha como certo que Pacheco Pereira, ontem à noite, na Circulatura do Quadrado, perguntaria a Rui Rio o que pensa fazer em relação ao Acordo Ortográfico de 1990. Em vez de dar a resposta que deu, mais valia que Rui Rio tivesse um delíquio ou qualquer coisa assim benigna e temporária, mas que o impossibilitasse de revelar a enorme ignorância que tem em relação à língua. «Oh pá, o “facto” ponho c, o “fevereiro” às vezes escrevo grande, outras vezes pequeno, para ser sincero, oh pá, umas vezes ponho de uma maneira, outras de outra.» Não tem posição pessoal nem ideias sobre a questão, e por isso não se comprometeu. «Está lá a vermelho [no esboço do programa do partido].» Por conseguinte, não vale a pena alimentarmos grandes esperanças quanto ao que dali virá.

 

[Texto 11 678]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | favorito
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