21
Set 18

Para pior, antes «ateliê»

Está ganha

 

      «De acordo com a publicação da área do design e da arquitetura, Robert Venturi, que era considerado um ícone da arquitetura americana, deixa vivo o seu legado, através do ateliê Venturi Scott Brown Associates (VSBA)» («Morreu o arquiteto Robert Venturi, um pós-moderno», Rádio Renascença, 20.09.2018, 17h13).

      Como já escrevi há uns anos, quando se chegasse a admitir este aportuguesamento em relação aos gabinetes de arquitectura, a batalha estava ganha. Pode não ser o ideal, mas pior era atelier, e logo com o itálico nem sempre respeitado. Ainda me chegaram a recomendar, alguém de vistas curtas (felizmente já me esqueci do nome da pessoa), que não o aportuguesasse. Ontem, porém, num semáforo, ao meu lado estava uma carrinha com os dizeres «atelier de serralharia». Pois é...

 

[Texto 9957]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
17
Jun 18

Antes «colãs», pois claro

Castigo

 

      Já aqui vimos o aportuguesamento colãs, tal como também vimos o sinónimo, e este legitimamente português, meias-calças, tanto em traduções como em obras de autores portugueses. Cada vez são mais comuns estas opções. Os mais cépticos são, por vezes, castigados mansamente: «No caso de escolherem outros vestidos ou saias mais curtas, mas que tapavam sempre os joelhos, as mulheres usavam collans, opacos ou quase, e, por cima, meias de algodão ou lã a cobrir os pés e os tornozelos» (Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto. Lisboa: Quetzal, reimpressão de Janeiro de 2017, p. 88). (Ah, muito bem, «reimpressão de Janeiro de 2017», e não, como se vê quase sempre, «15.ª edição», «22.ª edição», lamentáveis imprecisões, quando não descaradas mentiras.)

 

[Texto 9426]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | favorito | partilhar
30
Mai 18

«Haramídeos»?

Diria que não

 

      «Os haramídeos são um grupo que inclui os familiares mais próximos do antepassado comum de todos os mamíferos actuais, considera esta equipa. Os primeiros membros deste grupo terão surgido há cerca de 220 milhões de anos (Triásico) no hemisfério Norte e os últimos terão vivido há 70 milhões anos» («Novo primo dos mamíferos viveu há 130 milhões de anos», Teresa Serafim, Público, 29.05.2018, p. 28).

      Haramídeos. Será assim que se escreve? Hum... O que se lê por todo o lado é ordem Haramiyida. Estude-se o caso, por favor.

 

[Texto 9305]

Helder Guégués às 11:02 | comentar | favorito | partilhar
02
Mai 18

Aportuguesamento: «pizaiolo»

Entre um e outro

 

      «[João Bartolomé Duarte] Recorda-me que aquela massa levedou 24 a 48 horas antes de se fazer piza — “porque não pode levedar no estômago, senão enfarta” — e chama o chef pizaiolo Diogo Coimbra para contar mais sobre a sua arte, os ingredientes que usa, as exigências da técnica» («“O conceito de piza mudou. Já não é fast food, pode até ser gourmet”», Joana Petiz, Diário de Notícias, 21.04.2018, p. 7).

      Claro que temos já o termo pizeiro, mas entre o italiano pizzaiolo, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, e o aportuguesamento pizaiolo, eu não hesitaria.

 

[Texto 9134]

Helder Guégués às 12:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
21
Mar 18

Rio que banha Moscovo

Porque não Moscvá?

 

      Creio que já uma vez me ocupei desta questão: qual o nome, em português, do rio que banha Moscovo? Aqui um tradutor acha que é Moscou. Cheira (tresanda) a francês. Já tenho lido rio Moscovo: «Parques e jardins cobrem cerca de um terço da superfície intra-urbana, agarrando-se principalmente aos meandros do rio Moscovo (Moscvá — ler mascvá), às suas várias afluências, a lagoas e à albufeira resultante do primeiro daqueles famosos canais que, unindo num sistema único as extensas vias fluviais russas, fazem desta cidade um porto dos cinco mares (Negro, Azov, Cáspio, Árctico, Báltico)» (Setembro na URSS (1972-1974), Óscar Lopes. Porto: Inova, 1975, p. 15). E porque não Moscvá? Parecido, circula por aí: «Moscovo é igualmente a Rive Gauche do rio Moskva, onde a atmosfera é distinta e se sente uma diferença subtil nas ruas e nas gentes» (Caderno de Memórias, José Manuel Villas-Boas. Lisboa: Temas e Debates, 2003, p. 212). Esta última é também a opção da quase infalível Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

 

[Texto 8954]

Helder Guégués às 20:58 | comentar | favorito | partilhar
10
Mar 18

Léxico: «trânsfer/trânsferes»

Porque é assim que escrevem

 

      Os dicionários registam, e muito bem, que transfer é uma palavra estrangeira, inglesa concretamente. Logo, o plural é transfers. Acontece, porém, que quem mais usa o termo, os agentes de viagens, o aportuguesaram, talvez mal, mas aportuguesaram. A título de exemplo: a revista do ACP deste mês de Março (n.º 765) promove as viagens da ACP Viagens, e lá vem, entre outros, um cruzeiro aos fiordes da Noruega, que inclui «todos os transferes mencionados no programa». Se trânsfer for a forma gráfica portuguesa (com acento), temos o plural em trânsferes. É precisamente o que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, mas, a meu ver, não da forma mais correcta: remete para transfer, como que a indicar que esta forma é a aconselhável, e sem indicar o plural. Dois bons contributos para haver confusões.

 

[Texto 8893]

Helder Guégués às 12:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
07
Mar 18

Léxico: «hijabe»

Decidido

 

      Em árabe transliterado, o lenço ou touca ou qualquer cobertura da cabeça da mulher muçulmana é ħijāb. Como estamos habituados a ver a palavra em textos de qualquer natureza? É hijab, sem contestação. E que nome tem, em português, o nicho que, nas mesquitas, aponta para Meca? É mirabe. E qual é a transliteração do étimo árabe? É miḥrāb. Conclusão: nunca mais deixarei de escrever hijabe para me referir ao tal véu/lenço/cobertura. E já comecei hoje.

 

[Texto 8879]

Helder Guégués às 20:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Léxico: «clínex»

Lenço de papel

 

      «“Vamos ter de ir tão longe quanto possível, sempre com a consciência de que não vai ser como passar um ‘clinex’ [toalhete descartável] e o país fica limpinho de uma ponta à outra”, acrescentou [o ministro da Agricultura]» («Incêndios. Governo pede limpeza “máxima”, mas admite que país “não vai ficar limpinho”», Rádio Renascença, 6.03.2018, 21h23).

      De facto, houve uma altura em que se ouvia muito, agora nem tanto. Como aconteceu com Gillettegilete, e tantas outras, é de admitir igualmente Kleenexclínex. O Dicionário da Real Academia Espanhola regista clínex: «Pañuelo desechable de papel.» Contudo, lenço de papel é suficiente, não se vê necessidade desta derivação imprópria.

 

[Texto 8875]

Helder Guégués às 15:46 | comentar | favorito | partilhar