21
Mar 18

Rio que banha Moscovo

Porque não Moscvá?

 

      Creio que já uma vez me ocupei desta questão: qual o nome, em português, do rio que banha Moscovo? Aqui um tradutor acha que é Moscou. Cheira (tresanda) a francês. Já tenho lido rio Moscovo: «Parques e jardins cobrem cerca de um terço da superfície intra-urbana, agarrando-se principalmente aos meandros do rio Moscovo (Moscvá — ler mascvá), às suas várias afluências, a lagoas e à albufeira resultante do primeiro daqueles famosos canais que, unindo num sistema único as extensas vias fluviais russas, fazem desta cidade um porto dos cinco mares (Negro, Azov, Cáspio, Árctico, Báltico)» (Setembro na URSS (1972-1974), Óscar Lopes. Porto: Inova, 1975, p. 15). E porque não Moscvá? Parecido, circula por aí: «Moscovo é igualmente a Rive Gauche do rio Moskva, onde a atmosfera é distinta e se sente uma diferença subtil nas ruas e nas gentes» (Caderno de Memórias, José Manuel Villas-Boas. Lisboa: Temas e Debates, 2003, p. 212). Esta última é também a opção da quase infalível Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

 

[Texto 8954]

Helder Guégués às 20:58 | comentar | favorito
10
Mar 18

Léxico: «trânsfer/trânsferes»

Porque é assim que escrevem

 

      Os dicionários registam, e muito bem, que transfer é uma palavra estrangeira, inglesa concretamente. Logo, o plural é transfers. Acontece, porém, que quem mais usa o termo, os agentes de viagens, o aportuguesaram, talvez mal, mas aportuguesaram. A título de exemplo: a revista do ACP deste mês de Março (n.º 765) promove as viagens da ACP Viagens, e lá vem, entre outros, um cruzeiro aos fiordes da Noruega, que inclui «todos os transferes mencionados no programa». Se trânsfer for a forma gráfica portuguesa (com acento), temos o plural em trânsferes. É precisamente o que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, mas, a meu ver, não da forma mais correcta: remete para transfer, como que a indicar que esta forma é a aconselhável, e sem indicar o plural. Dois bons contributos para haver confusões.

 

[Texto 8893]

Helder Guégués às 12:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito
07
Mar 18

Léxico: «hijabe»

Decidido

 

      Em árabe transliterado, o lenço ou touca ou qualquer cobertura da cabeça da mulher muçulmana é ħijāb. Como estamos habituados a ver a palavra em textos de qualquer natureza? É hijab, sem contestação. E que nome tem, em português, o nicho que, nas mesquitas, aponta para Meca? É mirabe. E qual é a transliteração do étimo árabe? É miḥrāb. Conclusão: nunca mais deixarei de escrever hijabe para me referir ao tal véu/lenço/cobertura. E já comecei hoje.

 

[Texto 8879]

Helder Guégués às 20:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «clínex»

Lenço de papel

 

      «“Vamos ter de ir tão longe quanto possível, sempre com a consciência de que não vai ser como passar um ‘clinex’ [toalhete descartável] e o país fica limpinho de uma ponta à outra”, acrescentou [o ministro da Agricultura]» («Incêndios. Governo pede limpeza “máxima”, mas admite que país “não vai ficar limpinho”», Rádio Renascença, 6.03.2018, 21h23).

      De facto, houve uma altura em que se ouvia muito, agora nem tanto. Como aconteceu com Gillettegilete, e tantas outras, é de admitir igualmente Kleenexclínex. O Dicionário da Real Academia Espanhola regista clínex: «Pañuelo desechable de papel.» Contudo, lenço de papel é suficiente, não se vê necessidade desta derivação imprópria.

 

[Texto 8875]

Helder Guégués às 15:46 | comentar | favorito
29
Nov 17

Léxico: «ieti»

Cães e ursos

 

      «Cientistas verificaram que amostras de ossos, dentes, pele, cabelo e fezes atribuídas a nove espécimes do chamado Abominável Homem das Neves, criatura mitológica gigante dos Himalaias semelhante a um macaco, eram de cão e ursos. [...] A análise genética revelou que um dos ‘Ietis’ correspondia, afinal, a um cão e os restantes oito a ursos-negros asiáticos, a ursos-pardos dos Himalaias e a ursos-pardos tibetanos» («Mistério do Abominável Homem das Neves pode ter sido resolvido», Rádio Renascença, 29.11.2017, 00h47). E no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como está? Yeti: «criatura lendária, de formas humanas e coberta de pêlo, que supostamente vive na região dos Himalaias». Até os jornalistas sentem que tem de ser em português.

 

[Texto 8415]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
17
Jul 17

Léxico: «palmiê»

Francês, e não do melhor

 

      «Na Baía de Cascais já não se avista só ao longe um barco a arder. Agora, está cheia a pão e bolos frescos. É assim a nova pastelaria francesa da vila — a Paul — que abriu este sábado, 15 de julho, mais um espaço em Portugal com uma elegante vitrine carregada de boas sugestões. Croissants, parmiers, pain au chocolat ou tartelettes. Tudo bons motivos para passar por lá à primeira oportunidade» («Paul: a pastelaria francesa à conquista de Cascais», Adriano Guerreiro, NiT, 17.07.2017, 13h34).

      Devem pensar, por qualquer motivo que teimosamente me escapa, que o itálico não foi feito para a Internet. Bolaria francesa, apenas — mas todos podem ter nome português ou aportuguesado. (O quê, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista bolaria?!) Será que o infame palmier também resiste ao aportuguesamento? Sim, porque o escriba atrapalhou-se, era isto que queria escrever. Mas até Saramago já usou o aportuguesamento «palmiê». Andam distraídos.

 

[Texto 8036]

Helder Guégués às 19:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
14
Jul 17

«Baseball/beisebol/basebol»!?

Chegam duas, ou até uma

 

      Sim, concordo: faz muita impressão escrever-se icebergue, um semiaportuguesamento, e ler-se /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. Para isso, contudo, há remédio: escrever aicebergue, que se lê da mesma maneira, /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, iceberg, o termo inglês. Semelhantemente, também faz impressão escrever-se basebol e ler-se /bɐjzəˈbɔɫ/; mais uma vez, para isso há remédio: escrever beisebol. E novamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, baseball, o termo inglês. Salvo melhor opinião, as formas em inglês não fazem sentido nenhum neste dicionário. Alguém procura nele, por exemplo, «football»? Mas há aqui diferenças: em «beisebol» remete para «basebol», mas em «aicebergue» não remete para «icebergue». A meu ver, uma vez que já não são o que eram, as remissões têm de ser sempre mútuas; um dicionário bom também diria sempre qual a forma preferencial. Esse seria um dicionário para os nossos dias.

 

[Texto 8026]

Helder Guégués às 18:38 | comentar | favorito
12
Jul 17

Por mim, gim

Modas

 

      «Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, com apenas 48 anos de idade, vítima de uma cirrose (era um bebedor inveterado de gim), foi sepultado no cemitério do Alto de São João e deixou grande parte dos seus bens ao Partido [sic] a que tinha sido fiel toda a vida» (José Carlos Ary dos Santos, Paulo Marques. Lisboa: Parceira A. M. Pereira, 2008, p. 42).

      Gim, muito bem. Mas agora a moda é o gin. Não, na verdade, este já era, este Verão a bebida da moda é o vinho do Porto branco com água tónica, P&T, diz o Independent.

 

[Texto 8018]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito