24
Mar 20

Cidade Flutuante

Mas sem as malditas aspas

 

      «Devido à quarentena obrigatória, a poluição tem reduzido [sic] drasticamente em Itália, um inesperado efeito positivo do surto da Covid-19. Em Veneza, a água está tão limpa que já há cisnes e peixes a visitar os canais da “Cidade Flutuante”» («Coronavírus. Quarentena reduz poluição em Itália e canais de Veneza ficam translúcidos», Sofia Freitas Moreira, Rádio Renascença, 19.03.2020, 12h35).

      Está quente, muito quente: não precisa de aspas para nada, Sofia Freitas Moreira, é Cidade Flutuante.

 

[Texto 13 015]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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12
Dez 19

Partido Os Verdes

O desejo para 2020

 

      «Partido Ecologista Os Verdes (PEV) vai apresentar um projecto de lei para a despenalização da morte medicamente assistida, ou eutanásia, devendo entregar o diploma em breve. O projecto terá por base o texto apresentado na anterior legislatura, e que foi chumbado» («PEV vai apresentar projecto de lei sobre eutanásia», Público, 11.12.2019, p. 13).

      O jornalista fingiu — e bem, porque é uma idiotice, como já aqui denunciei — que o nome do partido não tem aspas. Quem nos dera que, conhecedores da língua, seu instrumento de trabalho, ignorassem todas as idiotices e todos os modismos que a descaracterizam.

 

[Texto 12 458]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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05
Jun 19

Provérbios e aspas

Já que não perguntam

 

      Uma coisa que me irrita muito é ver provérbios e ditos populares entre aspas. Qual o objectivo? Julgam estar a citar alguém com direitos de autor? Raciocinem, caramba! Não sei quê, «would be to let the tail wag the dog» fica logo no envoltório asséptico «equivale a “pôr o carro à frente dos bois”». Nas traduções, é todos os dias.

 

[Texto 11 481]

Helder Guégués às 14:25 | comentar | favorito
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20
Set 18

Léxico: «borregar»

Borregos, cavalos e aviões

 

      «Mais de uma dezena de voos tiveram de ficar em espera, um “borregou” a aproximação e dois tiveram de divergir para Faro com problemas de combustível» («‘Drone’ interrompeu operação no Aeroporto de Lisboa», Rádio Renascença, 20.09.2018, 14h01).

      Já em 2014, lembrar-se-ão, aqui tínhamos visto o verbo borregar. Não são necessárias as aspas, mas vá lá a gente meter isto na cabeça dos jornalistas. Se fossem robôs, já o sabiam, bastava pressionar com um ⍝.

 

[Texto 9952]

Helder Guégués às 14:37 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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16
Ago 18

E se pensassem duas vezes?

A lógica das aspas

 

      «Está decidido. Marine Le Pen não será oradora na próxima edição da Web Summit, a realizar em Lisboa. O anúncio é feito pelo fundador do evento, no Twitter. “Parece-me claro agora que a decisão correta para a Web Summit é retirar o convite a Marine Le Pen”, afirma Paddy Cosgrave» («Le Pen “desconvidada” para a Web Summit», Rádio Renascença, 15.08.2018, 12h28).

 

[Texto 9792]

Helder Guégués às 07:58 | comentar | favorito
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11
Fev 18

«Apadrinhar/amadrinhar»

Crucificados nas aspas

 

      «A maratonista olímpica Rosa Mota está este fim-de-semana em Folgosinho para “amadrinhar” iniciativas de reflorestação e o Free Trail Solidário Renascer Folgosinho que decorre este domingo, com o objetivo [sic] de devolver a paisagem verde, àquela aldeia» («Folgosinho vai ter um castanheiro “Rosa Mota”», Liliana Carona, Rádio Renascença, 11.02.2018, 10h40).

      Quem percebe como pensam estes jornalistas? Liliana Carona, temos duas palavras: apadrinhar, que significa ser padrinho, patrocinar, e amadrinhar, que significa servir de madrinha a, patrocinar. Sendo assim, para que usa as aspas, pode saber-se?

 

[Texto 8725]

Helder Guégués às 16:19 | comentar | favorito
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08
Jul 17

Léxico: «jurispsicológico»

Não percebo

 

      «Quase um ano depois, um parecer “jurispsicológico” entregue pela sua defesa no julgamento afirma que tal confissão foi “condicionada” pelo próprio juiz e por uma colega da PJ» («Como pode a PJ controlar um inspetor cercado por dívidas sem o discriminar?», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 8.07.2017, 38).

      Nunca hei-de perceber — desisti há muito — a necessidade ou lógica destas aspas usadas pelos jornalistas. Se vislumbro algum sentido na segunda palavra entre aspas, na primeira nem vestígios. Deve ter-se assustado com a palavra — jurispsicológico —, mas foi justamente a sua diminuta frequência de uso que me sugeriu este texto.

 

[Texto 7991]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Mar 17

Tradução: «mouth-to-snout»

Ai Jesus!

 

      «Mouth-to-snout resuscitation saves dog in fire» (London Evening Standard, 24.03.2017, p. 25). Li ontem esta notícia a meio da tarde, e fiquei com curiosidade sobre a forma como a traduziriam os nossos meios de comunicação. Literalmente, pois claro, mas tiveram receio de a deixar sem aspas: «A proeza foi lograda após 20 minutos de respiração ‘boca-a-focinho’, que trouxeram o animal de volta ao mundo dos vivos.» Isto no corpo da notícia, que no título nada podia figurar que cheirasse a zoofilia ou qualquer outra parafilia a pedir internamento ou bastão policial: «Bombeiro salva cão após 20 minutos de respiração boca-a-boca» (André de Jesus, SIC, 24.03.2017, 19h16).

 

[Texto 7621]

Helder Guégués às 15:44 | comentar | favorito
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18
Mar 17

Léxico: «cratão»

O léxico da ciência

 

      «Agora, investigadores do Canadá e EUA publicaram um artigo na edição desta semana da revista Science com os resultados de análises a algumas rochas encontradas numa região chamada “Escudo Canadiano” e que revelam que estas amostras preservam a assinatura do momento de formação da crosta da Terra. […] As amostras analisadas fazem parte do que os investigadores chamam “cratões” (unidades geológicas muito antigas), como o do Escudo Canadiano, que é considerado o núcleo do continente norte-americano» («Há rochas “filhas” da crosta original da Terra no Canadá», Andrea Cunha Freitas, Público, 18.03.2017, p. 33).

      Ah, a tolice das aspas! Agora, até nos topónimos. Quanto a cratão, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-o como a «região da Terra, rígida e estável, no geral de grande extensão». Embora se possa melhorar esta definição, é muito melhor do que a explicação da jornalista, de que não se percebe nada.

 

[Texto 7575]

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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