17
Fev 19

Léxico: «repente»

Um brasileirismo

 

      No programa Vozes da Lusofonia, de Edgar Canelas, na Antena 1, a convidada de ontem foi a cantora e multi-instrumentista brasileira Bia Ferreira, que usou a palavra repente num sentido que nós não temos: improviso recitado ou cantado.

 

[Texto 10 809]

Helder Guégués às 19:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
19
Out 18

Léxico: «caixa dois»

É o nosso saco azul

 

      «“Se a denúncia de que eles usaram este ‘caixa 2’ for comprovada, a depender do volume da operação, se isto impactar na legitimidade das eleições, pode até levar a cassação do mandato. A palavra que a lei usa é gravidade. A leitura que o tribunal eleitoral faz desta palavra gravidade é desestabilizar a legitimidade das eleições”, disse [Marilda Silveira, especialista em Direito Eleitoral e professora do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP)]» («Juristas admitem que candidatura de Bolsonaro pode ser impugnada», Rádio Renascença, 19.10.2018, 1h22).

 

[Texto 10 147]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Out 18

Bejecas e brejas

Não muito diferentes

 

      «O Ministério Público, o governo e as principais cervejarias do país anunciaram ontem um acordo para informar no rótulo das cervejas todos os ingredientes que compõem a bebida. Com isso, o consumidor saberá, de verdade, se aquela “breja” é mesmo puro malte ou se leva arroz, milho e outros cereais» («Cervejas trarão no rótulo se têm arroz, milho etc.», Metro São Paulo, 10.10.2018, p. 10).

      Nós temos o calão bejeca; no Brasil, ou pelo menos em alguns Estados, o termo correspondente, também do calão, é breja. Não muito diferentes.

 

[Texto 10 086]

Helder Guégués às 06:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito
09
Out 18

«Fisiologismo»

Um brasileirismo

 

      «“Muitos partidos pequenos e médios se esforçaram para atingir a cláusula de barreira – votação mínima que garantirá o recebimento de fundo partidário – e acabaram ganhando força. Será um Congresso mais fisiológico e, a julgar pelas legendas, mais conservador”, analisa Emerson Cervi, da UFPR» («Câmara deverá subir fisiologismo», Metro São Paulo, 8.10.2018, p. 7). Ai que Sacconi se esqueceu de fisiologismo, que vergonha! Salva-nos o Aulete: «Bras. Pej. Pol. Prática (de certos políticos, funcionários públicos etc.) que se caracteriza pela busca de vantagens pessoais em detrimento do interesse público.»

 

[Texto 10 065]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
18
Set 18

D. R. — no Brasil

E pronto, é isto

 

      António (ou devo escrever Antônio?) Fagundes esteve hoje na Prova Oral, na Antena 3. A propósito da comédia Baixa Terapia, que vai estar em cena no Teatro Tivoli no fim do mês, Fagundes estava a falar do enredo e, logo depois de dizer que a terapeuta, ausente da sessão, deixara instruções para os três casais fazerem eles próprios a terapia, mas não deviam interferir na D. R. dos outros casais, perguntou se em Portugal se dizia D. R. Fernando Alvim precipitou-se e respondeu que sim. Não, não se diz. Mais: tive dificuldade – porque a abreviatura só se usa no Brasil – em apurar o que significa ao certo. É a abreviatura de «discussão de relação/relacionamento». Em suma, era preciso um polícia da língua atrás de cada falante. E lá vinha então o dilema: quis custodiet ipsos custodes?

 

[Texto 9941]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Ago 18

«Um tal de», outra vez

Temos o nosso

 

      «Em 1682, um tal de João Rodrigues Canilhas teve consigo uma criança durante mais de um mês e só então foi queixar-se às autoridades, dizendo não ter meios para a sustentar e, obviamente, negociando com sucesso o pagamento de uma quantia mensal de setecentos réis» («O passado é um lugar estranho», António Araújo, Diário de Notícias, 12.08.2018, 6h05).

      Está mal, António Araújo: em Portugal, dizemos um tal. No Brasil é que se diz «um tal de». Ora, o Diário de Notícias é um jornal português, nós, seus leitores, somos portugueses, e o próprio autor do texto é português.

 

[Texto 9806]

Helder Guégués às 10:21 | comentar | ver comentários (3) | favorito
01
Ago 18

Léxico contrastivo

Cânion

 

      «‘Missão: Impossível 2’ (2000). Como esquecer da escalada livre no cânion na sequência dirigida por John Woo?» («Até onde vai o vigor do ator Tom Cruise?», Amanda Queiroz, Metro São Paulo, 25.07.2018, p. 16).

      No Brasil, como podem ver, cânion, aportuguesamento de canyon; em Portugal, canhão, mas a preferência dos nossos tradutores vai, naturalmente, para... canyon.

 

[Texto 9711]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Jul 18

Léxico contrastivo

Estepe

 

      «De acordo com o especialista, tecnicamente, há uma tolerância de 3% para mais ou para menos. A lei não faz qualquer menção à diferença de 3% (o texto faz concessões apenas ao estepe do carro)» («Como alterar rodas e pneus?», Marcelo Freitas, Metro São Paulo, 11.07.2018, p. 5).

      O português europeu não tem a palavra estepe nesta acepção. Para nós, é «pneu sobresselente». Os carros que o têm; o meu, por exemplo, não tem pneu sobresselente.

 

[Texto 9612]

Helder Guégués às 22:09 | comentar | favorito

Léxico contrastivo

Plantonista

 

      «A presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Laurita Vaz, alegou “flagrante desrespeito” na decisão do desembargador de plantão Rogério Favreto de conceder liberdade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – revista depois pelo presidente do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), Carlos Eduardo Thompson Flores. A ministra voltou a negar o habeas corpus e chamou o argumento usado pelo plantonista de “inusitado e teratológico (no meio jurídico, adjetivo comumente usado para se referir a algo no limite do absurdo)”» («STJ não solta Lula e critica plantonista», Marcelo Freitas, Metro São Paulo, 11.07.2018, p. 5).

      O português europeu não tem a palavra plantonista; logo, diríamos «de plantão». Diríamos, mas não dizemos: neste caso, diz-se «juiz de turno».

 

[Texto 9610]

Helder Guégués às 20:50 | comentar | favorito

Léxico contrastivo

Canetada

 

      «Numa canetada, a presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Laurita Vaz, arquivou ontem 143 pedidos de liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Todos os habeas corpus seguiam o mesmo padrão e foram apresentados após o embate entre decisões pró e contra Lula do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) no último domingo» («STJ rejeita 143 habeas corpus pedidos a Lula», Metro São Paulo, 12.07.2018, p. 6).

      Diga-se, para começar, que não temos, neste lado do Atlântico, o vocábulo canetada, nem lhe vejo termo correspondente. O apressado que o julgasse sinónimo da locução «de uma penada» estaria muito enganado. O Dicionário Houaiss (Lisboa, 2003) não o acolhe, como nenhum dicionário brasileiro regista todos os matizes de sentido. Por exemplo, este sentido castrense: «comunicação escrita, feita pelo superior, acerca de conduta irregular de subordinado para que seja instaurado processo administrativo» (Dicionário da Linguagem Castrense, Ademir Antonio Minani. Olímpia, São Paulo: edição do autor, 2013, p. 36). Para o Aulete, é a «ação oficial de natureza burocrática, administrativa», acção de canetar, «estabelecer, oficializar, validar por meio de assinatura».

 

[Texto 9608]

Helder Guégués às 19:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito