22
Nov 18

Léxico: «arcipreste»

Não acreditem

 

      «John Sultana, de 47 anos, foi nomeado arcipreste (grau intermédio entre sacerdote e bispo) da cúria de Gozo, onde é tradição que sacerdotes que tenham sido nomeados recentemente sejam transportados pela cidade por uma carroça puxada por crianças, para serem aclamados pela população» («Padre em Malta transportado em Porsche puxado por 50 crianças», Motor 24, 21.11.2018).

      Um arcipreste é um «grau intermédio entre sacerdote e bispo»? É uma maneira de o dizer — uma maneira errada. «O arcediago», lê-se num número de 1939 do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, «é o primeiro entre os diáconos e o arcipreste é o primeiro entre os presbíteros — é o chefe destes para determinado número de serviços.» Não difere muito da definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «sacerdote com determinada jurisdição sobre outros sacerdotes; vigário da vara».

 

[Texto 10 336]

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Out 18

Uma adjectivação sem adjectivos

Tu quoque?

 

      «Mas a polémica decorre da adjetivação colorida que usa para caracterizar outros políticos portugueses, com os quais lidou institucionalmente. Refere-se à “inexperiência” de Passos Coelho, à “insegurança” de António José Seguro, chama “artista” a António Costa e acusa Portas de “infantilidade”. Admite que foi cor a mais na adjetivação?», perguntou Fernando Alves, da TSF, a Cavaco Silva («“Nunca pensei que o Bloco de Esquerda e o PCP se curvassem com tanta facilidade”», TSF, 26.10.2018, 9h54).

      Se até Fernando Alves cai neste erro tão básico, isto está muito pior do que se pudesse imaginar.

 

[Texto 10 200]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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21
Out 18

ONG/IPSS

Ora pensemos

 

      «[Constance Adolphine Quéniaux] Deixou tudo à criadagem, quis ser sepultada como sua mãe, sem flores nem coroas, discretamente. O último quartel da sua existência foi dedicado a obras de caridade, sendo benemérita destacada do Orphelinat des Arts, uma ONG que tinha por missão cuidar da educação dos filhos dos artistas, que bem precisam. Constance também fora artista, bailarina da Ópera de Paris, onde se iniciou aos catorze anos, pela mão materna» («A origem do mundo», António Araújo, Diário de Notícias, 21.10.2018, 6h14).

      Um orfanato, agora como no século XIX, não será mais, querendo estabelecer uma analogia, da natureza de uma IPSS do que semelhante a uma ONG? É a minha dúvida.

 

[Texto 10 162]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | favorito
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13
Set 18

Os novos migrantes

Depois falamos

 

      Migrante: «pessoa que migra, que muda de uma região ou de um país para outro, para aí se estabelecer, geralmente por motivos económicos ou sociais» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Não tardará muito que se possa dizer que é geralmente por motivos climáticos. «As alterações climáticas podem forçar a deslocação de 120 milhões de pessoas em idade ativa e suas famílias, num total de 200 milhões, ao longo do século XXI, mas menos de 20% serão migrações internacionais» («“Migrantes climáticos” podem ser 200 milhões no século XXI», Rádio Renascença, 13.09.2018, 7h39).

 

[Texto 9911]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | favorito
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04
Jul 18

O que é um choninhas

Os Brasileiros sabem?

 

      Quem é que aqui sabia que Camilo usou a palavra choninhas nas suas obras? Pois é verdade, foi na comédia em três actos O Assassino de Macário. Vem isto a propósito de me terem perguntado agora mesmo o que significa «choninhas». Respondi que me pareciam correctas as definições que encontramos nos nossos dicionários. Em todos? Que não, pois o Sacconi, por exemplo, ignora a palavra. Tenho o Houaiss a três metros de mim, mas não vou ver. Dicionários publicados em Portugal. Acho que a definição de Cândido de Figueiredo — choninha ou choninhas é a pessoa magra, enfezada, ou inútil (Heinz Kröll diz que vem de «Joaninha») — serve para os tempos actuais, nada mudou substancialmente. Em vez de «magra», «enfezada» e «inútil», proponham sinónimos, e tenderei a concordar. Mas não tem nada que ver com a inteligência?, insiste o perguntador. Não me parece.

 

[Texto 9555]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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28
Mai 18

Tradução: «amanuensis»

Ora, não me parece

 

      Todos os dicionários bilingues que consultei nos dizem que o inglês amanuensis se traduz por «amanuense». Será assim tão simples? É claro que o étimo é o mesmo, o latino amanuensis, «copista, escrevente», mas isso não chega. Vejamos: a que acepção de amanuense corresponde esta definição de amanuensis que está nos Oxford Living Dictionaries? «A literary or artistic assistant, in particular one who takes dictation or copies manuscripts.» Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, amanuense é ou o «escriturário ou escriturária de secretaria pública» ou o «escrevente; copista». Estão aqui a sugerir-me «secretário», e creio que não há alternativa melhor, mas estou aberto a outras sugestões.

 

[Texto 9291]

Helder Guégués às 15:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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01
Fev 18

Léxico: «lombalgia»

Queremos mais

 

      «A lombalgia é um dos tipos de dores de costas que mais pessoas afeta. Centra-se na zona lombar, entre a última costela e a região glútea, e pode irradiar para uma perna no caso de afetar o nervo ciático. [...] Segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral, [o ortopedista Manuel Tavares de Matos] a lombalgia pode ser aguda (se durar entre um dia e seis semanas), subaguda (entre as seis e as 12 semanas) ou crónica (das 12 semanas em diante)» («Tem dores nas costas? Saiba como preveni-las», Rádio Renascença, 1.02.2018, 15h56).

      Com tanta informação disponível, que se pode revelar preciosa reunida num dicionário, não se compreende que os dicionários, como é o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, continuem a definir lombalgia apenas como dor na região lombar. O que surpreende é que o Dicionário de Termos Médicos — que não substitui o dicionário geral — não diz mais nem melhor. É manifestamente pouco.

 

[Texto 8661]

Helder Guégués às 22:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
30
Jan 18

Léxico: «hidrosadenite»

Mais do que uma glândula

 

      Ontem, no Bom Dia[,] Portugal, a cirurgiã plástica Ana Silva Guerra explicou o que é hidrosadenite supurativa. É uma doença crónica, extremamente debilitante, que afecta os folículos pilosos e as glândulas sudoríparas, em especial nas virilhas, períneo, região perianal e nádegas. E há cada vez mais portugueses que padecem de hidrosadenite supurativa. O termo hidrosadenite está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que remete para hidradenite: «inflamação de uma glândula sudorípara». Podem achar que não é necessário ou oportuno redigir outra definição, mas pelo menos têm de passar para o plural. Mas a margem para melhorar a definição é bem ampla.

 

[Texto 8645]

Helder Guégués às 22:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito