28
Mai 18

Tradução: «amanuensis»

Ora, não me parece

 

      Todos os dicionários bilingues que consultei nos dizem que o inglês amanuensis se traduz por «amanuense». Será assim tão simples? É claro que o étimo é o mesmo, o latino amanuensis, «copista, escrevente», mas isso não chega. Vejamos: a que acepção de amanuense corresponde esta definição de amanuensis que está nos Oxford Living Dictionaries? «A literary or artistic assistant, in particular one who takes dictation or copies manuscripts.» Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, amanuense é ou o «escriturário ou escriturária de secretaria pública» ou o «escrevente; copista». Estão aqui a sugerir-me «secretário», e creio que não há alternativa melhor, mas estou aberto a outras sugestões.

 

[Texto 9291]

Helder Guégués às 15:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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01
Fev 18

Léxico: «lombalgia»

Queremos mais

 

      «A lombalgia é um dos tipos de dores de costas que mais pessoas afeta. Centra-se na zona lombar, entre a última costela e a região glútea, e pode irradiar para uma perna no caso de afetar o nervo ciático. [...] Segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral, [o ortopedista Manuel Tavares de Matos] a lombalgia pode ser aguda (se durar entre um dia e seis semanas), subaguda (entre as seis e as 12 semanas) ou crónica (das 12 semanas em diante)» («Tem dores nas costas? Saiba como preveni-las», Rádio Renascença, 1.02.2018, 15h56).

      Com tanta informação disponível, que se pode revelar preciosa reunida num dicionário, não se compreende que os dicionários, como é o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, continuem a definir lombalgia apenas como dor na região lombar. O que surpreende é que o Dicionário de Termos Médicos — que não substitui o dicionário geral — não diz mais nem melhor. É manifestamente pouco.

 

[Texto 8661]

Helder Guégués às 22:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
30
Jan 18

Léxico: «hidrosadenite»

Mais do que uma glândula

 

      Ontem, no Bom Dia[,] Portugal, a cirurgiã plástica Ana Silva Guerra explicou o que é hidrosadenite supurativa. É uma doença crónica, extremamente debilitante, que afecta os folículos pilosos e as glândulas sudoríparas, em especial nas virilhas, períneo, região perianal e nádegas. E há cada vez mais portugueses que padecem de hidrosadenite supurativa. O termo hidrosadenite está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que remete para hidradenite: «inflamação de uma glândula sudorípara». Podem achar que não é necessário ou oportuno redigir outra definição, mas pelo menos têm de passar para o plural. Mas a margem para melhorar a definição é bem ampla.

 

[Texto 8645]

Helder Guégués às 22:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Léxico: «Superlua»

Destaques meus

 

      «O último dia do mês vai ser marcado por uma rara coincidência de sobreposição de eventos lunares: uma Superlua, uma Lua Azul e uma Lua de Sangue.

      Superlua é o nome que se dá às luas cheias que ocorrem quando o ponto da órbita está mais próximo da Terra. Estas luas podem surgir 30% mais brilhantes e 14% maiores do que o habitual, segundo a NASA.

      A Lua Azul é a lua cheia, que será a segunda do mês (a primeira foi no dia 1 de Janeiro).

     Além destes dois fenómenos, ocorre um eclipse lunar, que durante algum tempo confere uma cor avermelhada à lua, resultando o nome Lua de Sangue» («Olhos no céu: vem aí uma lua Azul de Sangue», Rádio Renascença, 30.01.2018, 10h35).

      Também me parece que devem ser grafados com maiúscula inicial. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, optou por grafar superlua, que define assim: «fenómeno que se verifica quando a lua cheia se situa num intervalo de distância entre os 90% e os 100% da distância mínima à Terra». Não é exactamente o que diz o Observatório Astronómico de Lisboa: «Fala-se em Super Lua sempre que o instante de Lua Cheia ocorre quando a Lua está a uma distância da Terra inferior a 110% do perigeu da sua órbita.» (Claro que as fases da Lua se grafam com minúscula, coisa que vão agora aprender.) Mais: quando, em 1979, o astrólogo norte-americano Richard Nolle criou o termo, definiu-o como «a new or full moon which occurs with the moon at or near (within 90 per cent of) its closest approach to Earth in a given orbit». Em que ficamos? Alguém corrigiu Richard Nolle?

 

[Texto 8642]

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
28
Dez 17

«Hérnia estrangulada/encarcerada»

Quem sabe?

 

      «“Esta operação estava há muito prevista para o início de Janeiro, mas os médicos assistentes decidiram antecipá-la, por ter encarcerado” (ou estrangulado, em termos médicos), lê-se num comunicado colocado no “site” da Presidência da República» («Presidente da República internado para ser operado a uma hérnia», Rádio Renascença, 28.12.2017, 13h42).

      Animado pelo espírito de Natal, o jornalista quis facilitar a vida ao leitor. Fez bem ou fez mal? Vejamos: se o jornalista afirma que em medicina se diz «estrangulado», já está a acrescentar um dado técnico menos relevante para o caso. Meritório era se a situação fosse a inversa, ou seja, a Presidência da República usar um termo técnico que o jornalista quissesse ver compreendido por todos. E agora o mais importante: serão mesmo sinónimos? Na definição do Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora, ocorre estrangulação herniária «quando o órgão contido em uma hérnia é apertado pelo anel herniário, o que pode conduzir à necrose desse órgão». Já estrangulado, para o mesmo dicionário, diz-se do «que se encontra encravado ou fixado, como um cálculo, ou estrangulado como uma hérnia». Parece o mesmo, ou algo muito próximo. Vejamos agora o que diz a Sociedade Brasileira de Hérnia e Parede Abdominal: «O maior perigo da hérnia surge quando há a conjunção de dois fatores: grande volume do órgão deslocado – aumentando o conteúdo no saco herniário – e anel herniário estreito, o que dificulta o vai-e-vem do órgão. Esta situação faz com que o conteúdo herniário fique preso (encarcerado) no saco herniário e sujeito a provocar o estrangulamento herniário, que implica na torção das alças intestinais. A torção pode provocar obstrução intestinal, que tem como sintomas as cólicas abdominais e a dificuldade para eliminar gases e fezes.» Não parece o mesmo, antes um resultado do outro.

 

[Texto 8522]

Helder Guégués às 18:42 | comentar | favorito | partilhar
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19
Dez 17

«Taxa/imposto»

Só se for para confundir

 

      Fernando Medina afirma que vai acatar na íntegra o acórdão do Tribunal Constitucional. Obrigadinho. Só é pena confundirem intencionalmente taxa com imposto. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, taxa está correcto: «prestação que se exige dos particulares que utilizam um serviço público». É, nas palavras do acórdão, o tal «contributo bilateral»: «Assim, o TC defende que “não pode a TMPC [Taxa Municipal de Protecção Civil] afirmar-se como contributo bilateral, ou seja, não se trata de uma taxa, no sentido jurídico-constitucionalmente” [sic], além de não se poder ver, “nem sequer aproximadamente, como um ‘prémio de seguro’”» («Lisboa. Constitucional chumbou taxa por considerar que era um imposto», Rádio Renascença, 21h31). «“Não há, pois, como negar o carácter extremamente difuso [na verdade, impossível de traçar] da relação entre a titularidade dos prédios e as prestações no âmbito da Protecção Civil a que [alegadamente] dá causa, ou da relação entre tais prestações e respectivo ‘benefício’ para os titulares do património imobiliário. Não é a possibilidade de enumerar várias actividades de protecção civil — sem consideração do seu peso relativo e, em particular, da relação de cada uma com a titularidade dos prédios —, que permite dar por estabelecida a necessária correlação entre prestações”, sustenta o Constitucional» (idem, ibidem). Azarucho, Medina.

      Entretanto, passamos para a definição de imposto naquele dicionário da Porto Editora e salta logo à vista a escolha infeliz das palavras: «taxa exigida pelo Estado a pessoas singulares e colectivas para fazer face às despesas públicas; tributo». Quando a grande dificuldade, até nas faculdades de Direito, é precisamente estabelecer a distinção entre taxa e imposto — sim, porque há casos de fronteira —, vem alguém definir imposto como taxa exigida pelo Estado. Reformulem, por favor.

 

[Texto 8489]

Helder Guégués às 22:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Corte ou ruptura térmica

Faz falta

 

      «A maioria habita edifícios construídos entre 1980 e Abril de 2004, a maior parte com vidros duplos nas janelas, mas não possuem caixilharias com ruptura térmica, “o que de nada adianta a eficiência do vidro”, segundo os ambientalistas» («Três em cada quatro portugueses sentem frio dentro de casa», Rádio Renascença, 18.12.2017, 18h29).

      É muito simples: para remediar uma característica do alumínio, que é a de deixar passar muito calor do ambiente mais quente para o mais frio, os fabricantes puseram uma película de poliamida entre a parte externa e a interna do caixilho para bloquear o calor. É a isto que se dá o nome de caixilharia de corte ou ruptura térmica.

 

[Texto 8486]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | favorito | partilhar
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04
Dez 17

Léxico: «halo»

Algumas diferenças

 

      «O vídeo, partilhado na rede Facebook pela estância de esqui da localidade [Vemdalen, na Suécia], mostra o efeito espetacular da refração da luz solar ao atravessar cristais de gelo suspensos na troposfera.

     O fenómeno é conhecido como um halo de gelo, e é relativamente comum em zonas mais frias do globo. Este foi particularmente digno de nota porque combinou vários tipos de Halo: um halo circular de 22º, pilares de luz, um círculo parélico, parélios, um arco tangente superior, e um, mais raro, halo de 46º» («Vídeo mosta halo de gelo nos céus da Suécia», Ana António, TSF, 4.12.2017, 19h47).

      A jornalista afirma que é o efeito da luz a atravessar cristais de gelo suspensos na troposfera. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define assim halo: «círculo luminoso em volta do Sol e de alguns planetas, resultante do reflexo ou da refracção da luz do Sol ou da Lua em cristais de gelo suspensos na atmosfera». É, de facto, mais precisamente, na troposfera, que é a camada da atmosfera em que os fenómenos climáticos ­— formação de nuvens, chuva, relâmpagos — ocorrem. No jornal Independent, também explicam o fenómeno, sem nunca afirmarem que foi duplo, e titulam: «Sun halo: Rare weather phenomenon spotted in Sweden». E, sobretudo, explicam mais: «The halos occur when sunlight refracts through a high band of cirrus clouds more than 20,000 feet above the ground. These clouds, which are characterised as “thin and wispy”, contain million of individual ice crystals as water droplets have frozen in the air.» E para terminar: porque escreve a jornalista da TSF que é um «halo de gelo»? Não será mais correcto «halo solar»?

 

[Texto 8433]

Helder Guégués às 20:56 | comentar | favorito | partilhar