16
Jun 20

Confusão: «discriminação | descriminação»

Ainda nos espanta e indigna

 

      «Acabadinho de dar uma aula na Telescola, Marcelo Rebelo de Sousa improvisou uma conferência de imprensa para falar dos temas quentes do momento e divergiu da direita que diz que não há racismo estrutural em Portugal. “Há racismo em Portugal”, diz Marcelo. “Mas há muita descriminação na sociedade portuguesa a merecer atenção”. E “lutar não é destruir estátuas, é criar condições para reduzir desigualdades”. Centeno Governador do BdP? “Não vejo problema”. Apoios da UE? “Não estou otimista”» («Marcelo: “Há racismo em Portugal? Há! Mas destruir estátuas não é uma forma inteligente de o combater”», Ângela Silva, Expresso, 15.06.2020, 15h13).

      O céu nunca cai por causa destas coisas, mas cai-nos a alma aos pés. Como é que uma jornalista — um qualquer falante minimamente competente — dá semelhante erro? Para não termos dúvidas, o erro aparece quatro vezes. No limite, a jornalista até pode ignorar que há dois termos, parónimos, discriminação e descriminação.

 

[Texto 13 556]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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06
Jun 20

Confundir dação com doação

Vamos ver se corrigem

 

      O rigor do Correio da Manhã: «Sócrates vive no apartamento do primo, na Ericeira, desde novembro de 2018. José Paulo Bernardo Pinto de Sousa recebeu a casa em doação de um angolano» («Sócrates perde pensão», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 6.06.2020, p. 12).

      Não é verdade, há aí trapalhada: o primo de Sócrates recebeu a casa como dação em pagamento. Por acaso o dicionário da Porto Editora regista esta locução jurídica: «DIREITO extinção de uma dívida feita por acordo entre devedor e credor, entregando o primeiro ao último determinado bem que não o originalmente acordado como forma de pagamento». Linguisticamente, diferem apenas numa letrinha; juridicamente, não tem nada que ver uma coisa com a outra.

 

[Texto 13 507]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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19
Mai 20

Uma confusão que conhecemos bem

Não são apenas os nossos

 

      Os jornalistas portugueses, afinal, não são os únicos precipitados que confundem isto: «A província da Lunda-Sul espera apenas pelos cartuxos do aparelho de germe-expert para o início da colecta de amostras dos cidadãos vindos de Portugal no dia 19 de Março» («Lunda-Sul aguarda material para recolha de amostras», Jornal de Angola, 18.05.2020, p. 4). Aquele «germe-expert» também é um tudo-nada intrigante. O que eles não inventam para que os leitores, que lhes pagam, não percebam nada. O director do Jornal de Angola, Víctor Silva, devia ensinar uma mnemónica simples (pergunte-me como) para os seus escribas não caírem nestes erros tão básicos. (Víctor é a única grafia correcta, lógica, deste nome. Cá, salvo erro, ninguém o escreve assim. Terá sido um padre mais sábio a escrevê-lo assim no assento de baptismo. A propósito, o dicionário da Porto Editora não devia registar também assento de baptismo, e não apenas, como faz, assento de nascimento?)

 

[Texto 13 375]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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12
Mai 20

Como se escreve por aí

De fugir

 

      «Foi com uma saída tempestiva que Donald Trump terminou esta segunda-feira o briefing diário na Casa Branca. Depois de discutir com duas jornalistas, o presidente norte-americano acabou por abandonar a conferência de imprensa sem responder às últimas perguntas» («Trump abandona briefing diário depois de discutir com jornalistas», Ana Kotowicz, Observador, 12.05.2020, 7h52).

      Tempestiva, essa saída, do ponto de vista do próprio Trump, não, Ana Kotowicz? «A minha saída foi tempestiva, oportuna... Ah, os ordinários dos jornalistas!» Não: a jornalista devia ter escrito «intempestiva», isto é, súbita, repentina. A meu ver, certos jornalistas deviam confiar um pouco menos naquilo que julgam saber e comprovar mais o que escrevem e como o escrevem. ↓ ↓ ↓ ↓

 

[Texto 13 327]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | favorito
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10
Mai 20

Sob/sobre, a confusão continua

Uma jornalista...

 

      «Um piso abaixo, no 3, funciona o laboratório de urgência. Activo 24 sob 24 horas, está sempre pronto a dar resposta. Junto à entrada, dois tubos do sistema pneumático fazem chegar ao laboratório amostra de sangue colhido na central de colheitas e na urgência pediátrica. “Pelo barulho, vão chegar amostras”, diz Melo Cristino. E uns segundos depois, chegou» («Viagem ao laboratório onde já se fizeram mais de 15 mil testes à covid-19», Ana Maia, Público, 8.05.2020, p. 13).

 

[Texto 13 308]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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25
Abr 20

«Crise epidérmica», disse ele

Não foi boa ideia

 

      Um velhote (espero que não me obriguem a escrever «sénior», ou isto vai correr mal), equipado como se fosse entrar no bloco operatório, perguntado, em plena rua, sobre as comemorações do 25 de Abril este ano, disse compreender as restrições, dada a «crise epidérmica» que se vive. Quem me manda ver televisão?

 

[Texto 13 221]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | favorito
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30
Mar 20

As clássicas confusões II

Ia até parecer mal

 

      «Faço batota. E remeto para esta ideia do El Pais que coligiu 20 frases de figuras célebres (de Winston Churchill a Nelson Mandela, de Dolly Parton a Madonna) que nos levantaram a moral em (noutros) tempos difíceis» («O bicho que nos mordeu», Cristina Figueiredo, editora de Política da SIC, Expresso Curto, 20.03.2020). Até ia parecer mal que nestes tempos terríveis que atravessamos os jornalistas se preocupassem com estas minudências, não é?

 

[Texto 13 047]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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As clássicas confusões I

Não era agora que melhoravam

 

      «Autoridades acederam à identidade dos utilizadores das redes sociais sem necessidade de um mandato. Esta é uma realidade que os cidadãos da Índia podem vir a experienciar em breve» («Direitos», PC Guia, 2.03.2020, p. 14). Muitos bits e bytes, mas no que realmente importa, no que respeita à linguagem, é a mesma desgraça da imprensa em geral.

 

[Texto 13 045]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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