06
Nov 20

A propósito de «estada» e «estadia»

A nossa parte

 

      Está bem que a professora é ignorante, mas que serviço presta a Porto Editora à língua e à cultura ao definir em estadia que é tanto a «residência durante um período de tempo; estada; permanência», como o «tempo que o capitão de um navio fretado é obrigado a permanecer no porto de chegada»? Então andamos aqui nós a dizer e a fazer o contrário e depois é isto? Temos de ENSINAR as pessoas, os falantes, não temos de seguir os seus erros, louvaminhá-los por serem carneiros. Temos de condenar os seus erros, não caucioná-los. Se, ainda assim, errarem, se se obstinarem, o problema é deles — nós cumprimos a nossa parte. Nem todas as sementes se perderão.

 

[Texto 14 286]

Helder Guégués às 12:30 | favorito
26
Ago 20

Como se escreve por aí

Por sorte, advogado

 

      «É legítimo pensar que Rui Rio ainda estivesse empolgado pelos resultados nas recentes sondagens, as quais davam 7% na intenção de voto ao Chega, em igualdade com o Bloco de Esquerda (e uns anímicos e confrangedores 26% ao PSD), ou que não seja justo colocar no mesmo saco quem nega e quem nunca viu aquilo que dois em cada três portugueses admitem e reconhecem» («A grande farsa», Nuno Pimentel Gomes, militante social-democrata e advogado, Público, 21.08.2020, p. 8).

      Por sorte, é advogado e não jornalista. Confundir «anímico» com «anémico» é absolutamente lamentável. A propósito, no dicionário da Porto Editora (e noutros), em anémico não estão registados os sentidos figurados, e já sabemos quão necessitados de amparo estão os falantes. É como eu digo, um trabalho infindável.

 

[Texto 13 875]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
04
Ago 20

Confusão: «jurado | júri»

O homem plural

 

      «Estive há uma semana em Évora a participar como júri no concurso promovido pela Confraria dos Enófilos do Alentejo» («Nós e os outros», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 13.06.2020, p. 84).

 

 

[Texto 13 850]

Helder Guégués às 09:30 | favorito
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20
Jul 20

De novo: «mandado | mandato»

Eles dizem que sabem

 

      «Os deputados municipais do PSD em Lisboa defendem o uso obrigatório de máscaras em qualquer espaço público, interior ou exterior, propondo que a autarquia avance com um mandato. “Recomendações e meias medidas não estão a funcionar”, alegam» («PSD quer máscaras na rua», Público, 17.07.2020, p. 13). Mas que mandato? No editorial, o mesmo: «Rio concorda com Costa que a resposta à pandemia “não é momento” para avaliar a democraticidade da União Europeia; o PSD defende um mandato municipal para obrigar ao uso de máscara nas ruas de Lisboa, a ADSE pagou por um tratamento enganador para a covid-19 e a PJ deteve cinco pessoas por burla qualicada; e o coordenador do combate ao novo coronavírus no Norte do país, o secretário de Estado da Mobilidade, não se apercebeu da concentração despreocupada dos adeptos do FC Porto nas ruas da cidade» («A covid fez do mundo uma bizarria», Amílcar Correia, Público, 17.07.2020, p. 6). Na véspera, num artigo de Maria Lopes, o mesmo. No Observador também ninguém teve mais cabeça para pensar. Nem todos, porém, abdicaram de pensar: «A bancada do PSD da Assembleia Municipal de Lisboa defendeu, esta quinta-feira, o uso obrigatório de máscaras na rua e propõe que o Executivo avance com um mandado municipal nesse sentido» («Assembleia Municipal de Lisboa. PSD defende uso obrigatório da [sic] máscaras na rua», Sol, 16.07.2020).

      Bem ou mal definido que esteja nos nossos dicionários, só pode ser mandado: «DIREITO determinação escrita emanada de autoridade judicial ou administrativa» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

 

[Texto 13 743]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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13
Jul 20

«Discriminação | descriminação»

A confusão continua

 

      «O verniz estalou (outra vez) entre Winona Rider e Mel Gibson. Em causa está uma denúncia da atriz que acusa o ator de antissemitismo (descriminação aos [sic] judeus). Segundo Winona Rider, Gibson ter-se-á referido a ela como “oven dodger” (“evitadora de fornos”), numa referência às suas raízes judaicas. Um representante de Gibson já veio, entretanto, desmentir as declarações, mas, à boleia do recente debate sobre o racismo nos EUA, a situação está a agitar os bastidores de Hollywood» («Guerra entre atores agita Hollywood», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 25.06.2020, p. 39).

      Se os jornalistas, cuja ferramenta diária de trabalho é a língua, confundem (entre mil e uma outras coisas) discriminação com descriminação, o que não será com o falante comum? (Até o ignaro — porque feito por ignaros — do corrector ortográfico me manda «corrigir» a última para «discriminação».)

 

[Texto 13 699]

Helder Guégués às 08:45 | favorito
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16
Jun 20

Confusão: «discriminação | descriminação»

Ainda nos espanta e indigna

 

      «Acabadinho de dar uma aula na Telescola, Marcelo Rebelo de Sousa improvisou uma conferência de imprensa para falar dos temas quentes do momento e divergiu da direita que diz que não há racismo estrutural em Portugal. “Há racismo em Portugal”, diz Marcelo. “Mas há muita descriminação na sociedade portuguesa a merecer atenção”. E “lutar não é destruir estátuas, é criar condições para reduzir desigualdades”. Centeno Governador do BdP? “Não vejo problema”. Apoios da UE? “Não estou otimista”» («Marcelo: “Há racismo em Portugal? Há! Mas destruir estátuas não é uma forma inteligente de o combater”», Ângela Silva, Expresso, 15.06.2020, 15h13).

      O céu nunca cai por causa destas coisas, mas cai-nos a alma aos pés. Como é que uma jornalista — um qualquer falante minimamente competente — dá semelhante erro? Para não termos dúvidas, o erro aparece quatro vezes. No limite, a jornalista até pode ignorar que há dois termos, parónimos, discriminação e descriminação.

 

[Texto 13 556]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (4) | favorito
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