16
Jul 18

Léxico: «pião»

Os confusionistas profissionais

 

      «Nove pessoas ficaram feridas ao serem atropeladas na noite de domingo em Famalicão, no decorrer de corridas ilegais, disse fonte do comando de Braga da GNR, à agência Lusa. As vítimas estavam a assistir à concentração quando um dos condutores perdeu o controlo da viatura e avançou para o público que estava no Lago Discount, em Ribeirão, Famalicão, distrito de Braga. Trata-se de uma zona conhecida por ser frequentada por vários automobilistas que põem à prova a sua perícia a fazer peões, com várias pessoas a assistir» («Nove pessoas atropeladas em corridas ilegais em Famalicão», Rádio Renascença, 16.07.2018, 7h18, actualizada às 8h23).

      A fazer peões não — a desfazer peões. O que é que os jornalistas não confundem? A definição de pião no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não me convence inteiramente, falta ali qualquer coisa: «movimento brusco de inversão do sentido de marcha de um automóvel».

 

 [Texto 9634]

Helder Guégués às 09:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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15
Jul 18

«Chorar compulsivamente», outra vez

Aprendem? Não parece

 

      Na sua coluna «Excitações», na edição de hoje do Correio da Manhã, Alexandre Pais cita o cirurgião Eduardo Barroso: «Peseiro fez-me chorar compulsivamente.» Tudo para poder comentar: «E não te admires muito se a choradeira continuar...» Com tanta escolha, tinha logo de trazer uma citação com um erro colossal como este, e esta é a hipótese mais benigna, porque, sendo jornalista, não é improvável que o erro seja de Alexandre Pais. Vou citar um textinho meu com mais de quatro anos: «Um erro que vejo de seis em seis meses (vá lá): alguém que desaba num “choro compulsivo”... Enfim, há de tudo neste mundo. Mas não: é choro convulsivo (convulsive crying, para a legião de anglófonos que nos segue). E sabiam que “ranho”, que vem do árabe, significa precisamente “choro convulsivo”? Porque o choro violento leva à emissão de abundantes secreções nasais, pois claro.» Excitam-se, mas não aprendem.

 

[Texto 9627]

Helder Guégués às 10:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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«Extracto»/«estrato», de novo

É camada, cambada

 

      «Como esses muros estavam num extrato superior ao da necrópole cristã, os investigadores pensaram que pertenceriam à ermida, mas encontraram mais corpos do “cemitério medieval cristão, que teve uma utilização até ao século XV ou XVI” e agora precisam de “perceber quais são as áreas de distribuição deste cemitério” [em Cacela Velha]» («Bairro islâmico troca voltas a arqueólogos no Algarve», Lusa/P. F., Correio da Manhã, 15.07.2018, p. 51).

      Coitados, já antes tinham dificuldade em distinguir, quanto mais agora com a porcaria do Acordo Ortográfico de 1990. P. F., p. f., nestas férias gaste alguns minutos a perceber as diferenças entre extra(c)to e estrato.

 

[Texto 9626] 

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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06
Jun 18

«Contagem/contabilização»

Telhados de vidro

 

      «No mesmo dia em que a imprensa noticiava a decisão governamental de negar aos professores a contabilização do tempo de serviço congelado, com um inevitável extremar de posições e novas ameaças de greve, nesse mesmo dia, não nos percamos, ficámos a saber que 45% dos alunos do 2º ciclo sujeitos a provas de aferição em 2016 e 2017 não situam Portugal no mapa da Europa ou que só 28% de crianças do 5º ano conhecem o rio Mondego» («Educação sem norte», Paulo Fonte, Correio da Manhã, 6.06.2018, p. 2).

      Cada qual com as suas fraquezas: também o jornalista, e para mais chefe de redacção, não sabe que se diz contagem do tempo de serviço, e não aquela barbaridade pseudoculta que escreveu.

 

[Texto 9353]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | favorito | partilhar
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17
Abr 18

O moral/a moral

Uma velha questão

 

      Inês Maria Meneses e o Prof. Júlio Machado Vaz lá continuam no Amor É... firmes como rochas. Firmes, eles, porque a gramática, volta não volta, treme um pouco: hoje, ambos falaram «da moral em baixo» dos profissionais de saúde. Inês Maria Meneses e Prof. Júlio Machado Vaz, em português, nesta acepção de estado de espírito, moral é do género masculino — o moral. (E estará mesmo? Vejo-os sempre tão felizes!) Se algum leva-e-traz se quiser fazer útil sem deixar de fazer o que sempre faz, que conte tudo àquelas personagens hertzianas.

 

[Texto 9068]

Helder Guégués às 22:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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11
Mar 18

«Espectável/expectável»

Não é digno de ser visto

 

      «A um primeiro olhar[,] é quase inacreditável que a ida de Passos Coelho, um ex-primeiro-ministro, como professor para uma universidade pública seja objeto de debate. Mas a verdade é que a polémica era espectável. [...] Todo este clima tornou espectáveis as delirantes críticas sobre a ida do ex-primeiro-ministro para o ISCSP» («Se Passos Coelho não pode, quem pode?», Pedro Marques Lopes, Diário de Notícias, 11.03.2018, p. 54).

      Há tanta coisa inacreditável: por exemplo, como é que alguém que ganha a vida a falar e a escrever confunde espectável, «digno de ser visto; notável», com expectável, «que se pode esperar; provável»? Pois, não sabem responder.

 

[Texto 8902]

Helder Guégués às 13:23 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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26
Fev 18

«Frio glacial»

Como castigo

 

      «A Europa Central está a ser atingida por uma vaga de frio siberiano. Roma e Nápoles, em Itália, acordaram cobertas de neve. Naquele país já foi ordenado o encerramento de escolas e de várias estradas no centro e no sul, cobertas de pelo menos 10 centímetros de neve. [...] Esta vaga de frio glaciar levanta preocupações na Europa, quanto ao fornecimento de energia e à subida do preço do gás. Nos mercados britânicos, holandeses, belgas e franceses, os preços do gás estão a subir a pique, o que deverá afetar o centro do continente nos próximos dias» («Frio siberiano deixa Europa em alerta», Rádio Renascença, 26.02.2018, 19h58).

      Por vezes, depois de muitas cabeçadas, lá acertam, mas nem sempre é assim. Muito mal ✗, Rádio Renascença. Já disse várias vezes que «glacial» e «glaciar» não são sinónimos. Como castigo, hoje vão aprender com José Rodrigues dos Santos: «Deitado na cama pela manhã, o corpo enroscado nas mantas para se abrigar do frio glacial, Luís desesperou de esperar, até porque esperava por nada» (A Vida num Sopro. Lisboa: Gradiva, 2008, p. 48).

 

[Texto 8813]

Helder Guégués às 21:05 | comentar | favorito | partilhar
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13
Fev 18

«Coser/cozer»

Básico, mas persistente

 

      No Dia Mundial da Rádio: «A droga estava escondida num conjunto de nádegas postiças, cozidas nuns calções, que o indivíduo usava junto ao corpo» («Apanhado no aeroporto com droga em nádegas postiças», Rádio Renascença, 12.02.2018, 00h14).

 

[Texto 8735]

Helder Guégués às 12:20 | comentar | favorito | partilhar
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