06
Jan 19

Léxico: «sidra»

Desta vez, sem erro

 

      Ao almoço, bebi uma Bandida do Pomar, a sidra da Central de Cervejas. Felizmente, não trabalham lá nem jornalistas nem tradutores, ou ainda veríamos no rótulo «cidra» em vez de «sidra». Dizem da Central de Cervejas que o tipo de maçãs utilizadas na produção de sidra não existe no território nacional. Essa é boa... Por causa do clima. A imagem da raposinha também está muito bem conseguida, com as patas na posição do cavalo da estátua de D. José I, mas sem serpentes no caminho. Neste caso, e é essa a diferença, a pata direita é mesmo a direita, e não a esquerda.

 

 [Texto 10 549]

Helder Guégués às 15:10 | comentar | favorito | partilhar
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24
Nov 18

Equador/equador

O explicador

 

      «Tancos alterou as regras do jogo. E o Presidente, desafinando do coro oficial, começou a pedir demasiadas explicações, o que se entende: Marcelo é Comandante Supremo das Forças Armadas e sabe que um crime destes, acima da linha do Equador, costuma determinar o fim de governos» («Cuidados intensivos», João Pereira Coutinho, Sábado, 7.11.2018, p. 130).

      O Dr. Coutinho (ou «dr. Coutinho», que é como esta gente escreve) acha que é assim, mas está enganado: Equador, com maiúscula, é somente o nome do país; o círculo máximo é o equador. Difícil, ou é preciso uma tese?

 

[Texto 10 342]

Helder Guégués às 12:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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18
Nov 18

Uma confusão eterna: «passo/paço»

Começa mal o dia

 

      Depois de uma noite tempestuosa, acordamos e temos logo, a cada passo, erros à nossa espera. «Este sábado, aos 82 anos, depois de vários dias internado, morreu em Lisboa o general José Loureiro dos Santos. O seu corpo vai esta tarde para a capela da Academia Militar, no Passo da Rainha, e o funeral decorre na manhã desta segunda-feira para o cemitério de Carnaxide» («José Loureiro dos Santos. A vida de luta de um reformador», Nuno Ribeiro, Público, 18.11.2018, 7h12).

      É impressionante! Um jornalista cair num erro elementar como este... Então não é Paço da Rainha, Nuno Ribeiro? Paço, forma reduzida de «palácio», casa nobre onde el-rei habita. No caso, a rainha era D. Catarina de Bragança, que, depois de enviuvar de Carlos II de Inglaterra, regressa a Portugal e estabelece, no Palácio da Bemposta, a sua casa. Paço do Lumiar, Paço d’Arcos...

 

[Texto 10 303]

 

Helder Guégués às 09:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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24
Out 18

«Tese/dissertação», de novo

No fim, a resposta cordata

 

      A tal trapalhada da tese/dissertação. Na revisão de uns relatórios de um professor catedrático de Arquitectura, vejo o erro e assinalo-o. Devem ter soado vários telefones nos minutos que se seguiram, secretárias incomodadas, suspiros. «O desplante!» Veio a resposta cordata, a única admissível: «O termo corrente para os trabalhos finais de mestrado é de tese, contudo a sua observação é pertinente.»

 

[Texto 10 181]

Helder Guégués às 15:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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25
Set 18

Cidra/sidra

Continua a confusão

 

      «Roland Barthes chamou-lhe “órgão antológico”. E, como todos sabem, o cérebro de Einstein andou em bolandas até ir parar ao Kansas, onde repousou durante décadas em dois grandes vidros de conserva guardados numa caixa de cidra. Mas, antes disso, o proprietário daquele cérebro de antologia também viajou, e viajou muito» («Einstein on the beach», António Araújo, Diário de Notícias, 2.09.2018, 6h19).

      A nossa primeira obrigação é duvidar. Numa caixa de cidra? Em todo o lado leio que os frascos estavam guardados «inside an old cider box». («The bottom box was labelled Costa Cider», leio na página da Internet da BBC.) Ora, cider é a nossa sidra; o citron inglês é que é a nossa cidra.

 

[Texto 9992]

Helder Guégués às 20:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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16
Set 18

Dissertação/tese

Não é tudo igual

 

      «Há vícios bem virtuosos. A tara coleccionista, por exemplo. Graças a ela, podemos admirar hoje em Lisboa, no Centro Cultural e Científico de Macau, um assombroso acervo de objectos do ópio. Cachimbos e lamparinas, fornilhos e agulhas, contentores de estanho, caixas de marfim, escarradores hediondos, camas de chuto e relaxe, são às dezenas os artefactos que o coleccionador António Sapage reuniu pacientemente durante décadas, estando agora à disposição de quem os queira admirar e estudar. Foi o caso de Alexandrina Costa, que lhe dedicou a sua tese de mestrado na Faculdade de Letras de Lisboa, publicada numa bela e muito ilustrada edição conjunta do Centro Cultural de Macau e da Fundação Jorge Álvares» («Colóquio das drogas para os simples», António Araújo, Diário de Notícias, 16.09.2018, 6h20).

      Não é a primeira vez que relembro que o termo dissertação se usa para qualificar os trabalhos destinados à obtenção do grau de mestre e o termo tese para os que se destinam à obtenção do grau de doutor. Não inventei nada, decorre do Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho. Espanta-me esta tão generalizada falta de rigor.

 

[Texto 9924]

Helder Guégués às 09:10 | comentar | ver comentários (6) | favorito | partilhar
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02
Set 18

«Revezes/reveses», de novo

Uma lamentável confusão

 

      «Os seus negócios em Richmond tinham sofrido alguns revezes, e o ambiente mercantilista de Londres ter-lhe-á parecido mais próspero» (Poe, Uma Vida Abreviada, Peter Ackroyd. Tradução de Alberto Simões e revisão de Idalina Morgado. Parede: Edições Saída de Emergência, 2009, p. 25).

      Na imprensa, sem revisão, vê-se muito este erro, mas num livro revisto não contamos encontrá-lo. Idalina Morgado, o plural de revés é reveses. Tinha de ser, não é?, um s não se ia magicamente transmutar em z. Quanto a revezes, encontramo-lo na locução a revezes, isto é, cada um por sua vez, ora um, ora outro. Revez — que é simplesmente a repetição de vez — também existe, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora esqueceu-se dele.

 

[Texto 9845]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
25
Ago 18

Não: é «salgalhada»

Trapalhada

 

      «O ex-deputado José Eduardo Martins, que foi secretário de Estado do Governo liderado por Santana Lopes, é ácido sobre os excertos da declaração de princípios do novo partido já divulgados. “Fiquei um bocadinho surpreendido com a salganhada ideológica. Se calhar já vai tarde para estudar”, afirmou ao Público José Eduardo Martins, que, recentemente, apoiou a decisão de Pedro Duarte de desafiar a liderança de Rui Rio» («Entre a “salganhada ideológica” e o “desgosto” de Sá Carneiro», Sofia Rodrigues Público, 19.08.2018, p. 9).

      José Eduardo Martins, então não é salgalhada que se diz? Se calhar também já vai tarde para estudar.

 

 [Texto 9828]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | favorito | partilhar
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