07
Mar 19

Cartuxos e cartuchos

Poucas leituras

 

      «São cotonetes, garrafas de água, restos de redes de pesca, bóias. Trinchas, escovas de cabelo, bonecas, escovas de dentes, lâmpadas, aplicadores de tampões. Cartuxos de caça, velas, coisas mais estranhas como dildos ou garrafas de soro — carga perdida de um contentor que tem aparecido desde a Galiza à costa Vicentina» («Este plástico que Ricardo tira do mar nunca mais voltará a ser lixo», Cristiana Faria Moreira, Público, 6.03.2019, p. 20).

      Cristiana Faria Moreira, mais estranho que dildos é aparecerem ali cartuxos. Poucas (ou más) leituras. É a segunda vez numa semana (!) que vejo o desconchavo na imprensa.

 

[Texto 10 939]

Helder Guégués às 11:49 | comentar | favorito
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12
Fev 19

Léxico: «classismo/classicismo»

O clássico confusionismo indígena

 

      «Confesso que, embora sendo contra o machismo, contra o racismo, contra a homofobia e contra os maus tratos a animais, o meu palato não consegue destrinçar certas subtilezas discriminatórias. Ele consegue, contudo, captar um outro tipo de discriminação, à qual sou bastante sensível, certamente por ter nascido no interior de Portugal e continuar a cultivar lastimáveis hábitos de matarruano: o classismo, ou classicismo (os dicionários admitem as duas formulações), que pode ser definido como a discriminação baseada na classe social» («As algemas de Armando Vara», João Miguel Tavares, Público, 12.02.2019, p. 48).

      Caro João Miguel Tavares, matarruano ou não, estou certo de que vai compreender este raciocínio: para nos referirmos à qualidade do que é clássico, podemos, de facto, usar indiferentemente classicismo ou classismo. Já para nos referirmos às diferenças entre classes sociais, só podemos usar classismo. É preciso saber ler (e também escolher o dicionário certo, sem complicações nem «formulações» demasiado subtis). Agora vamos ver se o Presidente da República não torce a orelha.

 

[Texto 10 774]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | favorito
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06
Jan 19

Léxico: «sidra»

Desta vez, sem erro

 

      Ao almoço, bebi uma Bandida do Pomar, a sidra da Central de Cervejas. Felizmente, não trabalham lá nem jornalistas nem tradutores, ou ainda veríamos no rótulo «cidra» em vez de «sidra». Dizem da Central de Cervejas que o tipo de maçãs utilizadas na produção de sidra não existe no território nacional. Essa é boa... Por causa do clima. A imagem da raposinha também está muito bem conseguida, com as patas na posição do cavalo da estátua de D. José I, mas sem serpentes no caminho. Neste caso, e é essa a diferença, a pata direita é mesmo a direita, e não a esquerda.

 

 [Texto 10 549]

Helder Guégués às 15:10 | comentar | favorito
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24
Nov 18

Equador/equador

O explicador

 

      «Tancos alterou as regras do jogo. E o Presidente, desafinando do coro oficial, começou a pedir demasiadas explicações, o que se entende: Marcelo é Comandante Supremo das Forças Armadas e sabe que um crime destes, acima da linha do Equador, costuma determinar o fim de governos» («Cuidados intensivos», João Pereira Coutinho, Sábado, 7.11.2018, p. 130).

      O Dr. Coutinho (ou «dr. Coutinho», que é como esta gente escreve) acha que é assim, mas está enganado: Equador, com maiúscula, é somente o nome do país; o círculo máximo é o equador. Difícil, ou é preciso uma tese?

 

[Texto 10 342]

Helder Guégués às 12:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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18
Nov 18

Uma confusão eterna: «passo/paço»

Começa mal o dia

 

      Depois de uma noite tempestuosa, acordamos e temos logo, a cada passo, erros à nossa espera. «Este sábado, aos 82 anos, depois de vários dias internado, morreu em Lisboa o general José Loureiro dos Santos. O seu corpo vai esta tarde para a capela da Academia Militar, no Passo da Rainha, e o funeral decorre na manhã desta segunda-feira para o cemitério de Carnaxide» («José Loureiro dos Santos. A vida de luta de um reformador», Nuno Ribeiro, Público, 18.11.2018, 7h12).

      É impressionante! Um jornalista cair num erro elementar como este... Então não é Paço da Rainha, Nuno Ribeiro? Paço, forma reduzida de «palácio», casa nobre onde el-rei habita. No caso, a rainha era D. Catarina de Bragança, que, depois de enviuvar de Carlos II de Inglaterra, regressa a Portugal e estabelece, no Palácio da Bemposta, a sua casa. Paço do Lumiar, Paço d’Arcos...

 

[Texto 10 303]

 

Helder Guégués às 09:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Out 18

«Tese/dissertação», de novo

No fim, a resposta cordata

 

      A tal trapalhada da tese/dissertação. Na revisão de uns relatórios de um professor catedrático de Arquitectura, vejo o erro e assinalo-o. Devem ter soado vários telefones nos minutos que se seguiram, secretárias incomodadas, suspiros. «O desplante!» Veio a resposta cordata, a única admissível: «O termo corrente para os trabalhos finais de mestrado é de tese, contudo a sua observação é pertinente.»

 

[Texto 10 181]

Helder Guégués às 15:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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25
Set 18

Cidra/sidra

Continua a confusão

 

      «Roland Barthes chamou-lhe “órgão antológico”. E, como todos sabem, o cérebro de Einstein andou em bolandas até ir parar ao Kansas, onde repousou durante décadas em dois grandes vidros de conserva guardados numa caixa de cidra. Mas, antes disso, o proprietário daquele cérebro de antologia também viajou, e viajou muito» («Einstein on the beach», António Araújo, Diário de Notícias, 2.09.2018, 6h19).

      A nossa primeira obrigação é duvidar. Numa caixa de cidra? Em todo o lado leio que os frascos estavam guardados «inside an old cider box». («The bottom box was labelled Costa Cider», leio na página da Internet da BBC.) Ora, cider é a nossa sidra; o citron inglês é que é a nossa cidra.

 

[Texto 9992]

Helder Guégués às 20:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Set 18

Dissertação/tese

Não é tudo igual

 

      «Há vícios bem virtuosos. A tara coleccionista, por exemplo. Graças a ela, podemos admirar hoje em Lisboa, no Centro Cultural e Científico de Macau, um assombroso acervo de objectos do ópio. Cachimbos e lamparinas, fornilhos e agulhas, contentores de estanho, caixas de marfim, escarradores hediondos, camas de chuto e relaxe, são às dezenas os artefactos que o coleccionador António Sapage reuniu pacientemente durante décadas, estando agora à disposição de quem os queira admirar e estudar. Foi o caso de Alexandrina Costa, que lhe dedicou a sua tese de mestrado na Faculdade de Letras de Lisboa, publicada numa bela e muito ilustrada edição conjunta do Centro Cultural de Macau e da Fundação Jorge Álvares» («Colóquio das drogas para os simples», António Araújo, Diário de Notícias, 16.09.2018, 6h20).

      Não é a primeira vez que relembro que o termo dissertação se usa para qualificar os trabalhos destinados à obtenção do grau de mestre e o termo tese para os que se destinam à obtenção do grau de doutor. Não inventei nada, decorre do Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho. Espanta-me esta tão generalizada falta de rigor.

 

[Texto 9924]

Helder Guégués às 09:10 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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