26
Ago 20

Como se escreve por aí

Por sorte, advogado

 

      «É legítimo pensar que Rui Rio ainda estivesse empolgado pelos resultados nas recentes sondagens, as quais davam 7% na intenção de voto ao Chega, em igualdade com o Bloco de Esquerda (e uns anímicos e confrangedores 26% ao PSD), ou que não seja justo colocar no mesmo saco quem nega e quem nunca viu aquilo que dois em cada três portugueses admitem e reconhecem» («A grande farsa», Nuno Pimentel Gomes, militante social-democrata e advogado, Público, 21.08.2020, p. 8).

      Por sorte, é advogado e não jornalista. Confundir «anímico» com «anémico» é absolutamente lamentável. A propósito, no dicionário da Porto Editora (e noutros), em anémico não estão registados os sentidos figurados, e já sabemos quão necessitados de amparo estão os falantes. É como eu digo, um trabalho infindável.

 

[Texto 13 875]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
04
Ago 20

Confusão: «jurado | júri»

O homem plural

 

      «Estive há uma semana em Évora a participar como júri no concurso promovido pela Confraria dos Enófilos do Alentejo» («Nós e os outros», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 13.06.2020, p. 84).

 

 

[Texto 13 850]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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20
Jul 20

De novo: «mandado | mandato»

Eles dizem que sabem

 

      «Os deputados municipais do PSD em Lisboa defendem o uso obrigatório de máscaras em qualquer espaço público, interior ou exterior, propondo que a autarquia avance com um mandato. “Recomendações e meias medidas não estão a funcionar”, alegam» («PSD quer máscaras na rua», Público, 17.07.2020, p. 13). Mas que mandato? No editorial, o mesmo: «Rio concorda com Costa que a resposta à pandemia “não é momento” para avaliar a democraticidade da União Europeia; o PSD defende um mandato municipal para obrigar ao uso de máscara nas ruas de Lisboa, a ADSE pagou por um tratamento enganador para a covid-19 e a PJ deteve cinco pessoas por burla qualicada; e o coordenador do combate ao novo coronavírus no Norte do país, o secretário de Estado da Mobilidade, não se apercebeu da concentração despreocupada dos adeptos do FC Porto nas ruas da cidade» («A covid fez do mundo uma bizarria», Amílcar Correia, Público, 17.07.2020, p. 6). Na véspera, num artigo de Maria Lopes, o mesmo. No Observador também ninguém teve mais cabeça para pensar. Nem todos, porém, abdicaram de pensar: «A bancada do PSD da Assembleia Municipal de Lisboa defendeu, esta quinta-feira, o uso obrigatório de máscaras na rua e propõe que o Executivo avance com um mandado municipal nesse sentido» («Assembleia Municipal de Lisboa. PSD defende uso obrigatório da [sic] máscaras na rua», Sol, 16.07.2020).

      Bem ou mal definido que esteja nos nossos dicionários, só pode ser mandado: «DIREITO determinação escrita emanada de autoridade judicial ou administrativa» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

 

[Texto 13 743]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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13
Jul 20

«Discriminação | descriminação»

A confusão continua

 

      «O verniz estalou (outra vez) entre Winona Rider e Mel Gibson. Em causa está uma denúncia da atriz que acusa o ator de antissemitismo (descriminação aos [sic] judeus). Segundo Winona Rider, Gibson ter-se-á referido a ela como “oven dodger” (“evitadora de fornos”), numa referência às suas raízes judaicas. Um representante de Gibson já veio, entretanto, desmentir as declarações, mas, à boleia do recente debate sobre o racismo nos EUA, a situação está a agitar os bastidores de Hollywood» («Guerra entre atores agita Hollywood», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 25.06.2020, p. 39).

      Se os jornalistas, cuja ferramenta diária de trabalho é a língua, confundem (entre mil e uma outras coisas) discriminação com descriminação, o que não será com o falante comum? (Até o ignaro — porque feito por ignaros — do corrector ortográfico me manda «corrigir» a última para «discriminação».)

 

[Texto 13 699]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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16
Jun 20

Confusão: «discriminação | descriminação»

Ainda nos espanta e indigna

 

      «Acabadinho de dar uma aula na Telescola, Marcelo Rebelo de Sousa improvisou uma conferência de imprensa para falar dos temas quentes do momento e divergiu da direita que diz que não há racismo estrutural em Portugal. “Há racismo em Portugal”, diz Marcelo. “Mas há muita descriminação na sociedade portuguesa a merecer atenção”. E “lutar não é destruir estátuas, é criar condições para reduzir desigualdades”. Centeno Governador do BdP? “Não vejo problema”. Apoios da UE? “Não estou otimista”» («Marcelo: “Há racismo em Portugal? Há! Mas destruir estátuas não é uma forma inteligente de o combater”», Ângela Silva, Expresso, 15.06.2020, 15h13).

      O céu nunca cai por causa destas coisas, mas cai-nos a alma aos pés. Como é que uma jornalista — um qualquer falante minimamente competente — dá semelhante erro? Para não termos dúvidas, o erro aparece quatro vezes. No limite, a jornalista até pode ignorar que há dois termos, parónimos, discriminação e descriminação.

 

[Texto 13 556]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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06
Jun 20

Confundir dação com doação

Vamos ver se corrigem

 

      O rigor do Correio da Manhã: «Sócrates vive no apartamento do primo, na Ericeira, desde novembro de 2018. José Paulo Bernardo Pinto de Sousa recebeu a casa em doação de um angolano» («Sócrates perde pensão», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 6.06.2020, p. 12).

      Não é verdade, há aí trapalhada: o primo de Sócrates recebeu a casa como dação em pagamento. Por acaso o dicionário da Porto Editora regista esta locução jurídica: «DIREITO extinção de uma dívida feita por acordo entre devedor e credor, entregando o primeiro ao último determinado bem que não o originalmente acordado como forma de pagamento». Linguisticamente, diferem apenas numa letrinha; juridicamente, não tem nada que ver uma coisa com a outra.

 

[Texto 13 507]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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19
Mai 20

Uma confusão que conhecemos bem

Não são apenas os nossos

 

      Os jornalistas portugueses, afinal, não são os únicos precipitados que confundem isto: «A província da Lunda-Sul espera apenas pelos cartuxos do aparelho de germe-expert para o início da colecta de amostras dos cidadãos vindos de Portugal no dia 19 de Março» («Lunda-Sul aguarda material para recolha de amostras», Jornal de Angola, 18.05.2020, p. 4). Aquele «germe-expert» também é um tudo-nada intrigante. O que eles não inventam para que os leitores, que lhes pagam, não percebam nada. O director do Jornal de Angola, Víctor Silva, devia ensinar uma mnemónica simples (pergunte-me como) para os seus escribas não caírem nestes erros tão básicos. (Víctor é a única grafia correcta, lógica, deste nome. Cá, salvo erro, ninguém o escreve assim. Terá sido um padre mais sábio a escrevê-lo assim no assento de baptismo. A propósito, o dicionário da Porto Editora não devia registar também assento de baptismo, e não apenas, como faz, assento de nascimento?)

 

[Texto 13 375]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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12
Mai 20

Como se escreve por aí

De fugir

 

      «Foi com uma saída tempestiva que Donald Trump terminou esta segunda-feira o briefing diário na Casa Branca. Depois de discutir com duas jornalistas, o presidente norte-americano acabou por abandonar a conferência de imprensa sem responder às últimas perguntas» («Trump abandona briefing diário depois de discutir com jornalistas», Ana Kotowicz, Observador, 12.05.2020, 7h52).

      Tempestiva, essa saída, do ponto de vista do próprio Trump, não, Ana Kotowicz? «A minha saída foi tempestiva, oportuna... Ah, os ordinários dos jornalistas!» Não: a jornalista devia ter escrito «intempestiva», isto é, súbita, repentina. A meu ver, certos jornalistas deviam confiar um pouco menos naquilo que julgam saber e comprovar mais o que escrevem e como o escrevem. ↓ ↓ ↓ ↓

 

[Texto 13 327]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | favorito
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