07
Jan 20

Léxico: «psico-história»

Como pode ser?

 

      «Na trama desta série, o papel central não é desempenhado por um personagem específico (estes vão entrando e saindo de cena ao longo de vários séculos) mas por uma ciência, a psicohistória. [...] A chave desse desenvolvimento hipotético é a lei dos grandes números: como é dito a certa altura no primeiro volume de Fundação, “a psicohistória não lidava com o ser humano, mas com as massas humanas» («Isaac Asimov e a ciência social», Alexandre Abreu, Expresso, 2.01.2020, 11h12).

      Espantar propriamente já não me espanto, mas fico sempre a pensar como é que alguém, português e meu contemporâneo, escreve desta maneira. Para que conste, é licenciado em Economia pelo ISEG e doutor em Economia pela Universidade de Londres.

 

[Texto 12 584]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
23
Dez 19

Eduardo dos Santos

Família Santos

 

      «Uma “caça às bruxas” contra a família Santos» («“Não sei se sou a mulher mais rica de Angola.” Isabel dos Santos diz que nunca foi favorecida pelo pai», Carolina Rico, TSF, 20.12.2019, 14h55). Muito bem, a jornalista acertou — acertou como não acertam revisores, tradutores, autores e outros jornalistas. Logo depois, porém, a própria Isabel dos Santos abre a boca e estraga a pintura: «Se me pergunta se há uma perseguição à família do antigo Presidente dos Santos, sim, há, isso é claro.»

 

[Texto 12 518]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
19
Dez 19

Pouco contacto com a língua

Falar é fácil

 

      Viram ali mais para trás a referência à Unbabel, a startup portuguesa que «alia inteligência artificial com pós-edição humana»? Então, o que falha quando escrevem no seu sítio da Internet «Traduza emails de clientes com total confiança, desde o primeiro contato à sua resolução»? Falha a inteligência artificial ou a pós-edição humana? Ou ambas? Em Portugal, diacho, só se escreve de uma forma esta palavra: CONTACTO!

 

[Texto 12 502]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
09
Dez 19

«À vontade | à-vontade», de novo

Pois, mas não num crítico

 

      Se fosse só o volantim, já seria mau, mas há pior: «Com o seu humor sardónico apoiado numa erudição radiante, o australiano soube instalar-se em terras de Sua Majestade e pôr-se muito à-vontade, refinando nos jornais o seu tom insolente e desabusado, antes de chegar à televisão e tornar-se uma das mais reconhecíveis figuras da vida pública britânica» («Clive James», Diogo Vaz Pinto, Sol, 30.11.2019, p. 32).

      Este é um erro muito comum, sim, mas inesperado num crítico literário. Diacho. Expliquemos outra vez: nesta frase, não se deveria ter usado o substantivo à-vontade (descontracção), mas sim a locução adverbial à vontade (sem preocupação; negligentemente). Ficamos entendidos?

 

[Texto 12 430]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
03
Dez 19

Erros imperdoáveis: «há | à»

O impensável acontece todos os dias

 

      Esta ainda está fresquinha: «Há nove anos um grupo de crianças dinamarquesas teve um acidente no mar durante uma visita de estudo. Sete dessas crianças foram declaradas clinicamente mortas por hipotermia, mas as sete voltaram há vida algumas horas depois» («“Morreram” nos fiordes mas acabaram por acordar. BBC juntou-os nove anos depois», Dora Pires, TSF, 3.12.2019, 18h16).

      Nos últimos tempos, um professor também me tem mostrado este mesmo erro em textos de colegas. Isto são problemas da infância, de certeza. Como é que um jornalista confunde preposições com verbos? Como é que um professor, seja qual for a disciplina que leccione, dá o mesmo erro? Não há perdão para eles nem escapatória para nós.

 

[Texto 12 398]

Helder Guégués às 18:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
29
Nov 19

O pobre verbo «haver»

E os pobres leitores

 

      «Hajam fundos, já agora. Em Bruxelas, depois de ter visto a sua equipa confirmada pelo Parlamento Europeu, a nova presidente da Comissão Europeia esteve com a Susana Frexes, fugindo à pergunta para muitos milhões de euros: haverá mais fundos europeus, ou é inevitável o corte que António Costa anda a tentar contrariar?» («Quando ouvir dizer mal dos partidos, pense nisto», David Dinis, Expresso Curto, 28.11.2019).

      Este formato do Expresso só é curto no nome, que, no que toca (e não escrevo «tange» para não haver ambiguidades) a erros, é bem grosso. Com que então, David Dinis, é «hajam fundos» que se diz?

 

[Texto 12 378]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
16
Out 19

Léxico: «pajem»

Essas têm de ser de cor

 

      Sim, é uma excepção — mas a estas, é claro, temos de conhecê-las de cor. É pajem que se escreve. Infelizmente, aparece pelo menos quatro vezes grafado «pagem» na Infopédia, duas em dicionários bilingues. Pobres estrangeiros, pobres falantes. ↧↧↧↧

 

[Texto 12 171]

Helder Guégués às 03:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
24
Set 19

Inventar, mas mal

Não seja complicado

 

      «As instruções que o acompanham, embora lógicas, sofrem de “complicatismo” – uma síndrome lexical própria da administração pública. A primeira frase, por exemplo, diz que o que temos em mãos é um “invólucro resposta/folha explicativa”. Será que é a resposta que explica ou a explicação que responde?» («Origami eleitoral», Ricardo Garcia, Público, 22.09.2019, p. 10).

      Pois, mas não: onde foi Ricardo Garcia buscar o t, saberá dizer-nos? Se deriva de «complicado», só pode ser «complicadismo». Assim, vê-se que o jornalista sofre da doença que descreve.

 

[Texto 12 031]

Helder Guégués às 05:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,