19
Fev 19

Gramática e erros de latim

Faz mesmo falta

 

      «Este é um livro para todos? O autor acredita que sim. Os alunos e os professores serão os leitores mais assíduos, seja no secundário ou no ensino universitário, mas Frederico Lourenço está em crer que até os curiosos podem tirar partido desta obra. Uma gramática moderna e atualizada que vai ao essencial do que é preciso saber para abordar a leitura de textos latinos em prosa e em verso» («Habemus Gramaticae», Teresa Dias Mendes, TSF, 19.02.2019, 8h49).

      Eu vou comprá-la, certamente, mas a questão é: não fará mais falta a Teresa Dias Mendes? Quantas gramáticas são? É uma: «São 500 páginas, que se dividem em 3 partes: morfologia, sintaxe e uma lista do vocabulário essencial da língua latina, que ajuda os simplesmente curiosos. Há ainda uma “Antologia de textos” comentados, desde o século II a.C., onde o autor garante o prazer intelectual proporcionado pelo conhecimento do latim.» Grammatica, ae pertence à primeira declinação, como porta ou papa. E não se diz, Teresa Dias Mendes, «habemus papam», único latim que 99 % das pessoas sabem? Então, como quer concluir? Mesmo se fossem duas, dir-se-ia «habemus grammaticas», porque é objecto directo.

 

[Texto 10 826]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
31
Jan 19

Como escrevem alguns professores

Não devia ter lido

 

      Muito bem, hoje os meninos (e as meninas, diria qualquer bloquista menos conhecedor da língua) trouxeram uma ficha de trabalho de Matemática. Já sei que nunca é boa ideia aprofundar estas coisas, mas não resisti. «Explica como chegas-te à tua resposta. Podes usar palavras, cálculos ou esquemas.» Isso de usar cálculos ou esquemas devia aplicar-se, neste caso, apenas aos próprios professores. Não seria boa ideia o Ministério da Educação organizar cursos de alfabetização para professores?

 

[Texto 10 692]

Helder Guégués às 18:39 | comentar | favorito (1)
Etiquetas: ,
26
Jan 19

Como se deturpam as notícias

Na terra do mais ou menos

 

      «O corpo foi levantado às 4h00, e estava coberto de areia. O responsável explicou que uma das teses mais prováveis é que, na própria queda, a terra se foi desprendendo das paredes do poço, “muito imperfeita e muito arenosa”. [...] A operação de resgate de Júlen [sic] foi “uma missão colossal” que envolveu a remoção de 85 mil toneladas de areia» («Julen foi encontrado a 71 metros e terá sofrido “um tramatismo craniano”», Rádio Renascença, 26.01.2019, 17h11).

      Estava coberto de areia? No diário La Vanguardia leio que «fue encontrado cubierto de tierra». Houve a remoção de 85 mil toneladas de areia? No diário La Vanguardia leio que «se han movido 85.000 toneladas de tierra». E mesmo quanto a arenosa — as paredes do poço é que são muito arenosas, não a terra. Terra é terra, areia é areia. Talvez seja demasiada areia...

 

[Texto 10 657]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
12
Jan 19

«Sob/sobre», de novo e sempre

Corrijam ou corrijam-se

 

      «O PSD é um partido grande de mais e importante de mais para poder estar sujeito a permanentes manobras tácticas ao serviço de interesses individuais ou de grupos, sejam estes mais às claras ou mais escondidos sobre o manto de qualquer secretismo», disse esta tarde Rui Rio, presidente do PSD, a propósito do desafio da traição de Luís Montenegro. Disse, eu ouvi, mas imperdoável, aqui, é os jornalistas transcreverem esta parte do discurso sem o corrigirem. É, em qualquer caso, condenável: os que sabem que é erro deviam corrigi-lo; os que não sabem, e não serão assim tão poucos a avaliar pelo panorama, deviam corrigir-se. É sob o manto, debaixo do manto, às escondidas, porque sobre o manto nada se esconde.

 

[Texto 10 581]

Helder Guégués às 19:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
10
Jan 19

Professores e jornalistas

Poing!

 

      «Os alunos que escolhem cursos do ensino superior da área da Educação, e esperam portanto virem a ser professores, estão entre os que têm pior desempenho a Português, indica um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC)» («Futuros professores são piores a Português do que aqueles que serão médicos», Clara Viana, Público, 10.01.2019, p. 14).

      De facto, tenho visto uma boa amostra desta espécie. Mas, que dizer dos que vão para o jornalismo? Clara Viana devia escrever «e que esperam portanto vir a ser professores» — porque a marca da pessoa já está no primeiro verbo.

 

[Texto 10 568]

Helder Guégués às 11:42 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
15
Dez 18

Como se escreve por aí

É esta miséria

 

      «O vermelho chamou a atenção de todos entre o amarelo dos coletes. Os franceses voltaram a sair à rua pelo quinto sábado consecutivo, mas cinco manifestantes destacaram-se na multidão. [...] Não se tratam de feministas da Femen, como se pensou inicialmente, apesar da semelhança com as iniciativas que costumam levar a cabo. Estas Marianne de casacos vermelhos e peito descoberto são obra da artista luxemburguesa Deborah de Robertis, uma performance simbólica em dia de manifestação por melhores condições de vida na França» («Marianne juntou-se aos coletes amarelos. Quem são as mulheres que fizeram frente à polícia?», Carolina Rico, TSF, 15.12.2018, 13h59).

      Será que aprendem mesmo? Acho que não. E trata-se de uma jornalista, o que não será o zé-povinho.

 

            [Texto 10 459]

 

Helder Guégués às 15:06 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
05
Dez 18

Um retroactivo substantivo

Paulo contra Paulo

 

      «P.G. concede-me, e à língua portuguesa, que haja dois significados para a palavra “retroativo” e sabe, mas omite, que o sentido em que utilizo o adjetivo é o que vem em todos os dicionários: “Que tem efeitos sobre factos passados, que modifica o que já foi feito” (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 2010)» («O umbigo de Paulo Guinote», Paulo Pereira Trigo, Público, 5.12.2018, p. 54).

      Evidentemente, o deputado não soube exprimir-se, ou, o que é incomparavelmente pior, quis deturpar os factos, pois a sua declaração de voto, na redacção que foi divulgada em vários jornais, diz assim: «Importa sublinhar que os sindicatos reivindicam retroativos relativamente a todos os anos que as carreiras estiveram congeladas. Em nosso entender, o descongelamento já é um progresso, sendo que a verdade é que a questão dos retroativos não consta do programa do PS ou do programa do Governo, sendo algo injusto relativamente a outras carreiras atendendo, designadamente, ao facto de a progressão dos professores ser mais rápida que a existente no plano das carreiras gerais.» Paulo Guinote não pôde deixar passar sem apontar semelhante erro ou lapso ou trapalhada intencional: «Comecemos pela acepção mais corrente e “popular” do termo “retroactivos”. Consultando a Infopédia, como nome comum, um “retroactivo” corresponde a “montante que corresponde a pagamentos devidos e que estão em atraso”, sendo mais usado na forma plural (como o faz P.T.P.). Ora, isto é completamente falso. Em nenhum momento, mesmo de mais intenso conflito, professores ou sindicatos exigiram ou sequer sugeriram receber qualquer montante pelos anos em que a sua carreira esteve “congelada”» («Os “factos alternativos” à portuguesa», Paulo Guinote, Público, 4.12.2018, p. 45).

 

            [Texto 10 407]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
28
Nov 18

O que «endossar» não significa

Muitas línguas

 

      «À porta da minha faculdade há um grupo de alunas endossando trajes negros, estão dispostas em círculo, à volta de outras miúdas que vestem camisolas amarelas. As de fora insultam as que estão dentro, ordenam-lhes que gritem, que se ajoelhem, ameaçam bater-lhes com duas colheres de pau gigantescas (mas não batem)» («​A que brincam as meninas?», Nuno Camarneiro, Diário de Notícias, 28.11.2018, 6h16).

      A fartura também dá nisto, as muitas línguas baralham-se, não é? Nuno Camarneiro está enganado: endossar, neste contexto, está errado. Em francês, e o étimo do nosso endossar é francês, é que endosser significa «vestir, pôr nos ombros», neste caso, os tais trajes das tristes figuras. Com que então, Diário de Notícias, achavas que não precisavas de revisores... 

 

[Texto 10 370]

Helder Guégués às 21:48 | comentar | favorito
Etiquetas: ,