04
Mai 19

O AOLP90 no dia-a-dia

Já não voam tanto

 

      «Eurocépticos, nalguns casos populistas e xenófobos, antissistema. Nas eleições europeias de há 5 anos, vimos aumentar algumas destas forças políticas… E agora, como será em 2019?» («Eleições numa Europa cada vez mais fragmentada», Rádio Renascença, 4.05.2019).

      Se nos jornais é a pouca-vergonha que sabemos, quanto mais nas rádios, onde se habituaram durante décadas ao verba volant. Agora, com o scripta manent, é o que se vê. Ainda há dias, na Rádio Renascença, como vimos, escreveram «espanho-luso», que, mesmo depois de uma mensagem que lhes enviei, esteve 24 horas visível. Nem se envergonham nem aprendem. Lá se avenham.

 

[Texto 11 308]

Helder Guégués às 22:22 | comentar | favorito
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29
Abr 19

Como se escreve nos jornais

É para baixo

 

      «Se Sánchez resgatou o PSOE da miséria — saltando de 85 para 122 deputados, embora sem maioria — o PP, o vencedor das eleições de 2016, afundou-se a um nível estratosférico. Talvez Pablo Casado dure, como os seus compatriotas já conseguiram noutros tempos» («A vitória de Sánchez e a força do Vox», Ana Sá Lopes, Público, 29.04.2019, p. 4).

      O ideal era tocar no ombro de Ana Sá Lopes e cochichar-lhe: «Veja lá que está a escrever uma parvoíce.» Como isso nunca acontecerá, será sempre ex post facto. Que diacho, pois se se trata de afundar! O PP, alfobre de corruptos, afundou-se a um nível batipelágico. (Ah, não olhem assim para mim, eu não tenho a culpa de os dicionários não registarem aquele sentido figurado de alfobre.)

 

[Texto 11 278]

Helder Guégués às 22:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Abr 19

Léxico: «hispano»

Que seja a última

 

      «Com a questão da Catalunha e a extrema-direita a ganhar votos, sobretudo na Andaluzia, estas Eleições Gerais em Espanha vão decidir o próximo Governo. Espanha é o principal parceiro económico de Portugal. Que impacto terão os resultados na nossa própria vida política? Este sábado, no da Capa à Contracapa, as eleições espanholas vão estar em análise. São convidados Lívia Franco, especialista em questões geopolíticas, Professora e Investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e o jornalista Enrique Pinto-Coelho que, sendo espanho-luso, tem essa característica única de poder votar em Espanha e em Portugal. Atualmente, é correspondente em Portugal do canal espanhol La Sexta e colabora com vários outros meios como repórter e tradutor» («Eleições em Espanha. Que impacto para Portugal?», Rádio Renascença, 27.04.2019).

      Há coisas que só veremos uma vez na vida. Com sorte, algumas nunca as chegaremos a ver. A esta podíamos ter sido poupados. Desde quando é que a forma reduzida de espanhol é «espanho»? Será que Enrique Pinto-Coelho sabe que dizem que ele é — deixem-me cruzar os dedos — «espanho-luso»? Hispano, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer é identificado como redução vocabular; remete-se para hispânico e já está, o falante que se desenrasque. Tanta sucintez (palavra que aquele dicionário ignora) por vezes desemboca em ignorância.

 

 

[Texto 11 263]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Abr 19

«Vetar à sorte»?!

Confrangedor

 

      «A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) adianta que o número de mortes por insuficiência cardíaca pode aumentar em 73% em 2036 e a carga da doença, que engloba os anos de vida perdidos por morte e incapacidade, vai crescer 28% relativamente a 2014. [...] “Porque ser reanimado é um direito cívico, porque não podemos ter a nossa vida vetada à sorte e porque salvar vidas pode estar nas nossas mãos, aprender Suporte Básico de Vida (SBV) é um passo para não vivermos com ‘o coração nas mãos’”, refere a SPC» («Mata até três vezes mais que o cancro da mama. E já afeta meio milhão de portugueses», TSF/Lusa, 26.04.2019, 8h26).

      Debaixo de quantos olhos — na Sociedade Portuguesa de Cardiologia, na Lusa, na TSF — passou o desconchavo sem ninguém pestanejar? Esta cultura de negligência está demasiado arreigada para mudar da noite para o dia. Mesmo com vontade, que se não vislumbra, vai demorar.

 

[Texto 11 256]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | favorito
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03
Abr 19

Léxico: «satanista»

A demoníaca ignorância

 

      Little Bear Schwarz, cantora operática nova-iorquina que padece de síndrome do ovário policístico desde os 14 anos, e por isso tem barba, pensava — com alguma razão, diga-se — que nunca iria casar. Depois de uma publicação no Facebook, porém, apareceu a sua cara-metade. Isto, que pode ser mentira, vinha anteontem no Correio da Manhã. A barba é real, o casamento é que não se sabe. «Rapidamente os dois se apaixonaram e no dia 24 de fevereiro ‘deram o nó’ numa cerimónia em que celebraram as religiões de ambos: a cristã e a satã. “O Tobias é um satanista, enquanto eu sou cristã, o que pode parecer que estamos num conflito um com o outro. Mas, na verdade, temos os mesmos códigos éticos — apenas os expressamos por meios diferentes”, explica Little Bear» («Mulher barbuda casa com homem que conheceu no Facebook», Correio da Manhã, 1.04.2019). «Satã» há-de ser para rimar com «cristã». Não temos tal adjectivo. Diz-se «religião satanista». A própria Little Bear Schwarz o escreve logo a seguir: «O Tobias é satanista». Satã é o mesmo que Satanás, o próprio Diabo, um nome próprio. E depois temos satânico, satanista e satanismo. Se dissessem que Mark Zuckerberg foi o padrinho, eu também acreditaria.

 

[Texto 11 102]

Helder Guégués às 08:19 | comentar | favorito
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30
Mar 19

Um «vexa» vexatório

Tudo mau

 

      «A deputada socialista, Isabel Moreira, denunciou esta sexta-feira, através do Facebook, uma mensagem violenta e homofóbica de um membro da “comissão política da concelhia do CDS-PP de Barcelos”, Armindo Leite. Na imagem divulgada por Isabel Moreira pode ler-se: “És uma vergonha, fufa de m****, mata-te......”. “Tenciono continuar por aqui, Armindo sexista, homofóbico, criminoso e cobarde. Há mais como vexa. E há mais, mas muito mais como eu. Toda uma multidão do lado da liberdade e da igualdade. ADENDA: fui informada de que o ameaçador pertence à comissão política da concelhia do CDS-PP de Barcelos. Aguardo reações da direção do CDS. Pois é, acho isto intolerável”, esclareceu Isabel Moreira» («Deputada socialista denuncia mensagem violenta e homofóbica de membro do CDS-PP», Correio da Manhã, 30.03.2019, 8h25).

      O CDS tem lá boas peças, tem. Nada desculpa, porém, aquele «vexa», que não passa, em português, de uma forma do verbo «vexar». Para significar o que se pretende ali na frase citada acho-o simplesmente parolo. E aqueles seis pontos? Duplas reticências... E as vírgulas a isolarem o nome da deputada? Andam a estudar muito, vê-se logo.

 

[Texto 11 080]

Helder Guégués às 21:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Fev 19

Gramática e erros de latim

Faz mesmo falta

 

      «Este é um livro para todos? O autor acredita que sim. Os alunos e os professores serão os leitores mais assíduos, seja no secundário ou no ensino universitário, mas Frederico Lourenço está em crer que até os curiosos podem tirar partido desta obra. Uma gramática moderna e atualizada que vai ao essencial do que é preciso saber para abordar a leitura de textos latinos em prosa e em verso» («Habemus Gramaticae», Teresa Dias Mendes, TSF, 19.02.2019, 8h49).

      Eu vou comprá-la, certamente, mas a questão é: não fará mais falta a Teresa Dias Mendes? Quantas gramáticas são? É uma: «São 500 páginas, que se dividem em 3 partes: morfologia, sintaxe e uma lista do vocabulário essencial da língua latina, que ajuda os simplesmente curiosos. Há ainda uma “Antologia de textos” comentados, desde o século II a.C., onde o autor garante o prazer intelectual proporcionado pelo conhecimento do latim.» Grammatica, ae pertence à primeira declinação, como porta ou papa. E não se diz, Teresa Dias Mendes, «habemus papam», único latim que 99 % das pessoas sabem? Então, como quer concluir? Mesmo se fossem duas, dir-se-ia «habemus grammaticas», porque é objecto directo.

 

[Texto 10 826]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | favorito
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