13
Nov 18

O oficial que não o é

Continuemos

 

      Como já corrigiram de Horta para Orta e de Pirinéus para Pirenéus (que trabalho lhes estou a dar, coitados!), passemos a outro erro, um que encontro até em traduções de grandes sumidades: «Assassinato de jornalista. Áudio da morte de Khashoggi horrorizou oficial saudita» (Rádio Renascença, 13.11.2018, 11h30). Oficial, pois... «“Quando ouviu (as gravações de voz), o funcionário dos serviços de informação saudita surpreendeu-se e disse: “Parece que tomou heroína (o assassino), isso só pode ter sido feito por alguém que tomou heroína”, declarou Recep Tayyip Erdogan.»

 

[Texto 10 281]

Helder Guégués às 13:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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«Tratar-se de», mais uma vez

Outras fontes inquinadas

 

      «[Ana Boavida] É portuguesa, oriunda de Coimbra, e foi a designer premiada com o Prémio de Excelência em Tipografia, atribuída pela revista americana Communication Arts, a mais prestigiada revista internacional de comunicação visual. [...] Na conversa com a TSF, a designer portuguesa refere que o principal desafio foram os títulos dos livros, uma vez que se tratavam de interrogações» («Quem disse que os livros de economia têm de ser sérios? Designer portuguesa vence prémio», Miguel Midões, TSF, 13.11.2018, 8h00, itálicos meus).

      Agora imaginem o efeito destes erros no conhecimento que o falante médio tem da língua, se até em jornalistas, escritores, tradutores é habitual. É mais uma batalha perdida.

 

[Texto 10 280]

 

Helder Guégués às 09:56 | comentar | favorito | partilhar
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Podia ser o segundo pior

Para continuar

 

      Podia ser o segundo pior título, mas não exageremos: «Pirinéus podem perder metade da neve até 2050» (Rádio Renascença, 13.11.2018, 7h55). Ai que nunca mais aprendem: Pirenéus. Pirenaico. Cispirenaico. Transpirenaico. (Estas duas últimas, ai!, esquecidas pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.) Como não lhes entra o centígrado/Celsius: «O aumento da temperatura média nos Pirinéus em 1,2 graus centígrados nos últimos 50 anos faz prever que esta cordilheira perca metade da sua neve até 2050 e, se nada for feito, 80% antes do final do século.»

 

[Texto 10 279]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Pior título do dia

Para começar mal

 

      O dia noticioso ainda mal começou, mas pode já ficar assente que, se não for o pior, pedirá meças a qualquer outro. «Falta de anestesistas do Garcia de Horta fecha blocos operatórios» (Rádio Renascença, 13.11.2018, 8h25). Isto não é azar (ou, se o for, é o nosso), nem descuido, nem gralha — é simplesmente falta de um mínimo de cultura geral.

 

[Texto 10 278]

Helder Guégués às 09:01 | comentar | favorito | partilhar
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12
Nov 18

«Jogo da Língua», 9.NOV.2018

Pobres ouvintes

 

      Felizmente tenho sempre coisas mais importantes que fazer, mas na sexta-feira, num intervalo, ouvi o Jogo da Língua. A suposição mais benévola é a de que só tem erros quando eu ouço o programa, assim à semelhança do gato de Schrödinger. Ora bem, a questão era de sintaxe: «Os filmes que mais gosto são os policiais e os thrillers/Os filmes de que mais gosto são os policiais e os thrillers.» Tinha logo de incluir um estrangeirismo, para melhor defesa da nossa língua. O prezado ouvinte acertou por acaso. Vamos lá ver o que diz a Dra. Sandra: «Em frases relativas como estas, nós temos de repetir a preposição de, “O livro de que mais gosto é esse”; «Os filmes de que mais gosto são...”, uma vez que o verbo gostar é um verbo que requer preposição. E essa preposição deve estar sempre em todos os contextos sintácticos em que usamos o verbo gostar, inclusive nestes um bocadinho mais complexos em que nós estamos perante uma oração relativa.» Repetir a preposição? Pobres ouvintes... Então, veja se é capaz de nos apontar na frase as duas preposições e depois mande-me a resposta para o Messenger. E outra coisinha: o vocábulo «sintaxe» pronuncia-se /sintasse/ e não, como sonoramente o fez, /sintaze/. E tu, Dicionário que da Língua Portuguesa da Porto Editora, também tens de colaborar e ajudar esta gente, pois, ao contrário de muitos dicionários e vocabulários (por exemplo, o VOLP da Academia Brasileira de Letras), não deixas esta tão singela e útil indicação: «sintaxe (ss)».

 

[Texto 10 274]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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08
Nov 18

Um erro repetido

De si

 

      «Com a devida vénia à frase-sigla decalcada no título desta crónica (A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, meritório projecto de Tiago Pereira), há na Língua Portuguesa uma propensão para a autocontemplação ou mesmo, nos piores casos, para a indulgência» («A Língua Portuguesa a gostar dela própria», Nuno Pacheco, Público, 8.11.2018, p. 45).

      Não encontrará aqui nenhuma dessa indulgência, caro Nuno Pacheco: a «frase-sigla», como diz, está errada e, logo, errada está a sua frase-título. Diz-se «a Língua Portuguesa a gostar de si própria». De si, não dela. 

 

[Texto 10 251]

Helder Guégués às 21:40 | comentar | ver comentários (10) | favorito | partilhar
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26
Out 18

Uma adjectivação sem adjectivos

Tu quoque?

 

      «Mas a polémica decorre da adjetivação colorida que usa para caracterizar outros políticos portugueses, com os quais lidou institucionalmente. Refere-se à “inexperiência” de Passos Coelho, à “insegurança” de António José Seguro, chama “artista” a António Costa e acusa Portas de “infantilidade”. Admite que foi cor a mais na adjetivação?», perguntou Fernando Alves, da TSF, a Cavaco Silva («“Nunca pensei que o Bloco de Esquerda e o PCP se curvassem com tanta facilidade”», TSF, 26.10.2018, 9h54).

      Se até Fernando Alves cai neste erro tão básico, isto está muito pior do que se pudesse imaginar.

 

[Texto 10 200]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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25
Out 18

Errados, até no nome

ASPIG? ASIG!

 

      «A posição da Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda (ASPIG) foi tomada em comunicado a propósito da divulgação — nas redes sociais e em alguns órgãos de comunicação social — das fotografias da detenção dos suspeitos que tinham fugido do Tribunal de Instrução Criminal do Porto, na semana passada. Uma divulgação que suscitou enorme polémica, foi condenada pelo Governo e por várias organizações e está a ser investigada pela Inspecção-Geral da Administração Interna, a pedido do ministro Eduardo Cabrita» («Criminosos não merecem respeito? Bastonário diz que sindicato foi populista», Margarida David Cardoso, Público, 25.10.2018, p. 15).

      Esta gente está profundamente errada. Aliás, não está o próprio nome da associação errado? Não se escreve «socioprofissional»? Então, é Associação Socioprofissional Independente da Guarda — e, com isto, e de uma penada, lá se vai o acrónimo. É a ASIG.

 

[Texto 10 193] 

Helder Guégués às 20:19 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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24
Out 18

«Capa/primeira página»

Outro equívoco dos nossos tempos

 

      Muito cedo também, e isto repete-se dia após dia e nas várias rádios, um locutor na TSF avisa que um colega vai ler as «capas dos jornais». Outro equívoco: os jornais não têm capa, mas primeira página. Por coincidência, ainda na semana passada fiz esta emenda num livro (inédito premiado), e o editor (sim, o editor, não um assistente editorial) fingiu que a não vira. Insisti. Até que veio a pergunta: «Porquê?» Expliquei o bê-á-bá da complexa questão. Aceitou. Depois de o locutor ler as primeiras páginas, o colega que o anunciara rematou: «As Primeiras Páginas tiveram o patrocínio de...». Bem, não interessa o patrocinador, interessa, e muito, denunciar esta negligência, ainda mais lamentável porque se trata da rádio, que espalha o erro ainda mais facilmente. Até nesta questão os lexicógrafos podiam ajudar, mas estarão eles para aqui virados?

 

[Texto 10 180]

Helder Guégués às 10:10 | comentar | favorito | partilhar
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