24
Mar 20

Outro erro persistente

Parece mentira

 

      «“Precisamos de triplicar ou quadriplicar os investimentos em abastecimento de água” [afirma Lucrécio Costa, secretário de Estado para as Águas angolano]» (José Meireles, Jornal de Angola, 22.03.2020, p. 14). O erro — anotem bem — é de ambos, do secretário de Estado e do jornalista. O governante dizia-o, mas a estrita obrigação do jornalista era corrigi-lo na transcrição da entrevista. Não o fez porque também não sabe ou porque temia ser mandado decapitar? Pior do que tudo isto é encontrarmos o erro num dicionário da Porto Editora. Vervierfachen. Pois é, parece mentira.

 

 

[Texto 13 012]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Mar 20

Léxico: «analfabetice»

Agora sim

 

      «Bruno Alves aceita o corte salarial que tem sido noticiado pela imprensa italiana, de acordo com o plano que os clubes preparam para fazer face ao rombo económico causado pelo novo coronavírus. [...] “Essas questões da redução salarial são assuntos muito sensíveis. Se não terminar o campeonato concordo com um ajuste. Mas penso que se houver reduções salariais por não podermos jogar terão de haver regras para tudo o que está à nossa volta. Não podem reduzir os salários aos jogadores e continuarem na mesma os alimentos, as rendas, os impostos. Temos que implementar as regras no geral. Tem que haver justiça”, reforça, em declarações a Bola Branca» («Bruno Alves aceita corte salarial se reduzirem preços dos bens essenciais», Pedro Azevedo, Rádio Renascença, 23.03.2020, 12h46, itálico meu).

      A culpa da rematada hipocrisia é só do jogador; a analfabetice (outra que a Porto Editora ignora) é culpa de ambos, e até mais do jornalista: o jogador não conhece as regras gramaticais, mas a estrita obrigação do jornalista é conhecê-las e aplicá-las. Deixem lá o WhatsApp e essas porcarias, e aprendam qualquer coisinha de útil.

 

[Texto 13 006]

Helder Guégués às 13:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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21
Fev 20

Como se fala por aí

A precisar de ser curada

 

      «“Ao longo de 20 anos muitos doentes já me pediram para morrer”, confessa à Renascença a enfermeira Filipa Pires de Lima, que também já lidou com uma doença que a colocou à prova. “Se as pessoas fossem mais literadas em saúde tinham outra ideia da partida.”» («Eutanásia. “As pessoas não sabem do que se está a falar”», Liliana Monteiro, Rádio Renascença, 17.02.2020).

      À partida, como se pode comprovar, é má ideia, porque depois ficam a falar assim dessa forma completamente esquisita — também a precisar de ser curada.

 

[Texto 12 860]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «fluido»

Convicções erradas

 

      «A ausência de gravidade faz com que os corpos dos astronautas percam massa muscular e densidade óssea, os olhos também ficam afetados e fluídos deslocam-se até ao cérebro» («“Banhos a seco” para estudar o corpo humano? A Agência Espacial Europeia procura participantes», Sofia Freitas Moreira, Rádio Renascença, 19.02.2020, 7h49).

      Não sabem escrever nem, naturalmente, pronunciar correctamente a palavra. Nada que uma boa reencarnação não resolva.

 

[Texto 12 853]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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14
Fev 20

Imperfeito de cortesia

Pelo menos isso

 

      Na terça-feira, ouvi a emissão do programa Jogo da Língua. Há uma novidade, e boa: a Antena 1 já não disponibiliza, ou pelo menos eu não encontro, os podcasts das emissões. Sempre são menos uns erros no éter. E por erros, já conhecem a minha teoria: quando eu ouço o programa, há lá erros. Uma espécie de erros quânticos, mas ao contrário: se eu espreito, há erro. Desta vez, era uma professora do ensino básico a participante. Em plena aula?! Não é preciso sujeitá-la a um processo disciplinar, bastou o castigo (se o foi para ela) de errar algo absolutamente básico: numa frase como «Queria um maço de tabaco, se faz favor» (não era esta a frase, mas apenas a estrutura), respondeu erradamente à pergunta sobre qual era o tempo e o modo da forma verbal «queria». Filomena Crespo, que, quando lhe apetece, quando simpatiza ou quando está bem-disposta, ajuda, apiedou-se e obrigou-a a mudar a resposta. E a «especialista», que disse? Devia começar por ensinar que se trata do chamado imperfeito de cortesia, mas só nos últimos segundos lhe saiu uma forma trapalhona, desvirtuada, de o dizer: trata-se, afirmou, de «cortesia linguística». E ainda falou, só para atrapalhar, no condicional, mas mais vale esquecer essa parte. É o que temos.

 

[Texto 12 817]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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06
Fev 20

Ganimedes

Está errado

 

      «Ganimedes é o terceiro satélite galileano de Júpiter e o maior de todos. De facto, é o maior satélite do Sistema Solar, sendo muito maior que Plutão e mesmo maior que Mercúrio embora tenha só cerca de metade da sua massa» (Pequeno Atlas do Sistema Solar, E. Ivo Alves. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 117).

      Ganimedes, pois então, e é também esta a grafia que a Porto Editora usa e a mesma que vejo consagrada na página 488 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Quer se trate do antropónimo ou do astrónimo, quer se trate do nome comum, não é acentuado. Ia perguntar porque é que então este espertalhão aqui diz que sem acento é a ortografia brasileira — ia, mas já não pergunto. Está numa famigerada enciclopédia colaborativa na internet. Está errado.

 

[Texto 12 775]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Jan 20

Léxico: «psico-história»

Como pode ser?

 

      «Na trama desta série, o papel central não é desempenhado por um personagem específico (estes vão entrando e saindo de cena ao longo de vários séculos) mas por uma ciência, a psicohistória. [...] A chave desse desenvolvimento hipotético é a lei dos grandes números: como é dito a certa altura no primeiro volume de Fundação, “a psicohistória não lidava com o ser humano, mas com as massas humanas» («Isaac Asimov e a ciência social», Alexandre Abreu, Expresso, 2.01.2020, 11h12).

      Espantar propriamente já não me espanto, mas fico sempre a pensar como é que alguém, português e meu contemporâneo, escreve desta maneira. Para que conste, é licenciado em Economia pelo ISEG e doutor em Economia pela Universidade de Londres.

 

[Texto 12 584]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Dez 19

Eduardo dos Santos

Família Santos

 

      «Uma “caça às bruxas” contra a família Santos» («“Não sei se sou a mulher mais rica de Angola.” Isabel dos Santos diz que nunca foi favorecida pelo pai», Carolina Rico, TSF, 20.12.2019, 14h55). Muito bem, a jornalista acertou — acertou como não acertam revisores, tradutores, autores e outros jornalistas. Logo depois, porém, a própria Isabel dos Santos abre a boca e estraga a pintura: «Se me pergunta se há uma perseguição à família do antigo Presidente dos Santos, sim, há, isso é claro.»

 

[Texto 12 518]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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