12
Jan 19

«Sob/sobre», de novo e sempre

Corrijam ou corrijam-se

 

      «O PSD é um partido grande de mais e importante de mais para poder estar sujeito a permanentes manobras tácticas ao serviço de interesses individuais ou de grupos, sejam estes mais às claras ou mais escondidos sobre o manto de qualquer secretismo», disse esta tarde Rui Rio, presidente do PSD, a propósito do desafio da traição de Luís Montenegro. Disse, eu ouvi, mas imperdoável, aqui, é os jornalistas transcreverem esta parte do discurso sem o corrigirem. É, em qualquer caso, condenável: os que sabem que é erro deviam corrigi-lo; os que não sabem, e não serão assim tão poucos a avaliar pelo panorama, deviam corrigir-se. É sob o manto, debaixo do manto, às escondidas, porque sobre o manto nada se esconde.

 

[Texto 10 581]

Helder Guégués às 19:24 | comentar | favorito | partilhar
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10
Jan 19

Professores e jornalistas

Poing!

 

      «Os alunos que escolhem cursos do ensino superior da área da Educação, e esperam portanto virem a ser professores, estão entre os que têm pior desempenho a Português, indica um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC)» («Futuros professores são piores a Português do que aqueles que serão médicos», Clara Viana, Público, 10.01.2019, p. 14).

      De facto, tenho visto uma boa amostra desta espécie. Mas, que dizer dos que vão para o jornalismo? Clara Viana devia escrever «e que esperam portanto vir a ser professores» — porque a marca da pessoa já está no primeiro verbo.

 

[Texto 10 568]

Helder Guégués às 11:42 | comentar | favorito | partilhar
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15
Dez 18

Como se escreve por aí

É esta miséria

 

      «O vermelho chamou a atenção de todos entre o amarelo dos coletes. Os franceses voltaram a sair à rua pelo quinto sábado consecutivo, mas cinco manifestantes destacaram-se na multidão. [...] Não se tratam de feministas da Femen, como se pensou inicialmente, apesar da semelhança com as iniciativas que costumam levar a cabo. Estas Marianne de casacos vermelhos e peito descoberto são obra da artista luxemburguesa Deborah de Robertis, uma performance simbólica em dia de manifestação por melhores condições de vida na França» («Marianne juntou-se aos coletes amarelos. Quem são as mulheres que fizeram frente à polícia?», Carolina Rico, TSF, 15.12.2018, 13h59).

      Será que aprendem mesmo? Acho que não. E trata-se de uma jornalista, o que não será o zé-povinho.

 

            [Texto 10 459]

 

Helder Guégués às 15:06 | comentar | favorito | partilhar
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05
Dez 18

Um retroactivo substantivo

Paulo contra Paulo

 

      «P.G. concede-me, e à língua portuguesa, que haja dois significados para a palavra “retroativo” e sabe, mas omite, que o sentido em que utilizo o adjetivo é o que vem em todos os dicionários: “Que tem efeitos sobre factos passados, que modifica o que já foi feito” (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 2010)» («O umbigo de Paulo Guinote», Paulo Pereira Trigo, Público, 5.12.2018, p. 54).

      Evidentemente, o deputado não soube exprimir-se, ou, o que é incomparavelmente pior, quis deturpar os factos, pois a sua declaração de voto, na redacção que foi divulgada em vários jornais, diz assim: «Importa sublinhar que os sindicatos reivindicam retroativos relativamente a todos os anos que as carreiras estiveram congeladas. Em nosso entender, o descongelamento já é um progresso, sendo que a verdade é que a questão dos retroativos não consta do programa do PS ou do programa do Governo, sendo algo injusto relativamente a outras carreiras atendendo, designadamente, ao facto de a progressão dos professores ser mais rápida que a existente no plano das carreiras gerais.» Paulo Guinote não pôde deixar passar sem apontar semelhante erro ou lapso ou trapalhada intencional: «Comecemos pela acepção mais corrente e “popular” do termo “retroactivos”. Consultando a Infopédia, como nome comum, um “retroactivo” corresponde a “montante que corresponde a pagamentos devidos e que estão em atraso”, sendo mais usado na forma plural (como o faz P.T.P.). Ora, isto é completamente falso. Em nenhum momento, mesmo de mais intenso conflito, professores ou sindicatos exigiram ou sequer sugeriram receber qualquer montante pelos anos em que a sua carreira esteve “congelada”» («Os “factos alternativos” à portuguesa», Paulo Guinote, Público, 4.12.2018, p. 45).

 

            [Texto 10 407]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | favorito | partilhar
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28
Nov 18

O que «endossar» não significa

Muitas línguas

 

      «À porta da minha faculdade há um grupo de alunas endossando trajes negros, estão dispostas em círculo, à volta de outras miúdas que vestem camisolas amarelas. As de fora insultam as que estão dentro, ordenam-lhes que gritem, que se ajoelhem, ameaçam bater-lhes com duas colheres de pau gigantescas (mas não batem)» («​A que brincam as meninas?», Nuno Camarneiro, Diário de Notícias, 28.11.2018, 6h16).

      A fartura também dá nisto, as muitas línguas baralham-se, não é? Nuno Camarneiro está enganado: endossar, neste contexto, está errado. Em francês, e o étimo do nosso endossar é francês, é que endosser significa «vestir, pôr nos ombros», neste caso, os tais trajes das tristes figuras. Com que então, Diário de Notícias, achavas que não precisavas de revisores... 

 

[Texto 10 370]

Helder Guégués às 21:48 | comentar | favorito | partilhar
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16
Nov 18

«Quilograma/quilo»

Mais trapalhadas jornalísticas

 

      «Faz parte de qualquer compêndio de piadas populares a velha “pergunta com ratoeira”: o que é mais pesado, um quilo de chumbo ou um quilo de penas? Os mais incautos responderão “um quilo de chumbo”, para gáudio do autor da pergunta, que responderá do alto da sua sabedoria que “pesam o mesmo”. Se já esteve numa destas duas posições, fique a saber que pode ter cometido dois erros. O primeiro é que não há “quilos”, apenas “quilogramas”. O segundo é que, em alguns pontos do mundo, um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem realmente não pesar o mesmo» («Sabia que um quilograma não pesa o mesmo em todo o mundo? Isso vai mudar e é uma decisão de peso», Gonçalo Teles e Joana Carvalho Reis, TSF, 16.11.2018, 8h56).

      Será excessivo afirmar que isto não tem pés nem cabeça? Com que então, não há quilos, apenas quilogramas, hã? Se o primeiro é a forma reduzida do segundo, são exactamente o mesmo. Primeiro erro. Um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem não pesar o mesmo? Trapalhada e segundo erro. Pesam, no mesmo sítio e no mesmo tempo, o mesmo. A variação, mínima, é geográfica, isto é, pode variar de local para local — com diferença de microgramas.

      Mais erros no mesmo artigo: «Não é só o quilograma que passa a ser medido com recurso a constantes físicas. Também o Ampere (A), que mede a corrente elétrica, o Kelvin (K), usado para a temperatura, e o “mol”, usado na medida de substâncias, vão sofrer alterações, passando a ser determinados com recursos [sic] a constantes.» Trapalhada. É o ampere (A), o kelvin (K) e a mole (mol). Difícil? No artigo da Rádio Renascença de terça-feira sobre o mesmo assunto, até a mim me induziram em erro, ao atribuírem também o género masculino a «mole».

 

[Texto 10 299]

Helder Guégués às 16:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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13
Nov 18

O oficial que não o é

Continuemos

 

      Como já corrigiram de Horta para Orta e de Pirinéus para Pirenéus (que trabalho lhes estou a dar, coitados!), passemos a outro erro, um que encontro até em traduções de grandes sumidades: «Assassinato de jornalista. Áudio da morte de Khashoggi horrorizou oficial saudita» (Rádio Renascença, 13.11.2018, 11h30). Oficial, pois... «“Quando ouviu (as gravações de voz), o funcionário dos serviços de informação saudita surpreendeu-se e disse: “Parece que tomou heroína (o assassino), isso só pode ter sido feito por alguém que tomou heroína”, declarou Recep Tayyip Erdogan.»

 

[Texto 10 281]

Helder Guégués às 13:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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