06
Jul 20

Monsaraz, Estremoz, Setúbal...

Passam os anos, não a ignorância

 

      Há coisas que nunca mudam. Vinha eu de Cascais na quinta-feira — Ui, um ciclista atropelado! — e, numa rádio, lá estava o locutor a estropiar o topónimo Reguengos de Monsaraz. Não me vou esforçar, basta republicar um texto do Assim Mesmo datado de 2006: «Felizmente, a pronúncia incorrecta, e tão vulgar, do topónimo Estremoz não passa para a escrita. Já quanto a Reguengos de Monsaraz, estamos mal. Já várias vezes ouvi jornalistas na televisão e na rádio pronunciarem “Monsarraz”, como se tivesse dois rr. Agora, passou mesmo para a escrita: “O Menir do Barrocal, o maior monumento pré-histórico existente no distrito de Évora, localizado em Reguengos de Monsarraz, está a ser estudado pela primeira vez” (“Maior menir do distrito vai ser estudado”, Diário de Notícias, 15.4.2006, p. 33).» Estremoz e Reguengos de Monsaraz, mas Setúbal também não saem escorreitamente do aparelho fonador de muitos jornalistas. Isto é normal?

 

[Texto 13 659]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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27
Jun 20

Pronúncia: «exógeno»

Ainda a tempo, certamente

 

    Gostei das intervenções do ex-ministro Miguel Poiares Maduro no programa Fronteiras XXI, na quarta-feira, na RTP3. Só não gostei que não soubesse repetidamente pronunciar a palavra «exógeno». Há sempre um senão. Se algum leitor do Linguagista conhecer o Prof. Poiares Maduro, por favor, avise-o de que aquele x vale zexógeno /z/, lê-se em alguns dicionários. É bem provável que viva mais três a quatro décadas, por isso ainda vai a tempo. Zzzzzzzz — não gzzzzzzz.

 

 [Texto 13 619]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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24
Jun 20

Raios ultravioletas

Qual invariável!

 

      «Apesar de reconhecer que “não há evidência de qualquer reação de fototoxicidade do álcool-gel”, o dermatologista [João Nuno Maia e Silva, da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC)] admite que, como há muitos produtos no mercado, algum antissético possa ter substâncias que provoquem reações alérgicas quando a pessoa se expõe ao sol» («Lavar e desinfetar, primeiro. Hidratar, depois. Pôr creme nas mãos é uma necessidade», TSF, 23.06.2020, 12h16).

      Lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na sua versão digital: «lesão na pele semelhante a queimadura solar provocada pelo contacto dos raios ultravioletas com uma substância (cosmético, fármaco) presente no organismo». Claro que está tudo bem, mas agora vão a correr descorrigir. Eu devia estar caladinho, e sempre era menos um erro com que se inoculam os pobres falantes, mas também quis demonstrar como a boca lhes foge para a verdade.

 

[Texto 13 608]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jun 20

Plural dos apelidos, mais uma vez

É só contar

 

      «Balsemão abdicam de 71 mil euros», titula hoje o Correio da Manhã. O que estará errado, o sujeito ou a pessoa verbal? Vamos à notícia: «O ‘chairman’ da Impresa (dona da SIC), Francisco Pinto Balsemão, e o presidente executivo, Francisco Pedro Balsemão, renunciaram ontem em assembleia-geral ao recebimento de bónus referentes ao ano de 2019, no total de 71 400 euros» (Correio da Manhã, 23.06.2020, p. 40). Vejamos se ainda sei fazer contas: Balsemão + Balsemão = Balsemãos. Não há dúvida: dois ou dois mil, é Balsemãos. Os apelidos têm, evidentemente, plural.

 

[Texto 13 605]

Helder Guégués às 13:00 | comentar | favorito
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Como se pontua por aí

O cartão-de-visita

 

      «É um abuso ridículo o ministro que não consegue manter aulas presenciais nas universidades, contratar duas vozes famosas da Opera Estatal de Berlim e um pianista para oferecer uma Gala de Ópera a umas dezenas de convidados no Teatro Thalia que tem à porta do MCTES» («Gala de Ópera», João Vaz, Correio da Manhã, 23.06.2020, p. 2).

      Julgam-se a reserva moral da República, mas não são o reduto da boa linguagem e do respeito das regras gramaticais. Neste excerto, é a pontuação, mas em todo o texto, além de mais erros de pontuação, é a ortografia que sai contundida. Isto, juntamente com a aplicação insipiente e trapalhona do Acordo Ortográfico de 1990, é o cartão-de-visita perfeito.

 

[Texto 13 604]

Helder Guégués às 12:30 | comentar | favorito
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«Tratar-se de», milésima vez

De cortar os pulsos

 

      «Luís Gaiba justificou ainda que os códigos “papéis” ou “papelada” que o MP diz serem utilizados entre si e o principal vendedor das armas, António Laranginha, tratavam-se realmente de papéis de que necessitava para o batismo da enteada. [...] “Carregadores” era outro suposto código, que o arguido disse tratarem-se de carregadores de telemóvel» («Compra de Audi trama polícia em furto e tráfico de armas», Rogério Matos, Jornal de Notícias, 19.06.2020, p. 16). É escusado, não aprendem.

 

[Texto 13 597]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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17
Jun 20

Ortografia: «pós-pandemia»

Mais importante?

 

      «Nove em cada dez empresas inquiridas não diversificou os mercados com que trabalhava, mas mais de 80% das que o fizeram, pretendem mantê-los na fase pós pandemia» («Dois terços das empresas que diversificaram produtos e serviços durante a pandemia mantêm decisão para o futuro», Ana Carrilho, Rádio Renascença, 15.06.2020, 20h32).

      A jornalista Ana Carrilho acha que é assim que se escreve — confundindo preposição com prefixo, ou ignorando o elementar. Vê-se muito este erro na imprensa, como se os jornalistas, de súbito, tivessem alguma coisa mais importante para fazer e não relessem os artigos que escreveram. Lamentável.

 

[Texto 13 558]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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16
Jun 20

«De vento em pompa»!

Já que falamos nisso

 

      «Félix e a namorada publicaram ao longo desse tempo fotos nas redes sociais que provam que o romance vai de vento em pompa e que as polémicas traições do jogador fazem parte do passado» («Regresso. Corceiro deixa João Félix», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 14.06.2020, p. 48).

      Já aqui tínhamos visto «de vento em poupa» ­escrito por um jovem editor. Enfim, a ignorância não conhece fronteiras, no que se assemelha ao novo coronavírus. Diga-se, muito a propósito, que não concordo com a definição da expressão de vento em popa que encontramos no dicionário da Porto Editora: «com felicidade». Apesar da sua secura, alguém vai meter água. Leiam Frei Domingos Vieira.

 

[Texto 13 553]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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