12
Ago 19

A língua na TV

Os ínclitos educadores do povo

 

      «Pençaste em mim?», lia-se numa mensagem de telemóvel de uma personagem da novela da TVI Amar depois de Amar. É o grande acontecimento linguístico deste arremedo de Verão.

 

[Texto 11 872]

Helder Guégués às 07:58 | comentar | favorito
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09
Jul 19

«Língua-mãe/língua materna»

Está a alastrar

 

      «Nascida na Bélgica há 60 anos, Ursula Gertrud von der Leyen, Albrecht de solteira, tem francês e alemão como línguas-mãe, fala também inglês e é considerada uma conservadora moderada. Antes de ser ministra do Trabalho e da Segurança Social (2009-2013), foi ministra Federal da Família, Cidadãos Sénior, Mulheres e Juventude (2005-2009). Em dezembro de 2013 foi nomeada para a Defesa, cargo que ocupa até hoje» («Da ginecologia à presidência da Comissão Europeia. Quem é a mulher que vai mandar na Europa», Cristina Peres, Expresso, 7.07.2019).

      Olhe que não, Cristina Peres, olhe que não: consulte um dicionário e verá que «língua-mãe» não é sinónimo de «língua materna», como erradamente pensa.

 

[Texto 11 717]

Helder Guégués às 10:13 | comentar | favorito
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17
Jun 19

O género de «ênfase», de novo

Só quatro segundos

 

      «Luís Montenegro vai participar na edição de julho do “Advanced Management Programme”, o programa de gestão avançada para executivos do Instituto Europeu para Administração de Empresas — INSEAD, sediado em Fontainebleau, França. [...] Questionado pelo Expresso, o ex-líder parlamentar do PSD confirma a informação, mas é parco em considerações. “Vou com o objetivo firme de me qualificar mais para o futuro, em todas as suas dimensões”, é o único comentário que profere. Para o caso, o ênfase na expressão “em todas as suas dimensões” equivale a uma reafirmação da sua candidatura» («Luís Montenegro vai estudar... para suceder a Rio e Costa», Filipe Santos Costa, Expresso, 16.06.2019, 13h00, itálico meu).

      Luís Montenegro, com um curso de quatro semanas, fica apto para ser primeiro-ministro. (Ou quase: também precisa de uma plástica para remover aquele sorrisinho embirrante.) Filipe Santos Costa — licenciado em Ciências da Comunicação! — precisa de uma ensaboadela de quatro segundos para ficar a saber que «ênfase» é do género feminino. Se eu fosse responsável por um dicionário, no verbete de ênfase punha uma chamada de atenção para o género do vocábulo, em que tantos erram.

 

[Texto 11 549]

Helder Guégués às 08:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Mai 19

Confusões: «à | há»

Para isto não há remédio

 

      É imprescindível termos bons dicionários, com indicações úteis e chamadas de atenção para as confusões mais habituais — mas, na aplicação, na escrita, o falante tem de se esforçar, em especial se o seu instrumento de trabalho for a língua. «Há frente, o Camry tem diversas regulações nos bancos, o que oferece a mais correta posição de condução» («Toyota Camry de volta ao mercado português com versão híbrida», José Carlos Silva, Rádio Renascença, 24.05.2019, 15h51). Como é que um redactor, repórter e editor, jornalista desde 1991, escreve assim? E por que raio não revê o que escreve? Passaram dois dias, como é que ninguém vê e corrige?

 

[Texto 11 421]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | favorito
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21
Mai 19

Pleonasmo? Ná

O mal está feito

 

      «Fiquei muito irritado quando ouvi Berardo dizer: “Eu pessoalmente não tenho dívidas.” Fiquei muito irritado, porque “eu pessoalmente” ou “na minha opinião pessoal” são daqueles pleonasmos que me esfrangalham os nervos» («Berardo, o disléxico», Tubo de Ensaio, Bruno Nogueira e João Quadros, TSF, 13.05.2019).

      Talvez João Quadros saiba, é a hipótese mais benévola e simpática, o que é um pleonasmo — mas não soube analisar correctamente a frase destacada, na qual não há nenhum pleonasmo. Espero que isto não lhe esfrangalhe os nervos, pois é apenas um forte abanão nessas convicções.

 

[Texto 11 395]

Helder Guégués às 13:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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04
Mai 19

O AOLP90 no dia-a-dia

Já não voam tanto

 

      «Eurocépticos, nalguns casos populistas e xenófobos, antissistema. Nas eleições europeias de há 5 anos, vimos aumentar algumas destas forças políticas… E agora, como será em 2019?» («Eleições numa Europa cada vez mais fragmentada», Rádio Renascença, 4.05.2019).

      Se nos jornais é a pouca-vergonha que sabemos, quanto mais nas rádios, onde se habituaram durante décadas ao verba volant. Agora, com o scripta manent, é o que se vê. Ainda há dias, na Rádio Renascença, como vimos, escreveram «espanho-luso», que, mesmo depois de uma mensagem que lhes enviei, esteve 24 horas visível. Nem se envergonham nem aprendem. Lá se avenham.

 

[Texto 11 308]

Helder Guégués às 22:22 | comentar | favorito
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29
Abr 19

Como se escreve nos jornais

É para baixo

 

      «Se Sánchez resgatou o PSOE da miséria — saltando de 85 para 122 deputados, embora sem maioria — o PP, o vencedor das eleições de 2016, afundou-se a um nível estratosférico. Talvez Pablo Casado dure, como os seus compatriotas já conseguiram noutros tempos» («A vitória de Sánchez e a força do Vox», Ana Sá Lopes, Público, 29.04.2019, p. 4).

      O ideal era tocar no ombro de Ana Sá Lopes e cochichar-lhe: «Veja lá que está a escrever uma parvoíce.» Como isso nunca acontecerá, será sempre ex post facto. Que diacho, pois se se trata de afundar! O PP, alfobre de corruptos, afundou-se a um nível batipelágico. (Ah, não olhem assim para mim, eu não tenho a culpa de os dicionários não registarem aquele sentido figurado de alfobre.)

 

[Texto 11 278]

Helder Guégués às 22:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Abr 19

Léxico: «hispano»

Que seja a última

 

      «Com a questão da Catalunha e a extrema-direita a ganhar votos, sobretudo na Andaluzia, estas Eleições Gerais em Espanha vão decidir o próximo Governo. Espanha é o principal parceiro económico de Portugal. Que impacto terão os resultados na nossa própria vida política? Este sábado, no da Capa à Contracapa, as eleições espanholas vão estar em análise. São convidados Lívia Franco, especialista em questões geopolíticas, Professora e Investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e o jornalista Enrique Pinto-Coelho que, sendo espanho-luso, tem essa característica única de poder votar em Espanha e em Portugal. Atualmente, é correspondente em Portugal do canal espanhol La Sexta e colabora com vários outros meios como repórter e tradutor» («Eleições em Espanha. Que impacto para Portugal?», Rádio Renascença, 27.04.2019).

      Há coisas que só veremos uma vez na vida. Com sorte, algumas nunca as chegaremos a ver. A esta podíamos ter sido poupados. Desde quando é que a forma reduzida de espanhol é «espanho»? Será que Enrique Pinto-Coelho sabe que dizem que ele é — deixem-me cruzar os dedos — «espanho-luso»? Hispano, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer é identificado como redução vocabular; remete-se para hispânico e já está, o falante que se desenrasque. Tanta sucintez (palavra que aquele dicionário ignora) por vezes desemboca em ignorância.

 

 

[Texto 11 263]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Abr 19

«Vetar à sorte»?!

Confrangedor

 

      «A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) adianta que o número de mortes por insuficiência cardíaca pode aumentar em 73% em 2036 e a carga da doença, que engloba os anos de vida perdidos por morte e incapacidade, vai crescer 28% relativamente a 2014. [...] “Porque ser reanimado é um direito cívico, porque não podemos ter a nossa vida vetada à sorte e porque salvar vidas pode estar nas nossas mãos, aprender Suporte Básico de Vida (SBV) é um passo para não vivermos com ‘o coração nas mãos’”, refere a SPC» («Mata até três vezes mais que o cancro da mama. E já afeta meio milhão de portugueses», TSF/Lusa, 26.04.2019, 8h26).

      Debaixo de quantos olhos — na Sociedade Portuguesa de Cardiologia, na Lusa, na TSF — passou o desconchavo sem ninguém pestanejar? Esta cultura de negligência está demasiado arreigada para mudar da noite para o dia. Mesmo com vontade, que se não vislumbra, vai demorar.

 

[Texto 11 256]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | favorito
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