24
Fev 21

«Dignitário», de novo

Mais fácil falar

 

      «O titulo [sic] não é meu, mas sim de Javier Marías, escritor que compilou muitas das suas crónicas (El País Semanal) em livros. Nesta (Quando os tontos mandam, Relógio D’Água, 2018, pp. 162-164), Javier Marías insurge-se contra a conduta dos Estados italiano e francês, aquando da visita oficial, do Presidente do Irão, Hassan Rohani em 2016. Os italianos decidiram tapar as estátuas antigas dos Museus Capitolinos, para que os seus nus não ofendessem “o alto dignatário”» («Sem exigências», José Manuel Meirim, Público, 19.02.2021, p. 42).

      Pergunta o leitor R. A.: «O Público errou? Ou foi José Manuel Meirim? Ou foi Javier Marías?» Talvez nenhum, respondi. Se José Manuel Meirim citou bem, o erro é do tradutor e do revisor de Quando os Tontos Mandam. Seja como for, José Manuel Meirim, só neste excerto, já tem erros e más escolhas que cheguem. A pontuação é para esquecer: «aquando da visita oficial, do Presidente do Irão, Hassan Rohani em 2016». Não sei se já vos disse que só usaria «aquando» se me ameaçassem com uma arma, e mesmo assim, depende.

      Voltando ao que mais interessa: o correcto é dignitário. Contudo, o VOLP da Academia Brasileira de Letras, como já aqui lembrei, regista «dignitário» e «dignatário». Mais: é erro tão comum, que o encontramos por todo o lado. Num texto de apoio da Infopédia («Convento de N. Sra. do Carmo (Moura)»), lá está ele: «No lado oposto do Evangelho, o destaque vai para a Capela de S. Martinho, com o seu portal clássico quinhentista, sobrepujado pelo brasão eclesiástico dos Limpos, símbolo heráldico que materializa o patrocinador deste empreendimento, o alto dignatário religioso originário de Moura e que foi arcebispo de Braga, D. Frei Baltasar Limpo.»

 

[Texto 14 731]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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23
Fev 21

Como se escreve por aí

Só vejo um erro

 

      «Voltamos à relação bilateral e percebe-se como Portugal é tão especial para o diplomata, que fala com gosto das Descobertas, nota que Juan de Fuca, que navegou na costa ocidental do Canadá ao serviço de Filipe II, era um grego, tal como havia gregos na frota de Magalhães, um deles, de Chios, um dos 18 que regressaram com Elcano a Espanha, fazendo a circum-navegação. Também a língua portuguesa lhe é querida, notando que talvez 30% das palavras tenham origem grega, e nem sempre as óbvias, mas também, por exemplo, “assintomáticos”, que até pronunciamos igual» («“Um alentejano combateu na guerra da independência grega”», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 20.02.2021, 00h26).

      Só é pena o nome da ilha, que é Quios. Chios é coisa de ratos, Leonídio Paulo Ferreira.

 

[Texto 14 723]

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22
Fev 21

Escrevam e digam cem vezes: «cônjuge»

Não diga isso

 

      O secretário-geral do PCP (ou, como se diz na maioria da imprensa, o «líder do PCP»), Jerónimo de Sousa, veio dizer na semana passada que os trabalhadores de serviços essenciais deviam passar a ter acesso às escolas de apoio, «independentemente de terem ou não o cônjugue em teletrabalho ou que em alternativa o cônjugue passe a receber o apoio a 100 por cento». Disse — e disse mal. Mas é erro mais comum do que se pensa, e já o vimos na boca e na pena de tradutores, jornalistas e gente com mais anos de instrução do que Jerónimo de Sousa. Essa é que é essa.

 

[Texto 14 718]

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15
Fev 21

As confusões habituais

Como se não houvesse dicionários

 

      Erro que se vê muito: «A enfermeira Margarida Rodrigues diz à SÁBADO que os “atropelos” eram espectáveis» («Como falhou o plano de vacinação», Marco Alves, Lucília Galha e Margarida Davim, Sábado, 11-17.02.2021, p. 32). Um dos três podia ter comprovado que não é assim. Temos espectável e expectável. No contexto, o que se esperava era expectável — que se pode esperar; provável. Já espectável é o digno de ser visto; notável.

 

[Texto 14 691]

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04
Fev 21

Pronúncia: «devoto»

Dê voto

 

      Quem conhecer André Ventura, por favor, avise-o de que deu uma valente silabada ao proferir a palavra «devoto». Caramba, quantas vezes já terá ele pronunciado a palavra «voto»? Centenas, milhares. Então, o o de devoto é igualmente aberto, dəˈvɔtu. Vá, chega de disparates, toca a aprender. Até as crianças sabem. (Sim, fiz a experiência.)

 

[Texto 14 651]

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Solução: «turco-arménio | armeno-turco»

Fica agora a saber

 

      «Por decisão do Papa Francisco, três santos considerados “doutores da Igreja” passam a ter uma data específica para serem venerados pelos fiéis do mundo inteiro: São Gregório de Narek (turco-armeno, 950-...), abade e doutor da Igreja, no dia 27 de fevereiro; São João de Ávila (espanhol, 1499-1569), presbítero e doutor da Igreja, no dia 10 de maio; Santa Hildegarda de Bingen, (alemã, 1098-1179) virgem e doutora da Igreja, no dia 17 de setembro» («Papa inclui novos santos no calendário», Aura Miguel, Rádio Renascença, 2.02.2021, 11h55).

      É claro que Aura Miguel escorregou — ou porque não sabe ou por lapso. Nunca uma forma reduzida, neste caso, «armeno», está à direita numa palavra composta. Como escreveu, é italiano.

 

[Texto 14 650]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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