24
Abr 18

Desgraçado verbo «haver»

Contra a gramática

 

      «Corto Maltese, o marinheiro das mil aventuras, Sandokan, o pirata conhecido como Tigre da Malásia, ou Sindbad, o herói das sete viagens e das mil e uma noites, são alguns dos vizinhos do náufrago Robinson Crusoé. Estes aventureiros dos mares e da imaginação juntaram-se há 20 anos, nas ruas do Parque das Nações, por escolha de José Sarmento de Matos, o olisipógrafo que batizou as 199 ruas nascidas no bairro herdeiro da Expo 98. [...] A regra determina que, na mesma cidade, não podem haver duas ruas com o mesmo nome e Sarmento de Matos respeitou o princípio, com uma exceção» («Sarmento de Matos, o padrinho da Expo», Dina Soares, Rádio Renascença, 24.04.2018, 8h00).

      Não tinha ideia de que o Parque das Nações tivesse tantas ruas. Quanto ao verbo «haver»... Bem, disto tinha ideia: a pedido de várias pessoas incompetentes, o melhor é admitir-se tudo, e então já não nos preocupamos.

 

[Texto 9097]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Abr 18

Como escrevem (alguns) professores

E persigno-me

 

      Noutra aba está um professor, com cara de bebe-água (apanha, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), que escreve: «Com o passar do tempo creio que acabamos por cair em rotinas e perdemos, ou melhor, esquece-mo-nos que escrever, até pode ser divertido.» Pobres criancinhas! Revoltem-se, e terão aqui um denodado paladino.

 

[Texto 9081]

Helder Guégués às 23:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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17
Abr 18

O moral/a moral

Uma velha questão

 

      Inês Maria Meneses e o Prof. Júlio Machado Vaz lá continuam no Amor É... firmes como rochas. Firmes, eles, porque a gramática, volta não volta, treme um pouco: hoje, ambos falaram «da moral em baixo» dos profissionais de saúde. Inês Maria Meneses e Prof. Júlio Machado Vaz, em português, nesta acepção de estado de espírito, moral é do género masculino — o moral. (E estará mesmo? Vejo-os sempre tão felizes!) Se algum leva-e-traz se quiser fazer útil sem deixar de fazer o que sempre faz, que conte tudo àquelas personagens hertzianas.

 

[Texto 9068]

Helder Guégués às 22:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Mar 18

«Mandado/mandato»

Mais uma infausta vez

 

      «Em setembro de 2009, um motard alemão membro dos Hells Angels foi detido no Algarve, onde estava escondido. Era alvo de um mandato de captura internacional pelo assassinato de um elemento de um gangue rival, na Alemanha. O crime está relacionado com o tráfico de droga. O suspeito foi extraditado» («Hells Angels Portugal. Uma história de violência», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 25.03.2018, 15h04).

      Coitados dos leitores e dos ouvintes: já sabem pouco e a lerem isto só podem ficar a saber menos. Era bom que fosse apenas a confusão mandado/mandato, era, mas é muito mais do que isso. Podia ser despiorado pelo menos em seis coisinhas, isto quando não passam de três linhas.

 

[Texto 8970]

Helder Guégués às 22:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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24
Mar 18

Como se fala na rádio

Eliminem isso

 

      Repórter Rita Fernandes, da Antena 1, em vários noticiários: «Armados com facas, marretas e paus de madeira, um grupo de motards bloqueou uma rua no Prior Velho, invadiu um café e agrediu outro grupo que estaria dentro do estabelecimento.» O comissário José Monteiro, da PSP, disse que se tratava de paus, mas a jornalista achou que devia especificar, não fossem os ouvintes pensar que fossem paus de canela ou paus de incenso ou até, uma vez que aconteceu num café, paus de gelado. E parece que a repórter também exagerou um tudo-nada ao dizer que eram marretas, quando o comissário falou em martelos. Quem conta um conto...

 

[Texto 8966]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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18
Mar 18

Erros na publicidade

Qual topo!

 

      Aqui e ali, mupis com publicidade da BMW ao mais recente Série 5: «O topo ficou mais alto.» Ficou? De certeza? «Oferta de caixa automática e navegação professional.» Tantos especialistas nas agências de publicidade e depois — isto. Do luxo ao lixo foi um instante.

 

[Texto 8942]

Helder Guégués às 22:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Mar 18

As carpideiras do Facebook

É por isso que gosto de latim

 

      Não sei se os nossos lexicógrafos sabem que, no Brasil, carpideira, além de pessoa a quem se paga para chorar os defuntos durante os funerais (hired mourner, para a legião de anglófonos que nos segue), também designa uma alfaia, a capinadeira, talvez pela semelhança de sons. Há carpideiras — e não percebo porque não se pode dizer «carpideiro» — desde, sei lá, a Antiga Grécia. A estas, que eram pagas, sucederam outras, e sobretudo outros (e por isso a necessidade do «carpideiro»), que se atropelam para vir depor, gratuitamente, nas caixas de comentário de jornais e rádios o seu «RIP» ou «descanse em paz». Por vezes, uma alma mais lacrimosa manda mesmo os pêsames à família, letã ou melanésia que seja, como se conhecessem o defunto de toda a vida. Normalmente sem pontuação, mas sem outros erros, porque em RIP (que, se virem por extenso, requiescat in pace, já olham como boi para palácio) não cabem muitos erros. Já em «descanse em paz» cabe um mundo de possibilidades que eles, descendentes dos navegadores, exploram largamente: «descance em paz», «descançe em paz», «deskanse em paz», «descanse em pas», «descanse en paz», «desquanse em paz»... Descanse. Descanso.

 

[Texto 8917]

Helder Guégués às 12:46 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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