16
Out 18

Léxico: «chemsex»

Porcarias com nome estrangeiro

 

      «O consumo de novas substâncias psicoactivas em Portugal tem um carácter “aparentemente residual, experimental e volátil” e não se espera “um particular incremento do consumo deste tipo de substâncias”, segundo um relatório do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) divulgado na passada sexta-feira. Ainda assim, sobram preocupações que levam o SICAD a aconselhar a criação de serviços de drug checking em contextos festivos. [...] O pouco que se sabe em Portugal sobre os utilizadores das novas substâncias nas práticas de chemsex (práticas sexuais potenciadas pelo consumo de drogas, nomeadamente em festas) leva os autores do estudo a apontar a necessidade de estudar esta realidade no contexto português» («Novas drogas: analisar antes de consumir», Natália Faria, Público, 15.10.2018, p. 18).

      Se calhar até é bom que estas porcarias tenham nome estrangeiro, não é? No caso de chemsex, porém, eu levava-o para os dicionários como estrangeirismo, já que ninguém, vá-se lá saber porquê, quer melhorar e ampliar os bilingues.

 

[Texto 10 123]

Helder Guégués às 13:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
19
Jan 16

Léxico: «divisivo»

Meio latino, meio inglês

 

     «Não houve um único político britânico que não condenasse a retórica preconceituosa 
e ofensiva de Trump, nomeadamente o primeiro-ministro, David Cameron, que expressou o seu profundo desacordo com as “declarações estúpidas, erradas e divisivas” do milionário» («Clinton a caminho do sonho mas a ameaça Sanders é cada vez mais real», Alexandre Martins, Público, 19.01.2016, p. 24).

  «Divisive, stupid and wrong», disse Cameron. Aquele «divisivo» é, evidentemente, alienígena, mas vejo-o registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e no Dicionário Houaiss (2003). O Sr. Sacconi não o registou. Nem José Pedro Machado. Nem o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Nem Rebelo Gonçalves. No entanto, temos de o reconhecer, é termo — meio latino, meio inglês — que nos faz falta.

 

[Texto 6551]

Helder Guégués às 08:24 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
16
Jan 16

Português (a)celerado

Adeus, Miguel Barbosa

 

    «Com a disputa da penúltima etapa do Dakar pilotos e equipas despediram-se também do enorme bivouac que, ao longo de quinze dias, acolheu toda a caravana. A assistência, toda a parte mecânica e logística da prova funciona lá. É no bivouac que são servidas as refeições em horários específicos. É também no bivouac onde é feito todos os dias o briefing onde são dadas 
as indicações para o dia que se segue» («Adeus bivouac», Miguel Barbosa, Público, 16.01.2016, p. 49).

   «Você não faz noção, Miguel Barbosa», diria de novo Pilar Sacramento. Então, se quer mesmo usar a palavra, que seja aportuguesada, bivaque. Bem, os Espanhóis adaptaram-na para vivac. Adeus, Miguel Barbosa, estude também a pontuação com o vocativo.

 

[Texto 6547]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
26
Abr 15

Um anglicismo desnecessário

Está bem, não são ovas

 

  «O que se come do ouriço-do-mar são as gónadas (o sistema reprodutor muitas vezes, incorrectamente, chamado “ovas”) e o seu valor é maior no período pré-reprodutor, entre Janeiro e Abril, quando se encontram mais desenvolvidas. Isto significa, naturalmente, que a apanha está a comprometer os futuros stocks, impedindo a reprodução natural dos ouriços» («Ericeira prepara-se para ser a grande maternidade dos ouriços em Portugal», Alexandra Prado Coelho, Público, 26.04.2015, p. 19).

      Ficamos a saber que, afinal, são as gónadas e não ovas. Para darmos alguma coisa em troca, diremos que stock é um anglicismo desnecessário. Entre outros, a jornalista podia usar o termo «reserva».

 

[Texto 5790]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
25
Jul 14

Sobre «selfie»

Empatados

 

 

   «Quantas jovens se podem gabar de ter um selfie, um autorretrato, com uma rainha sorridente ao fundo?» («Isabel II ‘intrometeu-se’ em ‘selfie’ de adolescentes», Diário de Notícias, 25.07.2014, p. 14).

     Não se diz sempre uma selfie por acaso? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora atribui-lhe o género feminino. Já traduzir por «auto-retrato» supera em clareza o próprio dicionário. (Só me surpreende que não usassem outro estrangeirismo, porque na verdade é uma photobomb. Tudo antecipado pelo nosso Emplastro, que faz isto há anos.)

 

 

[Texto 4868]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
05
Abr 13

Sobre «maple»

A moda já passou

 

 

      «Notem os desnacionalizados de Portugal que ninguém por cá chama às poltronas essa coisa ridícula de maple, simples marca inglesa de poltronas feitas para exportação» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 13).

 

[Texto 2741]

Helder Guégués às 14:54 | comentar | favorito | partilhar
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15
Jul 12

Sobre «finning»

Eles é que são bons

 

 

      «A eurodeputada Maria do Céu Patrão Neves (na foto) considera “absolutamente inaceitável” a prática do finning (remoção das barbatanas dos tubarões, sendo as restantes partes do corpo do animal lançadas ao mar), proibida para toda a frota europeia em 2003» («Eurodeputada contra ‘finning’», J. C., Diário de Notícias, 15.07.2012, p. 19).

      Já uma vez vimos isto no Assim Mesmo (aqui). É claro que ninguém se dá ao trabalho ou se atreve a usar um termo português novo, como desbarbatanagem, ou desbarbatanação, ou desbarbatanamento. Inventivos são só os outros.

 

 [Texto 1830]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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14
Jul 12

Sobre: «lóbi»

Deixe-se disso

 

 

      «Quando Carolina do Mónaco, os filhos e os respectivos namorados entraram no lóbi do exclusivo hotel da estância de esqui de Crans Montana, nos Alpes suíços, era impossível não reparar que todos vestiam casacos Moncler» («Quem é a nova princesa do Mónaco?», Sónia Bento, Sábado, n.º 428, 12 a 18.07.2012).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «lóbi», remete para «lobby», e neste regista: «grupo de pressão; grupo dos que frequentam as antecâmaras dos parlamentos com o objectivo de influenciar os deputados no sentido de votarem de acordo com os seus interesses». Nesta acepção faz falta, mas na de «corridor or hall connected with a larger room or series of rooms and used as a passageway or waiting room» nem pouco mais ou menos. É que temos não uma mas três ou quatro palavras para significar o mesmo — e a jornalista não as pode ignorar a todas. É simplesmente lamentável.

 

 [Texto 1827] 

Helder Guégués às 10:40 | comentar | favorito | partilhar
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