22
Out 18

Léxico: «xistarca»

Mete água, isso é certo

 

      Ficam então a saber: no dia 11 de Novembro, vou participar na Corrida das Castanhas. Mais modestamente, vou apenas fazer a caminhada de quatro quilómetros, um passeio ligeiro. Faltam dezanove dias e onze horas e tal. No fim, castanhas e água-pé, mesmo para os fracotes. A entidade que organiza a corrida é a Xistarca. Lê-se no sítio da empresa: «O nome Xistarca é pouco comum no vocabulário português. No entanto, a sua origem tem profundos laços históricos que se prendem intimamente com as origens do desporto na Antiga Grécia. Xistarcas eram os orientadores da actividade atlética e gímnica daquela época. Este nome deriva do facto dos [sic] recintos desportivos de então, onde exerciam a sua actividade, serem revestidos de xisto.» Será assim? Hum... Xistarca é o nome que se dava ao funcionário responsável pelo xisto, que era o nome que se dava ao pórtico coberto ou colunata onde se exercitavam os atletas. A etimologia alude ao pavimento liso, polido do espaço, e não a xisto. Sendo assim, não sei se devo participar na corrida... E se se enganam de novo? Se metem água? Se, em vez de água-pé, nos dão água-ardente, ou, pior, água-chilra? E se cai uma carga de água? Mas estou a afogar-me em pouca água. Até amanhã.

 

[Texto 10 172]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | favorito | partilhar
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09
Out 18

Léxico: «uade/uádi»

Menos patente

 

      «No cômeço da guerra, o sultão era representado em Meca por um coraixida investido pomposamente no título de xerife alquibir (o grande xerife), cargo então ocupado por Hossaino ibne Ali — o pai daquele Faiçal que vimos expulso de Damasco e depois rei do Iraque, e de Abdalá, príncipe da Transjordânia» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 237).

      Já que Montexto anda a reler as Lendas e Narrativas de Herculano, aproveitemos para lembrar o que este autor nos ensinou sobre alquibir e uade. Não, naquela obra Herculano não usa a palavra uade, apenas almuadem (que muitos dos nossos autores e tradutores preferem ver travestida em muezim). Em português, uade deu também, na toponímia, ode — Odemira, Odeleite, Odeceixe, etc., e guade em castelhano — Guadalquivir, Guadalaviar, Guadalete, etc. Claro que nos dicionários não vemos nada disto.

 

[Texto 10 069]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | favorito | partilhar
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21
Jun 18

Puticlubs e casas de alterne

Ainda de manhã

 

      Envergonhado com o portunhol de Carlos Queiroz (mas porque não falam em português?), mudei para a RNE. No noticiário, falavam dos puticlubs — casas onde se exerce a prostituição —, locais a que em Portugal se dá habitualmente, pelo menos na imprensa, o nome de casa de alterne, e alterne, para quem não saiba, é castelhano do mais puro. O putismo ibérico. Na imprensa, digo bem, porque habitualmente se diz casa de putas, só um pouco menos fino do que clube de putas, puticlube, que não passa de eufemismo tonto e presumido.

 

[Texto 9462]

Helder Guégués às 07:09 | comentar | favorito | partilhar
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17
Mai 18

Léxico: «nadir»

O ponto oposto

 

      «“‘Nadir’, em hebreu, quer dizer ‘raro’ e eu acho que, realmente, aquele é um edifício raro [edifício da panificadora Panreal]. Como edifício, não é um edifício de que goste muito, mas isso tem pouca importância. Eu também não gosto de Versalhes, também não gosto de tantos outros monumentos, mas isso não quer dizer que não lute para que eles sejam preservados”, afirma a docente [e arqueóloga Mila Simões de Abreu] da UTAD» («“A vergonha de Vila Real” é um edifício de Nadir Afonso», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 17.05.2018, 8h00).

       Ora, nadir também é, não sei se sabem, nome comum, e designa o ponto contrário ao zénite, em que a vertical encontra a esfera celeste abaixo do observador. Debaixo dos nossos pés, digamos assim. Em árabe, língua a que pertence o étimo, significa precisamente ponto oposto. Poderá ter outro significado como nome próprio? Não me parece.

 

[Texto 9240]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | favorito | partilhar
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25
Fev 18

S. Jorge de Oitavos

Ninguém diria

 

      Quando passei de bicicleta em frente ao Forte de S. Jorge de Oitavos, na Estrada do Guincho (hoje não fui atropelado na ciclovia por nenhum grande empresário português de nome italiano), lembrei-me da última crónica de José d’Encarnação no Jornal da Região de Cascais: «Iniciou-se a sua construção logo em 1641, que ficou concluída em 1643. Tendo subido ao trono, por via da conspiração do 1.º de Dezembro de 1640, el-rei D. João IV encarregou logo os seus colaboradores militares de prepararem a defesa. Este baluarte, inicialmente chamado ‘da Cabeça de Oito Ovos’, integra, pois, o grupo de fortalezas que o monarca mandou erguer ao longo da costa para prevenir eventuais ataques dos Espanhóis, na Guerra da Restauração» («Ora então descubra lá onde é que isto está!», 22-28.02.2018, p. 18). De Oito Ovos (porquê?) para Oitavos, ninguém suspeitaria. Muito diferente, por exemplo, de Pedras Alvas para Pedralvas, ou Pena Alva para Penalva, ou Lagoa Alva para Lagoalva, mas mais semelhante, pela transfiguração sofrida, a Monte Santo para Monsanto.

 

[Texto 8808]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | favorito | partilhar
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05
Fev 18

De Ródão «rodense»?

Indiscutível — ou não

 

      Sabiam que o ceramista Manuel Cargaleiro é natural de Vila Velha de Ródão? Embora haja bons motivos para ir a Vila Velha de Ródão, é quase sempre referida na imprensa pelos piores motivos. Bem, mas não é disso que eu quero falar. Entre as questões que ninguém discute está esta: será mesmo assim tão óbvio que o gentílico relativo a Vila Velha de Ródão seja «rodense»? Pode ser o mais fácil, por analogia com outros semelhantes, mas eu esperava que fosse «rodanense».

 

[Texto 8688]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito | partilhar
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16
Jan 18

Silva Escura

Coisas da selva

 

      «Um homem de 69 anos matou a mulher de 66 anos e tentou cometer suicídio, esta terça-feira de manhã, na residência do casal, em Silva Escura, Sever do Vouga, disse à Lusa fonte da GNR» («Idoso matou a mulher e tentou cometer suicídio», Rádio Renascença, 16.01.2018, 14h05).

      Interessante este topónimo, Silva Escura. Saberão os nossos leitores que «silva», etimologicamente, significa «selva»? Sabiam? Cuidado com o nariz. Sim, há registos de que esta localidade já tinha este nome numa época anterior ao século X, sendo já habitada nessa altura, e era então coberta, precisamente, por cerrada selva — a silva do nome. E há mais Silvas no País.

 

[Texto 8588]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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10
Dez 17

Léxico: «podcast»

Seria mais informativo

 

      «A novidade começou por ser conhecida como “audioblogging”, só assumindo o nome podcast em 2004, num artigo do The Guardian. O termo é uma contracção dos termos broadcast e iPod, um aparelho da Apple que tinha revolucionado o áudio portátil. Aliás, a Apple é uma das maiores responsáveis pela popularização do formato, graças à criação de um segmento no software iTunes e de um directório na loja de conteúdos» («Os podcasts chegaram à idade maior», Diogo Queiroz de Andrade, Público, 5.12.2017, p. 28).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas que vem «do inglês podcast, “idem”».

 

[Texto 8457]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | favorito | partilhar