18
Jun 20

Etimologia: «genocídio»

Isso é que era

 

      «Ferencz foi o primeiro a usar em tribunal o termo “genocídio”, inventado por Raphael Lemkin [1900-1959], um advogado polaco judeu. É uma contração da palavra grega ‘genus’ (espécie, raça, povo) e da latina ‘caedera’ (matar). Lemkin descreveu o conceito no seu livro “O Domínio do eixo na Europa Ocupada” (1948) como a “destruição de uma nação ou de um grupo étnico”» («“O pensar de Trump é o pensar de Hitler”», Colin van Heezik, tradução de Luís M. Faria, «Revista E»/Expresso, 16.05.2020, p. 52). Percebo, mas não se trata de uma contracção. Já o «caedera» é erro do tradutor, porque no original está, e bem, «cædere». Por outro lado, não devia esta informação etimológica estar em todos os dicionários?

 

[Texto 13 571]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
17
Jun 20

Léxico: «evinel», de novo

Uma estranha ausência

 

      Outra coisa que não ficou bem resolvida foi o verbete de evinel. Neste caso, porém, não a definição, mas a estranha ausência da nota etimológica. Então, em capoto diz-se que provém de uma marca comercial e até se foi ao extremo de anotar o que significa o nome comum (o que me parece supérfluo) e em evinel omite-se que provém também, como eu realcei então, de uma marca registada? Se pesquisarmos na base de dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, vemos que a marca, entretanto caducada, era propriedade da Covina – Companhia Vidreira Nacional. Custa assim tanto escrever isto — que deriva do nome comercial Evinel — no verbete?

 

[Texto 13 565]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Mai 20

Topónimo: «Atouguia»

Incerta ou talvez não

 

      Ontem, um leitor habitual do blogue quis saber se eu tinha alguma pista sobre o topónimo Atouguia. Acrescentou que tinha consultado a Infopédia, pela qual ficara a saber que era «de origem pré-romana incerta, acrescentado de um a- protésico». Lançou ainda alguns raios e coriscos a propósito das remissões (neste caso, de «protético» para «protésico») no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Segundo alguns autores, em documentos medievais, o topónimo Atouguia aparece grafado Taugia, Tougia ou Touria (as tais formas pré-protésicas), em referência aos touros da Coroa que então por ali pastavam. Convenhamos que não repugna acreditar em tal etimologia. Até posso estar equivocado, mas o único autor que afirma tratar-se de topónimo importado não merece muito crédito nestas questões da toponímia, sequer da etimologia.

 

[Texto 13 321]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
19
Mar 20

O elemento «aspido-»

Lembrem-se da áspide

 

      «A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, agradeceu à Grécia ser “o escudo” da Europa (usou a palavra grega, aspida)» («Refugiados são “tratados como inimigo” ao chegarem à Grécia», Maria João Guimarães, Público, 4.03.2020, p. 2). Isso mesmo, e até temos o elemento de formação de palavras aspido-, que exprime a ideia de escudo.

 

 [Texto 12 980]

 

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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29
Jan 20

Etimologia: «charuto»

E agora teratologia

 

    Eu sei que alguns dos meus leitores têm uma enorme predilecção pela teratologia, e nem todos será por deformação profissional (mas de carácter?), e esta, a teratologia, também se aplica aos dicionários. Quando na terça-feira de manhã consultei o verbete charuto no dicionário da Porto Editora, deparei com isto, com este espectáculo: «Do tâmasculino churuttu, “envolver; enrolar”, pelo inglês cheroot, “charuto de pontas cortadas”». Será do «tâmul», mas veio agarrado na ponta do cursor um «masculino», e formou-se ali aquele conúbio. E já que aqui chegámos, diga-se seriamente que essa etimologia é demasiado controversa para se gravar na pedra assim de ânimo leve. Ah, sim, e faltam acepções em charuto, mas isto costuma passar.

 

[Texto 12 731]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
18
Nov 19

Etimologia: «sabal»

Ah, a etimologia

 

      Foi o botânico francês Michel Adanson (1727-1806) que, em 1763, chamou sabal (do termo francês sable ou do crioulo sab, «areia»?) a certa palmeira, mas no dicionário da Porto Editora diz-se que é «latim científico». O latim também tem costas largas.

 

[Texto 12 304]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
24
Jun 19

Etimologia: «vegetarianismo»

Fica mascarado

 

      «É em A Cura Natural, de 1907, que Mich Larsen, apresentado como médico da Câmara Municipal de Copenhaga, explica a origem da palavra vegetarianismo, esclarecendo que não parte de “vegetais”, como seria de esperar: “Deriva da palavra vegetus que significa forte, saudável, alegre, podendo pois talvez vegetarianismo mais propriamente traduzir-se como hábitos de vida fortificantes que produzem bom humor”» («Vegano carnívoro é a nova moda», Maria Espírito Santo, Sábado, 11-16.04.2019, p. 41). É verdade, e até temos, vinda directamente do latim, a palavra végeto, «bem nutrido, robusto». Infelizmente, como vegetariano vem do francês végétarien, é informação que não chega normalmente ao falante que consulta um dicionário.

 

[Texto 11 606]

Helder Guégués às 21:40 | comentar | favorito
11
Mar 19

O «veado» brasileiro

Omitindo todas as outras

 

      «Quem percorre as salas do Senado Federal, a câmara alta do Parlamento brasileiro, vê a entrada do plenário, num lado, o restaurante do outro, o café mais à frente, salas de reuniões aqui e ali e, claro, os gabinetes dos senadores, os mais seletos eleitos da nação. O gabinete 19, o 20, o 21, o 22, o 23... o 25. E o 24? Porque nenhum senador brasileiro tem o gabinete 24? [...] E o número 24 é o do veado, animal conotado com homossexualidade no país — a palavra “transviado”, usada antigamente para apontar o dedo aos gays, foi reduzida a “viado”, com ‘i’, e daí, por proximidade fonética, transformada em “veado”, com ‘e’» («Cadê o gabinete número 24? Quando a homofobia e a infantilidade falam mais alto», João Almeida Moreira, TSF, 7.03.2019, 11h38).

      João Almeida Moreira deve saber que esta é apenas uma das mais de seis teorias sobre a origem da palavra.

 

[Texto 10 945]

Helder Guégués às 08:13 | comentar | favorito
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