18
Nov 19

Etimologia: «sabal»

Ah, a etimologia

 

      Foi o botânico francês Michel Adanson (1727-1806) que, em 1763, chamou sabal (do termo francês sable ou do crioulo sab, «areia»?) a certa palmeira, mas no dicionário da Porto Editora diz-se que é «latim científico». O latim também tem costas largas.

 

[Texto 12 304]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
24
Jun 19

Etimologia: «vegetarianismo»

Fica mascarado

 

      «É em A Cura Natural, de 1907, que Mich Larsen, apresentado como médico da Câmara Municipal de Copenhaga, explica a origem da palavra vegetarianismo, esclarecendo que não parte de “vegetais”, como seria de esperar: “Deriva da palavra vegetus que significa forte, saudável, alegre, podendo pois talvez vegetarianismo mais propriamente traduzir-se como hábitos de vida fortificantes que produzem bom humor”» («Vegano carnívoro é a nova moda», Maria Espírito Santo, Sábado, 11-16.04.2019, p. 41). É verdade, e até temos, vinda directamente do latim, a palavra végeto, «bem nutrido, robusto». Infelizmente, como vegetariano vem do francês végétarien, é informação que não chega normalmente ao falante que consulta um dicionário.

 

[Texto 11 606]

Helder Guégués às 21:40 | comentar | favorito
11
Mar 19

O «veado» brasileiro

Omitindo todas as outras

 

      «Quem percorre as salas do Senado Federal, a câmara alta do Parlamento brasileiro, vê a entrada do plenário, num lado, o restaurante do outro, o café mais à frente, salas de reuniões aqui e ali e, claro, os gabinetes dos senadores, os mais seletos eleitos da nação. O gabinete 19, o 20, o 21, o 22, o 23... o 25. E o 24? Porque nenhum senador brasileiro tem o gabinete 24? [...] E o número 24 é o do veado, animal conotado com homossexualidade no país — a palavra “transviado”, usada antigamente para apontar o dedo aos gays, foi reduzida a “viado”, com ‘i’, e daí, por proximidade fonética, transformada em “veado”, com ‘e’» («Cadê o gabinete número 24? Quando a homofobia e a infantilidade falam mais alto», João Almeida Moreira, TSF, 7.03.2019, 11h38).

      João Almeida Moreira deve saber que esta é apenas uma das mais de seis teorias sobre a origem da palavra.

 

[Texto 10 945]

Helder Guégués às 08:13 | comentar | favorito
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09
Dez 18

Léxico: «epitáfio»

Uma ajuda

 

      «Que nos dizem os epitáfios, de que nos fala essa literatura funerária, por conseguinte marginal, que algo de morto pretende conservar, através da escrita? A etimologia da palavra vem do grego, “epi” (sobre) e “taphos” (sepultura). Texto de adeus, memória gravada» («Os crisântemos da escrita», Branquinho Pequeno, Diário de Lisboa, 31.10.1990, p. 4).

      Está certíssimo. Vem complementar o que os dicionários indicam sobre a etimologia deste vocábulo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, dá esta indicação: «Do grego epitáphion, “inscrição tumular”, pelo latim epitaphĭu-, “idem”». O prefixo epi-, de origem grega, exprime, de facto, a ideia de por cima de, sobre, fora de, por fora de, e faz parte de muitos vocábulos da língua portuguesa.

 

            [Texto 10 426]

Helder Guégués às 12:09 | comentar | favorito
22
Out 18

Léxico: «xistarca»

Mete água, isso é certo

 

      Ficam então a saber: no dia 11 de Novembro, vou participar na Corrida das Castanhas. Mais modestamente, vou apenas fazer a caminhada de quatro quilómetros, um passeio ligeiro. Faltam dezanove dias e onze horas e tal. No fim, castanhas e água-pé, mesmo para os fracotes. A entidade que organiza a corrida é a Xistarca. Lê-se no sítio da empresa: «O nome Xistarca é pouco comum no vocabulário português. No entanto, a sua origem tem profundos laços históricos que se prendem intimamente com as origens do desporto na Antiga Grécia. Xistarcas eram os orientadores da actividade atlética e gímnica daquela época. Este nome deriva do facto dos [sic] recintos desportivos de então, onde exerciam a sua actividade, serem revestidos de xisto.» Será assim? Hum... Xistarca é o nome que se dava ao funcionário responsável pelo xisto, que era o nome que se dava ao pórtico coberto ou colunata onde se exercitavam os atletas. A etimologia alude ao pavimento liso, polido do espaço, e não a xisto. Sendo assim, não sei se devo participar na corrida... E se se enganam de novo? Se metem água? Se, em vez de água-pé, nos dão água-ardente, ou, pior, água-chilra? E se cai uma carga de água? Mas estou a afogar-me em pouca água. Até amanhã.

 

[Texto 10 172]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | favorito
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09
Out 18

Léxico: «uade/uádi»

Menos patente

 

      «No cômeço da guerra, o sultão era representado em Meca por um coraixida investido pomposamente no título de xerife alquibir (o grande xerife), cargo então ocupado por Hossaino ibne Ali — o pai daquele Faiçal que vimos expulso de Damasco e depois rei do Iraque, e de Abdalá, príncipe da Transjordânia» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 237).

      Já que Montexto anda a reler as Lendas e Narrativas de Herculano, aproveitemos para lembrar o que este autor nos ensinou sobre alquibir e uade. Não, naquela obra Herculano não usa a palavra uade, apenas almuadem (que muitos dos nossos autores e tradutores preferem ver travestida em muezim). Em português, uade deu também, na toponímia, ode — Odemira, Odeleite, Odeceixe, etc., e guade em castelhano — Guadalquivir, Guadalaviar, Guadalete, etc. Claro que nos dicionários não vemos nada disto.

 

[Texto 10 069]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | favorito
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