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Linguagista

Etimologia: «abater»

Ou parecerá que é tudo o mesmo

 

      «La décision sanitaire d’abattre des élevages contaminés par la dermatose suscite des réactions violentes. Le mot vient du verbe latin battuere, qui signifie “frapper de façon à faire tomber”» («Abbatre», Étienne de Montety, Le Figaro, 15.12.2025, p. 33).

      A Porto Editora afirma que abater vem «do latim tardio abbatt(u)ĕre, de battuĕre, “bater”», como se fosse tudo a mesma coisa. Étienne de Montety recua ao mesmo verbo de base (battuere), mas capta o essencial: «frapper de façon à faire tomber» — ou seja, não é apenas bater, é bater para derrubar. E é justamente esse valor que o prefixo ab- introduz e que o dicionário omite.

[Texto 22 110]

 

Definição e etimologia: «tramontana»

Até o vento acaba

 

      «Es un viento “fuerte, seco, frío y limpio” que devuelve al cielo su “azul puro” y que “despeja la mente y tonifica el espíritu”. Una fuerza natural que “inspira a poetas, pintores y cantantes, incluso Dalí le dedicó su Crist de la Tramuntana”, escribe Miguel Félix Chicón. Este marino mercante, que estuvo durante 26 años al frente de Salvamento Marítimo en Baleares, acaba de publicar Navegar es necesario (Mallorca Press, 2025), el libro que recopila sus artículos de divulgación sobre el mar. Y en su obra, no podía ser de otra forma, dedica un apartado a la tramontana. Es un viento mítico. El único con nombre femenino, cuya denominación procede del latín transmontanus, más allá de las montañas, ya sean los Pirineos o los Alpes, murallas naturales que el viento sortea para llegar al mar y agitar las aguas con la violencia de una coctelera» («Por qué ya no sopla la tramontana en Baleares», Edu Colom, El Mundo, 9.12.2025, p. 44).

      Muita matéria para melhorar a definição que encontramos nos nossos dicionários, e até sobretudo no que diz respeito à etimologia — que não tem absolutamente nada que ver com norte. Sim senhor, este famigerado vento sopra de norte, mas a etimologia nada tem que ver com isso. Assim, proponho tramontana vento frio, seco e intenso que sopra de norte ou nordeste nas regiões mediterrânicas ocidentais, geralmente em episódios de céu limpo e grande visibilidade, decorrente da descida de ar polar continental canalizado por cadeias montanhosas como os Alpes e os Pirenéus.

     A etimologia (e que Deus nos valha!) é do italiano tramontana, pelo latim transmontanus, «do outro lado das montanhas».

[Texto 22 092]

Definição e etimologia: «desnatalidade»

Não me parece

 

      Ultimamente, tenho lido na imprensa francesa vários artigos sobre a desnatalidade. Este foi o mais recente: «Pourquoi les Français font-ils moins de bébés? La question devient plus pressante chaque année, à mesure que la courbe de la natalité continue de dégringoler depuis 2010. En 2024, 660 800 nouveau-nés ont vu le jour, soit le nombre le plus faible depuis la fin de la Seconde Guerre mondiale. En une dizaine d’années, le taux de fécondité est passé de 2 à 1,68 enfant par femme» («Des députés à la recherche des causes de la dénatalité», Agnès Leclair, Le Figaro, 22.11.2025, p. 10).

      A Porto Editora, que acolhe o termo — «decréscimo populacional resultante de um défice continuado da taxa de nascimentos em relação à taxa de mortalidade numa determinada região» —, labora num grande, enorme erro: desnatalidade não é sinónimo de decréscimo populacional. Pode conduzir a ele, sim, mas designa, de forma específica, o fenómeno de baixa natalidade, muitas vezes medido por a taxa de fecundidade ser inferior ao limiar de reposição geracional. Mais grave: o decréscimo populacional pode até não ocorrer, mesmo em cenário de desnatalidade persistente, se houver um fluxo migratório suficiente para compensar esse défice. É o que sucede em vários países europeus, como a França, referida no artigo, e, mais recentemente, em Portugal. Reduzir desnatalidade a «decréscimo populacional» é, por isso, tanto um erro terminológico como um erro de análise demográfica. Assim, proponho desnatalidade baixa taxa de natalidade, geralmente inferior ao nível necessário para assegurar a substituição geracional, podendo conduzir ao envelhecimento e à redução da população.

      Etimologia: do francês dénatalité, derivado de dé- (negação ou diminuição) + natalité («natalidade»), este do latim natalis, «relativo ao nascimento», de natus, particípio de nasci, «nascer».

[Texto 22 035]