25
Fev 18

S. Jorge de Oitavos

Ninguém diria

 

      Quando passei de bicicleta em frente ao Forte de S. Jorge de Oitavos, na Estrada do Guincho (hoje não fui atropelado na ciclovia por nenhum grande empresário português de nome italiano), lembrei-me da última crónica de José d’Encarnação no Jornal da Região de Cascais: «Iniciou-se a sua construção logo em 1641, que ficou concluída em 1643. Tendo subido ao trono, por via da conspiração do 1.º de Dezembro de 1640, el-rei D. João IV encarregou logo os seus colaboradores militares de prepararem a defesa. Este baluarte, inicialmente chamado ‘da Cabeça de Oito Ovos’, integra, pois, o grupo de fortalezas que o monarca mandou erguer ao longo da costa para prevenir eventuais ataques dos Espanhóis, na Guerra da Restauração» («Ora então descubra lá onde é que isto está!», 22-28.02.2018, p. 18). De Oito Ovos (porquê?) para Oitavos, ninguém suspeitaria. Muito diferente, por exemplo, de Pedras Alvas para Pedralvas, ou Pena Alva para Penalva, ou Lagoa Alva para Lagoalva, mas mais semelhante, pela transfiguração sofrida, a Monte Santo para Monsanto.

 

[Texto 8808]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | favorito
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05
Fev 18

De Ródão «rodense»?

Indiscutível — ou não

 

      Sabiam que o ceramista Manuel Cargaleiro é natural de Vila Velha de Ródão? Embora haja bons motivos para ir a Vila Velha de Ródão, é quase sempre referida na imprensa pelos piores motivos. Bem, mas não é disso que eu quero falar. Entre as questões que ninguém discute está esta: será mesmo assim tão óbvio que o gentílico relativo a Vila Velha de Ródão seja «rodense»? Pode ser o mais fácil, por analogia com outros semelhantes, mas eu esperava que fosse «rodanense».

 

[Texto 8688]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
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16
Jan 18

Silva Escura

Coisas da selva

 

      «Um homem de 69 anos matou a mulher de 66 anos e tentou cometer suicídio, esta terça-feira de manhã, na residência do casal, em Silva Escura, Sever do Vouga, disse à Lusa fonte da GNR» («Idoso matou a mulher e tentou cometer suicídio», Rádio Renascença, 16.01.2018, 14h05).

      Interessante este topónimo, Silva Escura. Saberão os nossos leitores que «silva», etimologicamente, significa «selva»? Sabiam? Cuidado com o nariz. Sim, há registos de que esta localidade já tinha este nome numa época anterior ao século X, sendo já habitada nessa altura, e era então coberta, precisamente, por cerrada selva — a silva do nome. E há mais Silvas no País.

 

[Texto 8588]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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10
Dez 17

Léxico: «podcast»

Seria mais informativo

 

      «A novidade começou por ser conhecida como “audioblogging”, só assumindo o nome podcast em 2004, num artigo do The Guardian. O termo é uma contracção dos termos broadcast e iPod, um aparelho da Apple que tinha revolucionado o áudio portátil. Aliás, a Apple é uma das maiores responsáveis pela popularização do formato, graças à criação de um segmento no software iTunes e de um directório na loja de conteúdos» («Os podcasts chegaram à idade maior», Diogo Queiroz de Andrade, Público, 5.12.2017, p. 28).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas que vem «do inglês podcast, “idem”».

 

[Texto 8457]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | favorito
27
Nov 17

Léxico: «galicínio»

Hora a que os galos cantam

 

      E a propósito de gaios, lembrei-me daquela complexa divisão do dia a que procedeu Censorino, o gramático do século III. Uma dessas divisões era o gallicinium, primeiro cantar do galo. Ora, quem diria que essa palavra ainda resiste nos nossos dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Espantoso. Galicínio: «1. hora da manhã a que os galos cantam; 2. canto do galo».

 

[Texto 8405]

Helder Guégués às 21:45 | comentar | favorito
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05
Set 17

«Coli Sare»

Queremos saber

 

      Se virmos um mapa da Guiné-Bissau, o que encontramos é Coli Sare, e não Cóli-Sari, ali no triângulo formado por Farim, Olossato e Mansabá. Surpreende, no entanto, haver tão poucas referências à toponímia das ex-colónias portuguesas, isto num momento em que se publicam tantos livros sobre a Guerra Colonial. As aldeias dos Fulas com sare ou sara no nome significa que eram antigas; se tinham sintchã ou sintcham no nome, eram de fundação recente.

 

[Texto 8116]

Helder Guégués às 06:15 | comentar | favorito
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28
Jun 17

Etimologia: «floresta»

Explicando melhor

 

      «Florestas contínuas e contíguas não são floresta, são monoculturas. Floresta veio do latim forestis, derivado de foris (“fora”), que significa “mata exterior” com árvores, arbustos e plantas rasteiras, fora dos limites comunitários, onde só o rei estava autorizado a explorar a caça e a extracção de madeira» («Depressa e bem não há quem», Maria Amélia Martins-Loução [bióloga, professora catedrática da Universidade de Lisboa], Público, 28.06.2017, p. 47).

      Está certo, sim, mas faltou dizer alguma coisa mais: floresta quase de certeza veio do francês forêt, e este proviria de um adjectivo latino forestis ou ƒoresta, que significa o que se lê no texto, mas, dado que é um adjectivo, fica subentendido silva; assim silva forestis é que propriamente significa bosque exterior, fora dos limites comunitários.

 

[Texto 7956]

Helder Guégués às 13:59 | comentar | favorito
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