12
Mai 20

Topónimo: «Atouguia»

Incerta ou talvez não

 

      Ontem, um leitor habitual do blogue quis saber se eu tinha alguma pista sobre o topónimo Atouguia. Acrescentou que tinha consultado a Infopédia, pela qual ficara a saber que era «de origem pré-romana incerta, acrescentado de um a- protésico». Lançou ainda alguns raios e coriscos a propósito das remissões (neste caso, de «protético» para «protésico») no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Segundo alguns autores, em documentos medievais, o topónimo Atouguia aparece grafado Taugia, Tougia ou Touria (as tais formas pré-protésicas), em referência aos touros da Coroa que então por ali pastavam. Convenhamos que não repugna acreditar em tal etimologia. Até posso estar equivocado, mas o único autor que afirma tratar-se de topónimo importado não merece muito crédito nestas questões da toponímia, sequer da etimologia.

 

[Texto 13 321]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
19
Mar 20

O elemento «aspido-»

Lembrem-se da áspide

 

      «A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, agradeceu à Grécia ser “o escudo” da Europa (usou a palavra grega, aspida)» («Refugiados são “tratados como inimigo” ao chegarem à Grécia», Maria João Guimarães, Público, 4.03.2020, p. 2). Isso mesmo, e até temos o elemento de formação de palavras aspido-, que exprime a ideia de escudo.

 

 [Texto 12 980]

 

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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29
Jan 20

Etimologia: «charuto»

E agora teratologia

 

    Eu sei que alguns dos meus leitores têm uma enorme predilecção pela teratologia, e nem todos será por deformação profissional (mas de carácter?), e esta, a teratologia, também se aplica aos dicionários. Quando na terça-feira de manhã consultei o verbete charuto no dicionário da Porto Editora, deparei com isto, com este espectáculo: «Do tâmasculino churuttu, “envolver; enrolar”, pelo inglês cheroot, “charuto de pontas cortadas”». Será do «tâmul», mas veio agarrado na ponta do cursor um «masculino», e formou-se ali aquele conúbio. E já que aqui chegámos, diga-se seriamente que essa etimologia é demasiado controversa para se gravar na pedra assim de ânimo leve. Ah, sim, e faltam acepções em charuto, mas isto costuma passar.

 

[Texto 12 731]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
18
Nov 19

Etimologia: «sabal»

Ah, a etimologia

 

      Foi o botânico francês Michel Adanson (1727-1806) que, em 1763, chamou sabal (do termo francês sable ou do crioulo sab, «areia»?) a certa palmeira, mas no dicionário da Porto Editora diz-se que é «latim científico». O latim também tem costas largas.

 

[Texto 12 304]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
24
Jun 19

Etimologia: «vegetarianismo»

Fica mascarado

 

      «É em A Cura Natural, de 1907, que Mich Larsen, apresentado como médico da Câmara Municipal de Copenhaga, explica a origem da palavra vegetarianismo, esclarecendo que não parte de “vegetais”, como seria de esperar: “Deriva da palavra vegetus que significa forte, saudável, alegre, podendo pois talvez vegetarianismo mais propriamente traduzir-se como hábitos de vida fortificantes que produzem bom humor”» («Vegano carnívoro é a nova moda», Maria Espírito Santo, Sábado, 11-16.04.2019, p. 41). É verdade, e até temos, vinda directamente do latim, a palavra végeto, «bem nutrido, robusto». Infelizmente, como vegetariano vem do francês végétarien, é informação que não chega normalmente ao falante que consulta um dicionário.

 

[Texto 11 606]

Helder Guégués às 21:40 | comentar | favorito
11
Mar 19

O «veado» brasileiro

Omitindo todas as outras

 

      «Quem percorre as salas do Senado Federal, a câmara alta do Parlamento brasileiro, vê a entrada do plenário, num lado, o restaurante do outro, o café mais à frente, salas de reuniões aqui e ali e, claro, os gabinetes dos senadores, os mais seletos eleitos da nação. O gabinete 19, o 20, o 21, o 22, o 23... o 25. E o 24? Porque nenhum senador brasileiro tem o gabinete 24? [...] E o número 24 é o do veado, animal conotado com homossexualidade no país — a palavra “transviado”, usada antigamente para apontar o dedo aos gays, foi reduzida a “viado”, com ‘i’, e daí, por proximidade fonética, transformada em “veado”, com ‘e’» («Cadê o gabinete número 24? Quando a homofobia e a infantilidade falam mais alto», João Almeida Moreira, TSF, 7.03.2019, 11h38).

      João Almeida Moreira deve saber que esta é apenas uma das mais de seis teorias sobre a origem da palavra.

 

[Texto 10 945]

Helder Guégués às 08:13 | comentar | favorito
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09
Dez 18

Léxico: «epitáfio»

Uma ajuda

 

      «Que nos dizem os epitáfios, de que nos fala essa literatura funerária, por conseguinte marginal, que algo de morto pretende conservar, através da escrita? A etimologia da palavra vem do grego, “epi” (sobre) e “taphos” (sepultura). Texto de adeus, memória gravada» («Os crisântemos da escrita», Branquinho Pequeno, Diário de Lisboa, 31.10.1990, p. 4).

      Está certíssimo. Vem complementar o que os dicionários indicam sobre a etimologia deste vocábulo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, dá esta indicação: «Do grego epitáphion, “inscrição tumular”, pelo latim epitaphĭu-, “idem”». O prefixo epi-, de origem grega, exprime, de facto, a ideia de por cima de, sobre, fora de, por fora de, e faz parte de muitos vocábulos da língua portuguesa.

 

            [Texto 10 426]

Helder Guégués às 12:09 | comentar | favorito
22
Out 18

Léxico: «xistarca»

Mete água, isso é certo

 

      Ficam então a saber: no dia 11 de Novembro, vou participar na Corrida das Castanhas. Mais modestamente, vou apenas fazer a caminhada de quatro quilómetros, um passeio ligeiro. Faltam dezanove dias e onze horas e tal. No fim, castanhas e água-pé, mesmo para os fracotes. A entidade que organiza a corrida é a Xistarca. Lê-se no sítio da empresa: «O nome Xistarca é pouco comum no vocabulário português. No entanto, a sua origem tem profundos laços históricos que se prendem intimamente com as origens do desporto na Antiga Grécia. Xistarcas eram os orientadores da actividade atlética e gímnica daquela época. Este nome deriva do facto dos [sic] recintos desportivos de então, onde exerciam a sua actividade, serem revestidos de xisto.» Será assim? Hum... Xistarca é o nome que se dava ao funcionário responsável pelo xisto, que era o nome que se dava ao pórtico coberto ou colunata onde se exercitavam os atletas. A etimologia alude ao pavimento liso, polido do espaço, e não a xisto. Sendo assim, não sei se devo participar na corrida... E se se enganam de novo? Se metem água? Se, em vez de água-pé, nos dão água-ardente, ou, pior, água-chilra? E se cai uma carga de água? Mas estou a afogar-me em pouca água. Até amanhã.

 

[Texto 10 172]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | favorito
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