05
Dez 20

Etimologia: «chofer»

Ferro quente

 

      «Chofer. A propósito, nos primeiros automóveis o motorista fazia muito mais do que simplesmente dirigir. O termo chofer, do francês chauffer, surgiu porque, antes da existência da vela de ignição (que gera a centelha para que o motor entre em combustão), o condutor precisava esquentar um ferro (chaud fer, em francês) para fazer o motor funcionar» («Nomes que vieram das carroças», Hairton Ponciano, O Estado de S. Paulo, 27.04.2020, p. H7, itálico meu).

      Era bom que os nossos dicionários aprofundassem um pouco mais a parte etimológica dos vocábulos que registam. Nunca, como hoje, tiveram tantas condições para o fazer facilmente.

 

[Texto 14 433]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (3) | favorito
18
Set 20

Etimologia: «soleto»

Para fugir à «origem obscura»

 

      O vocábulo soleto, como acabei de anunciar nos comentários, foi hoje registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ficou assim a definição: «telha de ardósia». Melhor se diria, como faz José Pedro Machado, que é a «telha de ardósia para cobertura de habitações». Cobertura, entenda-se, não apenas dos telhados, mas de fachadas. Não indicam, porém, a etimologia, que é muito simples: houve um tempo em que as minas de ardósia negra de Valongo pertenciam a ingleses, que exportavam quase todo o material para a Grã-Bretanha. Ora, o sleto ou, mais conforme ao português, o soleto que os operários julgavam ouvir era o slate inglês — «ardósia». Não há inúmeros casos assim? Assim de repente, ocorre-me chulipa, cada uma das travessas em que assentam os carris do caminho-de-ferro, que vem do inglês sleeper.

 

[Texto 13 990]

Helder Guégués às 15:00 | ver comentários (2) | favorito
18
Jun 20

Etimologia: «genocídio»

Isso é que era

 

      «Ferencz foi o primeiro a usar em tribunal o termo “genocídio”, inventado por Raphael Lemkin [1900-1959], um advogado polaco judeu. É uma contração da palavra grega ‘genus’ (espécie, raça, povo) e da latina ‘caedera’ (matar). Lemkin descreveu o conceito no seu livro “O Domínio do eixo na Europa Ocupada” (1948) como a “destruição de uma nação ou de um grupo étnico”» («“O pensar de Trump é o pensar de Hitler”», Colin van Heezik, tradução de Luís M. Faria, «Revista E»/Expresso, 16.05.2020, p. 52). Percebo, mas não se trata de uma contracção. Já o «caedera» é erro do tradutor, porque no original está, e bem, «cædere». Por outro lado, não devia esta informação etimológica estar em todos os dicionários?

 

[Texto 13 571]

Helder Guégués às 09:00 | favorito
17
Jun 20

Léxico: «evinel», de novo

Uma estranha ausência

 

      Outra coisa que não ficou bem resolvida foi o verbete de evinel. Neste caso, porém, não a definição, mas a estranha ausência da nota etimológica. Então, em capoto diz-se que provém de uma marca comercial e até se foi ao extremo de anotar o que significa o nome comum (o que me parece supérfluo) e em evinel omite-se que provém também, como eu realcei então, de uma marca registada? Se pesquisarmos na base de dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, vemos que a marca, entretanto caducada, era propriedade da Covina – Companhia Vidreira Nacional. Custa assim tanto escrever isto — que deriva do nome comercial Evinel — no verbete?

 

[Texto 13 565]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (1) | favorito
12
Mai 20

Topónimo: «Atouguia»

Incerta ou talvez não

 

      Ontem, um leitor habitual do blogue quis saber se eu tinha alguma pista sobre o topónimo Atouguia. Acrescentou que tinha consultado a Infopédia, pela qual ficara a saber que era «de origem pré-romana incerta, acrescentado de um a- protésico». Lançou ainda alguns raios e coriscos a propósito das remissões (neste caso, de «protético» para «protésico») no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Segundo alguns autores, em documentos medievais, o topónimo Atouguia aparece grafado Taugia, Tougia ou Touria (as tais formas pré-protésicas), em referência aos touros da Coroa que então por ali pastavam. Convenhamos que não repugna acreditar em tal etimologia. Até posso estar equivocado, mas o único autor que afirma tratar-se de topónimo importado não merece muito crédito nestas questões da toponímia, sequer da etimologia.

 

[Texto 13 321]

Helder Guégués às 08:45 | favorito
19
Mar 20

O elemento «aspido-»

Lembrem-se da áspide

 

      «A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, agradeceu à Grécia ser “o escudo” da Europa (usou a palavra grega, aspida)» («Refugiados são “tratados como inimigo” ao chegarem à Grécia», Maria João Guimarães, Público, 4.03.2020, p. 2). Isso mesmo, e até temos o elemento de formação de palavras aspido-, que exprime a ideia de escudo.

 

 [Texto 12 980]

 

Helder Guégués às 08:15 | favorito
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