24
Jun 19

Etimologia: «vegetarianismo»

Fica mascarado

 

      «É em A Cura Natural, de 1907, que Mich Larsen, apresentado como médico da Câmara Municipal de Copenhaga, explica a origem da palavra vegetarianismo, esclarecendo que não parte de “vegetais”, como seria de esperar: “Deriva da palavra vegetus que significa forte, saudável, alegre, podendo pois talvez vegetarianismo mais propriamente traduzir-se como hábitos de vida fortificantes que produzem bom humor”» («Vegano carnívoro é a nova moda», Maria Espírito Santo, Sábado, 11-16.04.2019, p. 41). É verdade, e até temos, vinda directamente do latim, a palavra végeto, «bem nutrido, robusto». Infelizmente, como vegetariano vem do francês végétarien, é informação que não chega normalmente ao falante que consulta um dicionário.

 

[Texto 11 606]

Helder Guégués às 21:40 | comentar | favorito
11
Mar 19

O «veado» brasileiro

Omitindo todas as outras

 

      «Quem percorre as salas do Senado Federal, a câmara alta do Parlamento brasileiro, vê a entrada do plenário, num lado, o restaurante do outro, o café mais à frente, salas de reuniões aqui e ali e, claro, os gabinetes dos senadores, os mais seletos eleitos da nação. O gabinete 19, o 20, o 21, o 22, o 23... o 25. E o 24? Porque nenhum senador brasileiro tem o gabinete 24? [...] E o número 24 é o do veado, animal conotado com homossexualidade no país — a palavra “transviado”, usada antigamente para apontar o dedo aos gays, foi reduzida a “viado”, com ‘i’, e daí, por proximidade fonética, transformada em “veado”, com ‘e’» («Cadê o gabinete número 24? Quando a homofobia e a infantilidade falam mais alto», João Almeida Moreira, TSF, 7.03.2019, 11h38).

      João Almeida Moreira deve saber que esta é apenas uma das mais de seis teorias sobre a origem da palavra.

 

[Texto 10 945]

Helder Guégués às 08:13 | comentar | favorito
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09
Dez 18

Léxico: «epitáfio»

Uma ajuda

 

      «Que nos dizem os epitáfios, de que nos fala essa literatura funerária, por conseguinte marginal, que algo de morto pretende conservar, através da escrita? A etimologia da palavra vem do grego, “epi” (sobre) e “taphos” (sepultura). Texto de adeus, memória gravada» («Os crisântemos da escrita», Branquinho Pequeno, Diário de Lisboa, 31.10.1990, p. 4).

      Está certíssimo. Vem complementar o que os dicionários indicam sobre a etimologia deste vocábulo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, dá esta indicação: «Do grego epitáphion, “inscrição tumular”, pelo latim epitaphĭu-, “idem”». O prefixo epi-, de origem grega, exprime, de facto, a ideia de por cima de, sobre, fora de, por fora de, e faz parte de muitos vocábulos da língua portuguesa.

 

            [Texto 10 426]

Helder Guégués às 12:09 | comentar | favorito
22
Out 18

Léxico: «xistarca»

Mete água, isso é certo

 

      Ficam então a saber: no dia 11 de Novembro, vou participar na Corrida das Castanhas. Mais modestamente, vou apenas fazer a caminhada de quatro quilómetros, um passeio ligeiro. Faltam dezanove dias e onze horas e tal. No fim, castanhas e água-pé, mesmo para os fracotes. A entidade que organiza a corrida é a Xistarca. Lê-se no sítio da empresa: «O nome Xistarca é pouco comum no vocabulário português. No entanto, a sua origem tem profundos laços históricos que se prendem intimamente com as origens do desporto na Antiga Grécia. Xistarcas eram os orientadores da actividade atlética e gímnica daquela época. Este nome deriva do facto dos [sic] recintos desportivos de então, onde exerciam a sua actividade, serem revestidos de xisto.» Será assim? Hum... Xistarca é o nome que se dava ao funcionário responsável pelo xisto, que era o nome que se dava ao pórtico coberto ou colunata onde se exercitavam os atletas. A etimologia alude ao pavimento liso, polido do espaço, e não a xisto. Sendo assim, não sei se devo participar na corrida... E se se enganam de novo? Se metem água? Se, em vez de água-pé, nos dão água-ardente, ou, pior, água-chilra? E se cai uma carga de água? Mas estou a afogar-me em pouca água. Até amanhã.

 

[Texto 10 172]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | favorito
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09
Out 18

Léxico: «uade/uádi»

Menos patente

 

      «No cômeço da guerra, o sultão era representado em Meca por um coraixida investido pomposamente no título de xerife alquibir (o grande xerife), cargo então ocupado por Hossaino ibne Ali — o pai daquele Faiçal que vimos expulso de Damasco e depois rei do Iraque, e de Abdalá, príncipe da Transjordânia» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 237).

      Já que Montexto anda a reler as Lendas e Narrativas de Herculano, aproveitemos para lembrar o que este autor nos ensinou sobre alquibir e uade. Não, naquela obra Herculano não usa a palavra uade, apenas almuadem (que muitos dos nossos autores e tradutores preferem ver travestida em muezim). Em português, uade deu também, na toponímia, ode — Odemira, Odeleite, Odeceixe, etc., e guade em castelhano — Guadalquivir, Guadalaviar, Guadalete, etc. Claro que nos dicionários não vemos nada disto.

 

[Texto 10 069]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | favorito
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21
Jun 18

Puticlubs e casas de alterne

Ainda de manhã

 

      Envergonhado com o portunhol de Carlos Queiroz (mas porque não falam em português?), mudei para a RNE. No noticiário, falavam dos puticlubs — casas onde se exerce a prostituição —, locais a que em Portugal se dá habitualmente, pelo menos na imprensa, o nome de casa de alterne, e alterne, para quem não saiba, é castelhano do mais puro. O putismo ibérico. Na imprensa, digo bem, porque habitualmente se diz casa de putas, só um pouco menos fino do que clube de putas, puticlube, que não passa de eufemismo tonto e presumido.

 

[Texto 9462]

Helder Guégués às 07:09 | comentar | favorito
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17
Mai 18

Léxico: «nadir»

O ponto oposto

 

      «“‘Nadir’, em hebreu, quer dizer ‘raro’ e eu acho que, realmente, aquele é um edifício raro [edifício da panificadora Panreal]. Como edifício, não é um edifício de que goste muito, mas isso tem pouca importância. Eu também não gosto de Versalhes, também não gosto de tantos outros monumentos, mas isso não quer dizer que não lute para que eles sejam preservados”, afirma a docente [e arqueóloga Mila Simões de Abreu] da UTAD» («“A vergonha de Vila Real” é um edifício de Nadir Afonso», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 17.05.2018, 8h00).

       Ora, nadir também é, não sei se sabem, nome comum, e designa o ponto contrário ao zénite, em que a vertical encontra a esfera celeste abaixo do observador. Debaixo dos nossos pés, digamos assim. Em árabe, língua a que pertence o étimo, significa precisamente ponto oposto. Poderá ter outro significado como nome próprio? Não me parece.

 

[Texto 9240]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | favorito
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25
Fev 18

S. Jorge de Oitavos

Ninguém diria

 

      Quando passei de bicicleta em frente ao Forte de S. Jorge de Oitavos, na Estrada do Guincho (hoje não fui atropelado na ciclovia por nenhum grande empresário português de nome italiano), lembrei-me da última crónica de José d’Encarnação no Jornal da Região de Cascais: «Iniciou-se a sua construção logo em 1641, que ficou concluída em 1643. Tendo subido ao trono, por via da conspiração do 1.º de Dezembro de 1640, el-rei D. João IV encarregou logo os seus colaboradores militares de prepararem a defesa. Este baluarte, inicialmente chamado ‘da Cabeça de Oito Ovos’, integra, pois, o grupo de fortalezas que o monarca mandou erguer ao longo da costa para prevenir eventuais ataques dos Espanhóis, na Guerra da Restauração» («Ora então descubra lá onde é que isto está!», 22-28.02.2018, p. 18). De Oito Ovos (porquê?) para Oitavos, ninguém suspeitaria. Muito diferente, por exemplo, de Pedras Alvas para Pedralvas, ou Pena Alva para Penalva, ou Lagoa Alva para Lagoalva, mas mais semelhante, pela transfiguração sofrida, a Monte Santo para Monsanto.

 

[Texto 8808]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | favorito
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05
Fev 18

De Ródão «rodense»?

Indiscutível — ou não

 

      Sabiam que o ceramista Manuel Cargaleiro é natural de Vila Velha de Ródão? Embora haja bons motivos para ir a Vila Velha de Ródão, é quase sempre referida na imprensa pelos piores motivos. Bem, mas não é disso que eu quero falar. Entre as questões que ninguém discute está esta: será mesmo assim tão óbvio que o gentílico relativo a Vila Velha de Ródão seja «rodense»? Pode ser o mais fácil, por analogia com outros semelhantes, mas eu esperava que fosse «rodanense».

 

[Texto 8688]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
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