Não me parece
Ultimamente, tenho lido na imprensa francesa vários artigos sobre a desnatalidade. Este foi o mais recente: «Pourquoi les Français font-ils moins de bébés? La question devient plus pressante chaque année, à mesure que la courbe de la natalité continue de dégringoler depuis 2010. En 2024, 660 800 nouveau-nés ont vu le jour, soit le nombre le plus faible depuis la fin de la Seconde Guerre mondiale. En une dizaine d’années, le taux de fécondité est passé de 2 à 1,68 enfant par femme» («Des députés à la recherche des causes de la dénatalité», Agnès Leclair, Le Figaro, 22.11.2025, p. 10).
A Porto Editora, que acolhe o termo — «decréscimo populacional resultante de um défice continuado da taxa de nascimentos em relação à taxa de mortalidade numa determinada região» —, labora num grande, enorme erro: desnatalidade não é sinónimo de decréscimo populacional. Pode conduzir a ele, sim, mas designa, de forma específica, o fenómeno de baixa natalidade, muitas vezes medido por a taxa de fecundidade ser inferior ao limiar de reposição geracional. Mais grave: o decréscimo populacional pode até não ocorrer, mesmo em cenário de desnatalidade persistente, se houver um fluxo migratório suficiente para compensar esse défice. É o que sucede em vários países europeus, como a França, referida no artigo, e, mais recentemente, em Portugal. Reduzir desnatalidade a «decréscimo populacional» é, por isso, tanto um erro terminológico como um erro de análise demográfica. Assim, proponho ⤷ desnatalidade baixa taxa de natalidade, geralmente inferior ao nível necessário para assegurar a substituição geracional, podendo conduzir ao envelhecimento e à redução da população.
Etimologia: do francês dénatalité, derivado de dé- (negação ou diminuição) + natalité («natalidade»), este do latim natalis, «relativo ao nascimento», de natus, particípio de nasci, «nascer».
[Texto 22 035]