05
Set 19

Isso mesmo, com os pés

Nunca

 

      Claro que nunca se pode dizer que já se viu tudo, é impossível. Já tinha visto traduções de expressões inglesas completamente parvas ou vergonhosas. Não é raro ouvir alguém — a Júlio Machado Pais já o ouvi várias vezes — falar em «pôr-se nos sapatos de alguém». Hoje foi outra: vote with one’s feet foi traduzida literalmente por «votar com os pés». Ah, Isabel, Isabel, isso é traduzir com os pés. Como traduzir? Sei lá, «abandonar, descontente», «voltar as costas», etc. Valia mais irem para a Escola de Pastores, talvez a sua aptidão se revelasse plenamente nessa nobre actividade.

 

[Texto 11 920]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | favorito (1)
11
Jul 19

Léxico: «olho clínico»

É assim

 

      Deixem-me dizer aqui à coisinha que occhio clinico se traduz por olho clínico, e não «olhar clínico». Se a locução estivesse nos dicionários, acontecia menos.

 

[Texto 11 738]

Helder Guégués às 10:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Mar 19

«Quanto mais», de novo

Muito menos; quanto mais

 

      Embora tenha aqui outro caso grave — uma tradutora que escreve «seção» —, vamos de novo ajudar o tal leitor com dificuldades de aprendizagem: «O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, contou: “Os comentários do Senador Fraser Anning, que culpam os ataques assassinos de um violento, fascista e extremista terrorista na Nova Zelândia, são nojentos. Essas visões não têm lugar na Austrália, quanto mais no parlamento australiano.”» («O ovo, os socos e a polémica: Senador australiano debaixo de fogo depois de culpar imigrantes muçulmanos dos tiroteios de Christchurch», Diogo Lopes, Observador, 16.03.2019, 18h12). Vá agora em inglês, não seja dos tais: «The remarks by Senator Fraser Anning blaming the murderous attacks by a violent, rightwing, extremist terrorist in New Zealand on immigration are disgusting. Those views have no place in Australia, let alone the Australian parliament.» Nos casos em que for quando mais, eu aviso. É mais prudente.

 

[Texto 10 976]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
03
Mar 19

«Quanto mais»

Nova tentativa

 

      Agora vou pôr Conan Osíris a ensinar umas coisinhas de português ao tal leitor com dificuldades de aprendizagem, coitado: «Desde 2014 que Conan coloca os seus álbuns na internet, mas o entusiasmo de alguns amigos durava já há anos, ainda no tempo do MSN era através do chat que partilhava canções com eles, “e depois iam-me pedindo para fazer coisas novas: há sempre aquele amigo que começa a ligar mais quando sais em todos os jornais de Portugal, e não é por mal. É uma coisa de contaminação subliminar que uma pessoa precisa de receber. Mas a minha mãe ficou chocada. Ela mal sabia que eu fazia música, quanto mais que já ia no terceiro álbum”» («Conan Osiris | Para dançar a melancolia», Tiago Manaia, Vogue, 17.05.2018).

 

[Texto 10 917]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
22
Nov 18

Léxico: «golpe branco»

Passa a nossa também

 

      A expressão golpe branco, usada no Brasil há várias décadas, mas que alguns insistem em dizer que é neologismo (quando é que um neologismo deixa de o ser?), também se encontra de quando em quando — ainda que a propósito do Brasil — em textos publicados em Portugal. «No meio de tudo isto, em Agosto de 2016, a presidente Dilma Rousseff, delfim de Lula, tinha sido destituída por um golpe branco conduzido pela coligação parlamentar da direita conservadora conhecida com o termo “bancada BBB” — do Boi, da Bala e da Bíblia» (in Além-Mar de Dezembro). Há golpes brancos — tomada do poder do Estado sem violência e com recurso a meios legais — em várias latitudes. A Turquia de Erdogan, por exemplo, ilustra bem o caso. Parece que é a tradução da expressão alemã kalter Putsch. Assim, se tivermos de nos referir a uma situação semelhante, devemos, obviamente, preferir a expressão brasileira.

 

[Texto 10 331]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Mai 18

«Quando mais não seja»

Ele merece

 

      «Tom Wolfe inaugurara a sua época do romance com o referido A Fogueira das Vaidades, que classificava de “o grande desafio” um entre os poucos títulos traduzidos em Portugal. É com este romance que a aura do escritor desliza para o grande “fotógrafo” da América dos anos 80. Uma receita tão bem-sucedida e a que nunca mais conseguirá fugir, quanto mais não seja porque desde o início da carreira o seu objetivo era fixar o modo de vida americano» («Tom Wolfe, o escritor que perdeu a alma em 1996», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 16.05.2018, p. 26).

      Temos de dizer a João Céu e Silva que não é assim, está errado. Mas quase acertava: quando mais não seja, isto é, quando por outra coisa não for.

 

[Texto 9231]

Helder Guégués às 14:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,