21
Fev 20

«De candeias às avessas»

Será boa ideia?

 

      «Os investimentos da empresária angolana em Portugal, agora às avessas com a justiça e com contas congeladas, deram um retorno avultado em dividendos e mais-valias» («Portugal já rendeu perto de 500 milhões a Isabel dos Santos», Ana Brito e Luís Villalobos, Público, 17.02.2020, p. 2).

      Primeiro, confesso, não estranhei; depois, porém, reflecti que amputar desta maneira expressões consagradas pode dar mau resultado. Ou não, pois claro: podem surgir variantes. Dentro de vinte anos falaremos de novo sobre isto.

 

[Texto 12 857]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Fev 20

Pimenta no c***

Nada cristão, mas humano

 

      Pergunta a jornalista Clara Soares a Tiffany Watt Smith, historiadora cultural na área das emoções: «O que a levou a estudar a emoção de comprazer-se com o mal dos outros? Algo que em Portugal se aproxima da expressão “pimenta no cu dos outros para mim é refresco”?» («“Sentir prazer com a desgraça dos outros é uma emoção humana bastante comum”», Clara Soares, Visão, 3.11.2019, 19h20). A historiadora ficou toda divertida e quis anotar a expressão. Exactamente com esta formulação — mas há sempre, dado transmitir-se por tradição oral, variantes — não a conhecia, mas aproximada. José Pedro Machado, no Grande Livro dos Provérbios (Lisboa: Editorial Notícias, 1996), regista algumas: Pimenta no cu da gente é refresco no cu dos outros. Pimenta no cu dos outros não arde. Pimenta no olho dos outros é refresco. Pimenta no rabo (cu) dos outros não arde. Pimenta nos olhos dos outros não arde.

 

[Texto 12 818]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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«Molho de brócolos»

Esta tem-me escapado

 

      «Preferindo não comentar se é boa ou má a decisão do Parlamento, apesar de admitir que é um absurdo parar tudo nesta altura do processo, o bastonário dos engenheiros lamenta que nunca tenha estado em discussão pública o plano estratégico de desenvolvimento do metro. Agora, “como diz o povo, temos aqui um molho de brócolos” com a decisão dos deputados, refere» («Ordem dos Engenheiros avisou há dois anos que obra do Metro de Lisboa era um erro», Nuno Guedes, TSF, 11.02.2020, 7h35).

 

[Texto 12 812]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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05
Set 19

Isso mesmo, com os pés

Nunca

 

      Claro que nunca se pode dizer que já se viu tudo, é impossível. Já tinha visto traduções de expressões inglesas completamente parvas ou vergonhosas. Não é raro ouvir alguém — a Júlio Machado Pais já o ouvi várias vezes — falar em «pôr-se nos sapatos de alguém». Hoje foi outra: vote with one’s feet foi traduzida literalmente por «votar com os pés». Ah, Isabel, Isabel, isso é traduzir com os pés. Como traduzir? Sei lá, «abandonar, descontente», «voltar as costas», etc. Valia mais irem para a Escola de Pastores, talvez a sua aptidão se revelasse plenamente nessa nobre actividade.

 

[Texto 11 920]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | favorito (1)
11
Jul 19

Léxico: «olho clínico»

É assim

 

      Deixem-me dizer aqui à coisinha que occhio clinico se traduz por olho clínico, e não «olhar clínico». Se a locução estivesse nos dicionários, acontecia menos.

 

[Texto 11 738]

Helder Guégués às 10:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Mar 19

«Quanto mais», de novo

Muito menos; quanto mais

 

      Embora tenha aqui outro caso grave — uma tradutora que escreve «seção» —, vamos de novo ajudar o tal leitor com dificuldades de aprendizagem: «O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, contou: “Os comentários do Senador Fraser Anning, que culpam os ataques assassinos de um violento, fascista e extremista terrorista na Nova Zelândia, são nojentos. Essas visões não têm lugar na Austrália, quanto mais no parlamento australiano.”» («O ovo, os socos e a polémica: Senador australiano debaixo de fogo depois de culpar imigrantes muçulmanos dos tiroteios de Christchurch», Diogo Lopes, Observador, 16.03.2019, 18h12). Vá agora em inglês, não seja dos tais: «The remarks by Senator Fraser Anning blaming the murderous attacks by a violent, rightwing, extremist terrorist in New Zealand on immigration are disgusting. Those views have no place in Australia, let alone the Australian parliament.» Nos casos em que for quando mais, eu aviso. É mais prudente.

 

[Texto 10 976]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | favorito
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03
Mar 19

«Quanto mais»

Nova tentativa

 

      Agora vou pôr Conan Osíris a ensinar umas coisinhas de português ao tal leitor com dificuldades de aprendizagem, coitado: «Desde 2014 que Conan coloca os seus álbuns na internet, mas o entusiasmo de alguns amigos durava já há anos, ainda no tempo do MSN era através do chat que partilhava canções com eles, “e depois iam-me pedindo para fazer coisas novas: há sempre aquele amigo que começa a ligar mais quando sais em todos os jornais de Portugal, e não é por mal. É uma coisa de contaminação subliminar que uma pessoa precisa de receber. Mas a minha mãe ficou chocada. Ela mal sabia que eu fazia música, quanto mais que já ia no terceiro álbum”» («Conan Osiris | Para dançar a melancolia», Tiago Manaia, Vogue, 17.05.2018).

 

[Texto 10 917]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | favorito
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22
Nov 18

Léxico: «golpe branco»

Passa a nossa também

 

      A expressão golpe branco, usada no Brasil há várias décadas, mas que alguns insistem em dizer que é neologismo (quando é que um neologismo deixa de o ser?), também se encontra de quando em quando — ainda que a propósito do Brasil — em textos publicados em Portugal. «No meio de tudo isto, em Agosto de 2016, a presidente Dilma Rousseff, delfim de Lula, tinha sido destituída por um golpe branco conduzido pela coligação parlamentar da direita conservadora conhecida com o termo “bancada BBB” — do Boi, da Bala e da Bíblia» (in Além-Mar de Dezembro). Há golpes brancos — tomada do poder do Estado sem violência e com recurso a meios legais — em várias latitudes. A Turquia de Erdogan, por exemplo, ilustra bem o caso. Parece que é a tradução da expressão alemã kalter Putsch. Assim, se tivermos de nos referir a uma situação semelhante, devemos, obviamente, preferir a expressão brasileira.

 

[Texto 10 331]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito