18
Mar 19

«Quanto mais», de novo

Muito menos; quanto mais

 

      Embora tenha aqui outro caso grave — uma tradutora que escreve «seção» —, vamos de novo ajudar o tal leitor com dificuldades de aprendizagem: «O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, contou: “Os comentários do Senador Fraser Anning, que culpam os ataques assassinos de um violento, fascista e extremista terrorista na Nova Zelândia, são nojentos. Essas visões não têm lugar na Austrália, quanto mais no parlamento australiano.”» («O ovo, os socos e a polémica: Senador australiano debaixo de fogo depois de culpar imigrantes muçulmanos dos tiroteios de Christchurch», Diogo Lopes, Observador, 16.03.2019, 18h12). Vá agora em inglês, não seja dos tais: «The remarks by Senator Fraser Anning blaming the murderous attacks by a violent, rightwing, extremist terrorist in New Zealand on immigration are disgusting. Those views have no place in Australia, let alone the Australian parliament.» Nos casos em que for quando mais, eu aviso. É mais prudente.

 

[Texto 10 976]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | favorito
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03
Mar 19

«Quanto mais»

Nova tentativa

 

      Agora vou pôr Conan Osíris a ensinar umas coisinhas de português ao tal leitor com dificuldades de aprendizagem, coitado: «Desde 2014 que Conan coloca os seus álbuns na internet, mas o entusiasmo de alguns amigos durava já há anos, ainda no tempo do MSN era através do chat que partilhava canções com eles, “e depois iam-me pedindo para fazer coisas novas: há sempre aquele amigo que começa a ligar mais quando sais em todos os jornais de Portugal, e não é por mal. É uma coisa de contaminação subliminar que uma pessoa precisa de receber. Mas a minha mãe ficou chocada. Ela mal sabia que eu fazia música, quanto mais que já ia no terceiro álbum”» («Conan Osiris | Para dançar a melancolia», Tiago Manaia, Vogue, 17.05.2018).

 

[Texto 10 917]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | favorito
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22
Nov 18

Léxico: «golpe branco»

Passa a nossa também

 

      A expressão golpe branco, usada no Brasil há várias décadas, mas que alguns insistem em dizer que é neologismo (quando é que um neologismo deixa de o ser?), também se encontra de quando em quando — ainda que a propósito do Brasil — em textos publicados em Portugal. «No meio de tudo isto, em Agosto de 2016, a presidente Dilma Rousseff, delfim de Lula, tinha sido destituída por um golpe branco conduzido pela coligação parlamentar da direita conservadora conhecida com o termo “bancada BBB” — do Boi, da Bala e da Bíblia» (in Além-Mar de Dezembro). Há golpes brancos — tomada do poder do Estado sem violência e com recurso a meios legais — em várias latitudes. A Turquia de Erdogan, por exemplo, ilustra bem o caso. Parece que é a tradução da expressão alemã kalter Putsch. Assim, se tivermos de nos referir a uma situação semelhante, devemos, obviamente, preferir a expressão brasileira.

 

[Texto 10 331]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Mai 18

«Quando mais não seja»

Ele merece

 

      «Tom Wolfe inaugurara a sua época do romance com o referido A Fogueira das Vaidades, que classificava de “o grande desafio” um entre os poucos títulos traduzidos em Portugal. É com este romance que a aura do escritor desliza para o grande “fotógrafo” da América dos anos 80. Uma receita tão bem-sucedida e a que nunca mais conseguirá fugir, quanto mais não seja porque desde o início da carreira o seu objetivo era fixar o modo de vida americano» («Tom Wolfe, o escritor que perdeu a alma em 1996», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 16.05.2018, p. 26).

      Temos de dizer a João Céu e Silva que não é assim, está errado. Mas quase acertava: quando mais não seja, isto é, quando por outra coisa não for.

 

[Texto 9231]

Helder Guégués às 14:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Jan 18

«Azar dos Távoras»

E azar o nosso

 

      «A ministra da Justiça tem uma certeza: “A Constituição prevê um mandato longo e único” para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Azar dos Távoras, não prevê nada disso. A revisão constitucional de 1997 definiu, sim, uma limitação de mandatos para juízes do Tribunal Constitucional, assim como para o Tribunal de Contas» («Nem um elogio, nem um “obrigado”», David Dinis, Público, 10.01.2018, p. 44).

      Faz sentido, neste contexto, o uso da expressão (de que já aqui falei) azar dos Távoras? Não me parece.

 

[Texto 8562]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Jan 18

«Direito premial»

Já lá está

 

      É impressão minha ou o chamado Pacto da Justiça não vai passar de retórica? Hoje, a propósito da Cimeira da Justiça, em Tróia, ouvi falar várias vezes em direito premial (de inspiração brasileira?), mas mais conhecido na figura da delação premiada. Ora, fui ver e já está, e se calhar entrou hoje, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Conjunto de recursos legais, usados sobretudo no combate à corrupção e à criminalidade económica, que visam promover e premiar a colaboração com a justiça de arguidos que confessem os seus crimes e/ou ajudem a provar os de outros suspeitos, em troca da atenuação da pena a aplicar».

 

[Texto 8549]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Dez 17

Léxico: «pescador lúdico»

Reúne todas as condições

 

      «Já aos pescadores lúdicos de pesca à cana, a Marinha aconselha cautela, evitando pescar junto a zonas de arriba nas frentes costeiras atingidas pela rebentação das ondas» («Mau tempo. Marinha alerta que ondas podem chegar aos sete metros», Rádio Renascença, 25.12.2017, 18h22).

      É expressão que se encontra cada vez com maior frequência, e não apenas na imprensa: a Autoridade Marítima Nacional também a usa. Num fórum, uns quantos brasileiros estranhavam o adjectivo, e um até aventava a hipótese — tão facilmente infirmável (outro termo que falta no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) — de que fosse necessidade pontual do jornalista. Porque está a ter um uso constante, me parecer necessário e o adjectivo «lúdico» ser relativamente desconhecido do falante médio, creio que a expressão devia ser dicionarizada.

 

[Texto 8509]

Helder Guégués às 10:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
26
Nov 17

«Dar de caras com»

Não é para todos

 

      «É impossível passear numa avenida, estar parado na rua a conversar com um amigo, entrar num edifício, ou espreitar por baixo dos arcos de arenito de uma velha arcada, sem dar de cara com uma máquina do tempo» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 10.ª ed., 2010, p. 25).

      As expressões idiomáticas é matéria quase impenetrável... Na 10.ª edição, já devia estar corrigido: é dar de caras com. Mais valia que traduzisse à letra, pois no original não está nenhuma expressão idiomática: without meeting.

 

[Texto 8392]

Helder Guégués às 09:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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