04
Fev 21

Solução: «turco-arménio | armeno-turco»

Fica agora a saber

 

      «Por decisão do Papa Francisco, três santos considerados “doutores da Igreja” passam a ter uma data específica para serem venerados pelos fiéis do mundo inteiro: São Gregório de Narek (turco-armeno, 950-...), abade e doutor da Igreja, no dia 27 de fevereiro; São João de Ávila (espanhol, 1499-1569), presbítero e doutor da Igreja, no dia 10 de maio; Santa Hildegarda de Bingen, (alemã, 1098-1179) virgem e doutora da Igreja, no dia 17 de setembro» («Papa inclui novos santos no calendário», Aura Miguel, Rádio Renascença, 2.02.2021, 11h55).

      É claro que Aura Miguel escorregou — ou porque não sabe ou por lapso. Nunca uma forma reduzida, neste caso, «armeno», está à direita numa palavra composta. Como escreveu, é italiano.

 

[Texto 14 650]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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03
Dez 20

Ter pagado e ter pago

Ou deixe-se ir

 

      «A construtora brasileira Odebrecht terá pagado alegadas luvas de mais de dois milhões de euros ao ‘Príncipe’, nome de código de um cidadão português, através de um suposto testa de ferro do BES e amigo de Ricardo Salgado» («Testa de ferro do BES acolhe luvas do ‘Príncipe’», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 28.11.2020, p. 4). Está certíssimo, mas cada vez se ouve e lê mais «ter pago». O meu corrector ortográfico, porém, ainda diz «corrija a forma de particípio passado».

 

[Texto 14 417]

Helder Guégués às 08:15 | favorito
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28
Out 20

«Vila dos Gamas»

Não sabem o que dizem

           

      Para o almoço, já ali tenho um Vila dos Gamas tinto, da Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito. Para alguns dos nossos linguistas de meia-tigela, seria «Vila dos Gama». E dizem isto com cara séria e mesmo antes de beberem. Apre.

 

[Texto 14 231]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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19
Out 20

Gostaria que se preocupassem menos

Descomplique

 

      «Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: “Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral.” E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso» («Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 8.08.2020, p. 2).

      Descomplique, Leonídio Paulo Ferreira, descomplique. É bem verdade que o verbo gostar pede a preposição de, mas na sequência gostar de que podemos — ou até devemos — omitir a preposição. Não tem de quê.

 

[Texto 14 174]

Helder Guégués às 11:30 | favorito
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02
Jun 20

Sobre «social-democrata»

Ipsis verbis

 

      «Contas da Câmara de Gaia não convencem sociais-democratas» (Jornal de Notícias, 30.05.2020, p. 24). Para o substantivo, é o único plural correcto, já o tenho dito. Cito a frase acima apenas para contar a traços largos um caso recente: era uma tradução, e a tradutora optara por escrever «os social-democráticos». À minha argumentação (por vezes precisamos, não apenas de os corrigir, mas de argumentar longamente), recebi este epítome de subserviência e ignorância: «Consultado o Editor, decidiu-se que ficaria o que é considerado correcto pelas figuras gradas da nossa gramática, e não o “que mais se usa”.» Se o explicasse mais três vezes, não seria menos em vão.

 

[Texto 13 477]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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30
Abr 20

«Frente a»?

Sobre um título

 

      Sou leitor (pagante) do jornal Público, mas apenas da versão digital, e por isso não vou a nenhuma banca comprá-lo, ou teria trazido também a obra do físico e escritor italiano Paolo Giordano. Ou não, porque o título da tradução de Miguel Serras Pereira ­— Frente ao Contágio — me parece um grosseiro atropelo ao português. Mais um. «Frente a»? Será a edição ibérica da obra? No original, é Nel contagio; a edição inglesa tem o título How Contagion Works; a espanhola, En tiempos de contagio; a francesa, Contagions; a alemã, In Zeiten der Ansteckung Rowohlt; a catalã, En el contagi; a croata, U Času Epidemije; a neerlandesa, In Tijden Van Besmetting; a húngara, Járvány Idején; a norueguesa, I Smittens Tid, etc. Sim, etc., já chega, a conclusão é só uma: se não quisessem o seco e honesto «No contágio» do original, a alternativa não era o caminho errado que escolheram, mas algo como «Em pleno contágio», por exemplo. Só tinham de fugir de dois caminhos: o oportunista, seguido pelo editor russo (Заражение – Covid – 19, наука, общество и глобальный кризис), e o gramaticalmente errado por onde se enfiaram.

 

[Texto 13 263]

Helder Guégués às 22:00 | favorito
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