18
Dez 19

Léxico: «feito de»

Nova tentativa

 

      «Uma equipa de dez investigadores do Instituto Politécnico de Viseu (IPV) e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro está a desenvolver um produto alimentar criado à base de insetos. A farinha de zângão foi criada há mais de um ano e já recebeu um prémio. A ideia partiu de um desafio feito a Paula Correia. [...] A farinha de zângão deverá começar a ser comercializada dentro de um ano, mas para que isso aconteça tem primeiro que ser concluído o registo deste produto no catálogo nacional de alimentos» («Pão e biscoitos feitos a partir de farinha de zangão», José Ricardo Ferreira, TSF, 17.12.2019, 9h31).

      O problema está, não na farinha de zângão (que tem «um ligeiro sabor picante» — vivos ou mortos, picam sempre), mas na fraseologia: basta escrever, José Ricardo Ferreira, «feitos de». O pior — pior, porque num dicionário, que vai permanecer por décadas e ser lido por muita gente — é que a Porto Editora também cai repetidamente no mesmo erro em várias definições. Já esta semana, na definição de «hemoderivado», por exemplo: «que ou substância que é produzida a partir do sangue ou dos seus constituintes». Ora, «feito de» é mais português, mais curto, mais lógico. Precisarão, acaso, de mais razões?

 

[Texto 12 490]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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17
Dez 19

«Porque», advérbio interrogativo

É bom lembrar

 

      A meritória oposição do jornal Público ao Acordo Ortográfico de 1990 não nos deve nunca levar a esquecer ou perdoar os erros que desde sempre se viram neste jornal. Um desses erros é a grafia errada do advérbio interrogativo porque, que meteram na cabeça — decerto mal aconselhados — que se escreve por que.  «Por que é que umas baleias são maiores do que outras?» (Teresa Sofia Serafim, Público, 16.12.2019, p. 34). Felizmente, ao contrário de há dez ou quinze anos, agora há mais gramáticas em que se ensina a grafia correcta. «O advérbio interrogativo introduz uma frase interrogativa parcial direta (frase A) ou indireta (frase B), especificando a natureza da informação que se pretende obter: causa (porque / porquê), tempo (quando), modo (como), ou lugar (onde)» (Conhecer a Gramática, Clara Amorim, Catarina Sousa. Porto: Areal Editores, S. A., 2017, p. 168).

 

[Texto 12 485]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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Não demorou muito que...

Sobra aí uma coisinha

 

      «Em casa, a rádio estava sempre ligada e a música por toda a parte. Quando não ouviam rádio, os Dwights, a família materna, punham discos a tocar na radiola — normalmente jazz, mas também música clássica — e na casa havia um piano, que segundo parece Elton John começara a tocar muito novo, com apenas três anos. Não demorou muito a que os pais pusessem o menino-prodígio a tocar em casamentos ou serões de família» («Sir Elton John e o problema da mobilidade social», António Araújo, Diário de Notícias, 14.12.2019, p. 54).

      Hum, talvez seja melhor seguirmos Miguel Torga: «O pior é que não demorou muito que o Carvalheira esticasse também o pernil, e a cunhada, Deus lhe desse juízo!, não tratasse de pôr o sentido no Bernardino» (Contos, Miguel Torga. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2017, 6.ª ed., p. 149). Ou, entre os vivos, Lídia Jorge: «Mas não demorou muito que Eduardo Lanuit não entrasse no interior da casota do quintal onde se encontrava a condensação do seu mundo, e aí ficasse algum tempo, sem saber onde colocar o cheque proveniente de lugar nenhum» (O Jardim sem Limites, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995, p. 229).

 

[Texto 12 483]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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16
Dez 19

«Melhor | mais bem»

Para esquecer (em parte)

 

      «Peço aos meus colegas do jornalismo escrito e falado, mas sobretudo falado, que não se esqueçam sistematicamente de que “melhor” não é igual a “mais bem”» («Diário», Vasco Pulido Valente, Público, 14.12.2019, p. 9).

      Em princípio, Vasco Pulido Valente tem razão, mas, como não diz mais nada, é para esquecer. Esquecer, mas não tudo: melhor é comparativo de bom e mais bem é comparativo de bem. Como, porém, até os grandes escritores vacilaram ou entenderam subverter as coisas, talvez o simples mortal também o possa fazer. Já mais grave é confundir o simples bom com bem, e muitos o fazem.

 

[Texto 12 477]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | favorito
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12
Nov 19

Gramática: «se não | senão»

Agora já sabem

 

      «O que podemos nós fazer perante tanta justificação grosseira e tão grande lata se não gozar com a sua cara, enquanto ele continua a gozar com a nossa? Percebo e comungo desse sentimento» («Sócrates transformou-se em anedota — e isso é mau», João Miguel Tavares, Público, 7.11.2019, p. 48). Preferimos Régio, claro: «Não chovendo, porém, que remédio teria Lèlito senão gozar quase uma hora de recreio?» (Uma Gota de Sangue, José Régio. Lisboa: Portugália, 1961, p. 12).

 

[Texto 12 269]

Helder Guégués às 18:45 | comentar | favorito
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15
Jun 19

Plural dos apelidos, mais uma vez

Vá lá

 

      «Mas já alguma vez aqueles que hoje falam das elites incluíram a Associação Industrial, ou a Confederação da Indústria, os Amorins e os Pereiras Coutinhos, ou os Soares dos Santos, ou os Melos, etc.? Mas certamente que incluiriam a Fenprof e a CGTP» («A nostalgia das causas», José Pacheco Pereira, Público, 15.06.2019, p. 12).

 

[Texto 11 540]

Helder Guégués às 19:41 | comentar | favorito
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07
Jun 19

Os Obamas no Spotify

Ainda há esperança

 

      «A produtora do ex-Presidente dos Estados Unidos Barack Obama e da sua mulher Michelle assinou um acordo com a plataforma Spotify para produzir ‘podcasts’ exclusivos» («Obamas vão produzir ‘podcasts’ exclusivos para o Spotify», Rádio Renascença, 7.06.2019, 2h10).

      Querem ver que isto ainda se endireita? Está bem que o mérito neste caso é relativo — pois se o jornalista tinha escarrapachado à frente do nariz «Obamas», foi apenas deixar-se ir, e nisto eles são bons.

 

[Texto 11 499]

Helder Guégués às 12:58 | comentar | favorito
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11
Mai 19

«A não ser | a não serem»

Ficam a saber hoje

 

      «A não ser os seguranças e os guarda-costas, mais ninguém sabia que era esta a derradeira vez que o primeiro-ministro discursava no Parlamento.» Está certo, mas, como também afirmei em relação à locução por si só, que tanta polémica por aqui deu, prefiro não a usar como expressão invariável, sinónima de partícula de exclusão como «excepto» ou «salvo», e estou bem acompanhado, pois vamos encontrar em Machado de Assis, entre outros grandes escritores, frases como esta: «As dissipações não produzem nada, a não serem dívidas e desgostos» (in Contos Fluminenses, 1870). Portanto, saibam os insipientes e os intolerantes que, ainda que a generalidade das vezes se use como locução invariável, é igualmente correcto usá-la flexionada.

 

[Texto 11 344]

Helder Guégués às 09:13 | comentar | favorito
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