23
Mar 19

Segundo-comandante/segunda-comandante

Tem dias

 

      Sabiam que Eva foi a primeira bacharela, visto que provou da árvore da ciência antes do marido? Atento o sexo e o estado do mundo naquelas recuadas eras, se tivesse o segundo lugar numa hierarquia de comando, seria o quê, primeiro-comandante ou primeira-comandante? «Patrícia Gaspar, segundo comandante nacional, em conferência de imprensa esta quinta-feira disse que os números definidos são apenas de “referência” e não justifica porque não se alterou o comando das operações no sábado, quando estavam reunidos os critérios, mas apenas na terça-feira» («Proteção Civil viola regra que criou após incêndio de Pedrógão», TVI 24, 9.08.2018, 12h03). Não queriam mais nada: então diz-se segunda-secretária, segunda-escriturária, segunda-oficial e depois dizia-se «segundo-comandante»? Entretanto, porém, parece que aprenderam qualquer coisa. E digo parece porque pode ter sido por acaso, como tantas, demasiadas, vezes. No Jornal das 8 da TVI, ontem, referiram-se a Patrícia Gaspar como segunda-comandante da Protecção Civil.

      Espera lá, há por aí dicionários que preconizam o contrário do que eu acabei de defender e me parece de uma clareza meridiana... Infelizmente, não nos permitem estabelecer nenhuma analogia mais evidente nem apanhá-los em contradição, pois não registam «segundo-secretário», «segundo-escriturário», «segundo-oficial», etc. Não têm razão. 

 

[Texto 11 017]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito
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21
Mar 19

«Por que motivo», de novo

Os refolhos do espírito

 

      «— Um basilisco, senhora? E por que motivo, faz favor de me explicar, procuram um basilisco?» (A Princesa da Babilónia, Voltaire. Tradução de José Carlos Marinho. Lisboa: Editorial Inquérito, 1946, p. 230).

      Já tenho falado com incultos da área da edição (ponha aqui o leitor os pontos de exclamação que entender — pontos de exclamação que são autênticas bandarilhas que se vão cravar necessariamente em algum cachaço) que suspeitam que este «por que» é invencionice dos revisores dos nossos dias. Valha-nos Deus. Abram-me bem os refolhos do espírito.

 

[Texto 11 004]

Helder Guégués às 14:58 | comentar | favorito
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07
Fev 19

«Quanto mais eu/tu/ele/nós...»

Só para se calar de vez

 

      Nolite mittere margaritas ante porcos, aconselha o adágio latino, mas, já se sabe, nem sempre nem nunca. A minha construção, com a diferença do pronome, é exactamente a que encontramos no seguinte excerto da crónica do jesuíta Leonardo Nunes: «Perguntou-lhe quanta gente estava na fortaleza. Respondeu que dois mil homens. Perguntou mais quantos traria o governador. Respondeu que doze mil. Perguntou se pelejaria com ele. Respondeu que, se o governador tivera licença dado aos cercados, já o tiveram desbaratado, quanto mais ele que não vinha senão para começar nele a destruição e ir por dentro da terra acabá-la em Amadaba, onde estava el-rei» (Crónica de D. João de Castro, Leonardo Nunes. Lisboa: Publicações Alfa, 1989, p. 77). Confundir obstinadamente — ainda depois de eu tratar da questão várias vezes — esta construção com outra completamente diferente, que é quando mais não seja, isto é, quando por outra coisa não for, vai para lá de toda a miséria.

 

[Texto 10 739]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | favorito
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31
Jan 19

Dia ao Contrário

Gramática às avessas

 

      A emissão de hoje de Um Dia no Mundo, de Francisco Sena Santos, na Antena 1, era sobre os Irlandeses e os Norte-Irlandeses, sobre as duas Irlandas, os menos de 2 milhões de um lado, os 5 milhões do outro lado. «Todos sentem-se irlandeses», garante o cronista, num imperdoável deslize — com certeza não improvisa, a crónica é escrita. Deve ser porque hoje é o Dia ao Contrário, já que Sena Santos é uma das melhores vozes e cabeças da rádio.

 

[Texto 10 687]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito
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22
Jan 19

Como se escreve (por vezes) nos jornais

Obstinação

 

      De quando em quando, o Público vai contra as suas próprias regras — e isso é simplesmente fantástico quando as regras são erradas. Sobre Alexandria Ocasio-Cortez, fez ontem na primeira página a pergunta: «Porque é que os republicanos estão obcecados com esta congressista?» É certo que amanhã já se terão esquecido, mas, já se sabe, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. E que dizer da teimosia de continuarem a escrever cannabis, quando toda a gente escreve «canábis»? Incongruente. É como se se viesse a saber que o deputado do PAN andava por aí à noite a acirrar pastores-alemães contra gatos indefesos e desprevenidos.

 

[Texto 10 629]

Helder Guégués às 00:24 | comentar | favorito
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16
Jan 19

«Cumprir com»

Neste caso, não a usaria

 

      «A questão é que para saber sair da União Europeia é preciso conhecê-la muito bem, e conhecer muito bem para onde se vai, e a elite brexiteira do Reino Unido nunca se esforçou por cumprir com nenhum desses desideratos. [...] Continua o mito do “Brexit” pela ideia de que, desamarrado da Europa, o Reino Unido pode cumprir com um “destino global”. Mas esse destino global tem um problema: depende da soberania dos outros» («Estranha forma de assumir controlo», Rui Tavares, Público, 16.01.2019, p. 48).

      Um leitor descontente pergunta-me se esta regência do verbo «cumprir» está correcta. Está. Foi consagrada por vários autores e encontramo-la nos dicionários de regências verbais e até em alguns dicionários gerais. No sentido de levar a efeito, executar cabal e pontualmente, é indiferente usar uma ou outra regência: Cumprir (com) a palavra. Ainda assim, diga-se que, neste caso concreto, eu não usaria esta regência.

 

[Texto 10 596]

Helder Guégués às 11:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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