28
Out 20

«Vila dos Gamas»

Não sabem o que dizem

           

      Para o almoço, já ali tenho um Vila dos Gamas tinto, da Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito. Para alguns dos nossos linguistas de meia-tigela, seria «Vila dos Gama». E dizem isto com cara séria e mesmo antes de beberem. Apre.

 

[Texto 14 231]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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19
Out 20

Gostaria que se preocupassem menos

Descomplique

 

      «Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: “Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral.” E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso» («Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 8.08.2020, p. 2).

      Descomplique, Leonídio Paulo Ferreira, descomplique. É bem verdade que o verbo gostar pede a preposição de, mas na sequência gostar de que podemos — ou até devemos — omitir a preposição. Não tem de quê.

 

[Texto 14 174]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | favorito
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02
Jun 20

Sobre «social-democrata»

Ipsis verbis

 

      «Contas da Câmara de Gaia não convencem sociais-democratas» (Jornal de Notícias, 30.05.2020, p. 24). Para o substantivo, é o único plural correcto, já o tenho dito. Cito a frase acima apenas para contar a traços largos um caso recente: era uma tradução, e a tradutora optara por escrever «os social-democráticos». À minha argumentação (por vezes precisamos, não apenas de os corrigir, mas de argumentar longamente), recebi este epítome de subserviência e ignorância: «Consultado o Editor, decidiu-se que ficaria o que é considerado correcto pelas figuras gradas da nossa gramática, e não o “que mais se usa”.» Se o explicasse mais três vezes, não seria menos em vão.

 

[Texto 13 477]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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30
Abr 20

«Frente a»?

Sobre um título

 

      Sou leitor (pagante) do jornal Público, mas apenas da versão digital, e por isso não vou a nenhuma banca comprá-lo, ou teria trazido também a obra do físico e escritor italiano Paolo Giordano. Ou não, porque o título da tradução de Miguel Serras Pereira ­— Frente ao Contágio — me parece um grosseiro atropelo ao português. Mais um. «Frente a»? Será a edição ibérica da obra? No original, é Nel contagio; a edição inglesa tem o título How Contagion Works; a espanhola, En tiempos de contagio; a francesa, Contagions; a alemã, In Zeiten der Ansteckung Rowohlt; a catalã, En el contagi; a croata, U Času Epidemije; a neerlandesa, In Tijden Van Besmetting; a húngara, Járvány Idején; a norueguesa, I Smittens Tid, etc. Sim, etc., já chega, a conclusão é só uma: se não quisessem o seco e honesto «No contágio» do original, a alternativa não era o caminho errado que escolheram, mas algo como «Em pleno contágio», por exemplo. Só tinham de fugir de dois caminhos: o oportunista, seguido pelo editor russo (Заражение – Covid – 19, наука, общество и глобальный кризис), e o gramaticalmente errado por onde se enfiaram.

 

[Texto 13 263]

Helder Guégués às 22:00 | comentar | favorito
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24
Abr 20

Custos extras

A lição que vem de Angola

 

      No Jornal de Angola abundam, superabundam os erros, e nem sei onde foram buscar a arrogância (petrodólares?) para criticar Portugal por ter adoptado o Acordo Ortográfico de 1990, mas até nele alguns jornalistas portugueses podem aprender alguma coisa, como esta, básica: «Um dia depois do Comité Olímpico Internacional (COI) ter publicado uma explicação dos procedimentos relativos ao adiamento dos Jogos Olímpicos de 2020, o Governo japonês veio tecer duras críticas. No documento, Thomas Bach anuncia que Shinzo Abe, Primeiro-Ministro japonês, tinha concordado cobrir os custos extras, algo que foi negado» («Japão contraria versão do COI sobre cobertura de custos extras», Jornal de Angola, 23.04.2020, p. 30).

 

[Texto 13 211]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Abr 20

Como se escreve por aí

Os milhões, sempre

 

      «Assintomático. Confinamento. Epidemiologia. Gel hidroalcoólico. Imunidade. Mitigar. OMS. Patologia. Quarentena. Teletrabalho. Zaragatoa. Todo um campo lexical que açambarca os noticiários, horas a fio, páginas sem conta. Um qualquer algoritmo também há de calcular as milhões de vezes que se pronuncia a palavra-chave, Covid-19, a da pandemia que faz dos repórteres novos soldados de uma mobilização profissional sem precedentes. Jornalismo de guerra? “Mais do que isso. É um desígnio à escala global”, diz Felisbela Lopes [professora de Jornalismo e de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho]» («A agenda “coronacêntrica” e o jornalismo de guerra», Almiro Ferreira, Jornal de Notícias, 12.04.2020, p. 19).

      Começa muito bem, até parece um doutor no Templo — mas pouco depois esmerdalha-se (Porto Editora, agarra-o) todo contra o muro da gramática: Almiro Ferreira, é «os milhões». Diacho! Mas nos cursos de Jornalismo não têm uma disciplina de Português?

 

[Texto 13 158]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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23
Mar 20

Léxico: «analfabetice»

Agora sim

 

      «Bruno Alves aceita o corte salarial que tem sido noticiado pela imprensa italiana, de acordo com o plano que os clubes preparam para fazer face ao rombo económico causado pelo novo coronavírus. [...] “Essas questões da redução salarial são assuntos muito sensíveis. Se não terminar o campeonato concordo com um ajuste. Mas penso que se houver reduções salariais por não podermos jogar terão de haver regras para tudo o que está à nossa volta. Não podem reduzir os salários aos jogadores e continuarem na mesma os alimentos, as rendas, os impostos. Temos que implementar as regras no geral. Tem que haver justiça”, reforça, em declarações a Bola Branca» («Bruno Alves aceita corte salarial se reduzirem preços dos bens essenciais», Pedro Azevedo, Rádio Renascença, 23.03.2020, 12h46, itálico meu).

      A culpa da rematada hipocrisia é só do jogador; a analfabetice (outra que a Porto Editora ignora) é culpa de ambos, e até mais do jornalista: o jogador não conhece as regras gramaticais, mas a estrita obrigação do jornalista é conhecê-las e aplicá-las. Deixem lá o WhatsApp e essas porcarias, e aprendam qualquer coisinha de útil.

 

[Texto 13 006]

Helder Guégués às 13:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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06
Mar 20

Verbo «presidir»

Só para relembrar

 

       «Na leitura do acórdão, a juíza que presidiu o julgamento referiu que, “dada a compleição física” de Rosa Grilo, carregar o corpo do marido não seria “impossível”. Aliás, para o tribunal, a arguida terá usado o édredon onde embrulhou o corpo para o arrastar até ao carro e então transportá-lo até ao local onde o abandonou, a cerca de 160km de casa onde viviam, nas Cachoeiras» («Rosa Grilo condenada a 25 anos de prisão pelo homicídio do marido. António Joaquim absolvido», Sónia Trigueirão, Público, 4.03.2020, p. 20).

      O verbo presidir, como se sabe, constrói-se com objecto directo («presidir o julgamento»), como na frase acima, ou com objecto indirecto («presidir ao julgamento»), que é a forma mais comum e a que prefiro.

 

[Texto 12 909]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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20
Fev 20

«Reservar-se o direito»

Um erro persistente

 

      «O Governo reserva-se ao direito de promover a exploração mineira em caso de interesse público» (jornalista Luís Peixoto, noticiário das 7h00 na Antena 1, 14.02.2020). Erro persistente, próprio de quem reflecte pouco ou nada sobre a língua, com a agravante de se tratar de um jornalista. Aqui, «o direito» é o complemento directo — logo, correcto é «reserva-se o direito», que é como que diz, reserva o direito para si.

 

[Texto 12 845]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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