07
Fev 19

«Quanto mais eu/tu/ele/nós...»

Só para se calar de vez

 

      Nolite mittere margaritas ante porcos, aconselha o adágio latino, mas, já se sabe, nem sempre nem nunca. A minha construção, com a diferença do pronome, é exactamente a que encontramos no seguinte excerto da crónica do jesuíta Leonardo Nunes: «Perguntou-lhe quanta gente estava na fortaleza. Respondeu que dois mil homens. Perguntou mais quantos traria o governador. Respondeu que doze mil. Perguntou se pelejaria com ele. Respondeu que, se o governador tivera licença dado aos cercados, já o tiveram desbaratado, quanto mais ele que não vinha senão para começar nele a destruição e ir por dentro da terra acabá-la em Amadaba, onde estava el-rei» (Crónica de D. João de Castro, Leonardo Nunes. Lisboa: Publicações Alfa, 1989, p. 77). Confundir obstinadamente — ainda depois de eu tratar da questão várias vezes — esta construção com outra completamente diferente, que é quando mais não seja, isto é, quando por outra coisa não for, vai para lá de toda a miséria.

 

[Texto 10 739]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | favorito | partilhar
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31
Jan 19

Dia ao Contrário

Gramática às avessas

 

      A emissão de hoje de Um Dia no Mundo, de Francisco Sena Santos, na Antena 1, era sobre os Irlandeses e os Norte-Irlandeses, sobre as duas Irlandas, os menos de 2 milhões de um lado, os 5 milhões do outro lado. «Todos sentem-se irlandeses», garante o cronista, num imperdoável deslize — com certeza não improvisa, a crónica é escrita. Deve ser porque hoje é o Dia ao Contrário, já que Sena Santos é uma das melhores vozes e cabeças da rádio.

 

[Texto 10 687]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito | partilhar
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22
Jan 19

Como se escreve (por vezes) nos jornais

Obstinação

 

      De quando em quando, o Público vai contra as suas próprias regras — e isso é simplesmente fantástico quando as regras são erradas. Sobre Alexandria Ocasio-Cortez, fez ontem na primeira página a pergunta: «Porque é que os republicanos estão obcecados com esta congressista?» É certo que amanhã já se terão esquecido, mas, já se sabe, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. E que dizer da teimosia de continuarem a escrever cannabis, quando toda a gente escreve «canábis»? Incongruente. É como se se viesse a saber que o deputado do PAN andava por aí à noite a acirrar pastores-alemães contra gatos indefesos e desprevenidos.

 

[Texto 10 629]

Helder Guégués às 00:24 | comentar | favorito | partilhar
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16
Jan 19

«Cumprir com»

Neste caso, não a usaria

 

      «A questão é que para saber sair da União Europeia é preciso conhecê-la muito bem, e conhecer muito bem para onde se vai, e a elite brexiteira do Reino Unido nunca se esforçou por cumprir com nenhum desses desideratos. [...] Continua o mito do “Brexit” pela ideia de que, desamarrado da Europa, o Reino Unido pode cumprir com um “destino global”. Mas esse destino global tem um problema: depende da soberania dos outros» («Estranha forma de assumir controlo», Rui Tavares, Público, 16.01.2019, p. 48).

      Um leitor descontente pergunta-me se esta regência do verbo «cumprir» está correcta. Está. Foi consagrada por vários autores e encontramo-la nos dicionários de regências verbais e até em alguns dicionários gerais. No sentido de levar a efeito, executar cabal e pontualmente, é indiferente usar uma ou outra regência: Cumprir (com) a palavra. Ainda assim, diga-se que, neste caso concreto, eu não usaria esta regência.

 

[Texto 10 596]

Helder Guégués às 11:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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21
Nov 18

Como se escreve por aí

Valha-nos Deus

 

      «O dados revelados pelo Ministério do Ambiente ao Jornal de Notícias e ao Público não permitem perceber porque motivo não foi respeitado o decreto-lei de 1982. No momento em que foi publicado, já as duas pedreiras laboravam há anos, apenas com uma declaração que fazia prova da titularidade dos terrenos — na altura, a única condição imposta. [...] Há outra dúvida motivada por estes dados do Ministério do Ambiente: se o decreto-lei remonta a 1982, porque motivo as pedreiras só foram licenciadas em 1989, sete anos depois? [...] O último alerta deu-se em 2014, quando a Câmara de Borba, empresários do setor pedreiro e a Direção-Geral de Energia e Geologia se sentaram à mesma mesa para discutir o eventual encerramento da EN 255» («Pedreiras de Borba não cumpriam margens de segurança impostas pela lei», Miguel Videira, TSF, 21.11.2018, 8h50).

      Só é pena não se fazerem também inspecções aos conhecimentos de gramática e léxico dos jornalistas, não é assim, Miguel Videira? Muitos teriam de cessar actividade.

[Texto 10 325]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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12
Nov 18

«Jogo da Língua», 9.NOV.2018

Pobres ouvintes

 

      Felizmente tenho sempre coisas mais importantes que fazer, mas na sexta-feira, num intervalo, ouvi o Jogo da Língua. A suposição mais benévola é a de que só tem erros quando eu ouço o programa, assim à semelhança do gato de Schrödinger. Ora bem, a questão era de sintaxe: «Os filmes que mais gosto são os policiais e os thrillers/Os filmes de que mais gosto são os policiais e os thrillers.» Tinha logo de incluir um estrangeirismo, para melhor defesa da nossa língua. O prezado ouvinte acertou por acaso. Vamos lá ver o que diz a Dra. Sandra: «Em frases relativas como estas, nós temos de repetir a preposição de, “O livro de que mais gosto é esse”; «Os filmes de que mais gosto são...”, uma vez que o verbo gostar é um verbo que requer preposição. E essa preposição deve estar sempre em todos os contextos sintácticos em que usamos o verbo gostar, inclusive nestes um bocadinho mais complexos em que nós estamos perante uma oração relativa.» Repetir a preposição? Pobres ouvintes... Então, veja se é capaz de nos apontar na frase as duas preposições e depois mande-me a resposta para o Messenger. E outra coisinha: o vocábulo «sintaxe» pronuncia-se /sintasse/ e não, como sonoramente o fez, /sintaze/. E tu, Dicionário que da Língua Portuguesa da Porto Editora, também tens de colaborar e ajudar esta gente, pois, ao contrário de muitos dicionários e vocabulários (por exemplo, o VOLP da Academia Brasileira de Letras), não deixas esta tão singela e útil indicação: «sintaxe (ss)».

 

[Texto 10 274]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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30
Out 18

Ortografia: «açoriano»

Pior do que o nome inglês

 

       «O Taste Azores está de volta à Praça Central do Centro Colombo (Lisboa), entre 31 de outubro e 4 de novembro, apresentando 25 empresas representantes da melhor gastronomia açoreana» (Destak, 30.10.2018, p. 2). Não é a primeira vez — e não pode ser a última — que este erro passa por aqui. É açoriano, senhores jornalistas. Açoreana, só a companhia de seguros, mas os nomes próprios não obedecem às mesmas regras, e daí Guégués com dois acentos, Mello como dois ll, e por aí fora. Não entremos na discussão de que sufixo se trata, pois os próprios gramáticos não se entendem, com alguns a afirmarem que é o sufixo nominal -ano, e outros a jurarem que é -iano. ¯\_(ツ)_/¯

 

[Texto 10 220] 

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar