16
Set 18

O lugar do pronome

Alucinações auditivas?

 

      «Nos anos 1940, os ardinas apregoavam em certos dias, ao vender o jornal República: “Fala o Rocha! Hoje fala o Rocha!” Era a homenagem de garotos quase analfabetos, armados, e bem, em fazedores de manchete. O homenageado era Rocha Martins, jornalista de pena afiada e o gosto pela liberdade que levava-o, sendo monárquico, a escrever num jornal titulado República» («Hoje apetece-me fazer de ardina», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.09.2018, 10h07).

      Sou só eu que ouço o pronome a pedir aos gritos que o levem para a frente do verbo? Estarei a sofrer de alucinações auditivas? A enlouquecer? Montexto, está a ouvir o mesmo?

 

[Texto 9926]

Helder Guégués às 13:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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07
Set 18

Manual de Inglês

É novamente Setembro

 

      «Hello! It’s september again...» (What’s Up? 6, Cristina Costa, Isabel Teixeira e Paula Menezes, com revisão pedagógica e linguística de James Scott. Lisboa: Texto Editores, 2018, p. 13).

      Mr. Scott, helloooo, esqueceu-se de ler o manual... E a editora também parece que se esqueceu de o dar a rever a um revisor. Acontece, não é? Até agora — acabou de me aterrar nas mãos — só vi este erro, mas antes do fim do ano (lectivo ou civil, eu logo decido), vou descobrir mais. Para não ficarem pontas soltas: criancinhas, pais, os meses em inglês escrevem-se com maiúscula inicial.

 

[Texto 9875]

Helder Guégués às 08:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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18
Ago 18

«Nossa Senhora dos Aflitos»

A crase em crise

 

      Em questões linguísticas, boa parte do tempo e dos neurónios dos Brasileiros é dedicada à magna questão da crase. Hoje, porém, também eu vou escrever quatro linhas sobre o assunto. «Sempre que dou o “enter” final na compra de uma viagem da Ryanair, começo logo a rezar à Nossa Senhora dos Aflitos» («Uma aventura gelada no Terminal 2», Edgardo Pacheco, «Sexta»/Correio da Manhã, 17-23.08.2018, p. 29).

      Um pequeno inquérito: levante o dedo quem, do lado de cá do Atlântico (só portugueses, porque, se for ali à Baixa de Cascais, enxameada de compatriotas de Lula da Silva, fica logo falseado), diz da mesma maneira. Obrigado. Não precisa de selo.

 

[Texto 9812]

Helder Guégués às 17:06 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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«Dos teus egrégios avôs»

É essa a questão

 

      Estava a tomar o pequeno-almoço quando um vago conhecido, nem sequer leitor do blogue (ao que suponho, mas nunca se sabe), me pergunta se, no hino, não devia ser «dos teus egrégios avôs». Devia. Já vimos aqui que o plural é sempre do nome masculino. Liberdade de Henrique Lopes de Mendonça (rima falsa?), ou também ele viveu numa época em que já era assim? Melhor: alguma vez se disse «avôs» em vez de «avós»? É isto que importa investigar. Talvez sirva para tese de doutoramento.

 

[Texto 9807]

Helder Guégués às 13:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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17
Ago 18

«Ameaças de bomba aterram cinco aviões»

Vamos evitar isto

 

      «Ameaças de bomba aterram cinco aviões» (Rádio Renascença, 16.08.2018, 23h54). Coitados dos aviões, desde o 11 de Setembro vivem aterrados com estes casos. Vão, inevitavelmente, precisar de tratamento psicológico. Esta construção frásica é semelhante — mas muito pior — a outras que já aqui tenho trazido, como «bando explode ATM» e quejandas. Se não antepusermos o verbo «fazer» ao verbo principal, a frase fica um tudo-nada estranha, quando não errada. Não façam isto.

 

[Texto 9802]

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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15
Jul 18

Abusar da gramática

Pois evolui — e também se corrompe

 

      «Sim, a velhinha abusada foi a rainha Isabel II e o grandalhão grosseiro foi o presidente Donald Trump. No entanto, não deveríamos deixar que as nossas opiniões políticas toldassem o nosso aviso. Eu, por exemplo, republicano dos quatro costados, não me deixei levar pela minha natural antipatia pelas rainhas. Distanciei-me das minhas convicções profundas e de toda a cena concluí ter-se passado o que se segue, sem tomar partido» («A velhinha abusada e o grandalhão grosseiro», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 15.07.2018, 7h00).

      Cá estamos nós em pleno pântano das áreas críticas da língua portuguesa, a construção passiva de verbos que não são transitivos directos — e não havia necessidade.

 

[Texto 9630]

Helder Guégués às 16:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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10
Jul 18

Viva a gramática, vivam os revisores

Viva, Ferreira Fernandes

 

      «Restelo, bairro de Lisboa, rua de Alcolena, pequena e de vivendas, às 13 horas, à hora que escrevo. Porque não está lá uma multidão? Ou um descendente do Senhor do Adeus, o homem que distribuía saudações aos lisboetas, de madrugada, só porque gostava deles? A Tailândia merece este gesto nosso: viva! Viva um país que cuida dos seus, salva os seus. Viva a Tailândia, viva os tailandeses[,] que não perderam a esperança por doze miúdos e o seu treinador» («Viva os tailandeses!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 10.07.2018, 13h35).

      Podia ter ficado pelo título, que já está errado, mas Ferreira Fernandes merece sempre ser citado mais extensamente. Então agora o verbo deixou de concordar com o sujeito? No singular e sem sujeito, sim, esta forma verbal usa-se como uma interjeição de saudação (como no meu título), de aclamação ou de entusiasmo. A anteceder um substantivo, concorda obrigatoriamente com este. Quanto à referência à Rua de Alcolena, diga-se, para quem não sabe nem se quer dar ao trabalho de pesquisar, que é a rua de Lisboa onde está a Embaixada da Tailândia. Alcolena é um evidente arabismo e significa «o coelho».

 

[Texto 9589]

Helder Guégués às 19:42 | comentar | favorito | partilhar
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20
Jun 18

«Os milhares de pessoas»

Regresso ao básico

 

      «No “relvado” do Terreiro do Paço está sentado Ricardo Gomes, filho de pais portugueses que nasceu na Alemanha, a cerca de 50 quilómetros do local onde vivia Cédric, internacional português. Neste momento está de férias em Portugal e resolveu juntar-se às milhares de pessoas presentes no palco lisboeta» («Da tatuagem à promessa de uma viagem à final. As emoções na Arena Portugal», Inês André de Figueiredo, TSF, 20.06.2018, 13h42).

      De quando em quando, temos de regressar a estas coisas básicas, ou ainda se começa a pensar que o problema está todo nos dicionários. Inês, Inês, então «milhar» não é do género masculino? Então? Escreva «e resolveu juntar-se aos milhares de pessoas presentes no palco lisboeta». Isso costuma passar rapidamente, basta usar-se a cabeça.

 

[Texto 9458]

Helder Guégués às 13:54 | comentar | favorito | partilhar
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