15
Jul 18

Abusar da gramática

Pois evolui — e também se corrompe

 

      «Sim, a velhinha abusada foi a rainha Isabel II e o grandalhão grosseiro foi o presidente Donald Trump. No entanto, não deveríamos deixar que as nossas opiniões políticas toldassem o nosso aviso. Eu, por exemplo, republicano dos quatro costados, não me deixei levar pela minha natural antipatia pelas rainhas. Distanciei-me das minhas convicções profundas e de toda a cena concluí ter-se passado o que se segue, sem tomar partido» («A velhinha abusada e o grandalhão grosseiro», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 15.07.2018, 7h00).

      Cá estamos nós em pleno pântano das áreas críticas da língua portuguesa, a construção passiva de verbos que não são transitivos directos — e não havia necessidade.

 

[Texto 9630]

Helder Guégués às 16:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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10
Jul 18

Viva a gramática, vivam os revisores

Viva, Ferreira Fernandes

 

      «Restelo, bairro de Lisboa, rua de Alcolena, pequena e de vivendas, às 13 horas, à hora que escrevo. Porque não está lá uma multidão? Ou um descendente do Senhor do Adeus, o homem que distribuía saudações aos lisboetas, de madrugada, só porque gostava deles? A Tailândia merece este gesto nosso: viva! Viva um país que cuida dos seus, salva os seus. Viva a Tailândia, viva os tailandeses[,] que não perderam a esperança por doze miúdos e o seu treinador» («Viva os tailandeses!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 10.07.2018, 13h35).

      Podia ter ficado pelo título, que já está errado, mas Ferreira Fernandes merece sempre ser citado mais extensamente. Então agora o verbo deixou de concordar com o sujeito? No singular e sem sujeito, sim, esta forma verbal usa-se como uma interjeição de saudação (como no meu título), de aclamação ou de entusiasmo. A anteceder um substantivo, concorda obrigatoriamente com este. Quanto à referência à Rua de Alcolena, diga-se, para quem não sabe nem se quer dar ao trabalho de pesquisar, que é a rua de Lisboa onde está a Embaixada da Tailândia. Alcolena é um evidente arabismo e significa «o coelho».

 

[Texto 9589]

Helder Guégués às 19:42 | comentar | favorito | partilhar
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20
Jun 18

«Os milhares de pessoas»

Regresso ao básico

 

      «No “relvado” do Terreiro do Paço está sentado Ricardo Gomes, filho de pais portugueses que nasceu na Alemanha, a cerca de 50 quilómetros do local onde vivia Cédric, internacional português. Neste momento está de férias em Portugal e resolveu juntar-se às milhares de pessoas presentes no palco lisboeta» («Da tatuagem à promessa de uma viagem à final. As emoções na Arena Portugal», Inês André de Figueiredo, TSF, 20.06.2018, 13h42).

      De quando em quando, temos de regressar a estas coisas básicas, ou ainda se começa a pensar que o problema está todo nos dicionários. Inês, Inês, então «milhar» não é do género masculino? Então? Escreva «e resolveu juntar-se aos milhares de pessoas presentes no palco lisboeta». Isso costuma passar rapidamente, basta usar-se a cabeça.

 

[Texto 9458]

Helder Guégués às 13:54 | comentar | favorito | partilhar
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Concordância verbal com o pronome «quem»

Mais vale prevenir

 

      «A menina Kim disse que quem bebesse a água do poço ficavam com espírito forte» (Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto. Lisboa: Quetzal, reimpressão de Janeiro de 2017, p. 140).

      O livro tem várias gralhas, e acredito que neste caso também seja gralha e não erro. Contudo, porque há quem o faça intencionalmente — há de tudo neste mundo —, convém explicar que o pronome quem pertence à terceira pessoa do singular, portanto é preciso fazer a concordância verbal correcta. Se quisermos que os verbos fiquem no plural, temos de mudar o pronome: «A menina Kim disse que os que bebessem a água do poço ficavam com espírito forte.»

 

[Texto 9454]

Helder Guégués às 07:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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11
Jun 18

«Preferir», mais uma vez

Nem daqui a duzentos anos

 

      «Marcelo prefere acordos difíceis em vez de ruturas» (Diana Ramos, Correio da Manhã, 11.06.2018, p. 22). Ontem, na televisão, também ouvi esta construção errada. Diana Ramos, preferir constrói-se com a preposição a e não com a locução do que nem em vez de. Aprenda, divulgue.

 

[Texto 9390]

Helder Guégués às 12:17 | comentar | favorito | partilhar
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09
Jun 18

Regência: «assistir»

Nem a polícia sabe

 

      «O homicídio a tiro foi assistido por duas pessoas, que ficaram em choque» («Dispara sobre o filho e mata-o no quintal», Magali Pinto, Joana de Sales e Sara G. Carrilho, Correio da Manhã, 8.06.2018, p. 10).

      O habitual: quantos mais são, menos fazem. Com que então, o tiro foi assistido? Quer dizer que o alegado homicida foi auxiliado por alguém, é isso? Ah, infelizes. Já sei que não vão compreender, mas sempre direi que, com o sentido de «presenciar, ver», assistir é um verbo transitivo indirecto, devendo reger a preposição a.

 

[Texto 9376]

Helder Guégués às 12:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Regência: «propor-se»

Mais curto e correcto: eu quero

 

      «Diz a magistrada que o atual quadro legal permite classificar como organização terrorista um agrupamento de adeptos de uma associação desportiva que se proponham a esbofetear atletas para os intimidar» («Magistrada defende tese de terrorismo», Correio da Manhã, 8.06.2018, p. 5).

   Mais simples e considerada mais correcta: «se proponham esbofetear». Não têm de quê, ou têm, mas o prazer é meu.

 

[Texto 9375]

Helder Guégués às 12:19 | comentar | favorito | partilhar
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03
Jun 18

«Tratar-se de», mais uma triste vez

Voltemos ao básico

 

      «Fonte oficial da PSP disse ao semanário ‘Sol’ que na origem do problema esteve uma correção errada feita à prova escrita. Tratam-se de testes (conhecimentos profissionais e cultura geral), corrigidos informaticamente, com recurso a chaves introduzidas pela PSP. Durante esse processo, adianta a mesma fonte, terá ocorrido um erro» («Erros no curso de chefes da PSP», Miguel Curado, Correio da Manhã, 3.06.2018, p. 14).

      Tanta espertalhice, mas com a gramática elementar é que não atinam. Miguel Curado, tratar-se é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular. Percebe? «Trata-se de testes».

 

[Texto 9333]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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28
Fev 18

Outro verbo assassinado

Mais poluição linguística

 

      «Acima de tudo, afirma [Francisco Ferreira, da Associação Zero], faltam implementar medidas de emergência para actuar no imediato quando os limites da qualidade do ar são ultrapassados» («Portugal sem medidas de emergência quando qualidade do ar é má», Ana Maia, Público, 28.02.2018, p. 4).

      Já falei disto algumas vezes, mas vamos lá de novo. Já o ensinei a revisores e a professores universitários: o sujeito do verbo «faltar», que é pessoal, é outro verbo, o verbo «implementar» (t’arrenego!), que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo «faltar» esteja no singular: «falta implementar medidas». Também falta estudar um pouco mais a gramática.

 

[Texto 8832]

Helder Guégués às 21:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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