23
Mar 20

Léxico: «analfabetice»

Agora sim

 

      «Bruno Alves aceita o corte salarial que tem sido noticiado pela imprensa italiana, de acordo com o plano que os clubes preparam para fazer face ao rombo económico causado pelo novo coronavírus. [...] “Essas questões da redução salarial são assuntos muito sensíveis. Se não terminar o campeonato concordo com um ajuste. Mas penso que se houver reduções salariais por não podermos jogar terão de haver regras para tudo o que está à nossa volta. Não podem reduzir os salários aos jogadores e continuarem na mesma os alimentos, as rendas, os impostos. Temos que implementar as regras no geral. Tem que haver justiça”, reforça, em declarações a Bola Branca» («Bruno Alves aceita corte salarial se reduzirem preços dos bens essenciais», Pedro Azevedo, Rádio Renascença, 23.03.2020, 12h46, itálico meu).

      A culpa da rematada hipocrisia é só do jogador; a analfabetice (outra que a Porto Editora ignora) é culpa de ambos, e até mais do jornalista: o jogador não conhece as regras gramaticais, mas a estrita obrigação do jornalista é conhecê-las e aplicá-las. Deixem lá o WhatsApp e essas porcarias, e aprendam qualquer coisinha de útil.

 

[Texto 13 006]

Helder Guégués às 13:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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06
Mar 20

Verbo «presidir»

Só para relembrar

 

       «Na leitura do acórdão, a juíza que presidiu o julgamento referiu que, “dada a compleição física” de Rosa Grilo, carregar o corpo do marido não seria “impossível”. Aliás, para o tribunal, a arguida terá usado o édredon onde embrulhou o corpo para o arrastar até ao carro e então transportá-lo até ao local onde o abandonou, a cerca de 160km de casa onde viviam, nas Cachoeiras» («Rosa Grilo condenada a 25 anos de prisão pelo homicídio do marido. António Joaquim absolvido», Sónia Trigueirão, Público, 4.03.2020, p. 20).

      O verbo presidir, como se sabe, constrói-se com objecto directo («presidir o julgamento»), como na frase acima, ou com objecto indirecto («presidir ao julgamento»), que é a forma mais comum e a que prefiro.

 

[Texto 12 909]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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20
Fev 20

«Reservar-se o direito»

Um erro persistente

 

      «O Governo reserva-se ao direito de promover a exploração mineira em caso de interesse público» (jornalista Luís Peixoto, noticiário das 7h00 na Antena 1, 14.02.2020). Erro persistente, próprio de quem reflecte pouco ou nada sobre a língua, com a agravante de se tratar de um jornalista. Aqui, «o direito» é o complemento directo — logo, correcto é «reserva-se o direito», que é como que diz, reserva o direito para si.

 

[Texto 12 845]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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18
Fev 20

Onde e aonde

Por S. Ciarão de Clonmacnoise!

 

      A espanhola Acciona Mobilidade mandou-me uma mensagem: «Neste São Solteirim onde quer que vá, desloque-se sem poluir o planeta com as nossas motos.» É a primeira vez que deparo com esta brincadeira com o nome do santo. Não me vou zangar com isso. A frase é que podia estar mais correcta: com verbos de movimento, como é o caso, em vez de onde deve usar-se aonde. Já lembrei isto mais de uma vez, mas os anos vão passando e há leitores que já morreram e outros que nasceram entretanto.

 

[Texto 12 834]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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14
Fev 20

Imperfeito de cortesia

Pelo menos isso

 

      Na terça-feira, ouvi a emissão do programa Jogo da Língua. Há uma novidade, e boa: a Antena 1 já não disponibiliza, ou pelo menos eu não encontro, os podcasts das emissões. Sempre são menos uns erros no éter. E por erros, já conhecem a minha teoria: quando eu ouço o programa, há lá erros. Uma espécie de erros quânticos, mas ao contrário: se eu espreito, há erro. Desta vez, era uma professora do ensino básico a participante. Em plena aula?! Não é preciso sujeitá-la a um processo disciplinar, bastou o castigo (se o foi para ela) de errar algo absolutamente básico: numa frase como «Queria um maço de tabaco, se faz favor» (não era esta a frase, mas apenas a estrutura), respondeu erradamente à pergunta sobre qual era o tempo e o modo da forma verbal «queria». Filomena Crespo, que, quando lhe apetece, quando simpatiza ou quando está bem-disposta, ajuda, apiedou-se e obrigou-a a mudar a resposta. E a «especialista», que disse? Devia começar por ensinar que se trata do chamado imperfeito de cortesia, mas só nos últimos segundos lhe saiu uma forma trapalhona, desvirtuada, de o dizer: trata-se, afirmou, de «cortesia linguística». E ainda falou, só para atrapalhar, no condicional, mas mais vale esquecer essa parte. É o que temos.

 

[Texto 12 817]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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18
Dez 19

Léxico: «feito de»

Nova tentativa

 

      «Uma equipa de dez investigadores do Instituto Politécnico de Viseu (IPV) e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro está a desenvolver um produto alimentar criado à base de insetos. A farinha de zângão foi criada há mais de um ano e já recebeu um prémio. A ideia partiu de um desafio feito a Paula Correia. [...] A farinha de zângão deverá começar a ser comercializada dentro de um ano, mas para que isso aconteça tem primeiro que ser concluído o registo deste produto no catálogo nacional de alimentos» («Pão e biscoitos feitos a partir de farinha de zangão», José Ricardo Ferreira, TSF, 17.12.2019, 9h31).

      O problema está, não na farinha de zângão (que tem «um ligeiro sabor picante» — vivos ou mortos, picam sempre), mas na fraseologia: basta escrever, José Ricardo Ferreira, «feitos de». O pior — pior, porque num dicionário, que vai permanecer por décadas e ser lido por muita gente — é que a Porto Editora também cai repetidamente no mesmo erro em várias definições. Já esta semana, na definição de «hemoderivado», por exemplo: «que ou substância que é produzida a partir do sangue ou dos seus constituintes». Ora, «feito de» é mais português, mais curto, mais lógico. Precisarão, acaso, de mais razões?

 

[Texto 12 490]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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17
Dez 19

«Porque», advérbio interrogativo

É bom lembrar

 

      A meritória oposição do jornal Público ao Acordo Ortográfico de 1990 não nos deve nunca levar a esquecer ou perdoar os erros que desde sempre se viram neste jornal. Um desses erros é a grafia errada do advérbio interrogativo porque, que meteram na cabeça — decerto mal aconselhados — que se escreve por que.  «Por que é que umas baleias são maiores do que outras?» (Teresa Sofia Serafim, Público, 16.12.2019, p. 34). Felizmente, ao contrário de há dez ou quinze anos, agora há mais gramáticas em que se ensina a grafia correcta. «O advérbio interrogativo introduz uma frase interrogativa parcial direta (frase A) ou indireta (frase B), especificando a natureza da informação que se pretende obter: causa (porque / porquê), tempo (quando), modo (como), ou lugar (onde)» (Conhecer a Gramática, Clara Amorim, Catarina Sousa. Porto: Areal Editores, S. A., 2017, p. 168).

 

[Texto 12 485]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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