24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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21
Nov 18

Como se escreve por aí

Valha-nos Deus

 

      «O dados revelados pelo Ministério do Ambiente ao Jornal de Notícias e ao Público não permitem perceber porque motivo não foi respeitado o decreto-lei de 1982. No momento em que foi publicado, já as duas pedreiras laboravam há anos, apenas com uma declaração que fazia prova da titularidade dos terrenos — na altura, a única condição imposta. [...] Há outra dúvida motivada por estes dados do Ministério do Ambiente: se o decreto-lei remonta a 1982, porque motivo as pedreiras só foram licenciadas em 1989, sete anos depois? [...] O último alerta deu-se em 2014, quando a Câmara de Borba, empresários do setor pedreiro e a Direção-Geral de Energia e Geologia se sentaram à mesma mesa para discutir o eventual encerramento da EN 255» («Pedreiras de Borba não cumpriam margens de segurança impostas pela lei», Miguel Videira, TSF, 21.11.2018, 8h50).

      Só é pena não se fazerem também inspecções aos conhecimentos de gramática e léxico dos jornalistas, não é assim, Miguel Videira? Muitos teriam de cessar actividade.

[Texto 10 325]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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12
Nov 18

«Jogo da Língua», 9.NOV.2018

Pobres ouvintes

 

      Felizmente tenho sempre coisas mais importantes que fazer, mas na sexta-feira, num intervalo, ouvi o Jogo da Língua. A suposição mais benévola é a de que só tem erros quando eu ouço o programa, assim à semelhança do gato de Schrödinger. Ora bem, a questão era de sintaxe: «Os filmes que mais gosto são os policiais e os thrillers/Os filmes de que mais gosto são os policiais e os thrillers.» Tinha logo de incluir um estrangeirismo, para melhor defesa da nossa língua. O prezado ouvinte acertou por acaso. Vamos lá ver o que diz a Dra. Sandra: «Em frases relativas como estas, nós temos de repetir a preposição de, “O livro de que mais gosto é esse”; «Os filmes de que mais gosto são...”, uma vez que o verbo gostar é um verbo que requer preposição. E essa preposição deve estar sempre em todos os contextos sintácticos em que usamos o verbo gostar, inclusive nestes um bocadinho mais complexos em que nós estamos perante uma oração relativa.» Repetir a preposição? Pobres ouvintes... Então, veja se é capaz de nos apontar na frase as duas preposições e depois mande-me a resposta para o Messenger. E outra coisinha: o vocábulo «sintaxe» pronuncia-se /sintasse/ e não, como sonoramente o fez, /sintaze/. E tu, Dicionário que da Língua Portuguesa da Porto Editora, também tens de colaborar e ajudar esta gente, pois, ao contrário de muitos dicionários e vocabulários (por exemplo, o VOLP da Academia Brasileira de Letras), não deixas esta tão singela e útil indicação: «sintaxe (ss)».

 

[Texto 10 274]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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30
Out 18

Ortografia: «açoriano»

Pior do que o nome inglês

 

       «O Taste Azores está de volta à Praça Central do Centro Colombo (Lisboa), entre 31 de outubro e 4 de novembro, apresentando 25 empresas representantes da melhor gastronomia açoreana» (Destak, 30.10.2018, p. 2). Não é a primeira vez — e não pode ser a última — que este erro passa por aqui. É açoriano, senhores jornalistas. Açoreana, só a companhia de seguros, mas os nomes próprios não obedecem às mesmas regras, e daí Guégués com dois acentos, Mello como dois ll, e por aí fora. Não entremos na discussão de que sufixo se trata, pois os próprios gramáticos não se entendem, com alguns a afirmarem que é o sufixo nominal -ano, e outros a jurarem que é -iano. ¯\_(ツ)_/¯

 

[Texto 10 220] 

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
17
Out 18

As confusões do costume

Não é a primeira

 

      Vamos lá à boa acção do dia. «Que os deputados que vão intervir nestas audições tenham querido ver a exposição parece razoável — quanto mais não seja porque vale a pena vê-la —, mas ao organizarem a visita deste modo, convinha perceber o que pretendiam ao certo esclarecer» («Serralves: o estranho caso do director que se autodestruiu», Luís Miguel Queirós, Público, 16.10.2018, p. 36).

      Temos de dizer a Luís Miguel Queirós que não é assim, está errado. Mas quase acertava: quando mais não seja, isto é, quando por outra coisa não for.

 

[Texto 10 133]

Helder Guégués às 14:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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08
Out 18

A escrita de Herculano

Vejam os modelos

 

      Diz António Lobo Antunes: «A prosa do Antero [de Quental] é maravilhosa, bem como a do grande Herculano, que quase não tem “ques”, o que é muito difícil evitar» («António Lobo Antunes: “Quero que o Nobel se f*da”», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 7.10.2018, 6h26).

 

[Texto 10 058]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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25
Set 18

«A sugestão de»?

Eu não a conheço

 

      «É história antiga, a do lagarto da Penha. Mas antes de o bicho entrar em cena diga-se que a Penha, a de França, deve o seu nome a António Simões, santeiro e dourador lisboeta que escapou à justa de morrer em Alcácer-Quibir [sic]. Salvou-o da morte certa Nossa Senhora da Penha, cujo santo nome António invocou nos areais africanos, quando estava à rasca. Mal chegado a Lisboa, e a sugestão de um padre jesuíta, espetou um estandarte com a figura da Senhora num terreno arrabaldino chamado Cabeça de Alperche, que desde a época muçulmana, pelo menos, era lugar de olivais e vinhedos, pomares e hortas» («O lagarto da Penha», António Araújo, Diário de Notícias, 9.09.2018, 6h01).

      Pode ser, neste caso, falha minha, mas não conheço esta sintaxe. Não será confusão com «a conselho de», esta sim legítima? Só conheço «por sugestão de».

 

[Texto 9993]

Helder Guégués às 21:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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16
Set 18

O lugar do pronome

Alucinações auditivas?

 

      «Nos anos 1940, os ardinas apregoavam em certos dias, ao vender o jornal República: “Fala o Rocha! Hoje fala o Rocha!” Era a homenagem de garotos quase analfabetos, armados, e bem, em fazedores de manchete. O homenageado era Rocha Martins, jornalista de pena afiada e o gosto pela liberdade que levava-o, sendo monárquico, a escrever num jornal titulado República» («Hoje apetece-me fazer de ardina», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.09.2018, 10h07).

      Sou só eu que ouço o pronome a pedir aos gritos que o levem para a frente do verbo? Estarei a sofrer de alucinações auditivas? A enlouquecer? Montexto, está a ouvir o mesmo?

 

[Texto 9926]

Helder Guégués às 13:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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