04
Abr 18

Léxico: «uah»

Um bocejo

 

      «— Huuuum — bocejou o Urso. — Sim, claro.» O urso atrapalhou-se com as teclas, porque a interjeição de bocejo não é aquela — culpa dos dicionários. (Quase a propósito: no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que fazer de urso/fazer figura de urso significa «comportar-se de forma ridícula, ser alvo de troça», ao passo que fazer figura de urso significa «portar-se mal». É para corrigir.) «— Uah! — bocejou o Pedro. — Boa noite a todos! Ou melhor, bom dia!» (Uma Aventura em Viagem, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Alfragide: Editorial Caminho, 2007). Há quem lamente mais do que eu que os nossos dicionários sejam de uma pobreza subfranciscana no que respeita a interjeições?

 

   [Texto 9006]

Helder Guégués às 15:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
25
Fev 17

Léxico: «bô»

Bô, bô...

 

    «O nome — bô — evoca a interjeição que se usa na fala transmontana para exprimir admiração» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

  Vamos lá ver se uma interjeição de Trás-os-Montes conquista o direito de figurar ao lado das interjeições quimbundas que os nossos dicionários entesouram.

 

[Texto 7506]

Helder Guégués às 16:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
30
Jan 17

Léxico: «xé»

E Angola, não é nossa?

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que «ché» é a interjeição (acepção 2) que se usa para chamar a atenção de alguém. Neste caso, a etimologia seria o castelhano da Argentina che. E regista outro ché, também interjeição, esta de São Tomé e Príncipe, para designar espanto, cepticismo. Está bem, mas em Angola também sempre se usou — e a grafia é xé. Nisto, fio-me mais no cónego António Miranda Magalhães (1882-1938) e no Manual de Línguas Indígenas de Angola (Luanda: Imprensa Nacional de Angola, 1922), que a grafa e diz que serve para chamar.

 

[Texto 7445]

Helder Guégués às 12:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
12
Jan 17

«Psiu/pst»

Ó faz favor!

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — que já nos deixa interjeccionar — diz, e bem, que a interjeição pst se usa como forma de chamamento e que é sinónima de psiu. É tudo verdade, mas, no verbete de «psiu», não se pode limitar a dizer que é interjeição «empregada para impor silêncio».

 

[Texto 7406]

Helder Guégués às 13:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Dez 16

Como fala o Pai Natal

Boas Festas

 

      Vá lá, não vamos agora fingir que a dificuldade não existe: como traduzimos/transcrevemos aquela interjeição do Pai Natal? (Não vem ao caso, mas é claro que digo e escrevo Pais Natais.) Ou vamos deixá-lo a interjeccionar em inglês para sempre? É que, se temos as interjeições ó e oh, não temos ho, que é como se representa sempre aquela interjeição*. E, o que é mais interessante, como notou Véronique Dahlet, esta combinação silábica contraria o que encontramos para os termos comuns da nossa língua, em que é sempre consoante h + vogal. No entanto, em Gil Vicente tínhamos hou, interjeição para chamar: «Hou da barca!» Ao que parece, aquela interjeição inglesa — que vem do latim io — equivale mais ou menos a «ouçam». «Ouçam, é Natal!»

 

[Texto 7353]

 

* Claro que, para os borra-botas que escrevem «ha, ha, ha», «hi, hi, hi», «ho, ho, ho», é tudo igual. Não escrevo para eles.

Helder Guégués às 19:40 | comentar | ver comentários (5) | favorito
19
Abr 15

Interjeições à maluca

Português não é

 

      «Lembro-me do entusiasmo do início — “Eish, consigo jogar Age of Empires online no computador e na sala!” foi das primeiras reacções que tive, até que tentei ir para o quarto. Catástrofe» («Tenha wi-fi onde nunca teve», Diogo Lopes, «GPS»/Sábado, 16.04.2015, p. 5).

   Com que então, Diogo Lopes, «eish», hem? Isso é o quê, uma interjeição sul-africana?

 

[Texto 5770]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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14
Mai 14

Tradução: «doh»

Quais Simpsons

 

 

      «– Estava nos cartões de crédito que ela te roubou – daaa! [doh]» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 84).

      Lembram-se de, ainda no Assim Mesmo, ter falado da interjeição anglo-saxónica duh, traduzida ora por da-aa, ora por daa, ora por dahhh, ora por... duh? Pronto, temos de falar como Homer Simpson.

 

[Texto 4570]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | favorito