02
Abr 20

Como se escreve (e pensa) por aí

Em várias modalidades

 

      O Correio da Manhã não é apenas campeão de vendas — com mais frequência do que é normal, também é campeão da parvoíce: «Até hoje, a pandemia de Covid-19 já infetou mais de 4000 pessoas e matou pelo menos 117 no país brasileiro. “Está preparado para o pior cenário, com camiões do Exército a transportar corpos (de vítimas do Coronavírus [sic]) pelas ruas? Com transmissão ao vivo na Internet e na televisão?”, perguntou Luiz Hnerique [sic] Mandetta, em tom de desafio a Bolsonaro» («Bolsonaro ignora conselhos de ministro da saúde e cumprimenta comerciantes em Brasília», Correio da Manhã, 29.03.2020, 18h01).

 

[Texto 13 077]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
12
Mar 20

Léxico: «martemoto»

Invencionice inútil

 

      «Através dos instrumentos da InSight, detectaram-se 174 sismos até 30 de Setembro de 2019 e muitos eram pequenos sismos. Verificou-se que 24 deles tinham uma magnitude entre os três e quatro graus. “Detectámos sinais de martemotos [marsquakes] com menos de dois e mais de quatro”, indica Bruce Banerdt, clarificando que a escala usada em Marte é semelhante à da Terra» («Os “martemotos” mostram-nos que Marte é geologicamente activo», Teresa Sofia Serafim, Público, 25.02.2020, p. 36).

      Claro que não precisamos de um termo específico para designar o que não difere em nada do que conhecemos, mas nunca se sabe, pode pegar.

 

[Texto 12 944]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
21
Fev 20

Como se fala por aí

A precisar de ser curada

 

      «“Ao longo de 20 anos muitos doentes já me pediram para morrer”, confessa à Renascença a enfermeira Filipa Pires de Lima, que também já lidou com uma doença que a colocou à prova. “Se as pessoas fossem mais literadas em saúde tinham outra ideia da partida.”» («Eutanásia. “As pessoas não sabem do que se está a falar”», Liliana Monteiro, Rádio Renascença, 17.02.2020).

      À partida, como se pode comprovar, é má ideia, porque depois ficam a falar assim dessa forma completamente esquisita — também a precisar de ser curada.

 

[Texto 12 860]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Fev 20

Iberolux?

A Grande Ibéria

 

      «Rui Moreira avançou com a proposta na semana passada durante o Cities Forum 2020, que decorreu no Porto. A ideia é criar um Iberolux no espaço ibérico, em que toma como modelo o Benelux, espaço de cooperação entre Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo. O que o presidente da Câmara do Porto apelidou de “uma estratégia coordenada entre Portugal e Espanha”, o jornal El País trata esta quarta-feira como uma “fusão entre Espanha e Portugal”» («Iberolux. Rui Moreira propõe união ibérica... e o El País dá destaque à ideia», David Mandim, Diário de Notícias, 5.02.2020, 17h52, itálicos meus).

      Apoio a proposta, deploro o nome. De onde raio veio o «lux» aqui? Deve ser da unidade de intensidade de iluminação. Da falta de iluminação, mais precisamente.

 

[Texto 12 784]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
29
Nov 19

Emoções não verbais...

É assim que fala?

 

      «‘Whoohoo’, quantas vezes já usou esta expressão? Certamente já perdeu a conta. Mas ‘Whoohoo’ é apenas uma entre as 24 emoções não verbais que utilizamos no nosso dia a dia para exprimir estados de espírito e aparece 126 vezes nesta conhecida canção dos Rolling Stones que, dentro de dias, completa 51 anos. Foi lançada a 28 de novembro de 1968 e, ainda hoje, se ouve por aí» («“Whoohoo”, quantas vezes já usou esta expressão?», André Rodrigues, Rádio Renascença, 27.11.2019).

      Se pergunta, André Rodrigues, é porque quer mesmo saber. (Não tenho um cabo da GNR à mão, ou nem teria oportunidade de me fazer nenhuma pergunta.) Eu digo-lhe: nunca. Nunca os meus lábios proferiram «whoohoo». Satisfeito?

 

[Texto 12 377]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
28
Nov 19

A ironia e o asterisco

Agora querem acabar com a ironia

 

      «O que me surpreendeu verdadeiramente foi ter muitas pessoas a perguntarem-me se faltava um asterisco nas minhas mensagens do Twitter. Um asterisco? Que raio! Depois explicaram-me. Pelos vistos, no Twitter, há um código de conduta que nos manda começar mensagens irónicas com um asterisco. Assim sinalizamos que estamos a ser irónicos e deixa de haver mal-entendidos. Fiquei parvo com tamanha estupidez: se alguém sinaliza que está a ser irónico, então, automaticamente, deixa de haver ironia. Até porque, se se sinaliza a ironia com um asterisco, o resultado será que as pessoas, para serem irónicas, marcarão o texto com um asterisco, quando na verdade querem dizer exactamente o que lá está escrito. O asterisco passa a ser irónico» («A ironia é livre», Luís Aguiar-Conraria, Público, 27.11.2019, p. 6).

      De facto, se temos de assinalar que estamos a ser irónicos, deixa de haver ironia, o que é estúpido. Na oralidade, devem querer que pisquemos um olho para se assegurarem de que estamos a usar de ironia. É uma regra de idiotas para idiotas.

 

[Texto 12 369]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
15
Nov 19

Como se fala por aí

Vá-se lá saber

 

    Diz Luís Montenegro: «Eu não tentei nada, houve pessoas que tentaram. Seria uma tragédia política se o futuro do PSD, numa situação tão grave, [sic] como aquela em que se encontra fosse decidida por questões administrativas e de intendência» («Luís Montenegro responde a Rui Rio: “Vigarices? Se calhar isso faz ricochete”», Paula Caeiro Varela (Renascença) e Sofia Rodrigues (Público), 14.11.2019, 00h00). Ah, não me perguntem o que quer Luís Montenegro dizer com «questões de intendência». Usa a palavra duas vezes. Já temos sorte que não diga, como o chefe Passos, «pra futuro».

 

[Texto 12 294]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
08
Out 19

Como se fala na TVI24

Quando se pode tirar o som

 

      Embora estivesse perto, a centenas de metros, assisti pela televisão, na TVI24, à chegada do corpo do Prof. Freitas do Amaral ao Cemitério da Guia, em Cascais. Péssima opção. Os disparates e as parvoíces saíam em catadupa da boca da jornalista. Logo no início, disse que a urna (mas também chegou a falar em «fêretro») repousava num altar. Desliguei o som. Para ouvir as salvas de artilharia, bastou abrir a janela.

 

[Texto 12 119]

Helder Guégués às 02:00 | comentar | favorito