29
Nov 19

Emoções não verbais...

É assim que fala?

 

      «‘Whoohoo’, quantas vezes já usou esta expressão? Certamente já perdeu a conta. Mas ‘Whoohoo’ é apenas uma entre as 24 emoções não verbais que utilizamos no nosso dia a dia para exprimir estados de espírito e aparece 126 vezes nesta conhecida canção dos Rolling Stones que, dentro de dias, completa 51 anos. Foi lançada a 28 de novembro de 1968 e, ainda hoje, se ouve por aí» («“Whoohoo”, quantas vezes já usou esta expressão?», André Rodrigues, Rádio Renascença, 27.11.2019).

      Se pergunta, André Rodrigues, é porque quer mesmo saber. (Não tenho um cabo da GNR à mão, ou nem teria oportunidade de me fazer nenhuma pergunta.) Eu digo-lhe: nunca. Nunca os meus lábios proferiram «whoohoo». Satisfeito?

 

[Texto 12 377]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
28
Nov 19

A ironia e o asterisco

Agora querem acabar com a ironia

 

      «O que me surpreendeu verdadeiramente foi ter muitas pessoas a perguntarem-me se faltava um asterisco nas minhas mensagens do Twitter. Um asterisco? Que raio! Depois explicaram-me. Pelos vistos, no Twitter, há um código de conduta que nos manda começar mensagens irónicas com um asterisco. Assim sinalizamos que estamos a ser irónicos e deixa de haver mal-entendidos. Fiquei parvo com tamanha estupidez: se alguém sinaliza que está a ser irónico, então, automaticamente, deixa de haver ironia. Até porque, se se sinaliza a ironia com um asterisco, o resultado será que as pessoas, para serem irónicas, marcarão o texto com um asterisco, quando na verdade querem dizer exactamente o que lá está escrito. O asterisco passa a ser irónico» («A ironia é livre», Luís Aguiar-Conraria, Público, 27.11.2019, p. 6).

      De facto, se temos de assinalar que estamos a ser irónicos, deixa de haver ironia, o que é estúpido. Na oralidade, devem querer que pisquemos um olho para se assegurarem de que estamos a usar de ironia. É uma regra de idiotas para idiotas.

 

[Texto 12 369]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
15
Nov 19

Como se fala por aí

Vá-se lá saber

 

    Diz Luís Montenegro: «Eu não tentei nada, houve pessoas que tentaram. Seria uma tragédia política se o futuro do PSD, numa situação tão grave, [sic] como aquela em que se encontra fosse decidida por questões administrativas e de intendência» («Luís Montenegro responde a Rui Rio: “Vigarices? Se calhar isso faz ricochete”», Paula Caeiro Varela (Renascença) e Sofia Rodrigues (Público), 14.11.2019, 00h00). Ah, não me perguntem o que quer Luís Montenegro dizer com «questões de intendência». Usa a palavra duas vezes. Já temos sorte que não diga, como o chefe Passos, «pra futuro».

 

[Texto 12 294]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
08
Out 19

Como se fala na TVI24

Quando se pode tirar o som

 

      Embora estivesse perto, a centenas de metros, assisti pela televisão, na TVI24, à chegada do corpo do Prof. Freitas do Amaral ao Cemitério da Guia, em Cascais. Péssima opção. Os disparates e as parvoíces saíam em catadupa da boca da jornalista. Logo no início, disse que a urna (mas também chegou a falar em «fêretro») repousava num altar. Desliguei o som. Para ouvir as salvas de artilharia, bastou abrir a janela.

 

[Texto 12 119]

Helder Guégués às 02:00 | comentar | favorito
24
Set 19

Inventar, mas mal

Não seja complicado

 

      «As instruções que o acompanham, embora lógicas, sofrem de “complicatismo” – uma síndrome lexical própria da administração pública. A primeira frase, por exemplo, diz que o que temos em mãos é um “invólucro resposta/folha explicativa”. Será que é a resposta que explica ou a explicação que responde?» («Origami eleitoral», Ricardo Garcia, Público, 22.09.2019, p. 10).

      Pois, mas não: onde foi Ricardo Garcia buscar o t, saberá dizer-nos? Se deriva de «complicado», só pode ser «complicadismo». Assim, vê-se que o jornalista sofre da doença que descreve.

 

[Texto 12 031]

Helder Guégués às 05:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Ago 19

Disparates na CMTV

Outro nível

 

       «José Pedro, de 21 anos, estava internado no Hospital Psiquiátrico de Viseu e foi pedir ajuda à prima Cristina Ferreira, que o acolheu em sua casa. Sofreu um ataque de fúria e proferiu vários golpes de faca contra a familiar, matando-a sem piedade. Depois atirou-se da varanda do apartamento para a rua, sofrendo ferimentos muito graves» («O jovem de 21 anos foi presente a um juiz do Tribunal de Viseu, a quem acabaria por confessar o crime», Luís Oliveira, CMTV, 29.07.2019, 11h59).

      Proferir golpes de faca! Estes repórteres da CMTV estão noutro nível. Um nível, diga-se, que já em 2011, no tempo da PàF, Pedro Lomba atingira com o seu inenarrável «bramindo o estandarte», que nunca esqueceremos. Conhecem as palavras, sim, mas de outiva.

 

[Texto 11 880]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
14
Jul 19

Já as pagaias são papagaias

À frente do nosso nariz

 

      «Já se navega de prancha e papagaia no rio Douro», titula o Jornal de Notícias em linha. E, como é duas vezes, será convicção. A actividade, promovida pela Câmara Municipal de Baião, era de SUP (stand-up paddle), que, como se sabe, se pratica com o auxílio de uma espécie de remo curto e com pá larga — chamado pagaia. Está bem, podem dizer-me, é um erro, como tantos outros. Pode não ser apenas isso: por essa Internet fora, até nos sítios de lojas especializadas é já «papagaia» que se lê. Temos de continuar atentos. O fenómeno não é inédito: quando não conhece o termo, o falante assimila-o ao que já conhece.

 

[Texto 11 767]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Abr 19

Léxico: «hispano»

Que seja a última

 

      «Com a questão da Catalunha e a extrema-direita a ganhar votos, sobretudo na Andaluzia, estas Eleições Gerais em Espanha vão decidir o próximo Governo. Espanha é o principal parceiro económico de Portugal. Que impacto terão os resultados na nossa própria vida política? Este sábado, no da Capa à Contracapa, as eleições espanholas vão estar em análise. São convidados Lívia Franco, especialista em questões geopolíticas, Professora e Investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e o jornalista Enrique Pinto-Coelho que, sendo espanho-luso, tem essa característica única de poder votar em Espanha e em Portugal. Atualmente, é correspondente em Portugal do canal espanhol La Sexta e colabora com vários outros meios como repórter e tradutor» («Eleições em Espanha. Que impacto para Portugal?», Rádio Renascença, 27.04.2019).

      Há coisas que só veremos uma vez na vida. Com sorte, algumas nunca as chegaremos a ver. A esta podíamos ter sido poupados. Desde quando é que a forma reduzida de espanhol é «espanho»? Será que Enrique Pinto-Coelho sabe que dizem que ele é — deixem-me cruzar os dedos — «espanho-luso»? Hispano, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer é identificado como redução vocabular; remete-se para hispânico e já está, o falante que se desenrasque. Tanta sucintez (palavra que aquele dicionário ignora) por vezes desemboca em ignorância.

 

 

[Texto 11 263]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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