11
Dez 18

«História/estória»

Uma grande treta

 

      «Em resposta à líder do CDS-PP, António Costa disse, no debate quinzenal, que as políticas do Governo “estão certas, os resultados são bons” e que o Executivo do PS “tem de continuar”. “Nós não contamos histórias, nós apresentamos resultados”, afirmou, depois de ouvir Assunção Cristas afirmar que “o primeiro-ministro é um contador de estórias”» («“Autarca de Borba conhecia a matéria há muito tempo”», João Alexandre e Judith Menezes e Sousa, TSF, 11.12.2018, 15h15). 

      Os jornalistas que me desculpem, se quiserem, mas isto é uma treta irritante. Acaso espreitaram por cima do ombro de Assunção Cristas e viram a palavra assim escrita nos papéis do discurso? Ou da boca da deputada centrista, em vez de sons, saíram, materializadas, sílabas? Treta, não tanto pela legitimidade ou não da palavra «estória», que jamais usarei, mas porque são homófonas. Quem não sabe, ou contesta, que o vocábulo «história» tanto designa a dimensão mais episódica e ficcional do relato de uma história, como a dimensão de narrativa oficial dos acontecimentos? Uma treta, repito, que não devia ser caucionada pelos jornalistas. Já hoje aqui citei um bom exemplo: Histórias da História, de Helena Matos, na Antena 1. Como se vê, soube resistir.

            [Texto 10 444]

Helder Guégués às 20:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
05
Dez 18

Um retroactivo substantivo

Paulo contra Paulo

 

      «P.G. concede-me, e à língua portuguesa, que haja dois significados para a palavra “retroativo” e sabe, mas omite, que o sentido em que utilizo o adjetivo é o que vem em todos os dicionários: “Que tem efeitos sobre factos passados, que modifica o que já foi feito” (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 2010)» («O umbigo de Paulo Guinote», Paulo Pereira Trigo, Público, 5.12.2018, p. 54).

      Evidentemente, o deputado não soube exprimir-se, ou, o que é incomparavelmente pior, quis deturpar os factos, pois a sua declaração de voto, na redacção que foi divulgada em vários jornais, diz assim: «Importa sublinhar que os sindicatos reivindicam retroativos relativamente a todos os anos que as carreiras estiveram congeladas. Em nosso entender, o descongelamento já é um progresso, sendo que a verdade é que a questão dos retroativos não consta do programa do PS ou do programa do Governo, sendo algo injusto relativamente a outras carreiras atendendo, designadamente, ao facto de a progressão dos professores ser mais rápida que a existente no plano das carreiras gerais.» Paulo Guinote não pôde deixar passar sem apontar semelhante erro ou lapso ou trapalhada intencional: «Comecemos pela acepção mais corrente e “popular” do termo “retroactivos”. Consultando a Infopédia, como nome comum, um “retroactivo” corresponde a “montante que corresponde a pagamentos devidos e que estão em atraso”, sendo mais usado na forma plural (como o faz P.T.P.). Ora, isto é completamente falso. Em nenhum momento, mesmo de mais intenso conflito, professores ou sindicatos exigiram ou sequer sugeriram receber qualquer montante pelos anos em que a sua carreira esteve “congelada”» («Os “factos alternativos” à portuguesa», Paulo Guinote, Público, 4.12.2018, p. 45).

 

            [Texto 10 407]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | favorito | partilhar
Etiquetas: ,
17
Nov 18

Um inventado «infusionar»

Mete copos e erros

 

      «Num shaker, o bartender mistura o shrub com xarope de frutos secos – feito com leite caseiro e whiskey Jameson infusionado com manteiga noisette – e depois agita tudo rapidamente para “envolver” os ingredientes» («Pesca», A. R., Evasões, 16.11.2018, p. 24).

      Parece que é assim que se diz, cá e em Espanha, nestes meios — mas à acção de deitar um líquido dentro de ou sobre alguma coisa sempre se deu o nome de infundir, não infusionar. Pode parecer um pormenor despiciendo no meio de tantos termos estrangeiros, mas não.

 

[Texto 10 302]

Helder Guégués às 19:21 | comentar | favorito | partilhar
12
Nov 18

Os «camarados» do BE

Vejam lá isso

 

      «Depois de tropeçar na linguagem inclusiva e de ter chamado “camaradas e camarados”, o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, terminou o discurso sob um forte aplauso: “Agora, a esquerda, agora um governo de esquerda! Agora o sonho do BE de governar o nosso país!”» («As cinco condições do Bloco para um casamento com o PS», Maria João Lopes, Público, 12.11.2018, p. 5).

      Vejam lá não percam votos com essas tretas. «Camarados», Pedro Filipe Soares... Habitualmente — diga-se sem medo de afrontar o politicamente correcto —, as mulheres são mais proclives do que os homens a estas tentativas canhestras de tornar tudo igual, violentando a língua. Para desmentir tendências imutáveis, veio agora um homem cair no mesmo erro.

                       

[Texto 10 275]

Helder Guégués às 21:15 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
24
Out 18

«Capa/primeira página»

Outro equívoco dos nossos tempos

 

      Muito cedo também, e isto repete-se dia após dia e nas várias rádios, um locutor na TSF avisa que um colega vai ler as «capas dos jornais». Outro equívoco: os jornais não têm capa, mas primeira página. Por coincidência, ainda na semana passada fiz esta emenda num livro (inédito premiado), e o editor (sim, o editor, não um assistente editorial) fingiu que a não vira. Insisti. Até que veio a pergunta: «Porquê?» Expliquei o bê-á-bá da complexa questão. Aceitou. Depois de o locutor ler as primeiras páginas, o colega que o anunciara rematou: «As Primeiras Páginas tiveram o patrocínio de...». Bem, não interessa o patrocinador, interessa, e muito, denunciar esta negligência, ainda mais lamentável porque se trata da rádio, que espalha o erro ainda mais facilmente. Até nesta questão os lexicógrafos podiam ajudar, mas estarão eles para aqui virados?

 

[Texto 10 180]

Helder Guégués às 10:10 | comentar | favorito | partilhar
Etiquetas: ,
12
Set 18

«Antinómio»?

Muito me contam

 

      «Nas décadas posteriores, o uso deste antinómio [ordem/desordem] faz-se quase exclusivamente nos discursos comemorativos do 28 de Maio, ainda que se não caísse no exagero de mencionar a multiplicidade de aspectos que compunham a “desordem republicana” ou de repetir sistematicamente todas as realizações da obra sempre “inacabada” do Estado Novo» (Os Discursos e o Discurso de Salazar, José Martinho Gaspar. Lisboa: Prefácio, 2001, p. 110).

      Podia rastrear o uso do termo em teses, dissertações, discursos oficiais, literatura... Nem sempre sabemos, quando estamos perante um erro, tão bem como nesta citação acima o que pretende o autor dizer. Pois, é «antinomia». Só há um problema: «antinómio» não existe. O que existe é o adjectivo «antinómico» (que forma uma antinomia; oposto; contraditório), relativo a «antinomia». E depois temos o antimónio, o elemento com o número atómico 51. Em suma, quando os textos, seja qual for a sua natureza, não são revistos, nota-se muito. Até de olhos fechados.

 

[Texto 9900]

Helder Guégués às 06:53 | comentar | favorito | partilhar
28
Ago 18

Como se escreve por aí

The Best or Nothing

 

      Não é o mais recomendável, mas tive de comprar umas bolachas artesanais (e se pusermos aspas?) de aveia com chocolate e noz. Nada más, na verdade. São fabricadas na Confeitaria Alvorada, em Guimarães. Na embalagem, que podemos nós ler? Isto: «Produzido por/Powered by». Preferia que fosse powered by Mercedes-Benz.

 

[Texto 9834]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar