11
Mar 18

Língua na estrada

Idade

imbecil

 

      «No regresso a casa volto a passar pela maior imbecilidade de sempre, escrita nas estradas e ruas de Portugal, nunca vi no estrangeiro, mas deve haver porque há tudo no estrangeiro, a começar pela imbecilidade, que é aquela maneira de escrever as saídas na vertical no alcatrão dividindo a palavra em dois e escrevendo a palavra ao contrário com a primeira parte da palavra em baixo, e portanto mais próxima do carro que avança, e a segunda em cima. Por exemplo, Mão Porti na saída para Portimão, Rios Sete na saída para Sete Rios, Porto Aero na saída para o Aeroporto. A explicação, já me explicaram, é que se o carro vai a andar a primeira coisa que se lê é Aero, e depois, Porto. Mas o depois é uma fração de segundo depois, seus imbecis, e os olhos não leem em braile, ou tipo scanner, veem a palavra e leem aeroporto, pumba já está lido não é aaaaa eeee roooo poooo rrr tooo. É daquelas imbecilidades de alguém que acha que é muito esperto. Um homem, claro. Engenheiro, talvez. Simpático, com ideias, daquele tipo muito português muito perigoso que é o burro que trabalha e que fala claro. E deve ter explicado tudo bem explicado e disseram-lhe que sim» («Porto Aero», João Taborda da Gama, Diário de Notícias, 11.03.2018, p. 56).

      João Taborda da Gama, actualmente o meu cronista favorito, tem razão, eu próprio já me vi em dificuldades para perceber estas indicações, qualquer que seja a velocidade a que sigamos. Na estrada, aliás, há muitas imbecilidades, desde a forma como se conduz, à sinalização e traçado das vias. Sim, sim, as palavras escritas daquela forma são uma imbecilidade.

 

[Texto 8901]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
21
Fev 18

Agora vamos ter o Polocausto

Será o fim da macacada

 

      «Polónia quer museu para documentar o “Polocausto”» (Público, 21.02.2018, p. 25). Compreende-se, querem contrariar a ideia dos Israelitas (não, leitores brasileiros, não distinguimos entre «israelita» e «israelense», e, logo, nunca confundimos) de que só houve vítimas entre os judeus. Bem, mas isto pode vir a confundir ainda mais os miolos de alguns portugueses, e concretamente de alguns professores universitários, que já não distinguem entre holocausto e Holocausto. Agora, com um Polocausto, imagine-se. Nie mówię po polsku, mas sei que em polaco é «Muzeum Polokaustu».

[Texto 8786]

Helder Guégués às 22:34 | comentar | favorito

A magna questão da Saúde

Senhor Dr. médico

 

      «O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, defende que a palavra “médico” deve fazer parte da identificação dos profissionais do setor. “Independentemente de usarem o título académico, que é o ‘doutor’, têm que usar o seu título profissional. É uma matéria que eu vou discutir internamente”, anunciou Miguel Guimarães, na Renascença. [...] Apesar de também ter uma carga de ironia, como reconhece, exigência prende-se com a criação de uma licenciatura para a chamada medicina tradicional chinesa, que já mereceu a oposição da Ordem. “É um bocado de ironia e um bocado de proposta. Nos EUA, os médicos são tratados por MD: ‘medical doctor’. Esta expressão aqui não se poderia adotar, mas a verdade é que hoje os licenciados são muitos, são cada vez mais – como se vê, criam-se licenciaturas de uma forma absolutamente espantosa – de maneira que os médicos, para serem devidamente identificados no seu local de trabalho, nomeadamente devem ser tratados por médicos também”, sustenta» («“Senhor Dr. médico”. Bastonário não quer confusões com outras formações académicas», Rádio Renascença, 21.02.2018, 11h45).

       Salta à vista que é a medida mais importante no domínio da Saúde, porventura até a única via para salvar o SNS. «Senhor Dr. médico» não vai pegar; tentem medical doctor.

 

[Texto 8782] 

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
10
Fev 18

Uma triste excepção

Descerebrados

 

      Lorenzo Caprile, entrevistado esta manhã na Cadena Cope, mandou um recado aos moços do Podemos: «Rapazes e raparigas do Podemos, deixem-se de tentar encontrar problemas onde os não há. Ajudem-me vocês a tirar a palavra “modisto” do dicionário.» Lorenzo Caprile, que não é apenas um especialista de agulha e dedal, estudou no Fashion Intitute of Technology de Nova Iorque e no Politécnico Internacional da Moda de Florença e é também licenciado em Língua e Literatura pela Universidade de Florença, deve saber o que diz ao afirmar que «modisto» chegou ao castelhano ainda no século XIX. E lá está modisto no Dicionário da Real Academia Espanhola: «Hombre que se dedica a hacer prendas de vestir o a crear modas o modelos de ropa, principalmente para mujer.» Ah, sim, e também regista modista: «Persona que se dedica a hacer prendas de vestir o a crear modas o modelos de ropa, principalmente para mujer.»

 

 [Texto 8718] 

Helder Guégués às 17:45 | comentar | favorito
09
Fev 18

Língua assassinada

Aqui ao lado

 

      Agora podia passar a ser assim, uma enormidade portuguesa, uma enormidade espanhola, até ao fim dos tempos. Ontem vimos um sinal claro da ignorância e do fanatismo de Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos. Hoje, é a vez de Irene Montero, porta-voz de Unidos Podemos no Parlamento espanhol. Porta-voz não — ela reivindicou, e deixou toda a gente a falar no caso, o cargo de «portavoza», para dar maior visibilidade às mulheres na sua luta pela igualdade de direitos com os homens. Porque a língua também evolui. Ignorante.

 

[Texto 8713]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Dez 17

Inventar nomes para os filhos

Ora esta

 

      O prestimoso Correio da Manhã já veio revelar o nome das gémeas de Luciana Abreu, nascidas no passado sábado: Lamour e Lavie. O cidadão comum tem por vezes dificuldade em dar nomes comuns aos filhos. Eu próprio passei pela experiência na conservatória da Fontes Pereira de Melo. Em relação ao nome das filhas que teve com Djaló, Lyannii Viiktórya e Lyonce Viiktórya, a justificação absurda que li foi a de que, como o pai era estrangeiro, as filhas podiam ter estes nomes. Nomes inventados pelos pais? Agora ambos os pais são portugueses (esperemos que ser guia turístico não sirva desta vez de justificação). Dantes, cheguei a dar conta disso aqui, havia, ao que me lembro, duas listas de nomes próprios: uma de nomes admitidos e outra de nomes não admitidos. (Claro que basta uma: a primeira.) Desconheço a periodicidade com que era actualizada, mas imagino que fosse quando o rei fazia anos. Agora, há uma só lista, actualizada, ao que li, de três em três meses. Só para terem uma ideia, o primeiro nome feminino que nela consta é Aabirah e o primeiro nome masculino é Aabaj. Como os nomes estão todos misturados, desde Txissolas a Vanessas, o cidadão fica com a ideia de que pode atribuir qualquer destes nomes aos filhos. Não é assim. Surpresa: na lista não constam Lamour nem Lavie. Em suma, para o Estado, uns são filhos e outros enteados. C’est la vie (não Lavie). Há momentos, e este é um deles, em que me envergonho de ser português.

 

[Texto 8516]

Helder Guégués às 20:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito
03
Dez 17

Como se escreve no Facebook

E nas escolas

 

      No exame de História, um aluno dissertou sabiamente sobre o «Tratado de Traduzilhas»; no Facebook, Pedro Marques Lopes escreveu que, no Observador, «a opinião faz parte de um projeto para mudar o centro-direita português e é apenas planfetária». Não soa nada mal, convenhamos: se precisarem de uma palavra para designar uma realidade nova (um lepidóptero que descubram, por exemplo), não se acanhem.

 

[Texto 8429]

Helder Guégués às 12:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito