13
Jul 18

A Antárctida e a... e o...

Essa é nova

 

      «Um icebergue com seis quilómetros de largura soltou-se de um glaciar no leste da Gronelândia, o maior em mais de uma década naquele lugar. [...] Holland [David Holland, da Universidade de Nova Iorque] destacou que “a preocupação real é com a Antárctida, onde é tudo tão grande que os riscos são muito mais altos”» («Icebergue de 6 km solta-se e obriga à retirada de 170 pessoas na Gronelândia», Rádio Renascença, 13.07.2018, 16h44).

      No já longínquo ano 2000, escrevia F. V. P. da Fonseca no Ciberdúvidas (aqui): «Antárctida é a grafia correcta para designar o grande continente onde se situa o Pólo Sul. Antárctica é o feminino do adjectivo correspondente, antárctico. Quanto a Árctida (é esta a ortografia) é a região oposta, ou seja[,] o oceano onde se situa o Pólo Norte, constituído só por água e gelo. Árctica é o feminino do adjectivo árctico, relativo à Árctida. Em Portugal, pelo menos, é assim.» Em que parte de Portugal? Nunca vi a palavra «Árctida» mais gorda.

 

[Texto 9620]

Helder Guégués às 17:25 | comentar | ver comentários (6) | favorito | partilhar
04
Jul 18

O presidente e a presidenta

Cair em graça e pedir

 

      «Este inédito estava no segredo dos deuses desde a sua descoberta e só foi anunciado hoje, às 15.30, em Portugal pela presidenta da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e pelo editor da Porto, Manuel Alberto Valente» («Descoberto inédito de Saramago... que Saramago até já tinha anunciado querer publicar em 2001», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 3.07.2018, 15h27). «Segundo Pilar del Rio, presidente da Fundação José Saramago, a descoberta aconteceu de forma casual, em fevereiro, ao fazer uma pesquisa no computador» («É um diário inédito de Saramago e chega às livrarias em outubro», João Miguel Salvador, Expresso Diário, 4.07.2018, 7h00).

      Pois é, não somos todos feitos da mesma massa. Um queria que lhe escrevessem o nome com minúsculas — obedeceram-lhe; outra quer que lhe chamem «presidenta» — acatam. Pelos vistos, é só cair em graça e pedir.

 

[Texto 9558] 

Helder Guégués às 21:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
19
Jun 18

Léxico: «malabar»

Calado seria melhor

 

      Olhem-me para este: «Nas jornadas parlamentares do PSD, que decorrem na Guarda, o economista [Daniel Bessa, antigo ministro] disse que a medida é só para quem acredita em vacas que voam e compara o primeiro-ministro, António Costa, a um “malabar”» («Daniel Bessa compara António Costa a um “malabar”», Rádio Renascença, 18.06.2018, 21h59).

      Isto é alguma piada racista contra António Costa, de ascendência indiana? Malabar é, como se sabe, referente à costa ocidental da Índia, ou ao povo que a habita. O próprio jornalista se viu obrigado a interpretar: «Malabar é um adjetivo utilizado para descrever algo relativo a malabarismos, espetáculo em que se fazem habilidades de equilíbrio e acrobacias e é também uma região da Índia.» Salvo melhor — mas improvável — opinião, Daniel Bessa perdeu aqui uma boa oportunidade de estar calado.

 

[Texto 9451]

Helder Guégués às 12:17 | comentar | favorito | partilhar
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16
Jun 18

«Todos-os-caminhos»?

Invencionice escusada

 

      «É um SUV e não um todo-o-terreno. Mas, por mérito próprio, [o Jaguar I-Pace] pode ser considerado como um grande todos-os-caminhos» («Elétrico para todas as exigências», Rui Faria, «Sport»/Correio da Manhã, 16.06.2018, p. 17).

      Creio que foi no Correio da Manhã que já vi noutras ocasiões esta invencionice. Não basta «todo-o-terreno», como sempre se disse, também é preciso a cópia do inglês allroad? Francamente.

 

[Texto 9419]

Helder Guégués às 11:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
11
Jun 18

«Tweeterizável»!!!

Horror

 

      «Se Erdogan, Putin e Xi Jinping atacaram a regra de George Washington (limite de mandatos), os líderes africanos têm seguido a tendência oposta. Não se fala desta tendência porque é uma boa notícia, porque é um processo histórico sem momentos de sangue televisionado ou tweeterizável – o motivo central da permanente e abissal diferença entre a realidade e a perceção da realidade» («E se África for o futuro?», Henrique Raposo, Expresso Diário, 11.06.2018).

      Depois do «desganguesterizar», creio que estou preparado para tudo. «Tweeterizável» é mesmo uma coisa bárbara, concordarão comigo. A ter de escrever algo semelhante, mas com uma feição portuguesa, não será «tuitável»?

 

[Texto 9393]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
03
Jun 18

Gabriel, o Pensador

E porquê assim?

 

      «Gabriel O Pensador, Crazy Town e Miguel Araújo são alguns dos nomes que integram o cartaz musical das Festas da Praia, que decorrem de 3 a 12 de agosto, na Praia da Vitória, nos Açores» («Gabriel O Pensador vai atuar nas Festas da Praia da Vitória», Correio da Manhã, 3.06.2018, p. 41).

      Não estou a ver porque se há-de grafar dessa forma e não como fazemos com qualquer cognome — Catarina, a Grande. Vá, prescinda-se do itálico, Gabriel, o Pensador. Com aquela vogal maiúscula ali no meio, é muito estranho. Ainda alguém um dia pensará que se tratava do Sr. Gabriel O. Pensador.

 

[Texto 9334]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | favorito | partilhar

N, quantidade indefinida

Andam enganados

 

      «Vejo ene gente a fazer ou a dizer isto ou aquilo», leio de quando em quando. E é assim que o escrevem, «ene». Que n é, em matemática, o símbolo de número inteiro indeterminado, toda a gente sabe. Se o usarmos coloquialmente, porque temos de lhe dar nova e quase irreconhecível roupagem? Não, não temos. E, de facto, nesta acepção coloquial, é ainda n que os dicionários o grafam. Sobre parecer-me uma forma pretensiosa de nos exprimirmos nada direi, porque o mundo é composto de variedade e assim é que é bom.

 

[Texto 9331]

Helder Guégués às 10:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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04
Mai 18

Ah, cárnico...

Original, isso?

 

      «Quanto a escolhas cárnicas, há bifes – da vazia e de lombo de novilho –, espetada de lombinho de porco enrolado em bacon com camarão e batata salteada; magret de pato sobre salada verde, citrinos, regado com vinagrete de Vinho do Porto; carré de borrego com legumes e puré de batata-doce roxa» («Entre a serra e o mar há um moderno recanto algarvio», António Catarino, TSF, 3.05.2018, 14h03).

      O que eu me rio, há anos, com estes epígonos de José Quitério... É assim que entendem a originalidade. Alguns até sabem umas lascas da língua, mas depois confundem um pouco as coisas. Saiba António Catarino que «cárnico», essa palavra tão industrial, é castelhano.

 

[Texto 9153]

Helder Guégués às 12:32 | comentar | favorito | partilhar
11
Mar 18

Língua na estrada

Idade

imbecil

 

      «No regresso a casa volto a passar pela maior imbecilidade de sempre, escrita nas estradas e ruas de Portugal, nunca vi no estrangeiro, mas deve haver porque há tudo no estrangeiro, a começar pela imbecilidade, que é aquela maneira de escrever as saídas na vertical no alcatrão dividindo a palavra em dois e escrevendo a palavra ao contrário com a primeira parte da palavra em baixo, e portanto mais próxima do carro que avança, e a segunda em cima. Por exemplo, Mão Porti na saída para Portimão, Rios Sete na saída para Sete Rios, Porto Aero na saída para o Aeroporto. A explicação, já me explicaram, é que se o carro vai a andar a primeira coisa que se lê é Aero, e depois, Porto. Mas o depois é uma fração de segundo depois, seus imbecis, e os olhos não leem em braile, ou tipo scanner, veem a palavra e leem aeroporto, pumba já está lido não é aaaaa eeee roooo poooo rrr tooo. É daquelas imbecilidades de alguém que acha que é muito esperto. Um homem, claro. Engenheiro, talvez. Simpático, com ideias, daquele tipo muito português muito perigoso que é o burro que trabalha e que fala claro. E deve ter explicado tudo bem explicado e disseram-lhe que sim» («Porto Aero», João Taborda da Gama, Diário de Notícias, 11.03.2018, p. 56).

      João Taborda da Gama, actualmente o meu cronista favorito, tem razão, eu próprio já me vi em dificuldades para perceber estas indicações, qualquer que seja a velocidade a que sigamos. Na estrada, aliás, há muitas imbecilidades, desde a forma como se conduz, à sinalização e traçado das vias. Sim, sim, as palavras escritas daquela forma são uma imbecilidade.

 

[Texto 8901]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar