12
Set 18

«Antinómio»?

Muito me contam

 

      «Nas décadas posteriores, o uso deste antinómio [ordem/desordem] faz-se quase exclusivamente nos discursos comemorativos do 28 de Maio, ainda que se não caísse no exagero de mencionar a multiplicidade de aspectos que compunham a “desordem republicana” ou de repetir sistematicamente todas as realizações da obra sempre “inacabada” do Estado Novo» (Os Discursos e o Discurso de Salazar, José Martinho Gaspar. Lisboa: Prefácio, 2001, p. 110).

      Podia rastrear o uso do termo em teses, dissertações, discursos oficiais, literatura... Nem sempre sabemos, quando estamos perante um erro, tão bem como nesta citação acima o que pretende o autor dizer. Pois, é «antinomia». Só há um problema: «antinómio» não existe. O que existe é o adjectivo «antinómico» (que forma uma antinomia; oposto; contraditório), relativo a «antinomia». E depois temos o antimónio, o elemento com o número atómico 51. Em suma, quando os textos, seja qual for a sua natureza, não são revistos, nota-se muito. Até de olhos fechados.

 

[Texto 9900]

Helder Guégués às 06:53 | comentar | favorito | partilhar
28
Ago 18

Como se escreve por aí

The Best or Nothing

 

      Não é o mais recomendável, mas tive de comprar umas bolachas artesanais (e se pusermos aspas?) de aveia com chocolate e noz. Nada más, na verdade. São fabricadas na Confeitaria Alvorada, em Guimarães. Na embalagem, que podemos nós ler? Isto: «Produzido por/Powered by». Preferia que fosse powered by Mercedes-Benz.

 

[Texto 9834]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
26
Ago 18

«Assassínio/assassinato»

Se eu percebesse

 

      O tradutor mandou o recado: prefere «“assassinato” a “assassínio” (ambas as palavras derivam de palavras estrangeiras, uma pelo francês, outra pelo italiano, mas, para mim, “assassinato” tem sempre conotação política, ao contrário de “assassínio”)». Não sei que conotação política seja essa. Alguém descortina o argumento subjacente? Há-de estar a confundir com outra questão, que nada tem que ver com esta, que é usar-se quase sempre (e porquê?) a expressão «assassinato de carácter» e não «assassínio de carácter», sendo quase sempre um político o visado. Pois, porquê? «Eram oito mil palavras de assassínio de carácter, um ato de vingança desprezível — e não só da parte da Odette» (Um Homem de Partes, David Lodge. Tradução de Francisco Agarez. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 540).

 

[Texto 9830]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
18
Ago 18

«Marcas de cães»

Temos pena

 

      «Durante anos não tive nenhuma fé nessa maluqueira, mas hoje estou convencido de que da globalização nos restou pelo menos o consolo de ficar na terra com quase todas as marcas de cães que existem no mundo, desde rottweiler a dobermann e pit bull, passando por labradores, são-bernardos e outros, incluindo até um enorme bicho trazido da Sibéria que vive todo o ano dobrado ao peso do seu longo e pesado e inútil cobertor de pelos. [...] Experimente dar-lhe cavala, sugeri à senhora, nós devemos ser o país que tem mais diferentes marcas de cães, mas todos eles têm em comum alimentarem-se à base de cavala e papas de milho» («Animais de hábitos», Germano Almeida, Diário de Notícias, 12.08.2018, 6h07).

      A brincar, em casa — e sobretudo porque desajoujado do peso do Prémio Camões —, eu também digo «marcas de cães». E se Germano Almeida não está a brincar (como até a repetição indicia), se achar que é assim mesmo que se diz? Tem um problema, e nós temos pena. (E porque está desajoujado no VOLP da Academia Brasileira de Letras e não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora?)

 

[Texto 9808]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
13
Jul 18

A Antárctida e a... e o...

Essa é nova

 

      «Um icebergue com seis quilómetros de largura soltou-se de um glaciar no leste da Gronelândia, o maior em mais de uma década naquele lugar. [...] Holland [David Holland, da Universidade de Nova Iorque] destacou que “a preocupação real é com a Antárctida, onde é tudo tão grande que os riscos são muito mais altos”» («Icebergue de 6 km solta-se e obriga à retirada de 170 pessoas na Gronelândia», Rádio Renascença, 13.07.2018, 16h44).

      No já longínquo ano 2000, escrevia F. V. P. da Fonseca no Ciberdúvidas (aqui): «Antárctida é a grafia correcta para designar o grande continente onde se situa o Pólo Sul. Antárctica é o feminino do adjectivo correspondente, antárctico. Quanto a Árctida (é esta a ortografia) é a região oposta, ou seja[,] o oceano onde se situa o Pólo Norte, constituído só por água e gelo. Árctica é o feminino do adjectivo árctico, relativo à Árctida. Em Portugal, pelo menos, é assim.» Em que parte de Portugal? Nunca vi a palavra «Árctida» mais gorda.

 

[Texto 9620]

Helder Guégués às 17:25 | comentar | ver comentários (7) | favorito | partilhar
04
Jul 18

O presidente e a presidenta

Cair em graça e pedir

 

      «Este inédito estava no segredo dos deuses desde a sua descoberta e só foi anunciado hoje, às 15.30, em Portugal pela presidenta da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e pelo editor da Porto, Manuel Alberto Valente» («Descoberto inédito de Saramago... que Saramago até já tinha anunciado querer publicar em 2001», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 3.07.2018, 15h27). «Segundo Pilar del Rio, presidente da Fundação José Saramago, a descoberta aconteceu de forma casual, em fevereiro, ao fazer uma pesquisa no computador» («É um diário inédito de Saramago e chega às livrarias em outubro», João Miguel Salvador, Expresso Diário, 4.07.2018, 7h00).

      Pois é, não somos todos feitos da mesma massa. Um queria que lhe escrevessem o nome com minúsculas — obedeceram-lhe; outra quer que lhe chamem «presidenta» — acatam. Pelos vistos, é só cair em graça e pedir.

 

[Texto 9558] 

Helder Guégués às 21:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
19
Jun 18

Léxico: «malabar»

Calado seria melhor

 

      Olhem-me para este: «Nas jornadas parlamentares do PSD, que decorrem na Guarda, o economista [Daniel Bessa, antigo ministro] disse que a medida é só para quem acredita em vacas que voam e compara o primeiro-ministro, António Costa, a um “malabar”» («Daniel Bessa compara António Costa a um “malabar”», Rádio Renascença, 18.06.2018, 21h59).

      Isto é alguma piada racista contra António Costa, de ascendência indiana? Malabar é, como se sabe, referente à costa ocidental da Índia, ou ao povo que a habita. O próprio jornalista se viu obrigado a interpretar: «Malabar é um adjetivo utilizado para descrever algo relativo a malabarismos, espetáculo em que se fazem habilidades de equilíbrio e acrobacias e é também uma região da Índia.» Salvo melhor — mas improvável — opinião, Daniel Bessa perdeu aqui uma boa oportunidade de estar calado.

 

[Texto 9451]

Helder Guégués às 12:17 | comentar | favorito | partilhar
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