10
Out 20

«Inobstante»? Não se esforce

Não pode passar tudo

 

      «A importância dos vice-presidentes é o futuro: tanto Kamala Harris, 55 anos, centro-esquerda, humanista, progressista e negra, como Mike Pence, 61 anos, branco, “católico, conservador e republicano” (por esta ordem) de Direita, estão, inobstante o resultado de 3 de novembro, já lançados na corrida presidencial de 2024 – Trump não pode ir a um 3.º mandato e Biden faz 78 anos dia 20» («Debate com luvas: Kamala consistente, Pence joga à defesa», José Miguel Gaspar, Jornal de Notícias, 9.10.2020, p. 30).

      José Miguel Gaspar conseguiu desencantar uma preposição que nem o dicionário da Porto Editora regista — e ainda bem. Sacconi classificou-a de tolice. Para quê inventar mostrengos quando temos «não obstante», José Miguel Gaspar?

 

[Texto 14 121]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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04
Out 20

«Linguagem inclusiva»

Uma baboseira

 

      «A diretiva do Ministério da Defesa sobre a “utilização de linguagem não discriminatória” pelas Forças Armadas está a causar mal-estar entre os militares, e a associação que representa os oficiais afirma que a orientação da Secretaria-Geral “é ofensiva e um disparate”. Até porque existem “problemas gravíssimos, a nível de saúde e remunerações”, que carecem de soluções, lembra a estrutura associativa» («Militares em guerra com regras de língua», Ana Correia Costa, Jornal de Notícias, 1.10.2020, p. 8).

      Decerto, mas a melhor descrição desta iniciativa do Ministério da Defesa já foi feita numa só palavra pelo Conselho Nacional da Associação de Oficiais das Forças Armadas: «baboseira». Não chegou o que fizeram com o Acordo Ortográfico, infelizes?

 

[Texto 14 082]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
10
Set 20

Como se escreve e pensa por aí

Mais diligência

 

      «As cargas mais leves são transportadas em alforges colocados sobre burros, caso raro no monte. O meio de transporte mais importante é o carro de vara, com esta ligada à canga metálica que assenta nos mulins» (Memórias de Um Desertor, Sérgio Palma Brito. Lisboa: Edições Colibri, 2020, p. 34).

      Em «mulins», remete para uma nota de rodapé de quatro linhas em que se lamenta que o termo não esteja no Dicionário da Academia. Num livro publicado em 2020, é esta a referência do autor, o Dicionário da Academia. Se o livro tivesse revisão, eliminariam a nota, pois a ortografia consagrada é molim — que está em todos os dicionários. Mas abundam nele erros crassos e gralhas, o que é pena, já que não lhe falta interesse. Em alguns trechos, é quase certo que nem sequer foi relido pelo autor, quanto mais revisto. Mas lá figura o nome do editor: Fernando Mão de Ferro.

 

[Texto 13 931]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito
02
Jun 20

A lógica e a tradição

Quim e Will, ou a lógica jornalística

 

      «O príncipe Joaquim, sobrinho do rei Filipe da Bélgica, testou positivo para covid-19 depois de ter quebrado a quarentena e ter sido o anfitrião de uma festa em Córdova, Espanha» («Príncipe Joaquim da Bélgica com covid-19 depois de ter dado festa ilegal», Diário de Notícias, 30.05.2020, 20h08). O príncipe Joaquim da Bélgica e o príncipe William da Grã-Bretanha, não é assim, senhores jornalistas?

 

[Texto 13 484]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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O que se sabe (pouco) e diz (muito)

Dantes é que era

 

      Creio que foi à saída da missa na Sé Catedral da Guarda. Estavam lá repórteres da televisão, pois claro. Uma senhora — dessas de antigamente, com uma 4.ª classe sólida que, aposto, não trocaria por um mestrado de hoje em dia — falou no «coravírus ou lá o que é» que para aí anda.

 

[Texto 13 481]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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12
Mai 20

Como se escreve por aí

Grandes inventores

 

      «Contam pelos dedos das mãos as noites que o corpo de Valentina Fonseca ficou naquele eucaliptal. Vão pegando e atirando para o chão, gesto contínuo, os ramos partidos usados para tapar o cadáver da criança de nove anos que ainda lá ficaram — como se eles próprios quisessem reconstituir o crime» («Valentina foi vestida depois de morta? Madrasta ajudou o pai a esconder corpo? Os mistérios da morte da criança que a PJ tenta desvendar», Carolina Branco, Observador, 11.05.2020, 2h16). Não vale a pena esforçar-se tanto a inventar o que já foi inventado, Carolina Branco: diz-se acto contínuo.

 

[Texto 13 324]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
03
Mai 20

Como se fala por aí

Não se esperava melhor

 

      «Assintomático. Paciente que é portador de uma doença ou infecção, mas não exibe sintomas. Segundo um recente estudo publicado na revista Science, pessoas assintomáticas de todo o mundo foram, em meados de Março, responsáveis por dois terços das infecções. É também uma palavra que “engasga” muitos portugueses que prestam declarações às televisões e rádios. “Assimático” e “assuntumático” foram duas das versões já ouvidas» («Dicionário da covid-19, as palavras que queremos deixar de dizer», Luciano Alvarez, Público, 3.05.2020, p. 6).

      O que é que os falantes não deturpam? Então eu não ouvi, na TVI 24, um idoso dizer «crise epidérmica»? (Muito me apraz verificar que nesta edição do Público se escreve sessenta e seis vezes a palavra covid-19 — assim, não com maiúsculas.)

 

[Texto 13 268]

Helder Guégués às 20:00 | comentar | favorito
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28
Abr 20

Cadê o português, gente?

Neste caso, no Brasil

 

      «“Hoje não temos mais o gargalo dos insumos; nosso gargalo é a logística da coleta e o processamento”, diz ele. “Também sabemos que há dificuldade hoje de achar no mercado swab [cotonete nasal] para testagem massiva”, afirma» («Capacidade de coleta e de análise de testes é entrave, diz Fiocruz», Natália Cancian, Folha de S. Paulo, 21.04.2020, p. B2). E depois temos destas falhas ridículas, sim, porque é uma falha. É preciso recorrerem a uma palavra inglesa, ó seus infelizes?

 

[Texto 13 235]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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