15
Nov 19

Como se fala por aí

Vá-se lá saber

 

    Diz Luís Montenegro: «Eu não tentei nada, houve pessoas que tentaram. Seria uma tragédia política se o futuro do PSD, numa situação tão grave, [sic] como aquela em que se encontra fosse decidida por questões administrativas e de intendência» («Luís Montenegro responde a Rui Rio: “Vigarices? Se calhar isso faz ricochete”», Paula Caeiro Varela (Renascença) e Sofia Rodrigues (Público), 14.11.2019, 00h00). Ah, não me perguntem o que quer Luís Montenegro dizer com «questões de intendência». Usa a palavra duas vezes. Já temos sorte que não diga, como o chefe Passos, «pra futuro».

 

[Texto 12 294]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
08
Out 19

Como se fala na TVI24

Quando se pode tirar o som

 

      Embora estivesse perto, a centenas de metros, assisti pela televisão, na TVI24, à chegada do corpo do Prof. Freitas do Amaral ao Cemitério da Guia, em Cascais. Péssima opção. Os disparates e as parvoíces saíam em catadupa da boca da jornalista. Logo no início, disse que a urna (mas também chegou a falar em «fêretro») repousava num altar. Desliguei o som. Para ouvir as salvas de artilharia, bastou abrir a janela.

 

[Texto 12 119]

Helder Guégués às 02:00 | comentar | favorito
24
Set 19

Inventar, mas mal

Não seja complicado

 

      «As instruções que o acompanham, embora lógicas, sofrem de “complicatismo” – uma síndrome lexical própria da administração pública. A primeira frase, por exemplo, diz que o que temos em mãos é um “invólucro resposta/folha explicativa”. Será que é a resposta que explica ou a explicação que responde?» («Origami eleitoral», Ricardo Garcia, Público, 22.09.2019, p. 10).

      Pois, mas não: onde foi Ricardo Garcia buscar o t, saberá dizer-nos? Se deriva de «complicado», só pode ser «complicadismo». Assim, vê-se que o jornalista sofre da doença que descreve.

 

[Texto 12 031]

Helder Guégués às 05:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
20
Ago 19

Disparates na CMTV

Outro nível

 

       «José Pedro, de 21 anos, estava internado no Hospital Psiquiátrico de Viseu e foi pedir ajuda à prima Cristina Ferreira, que o acolheu em sua casa. Sofreu um ataque de fúria e proferiu vários golpes de faca contra a familiar, matando-a sem piedade. Depois atirou-se da varanda do apartamento para a rua, sofrendo ferimentos muito graves» («O jovem de 21 anos foi presente a um juiz do Tribunal de Viseu, a quem acabaria por confessar o crime», Luís Oliveira, CMTV, 29.07.2019, 11h59).

      Proferir golpes de faca! Estes repórteres da CMTV estão noutro nível. Um nível, diga-se, que já em 2011, no tempo da PàF, Pedro Lomba atingira com o seu inenarrável «bramindo o estandarte», que nunca esqueceremos. Conhecem as palavras, sim, mas de outiva.

 

[Texto 11 880]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
14
Jul 19

Já as pagaias são papagaias

À frente do nosso nariz

 

      «Já se navega de prancha e papagaia no rio Douro», titula o Jornal de Notícias em linha. E, como é duas vezes, será convicção. A actividade, promovida pela Câmara Municipal de Baião, era de SUP (stand-up paddle), que, como se sabe, se pratica com o auxílio de uma espécie de remo curto e com pá larga — chamado pagaia. Está bem, podem dizer-me, é um erro, como tantos outros. Pode não ser apenas isso: por essa Internet fora, até nos sítios de lojas especializadas é já «papagaia» que se lê. Temos de continuar atentos. O fenómeno não é inédito: quando não conhece o termo, o falante assimila-o ao que já conhece.

 

[Texto 11 767]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Abr 19

Léxico: «hispano»

Que seja a última

 

      «Com a questão da Catalunha e a extrema-direita a ganhar votos, sobretudo na Andaluzia, estas Eleições Gerais em Espanha vão decidir o próximo Governo. Espanha é o principal parceiro económico de Portugal. Que impacto terão os resultados na nossa própria vida política? Este sábado, no da Capa à Contracapa, as eleições espanholas vão estar em análise. São convidados Lívia Franco, especialista em questões geopolíticas, Professora e Investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e o jornalista Enrique Pinto-Coelho que, sendo espanho-luso, tem essa característica única de poder votar em Espanha e em Portugal. Atualmente, é correspondente em Portugal do canal espanhol La Sexta e colabora com vários outros meios como repórter e tradutor» («Eleições em Espanha. Que impacto para Portugal?», Rádio Renascença, 27.04.2019).

      Há coisas que só veremos uma vez na vida. Com sorte, algumas nunca as chegaremos a ver. A esta podíamos ter sido poupados. Desde quando é que a forma reduzida de espanhol é «espanho»? Será que Enrique Pinto-Coelho sabe que dizem que ele é — deixem-me cruzar os dedos — «espanho-luso»? Hispano, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer é identificado como redução vocabular; remete-se para hispânico e já está, o falante que se desenrasque. Tanta sucintez (palavra que aquele dicionário ignora) por vezes desemboca em ignorância.

 

 

[Texto 11 263]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
24
Abr 19

«Martemoto»?

Não percam tempo

 

      «A sonda InSight detetou, pela primeira vez, um “marsquake”, um evento sísmico no planeta Marte, anunciou esta terça-feira a NASA. Um sinal sísmico de fraca intensidade foi registado pela sonda no passado dia 6 de abril, indica a agência espacial norte-americana» («“Marsquake”. Sonda da NASA deteta primeiro sismo em Marte», Rádio Renascença, 24.04.2019, 1h06). Era mais do que previsível, aconteceu o mesmo com aterragem/alunagem. Para a imprensa anglo-saxónica, é marsquake, e entre nós já vi «martemoto». Com a sinonímia de que dispomos, é preciso andarmos aqui armados em parvos?

 

[Texto 11 246]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | favorito
23
Abr 19

«Vaticanício»?

Alvíssaras

 

      «Nessa perspetiva, não há como riscar do topo da lista dos suspeitos, [sic] o arcebispo Marcinkus, que estava com a cabeça a prémio por causa das suspeitas de negócios fraudulentos envolvendo o IOR, o cardeal Villot, que não suportava o pendor revolucionário de Luciani e que foi quem ordenou o polémico embalsamamento do corpo [do Papa João Paulo I], e o banqueiro Calvi que, com o seu Ambrosiano em queda livre, precisava desesperadamente do amparo vaticanício» («Quarenta anos depois da grande conspiração», Secundino Cunha, «Domingo»/Correio da Manhã, 9.09.2018, pp. 31-32).

      Nunca eu tinha visto «vaticanício» antes de ler este texto. Português não é, nem castelhano, catalão ou italiano — donde vem? Dão-se alvíssaras. Com que critério se usa uma palavra assim? Bem, em texto meu é que ninguém alguma vez vai ver «embalsamamento». Soa tão mal este «samamento»... Se temos, mais breve, «embalsamento», para quê ficar ali a patinar nas sílabas?

 

[Texto 11 233]

Helder Guégués às 08:18 | comentar | favorito
30
Mar 19

Um «vexa» vexatório

Tudo mau

 

      «A deputada socialista, Isabel Moreira, denunciou esta sexta-feira, através do Facebook, uma mensagem violenta e homofóbica de um membro da “comissão política da concelhia do CDS-PP de Barcelos”, Armindo Leite. Na imagem divulgada por Isabel Moreira pode ler-se: “És uma vergonha, fufa de m****, mata-te......”. “Tenciono continuar por aqui, Armindo sexista, homofóbico, criminoso e cobarde. Há mais como vexa. E há mais, mas muito mais como eu. Toda uma multidão do lado da liberdade e da igualdade. ADENDA: fui informada de que o ameaçador pertence à comissão política da concelhia do CDS-PP de Barcelos. Aguardo reações da direção do CDS. Pois é, acho isto intolerável”, esclareceu Isabel Moreira» («Deputada socialista denuncia mensagem violenta e homofóbica de membro do CDS-PP», Correio da Manhã, 30.03.2019, 8h25).

      O CDS tem lá boas peças, tem. Nada desculpa, porém, aquele «vexa», que não passa, em português, de uma forma do verbo «vexar». Para significar o que se pretende ali na frase citada acho-o simplesmente parolo. E aqueles seis pontos? Duplas reticências... E as vírgulas a isolarem o nome da deputada? Andam a estudar muito, vê-se logo.

 

[Texto 11 080]

Helder Guégués às 21:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,