20
Out 20

Como se escreve por aí

Em Angola, na verdade

 

      «Segundo a Angop, do material consta bacia, álcool em gel, sabão, luvas, tesoura, bisturi, algodão, detergente, gases, entre outros instrumentos, para prevenir a propagação da Covid-19 naquela circunscrição» («Parteiras tradicionais beneficiam de material de biossegurança», Jornal de Angola, 18.10.2020, p. 8).

      É claro que as «parteiras tradicionais» (como eles escrevem, mas ninguém dirá: são curiosas ou comadres — comadronas em castelhano) precisam, pelo menos de vez em quando, de gases, mas diária há-de ser a necessidade de gazes, tecido esterilizado. Precisam e muito, de metros e metros.

 

[Texto 14 182]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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04
Set 20

Como se escreve por aí

É o que sai

 

      «São Pedro das Águias — Situa-se junto à pequena aldeia de Granjinha, 10 km a sul de Tabuaço pela N323, direção Moimenta da Beira. O templo românico está alpendurado junto a uma ravina, num profundo vale onde corre o rio Távora» («Dez igrejas (quase) desconhecidas», Rui Cardoso, «Revista E»/Expresso, 8.08.2020, p. 81).

      Isto é saber de outiva, e até de quem ouve mal. Não existe. A palavra é alcandorado, ou seja, colocado a grande altura.

 

[Texto 13 896]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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21
Ago 20

Como se escreve por aí

Sem barco, mete água

 

      Na praia de Armação de Pêra, um homem de 71 anos entrou demasiado no mar e acabou por sentir dificuldades em regressar ao areal. Vai daí: «No final, tudo acabou em bem, com o homem a não necessitar de receber assistência médica, mas a agradecer o empenho dos elementos da AquaForm, depois de um valente susto. A atuação de Duarte e Bruna [nadadores-salvadores] foi, aliás, saudada com uma enorme salva de palmas por parte dos presentes na praia. Já o náufrago fez questão de tirar uma foto com aqueles dois jovens, que, muito provavelmente, lhe terão salvado a vida» («Resgate de homem de 71 anos termina com salva de palmas na praia», Paulo Lourenço, Jornal de Notícias, 14.08.2020, 13h33).

      Onde está o barco, Paulo Lourenço? É o habitual: nunca tinha pensado nisto. Só há náufragos se estiver envolvido um barco afundado. (E o resto? Com o Acordo Ortográfico de 1990, Paulo Lourenço, passou-se a escrever Armação de Pera. Reveja tudo. Estude.)

 

[Texto 13 870]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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25
Jul 20

Como se escreve por aí

Mais concretamente em Angola

 

      Vamos lá espreitar aqui umas inépcias dos jornalistas do Jornal de Angola, para servir de estímulo, aguilhão: «Longe das caridades e doacções dos que professam a fé, as empresas e vendedores particulares viram na procura das igrejas por termómetros, lixívia, álcool em gel e pulverizadores um novo “el dourado” para quem os tem em stock» («Corrida aos kits de biossegurança», Jornal de Angola, 23.06.2020, p. 7). Também não conhecem o itálico nem têm dicionários ou vocabulários, os pobres. Os petrodólares não chegaram para estas miudezas.

 

[Texto 13 793]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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23
Jul 20

Como se escreve nos jornais

Não digam isso (porra!)

 

      «A China anunciou esta quarta-feira que foi forçada pelos Estados Unidos a encerrar o seu consulado na cidade norte-americana de Houston, numa medida descrita por Pequim como uma “provocação”. Porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, afirma que o consulado foi fechado “para proteger a propriedade intelectual e as informações privadas dos norte-americanos”. [...] O país chinês advertiu que vai haver “retaliação”. “A China condena veementemente esta ação ultrajante e injustificada”, disse o porta-voz da diplomacia chinesa Wang Wenbin, em conferência de imprensa» («EUA encerram consulado da China para proteger propriedade intelectual e informações privadas», Observador, 22.07.2020, 10h05).

      Apetece dar um piparote nestes crânios e perguntar se mora lá alguém. Epígonos do Correio da Manhã.

 

[Texto 13 778]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito
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14
Jul 20

A negligência dos jornalistas

Inacreditável

 

       «Especialistas defendem que até 57,4% dos doentes que tiveram covid-19 desenvolveram algum tipo de sintoma neurológico, segundo um estudo liderado por um investigador de Albacete, Espanha, e publicado na revista médica Neurology. [...] Segundo o estudo, 57,4% dos pacientes avaliados em Albacete desenvolveram algum sintoma neurológico: 17% mialgia; 14% cefaleia e 6% instabilidade, mais comuns nos estágios iniciais da infeção, enquanto outros tiveram perda de olfato e disgenesia (distúrbios do paladar)» («Estudo admite que 57,4% dos doentes desenvolveram algum sintoma neurológico», Rádio Renascença, 9.07.2020, 18h45, itálico meu).

      Este caso é bem representativo da negligência da nossa imprensa. Em todos os meios, porque dimanou da Lusa, se lê «disgenesia (distúrbios do paladar)». Na RR, TVI, SIC, Público, Visão, Observador, em todos o erro e nenhum corrige nada. Tristeza. Até num jornal médico! A disgenesia diz respeito à função reprodutora. Não se tem vindo a falar na perda do olfacto (anosmia) e do paladar como dois dos sintomas de quem tem covid-19? Pois bem, o termo médico para a perda do paladar é disgeusia. Vagamente semelhante, mas sem nenhuma relação.

      Também há uma lição para os dicionaristas: qual a razão para só um destes termos estar no dicionário geral da Porto Editora?

 

[Texto 13 705]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Jun 20

O AO90 no dia-a-dia

Ainda andamos nisto

 

      Alexandra Lopes, ainda andamos a brincar ao acordo ortográfico? Ainda tem dúvidas sobre uma porcaria tão simples? Olhe, os centros de explicações já reabriram. «O fato de ter pago aos lesados, com o apoio da família, já que está detido e não tem rendimentos, foi, aliás, um aspeto evocado pela defesa. “Depois de quatro anos de reclusão, está consciente e arrependido, e já conseguiu licença para fazer um mestrado em Psicologia”, notou a advogada. Valdemar já é formado em Engenharia Civil e terá tirado uma licenciatura em Ciências Sociais durante o tempo em que tem estado preso, na cadeia de Paços de Ferreira» («​Burlão das notas de 50 euros faz mestrado na cadeia», Alexandra Lopes, Jornal da Notícias, 11.06.2020, p. 16).

 

[Texto 13 542]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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Como se escreve por aí

Disparates é que não

 

      «Partículas de grandes dimensões (>5 m), com passagem breve pelo ar quando a fonte e os hospedeiros se encontram muito próximos, sendo produzidas durante a fala, tosse ou espirro e assentando rapidamente na [sic] superfícies» («Dicionário Covid-19», Correio da Manhã, 10.06.2020, p. 54).

      Realmente, partículas de grandes dimensões — 5 metros! Eh brutos! A fonte é a DGS, que não fala em metros, mas em micrómetros, evidentemente. O símbolo de micrómetro é µm. Se, por qualquer motivo patológico, não conseguiam encontrá-lo, escreviam por extenso. Disparates é que não.

 

[Texto 13 540]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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