01
Jan 20

Como se traduz por aí

Mais cuidado e discernimento

 

      «A polícia de West Yorkshire atingiu com taser um rapaz de 14 anos que estava a roubar. O jovem agrediu um polícia e o incidente envolveu um espanador de juntas. As autoridades confirmaram que o rapaz foi preso e posteriormente condenado por roubo e agressão a um polícia, tendo uma sentença de 16 meses de detenção» («Polícia atinge com taser adolescente de 14 anos que estava a roubar», Correio da Manhã, 31.12.2019, 19h57).

      Isto de pôr as senhoras da limpeza e os seguranças a redigir os artigos não é boa ideia, eu já tinha avisado. Vá lá que o adolescente (mas «was of muscular build and 5ft 10ins tall») não lhe deu para chicotear a cara do polícia com um trapo molhado. O que se lê no Mirror, por exemplo, é que o incidente envolveu um «knuckle duster» — uma soqueira. Espero que 2020 vos traga mais cuidado e discernimento.

 

[Texto 12 552]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito
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20
Dez 19

Incoerências nos jornais

De candeias às avessas

 

      «A diferença provoca chuvas e inundações em África e secas no Sudeste Asiático e na Austrália. É um fenómeno semelhante ao El Niño, que se verifica no oceano Pacífico» («A Austrália pode arder ainda mais com vaga de calor recorde», Clara Barata, Público, 19.12.2019, p. 48). «E concluem: “Com idades modeladas de 117 a 108 mil anos, a cama de ossos de Ngandong pode finalmente assumir a sua posição correcta na sequência biostratigráfica dos hominídeos das ilhas do Sudeste asiático.”» («Eis os mais recentes fósseis do Homo erectus», Andrea Cunha Freitas, Público, 19.12.2019, p. 31).

      Clara Barata e Andrea Cunha Freitas, juntem-se e resolvam este desaguisado doméstico. Não vos posso sugerir a Porto Editora como mediadora, porque se debate com o mesmo problema. 

[Texto 12 510]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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05
Dez 19

Nem com o plural das letras atinam

Talvez seja desta

 

      «Se os mitos abundam, onde estão as realidades? Para os autores, em quatro D’s essenciais: distrust (desconfiança), destruction (destruição), deprivation (privação) e de-alignment (desalinhamento)» («Para acabar com os mitos», João Pereira Coutinho, «Domingo»/Correio da Manhã, 1.12.2019, p. 14). Lamentável, e não aprendem, por muito que pensem e afirmem o contrário.

 

[Texto 12 410]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Dez 19

Erros imperdoáveis: «há | à»

O impensável acontece todos os dias

 

      Esta ainda está fresquinha: «Há nove anos um grupo de crianças dinamarquesas teve um acidente no mar durante uma visita de estudo. Sete dessas crianças foram declaradas clinicamente mortas por hipotermia, mas as sete voltaram há vida algumas horas depois» («“Morreram” nos fiordes mas acabaram por acordar. BBC juntou-os nove anos depois», Dora Pires, TSF, 3.12.2019, 18h16).

      Nos últimos tempos, um professor também me tem mostrado este mesmo erro em textos de colegas. Isto são problemas da infância, de certeza. Como é que um jornalista confunde preposições com verbos? Como é que um professor, seja qual for a disciplina que leccione, dá o mesmo erro? Não há perdão para eles nem escapatória para nós.

 

[Texto 12 398]

Helder Guégués às 18:45 | comentar | favorito
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Léxico: «trifolau»

Em rigor, não

 

      «Em 2007 o cozinheiro nepalês Tanka Sapkota passou duas semanas em Itália em casa de um “caçador” de trufas ou, em italiano, um “trifolau”. Um dia aventurou-se sozinho com um dos cães farejadores do anfitrião e deu por si no sopé de um monte sem conseguir regressar» («Ouro branco», Augusto Freitas de Sousa, Jornal de Negócios, 29.11.2019, p. 22).

      Em rigor, não é em italiano, mas em piemontês. Tanto assim é que não o encontrei em nenhum dicionário de italiano. Não custa nada ser rigoroso.

 

[Texto 12 391]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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27
Nov 19

Tradução: «to retract»

Os mesmos e outros

 

      «Em resposta à agência Lusa, o gabinete de comunicação da Universidade do Porto (U. Porto) avançou esta quarta-feira que, apesar do [sic] assunto “não cair sobre a alçada disciplinar” da instituição, pode ser conduzido a “uma apreciação” por parte da Comissão de Ética. [...] Numa publicação, o blogue Retraction Watch (que expõe retratações de artigos científicos) afirma que a professora da FLUP especialista em Ciência Política e Relações Internacionais Teresa Cierco Gomes teve, “pelo menos, cinco artigos retraídos por plágio”» («Professor norte-americano alerta para plágio de professora na Universidade do Porto», Jornal de Notícias, 27.11.2019, 17h08).

      A vantagem, dirão alguns, é serem sempre os mesmos erros. Também estão enganados, mesmos nos erros deve haver variedade, é mais estimulante. É «cair sob a alçada», senhor jornalista — e assim devia escrever, ainda que o erro viesse da Universidade do Porto. Se calhar quis corrigi-los... E agora to retract, no sentido do contexto, traduz-se por «retrair»? Isso não é mais para as garras dos felinos e para os tentáculos dos caracóis?

 

[Texto 12 366]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | favorito
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26
Nov 19

O pobre verbo «faltar»

E desses erros, quem nos livra?

 

      «Ontem, depois de horas de festejos pelas ruas do Rio de Janeiro, inundadas de adeptos de vermelho e preto, Jesus e o Flamengo sagraram-se campeões do Brasil, depois do Grémio vencer o Palmeiras. Isto quando ainda faltam disputar quatro jornadas (o próximo jogo do Fla é quarta-feira)» («Joacine livra-se do Livre? Livra!», Martim Silva, Expresso Curto, 25.11.2019).

      Se bem que o Expresso, em especial o que vai publicando ao longo do dia no sítio da Internet, seja actualmente uma nódoa, a ponto de nem sequer merecer ser citado seja para que fim for, convém de quando em quando lembrar quem lá trabalha, em especial quem tem maior responsabilidade, que cometem outros atropelos bem piores do que a trapalhada do Acordo Ortográfico de 1990 que atiram para cima do leitor (grande respeito...), e piores porque mais elementares e, contudo, mais fundamentais. Martim Silva, director-adjunto, devia saber que não se diz «faltam disputar», é um solecismo. Vejamos: o sujeito do verbo «faltar», que é pessoal, é outro verbo, o verbo «disputar», que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo «faltar» esteja no singular: «falta disputar quatro jogos». Difícil?

 

[Texto 12 356]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | favorito
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24
Jul 19

A displicência nos jornais

A habitual falta de cuidado

 

      «“Tudo isto é demasiado chocante para ser descrito”, afirmou no Twitter o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abbe, enviando condolências às famílias das vítimas» («Incendiário arrasa estúdios de animação», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 19.07.2019, p. 31).

      F. J. Gonçalves, custava muito pesquisar na Internet e concluir que, afinal, se escreve Shinzō Abe? Tanta certeza...

 

[Texto 11 830]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | favorito
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