11
Nov 18

A mentira e o AOLP90

A brincar, a brincar

 

      «Eu fico sempre convencido com as pessoas perentórias. Pelo menos ficava, quando a palavra se escrevia “peremptória” e era mais perentória por isso. Hoje, as ganas, mesmo de uma mulher do Alto Minho, deixam-me mais cético (não tão cético como antigamente, quando se escrevia “céptico”, mas ainda assim cético). Vai daí, recorri ao meu método para me curar de um espanto: de que estamos a falar quando estamos a falar? Isto é, de que password falava a deputada Emília Cerqueira?» («O caso da password promíscua», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 11.11.2018, 6h19).

      Isso é que era, o Diário de Notícias aparecer na edição de 1 de Janeiro de 2019 totalmente limpo do pesadelo do Acordo Ortográfico de 1990. Mas isso é mais notícia para o 1 de Abril...

 

[Texto 10 271]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito | partilhar
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25
Out 18

«Raphael e Michelangelo»...

Antes escrito na areia

 

      Edição de ontem do Público, «Escrito na pedra»: «Itália não é um país intelectual. Não avaliem a Itália pelo simples facto de ter produzido Raphael e Michelangelo» (Umberto Eco, filósofo e escritor, 1932-2016).» Umberto Eco disse mesmo isto? Sabe-se lá, há tantas aldrabices nisto das citações. O que sei é que nunca eu, português, escreveria «Raphael e Michelangelo», nem concebo que alguém minimamente atilado o faça. Não é nada, os plumitivos do Mosaico, jornal d’instrucção e recreio, em meados do século XIX, escreviam melhor.

 

[Texto 10 186]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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20
Out 18

Sobre o PAN

Nem aos pares

 

      «O partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) apresentou uma queixa à Comissão Europeia contra as dragagens do Sado» («PAN queixa-se à UE contra dragagens», Sebastião Almeida, Público, 20.10.2018, p. 19). «Texto editado por Ana Fernandes», lê-se ao fundo do artigo. Pois nem os dois juntos acertaram no nome do partido, que já vi escrito de várias formas, é verdade. Eles com certeza sabem, e o que eles dizem é que são o partido Pessoas-Animais-Natureza, PAN. Com hífenes, e não com meias-riscas como se vê na Wikipédia.

 

[Texto 10 161]

Helder Guégués às 18:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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19
Out 18

Marcelo continua a ensinar

Com amigos destes...

 

      Logo de manhãzinha, ouvi na Antena 1 Marcelo Rebelo de Sousa, confrontado pelos jornalistas numa acção em Vila Franca de Xira, dizer aos jornalistas: «Aquilo que está no sítio da Presidência foi o que estava na carta.» Para os jornalistas, isso é demasiado português: «O Presidente da República confirmou ontem, ao fim da tarde, a exoneração do general Rovisco Duarte como chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) que lhe foi proposta pelo Governo. No site da Presidência, aparece transcrito um excerto da carta do militar na qual são invocados motivos pessoais para abandonar a chefia do Exército» («Marcelo revela carta em que ex-CEME atribui resignação a “motivos pessoais”», Nuno Ribeiro e Sofia Rodrigues, Público, 19.10.2018, p. 6).

      Se falasse por si mesma, a pobre língua com certeza diria: «Com amigos destes, quem precisa de inimigos?»

 

[Texto 10 155] 

Helder Guégués às 17:05 | comentar | ver comentários (6) | favorito | partilhar
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16
Out 18

Dicionário Português-Changana

Falta o primeiro e melhor

 

      «Um total de 17 mil palavras portuguesas estão traduzidas para a língua mais falada na capital de Moçambique, o changana, no novo dicionário de Bento Sitoe, linguista e docente universitário. O changana é fruto de várias línguas bantu, milenares, da África subsariana, desde os Camarões até à Cidade do Cabo, na África do Sul. O público-alvo do novo dicionário são docentes que trabalham na formação de professores das línguas moçambicanas, refere Bento Sitoe. Além do novo dicionário Português-Changana, Bento Sitoe é igualmente autor do dicionário Changana- Português, publicado pela Texto Editores em 2012» («Novo dicionário de Português-Changana em Moçambique», Público, 15.10.2018, p. 31).

      Fica a informação. Nunca são de mais. Os primeiros trabalhos — gramáticas, dicionários, tradução da Bíblia, etc. — com as línguas nacionais africanas foram feitos por missionários. Ainda hoje, aliás, há missionários com trabalhos nesta área. «Línguas bantu», no entanto, é de morrer a rir.

 

[Texto 10 120]

Helder Guégués às 13:31 | comentar | favorito | partilhar
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15
Out 18

Como se escreve nos jornais

Para a próxima

 

      «O investigador português José Furtado, de 37 anos, desenvolveu um sistema de monitoria, prevenção e combate aos incêndios florestais, denominado “Rede IoT para Alarmística de Incêndios Florestais”, que alcançou resultados muito promissores em testes coordenados pelo Laboratório de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, coordenado pelo professor Domingos Xavier Viegas. [...] Por intermédio das placas de rede wi-fi, os módulos comunicam entre si e fazem os dados observados chegar a uma central de monitoria» («Jovem investigador português quer travar o drama dos incêndios», Vanessa Fidalgo, «Domingo»/Correio da Manhã, 7.10.2018, p. 30).

      «Monitoria», «monitoria». É, portanto, convicção. Vanessa Fidalgo quis competir com a «alarmística», mas saiu-se mal: monitoria é o cargo ou funções de monitor. Fica para a próxima.

 

[Texto 10 115]

Helder Guégués às 18:47 | comentar | favorito | partilhar
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Como se escreve nos jornais

Caprichos

 

      «Outra aposta do Afuri é o bar, em que os cocktails são trabalhados usando ingredientes japoneses e outros portugueses (há também um vinho branco feito especialmente para a casa, parceria com uma adega nacional), e que apresenta uma oferta diversificada de sakés e de whiskies japoneses — uma das possibilidades é fazer uma degustação para se ficar a conhecer melhor estes dois mundos (entre 18 e 22€ para os sakés e entre os 15 e os 20€ para os whiskies)» («O ramen é uma ciência (quase) exacta», Alexandra Prado Coelho, «Fugas»/Público, 13.10.2018, p. 30).

      Assim é que respeitam a língua. Então, Alexandra Prado Coelho, qual é o problema com saquê ou saqué e com uísque, pode explicar-nos? Caprichos, não é assim?

 

[Texto 10 112]

Helder Guégués às 18:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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14
Out 18

A falta que a revisão faz

Ainda no Diário de Notícias

 

      Um luxo inalcançável, repito. «Nenhures é aqui, na Quinta do Vale da Ribeira, propriedade de 2,2 hectares para onde se mudou há dois anos, vinda de Sommerset, no sul de Inglaterra. Fica a três quilómetros do Pedrógão de São Pedro, aldeia de 400 habitantes no concelho de Penamacor. Enquanto não acaba de reconstruir a casa de xisto onde quer passar o resto dos dias, Sophia vive numa quinta desde que chegou a Portugal» («Os fugitivos do brexit estão a invadir o concelho mais envelhecido de Portugal», Ricardo J. Rodrigues, Diário de Notícias, 14.10.2018, 6h30).

      Ricardo J. Rodrigues, «Visit Somerset – The Jewel Of The South West», lê-se na página da Internet do Turismo de Somerset. Até recentemente, chegavam a ser mais cuidadosos a escrever noutras línguas do que em português. Enfim, não era consolo, mas vai deixando de ser assim: «Os painéis solares dão-lhe energia para carregar o portátil e o rooter, com internet resolve a vida inteira.» A grande, inadmissível, pouca-vergonha disto tudo, já o tenho dito, é não corrigirem mesmo quando há leitores nas caixas de comentários a chamarem a atenção para os erros. Isto é normal?

 

[Texto 10 106]

Helder Guégués às 10:31 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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As confusões do costume

Malsorteada ortografia

 

      «Com Zizou manteve uma relação de cinco anos, feita de avanços e recuos, de encontros furtivos num apartamento alugado na Place de Clichy, de separações tempestuosas e reencontros fatais nos cabarés de Montmartre. [...] Voltarão a encontrar-se fugazmente em 1966, e passam a noite juntos na véspera da despedida do cantor do Olympia e dos palcos, quando Brel trocou a música por uma mal-sucedida experiência no cinema, como actor e realizador» («Estamos quites, pá», António Araújo, Diário de Notícias, 14.10.2018, 6h07).

      Não é António Araújo jurista? Então, não percebo. Escreveu certa vez Cristóvão de Aguiar no blogue A Destreza das Dúvidas, e já o lembrei algures: «Conta-se uma história verdadeira de um professor da Faculdade de Direito que, numa prova oral, teria mandado o aluno embora, porque este teria dito que vivia num quarto alugado. Ao ouvir isto, o professor respondeu-lhe “Com que então vive num quarto alugado; o melhor será agora arren­dar um automóvel e ir já para o seu quarto estudar melhor a matéria...”» É malsucedido que se escreve, pobre, malsorteada ortografia. Nos jornais, a revisão é agora um luxo inalcançável.

 

[Texto 10 105]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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