09
Abr 18

Como se escreve nos jornais

Agora a electrónica

 

      «As baterias de iões de lítio que ainda hoje são usadas, e que John Goodenough ajudou a inventar já nos anos 80 do século passado, usam electrólitos líquidos para transportar os íons de lítio entre o ânodo (o lado negativo da bateria) e o cátodo (o lado positivo da bateria). Se uma célula de bateria é carregada muito rapidamente, pode causar dendritos, causando um curto-circuito que pode levar a explosões e incêndios — porque o líquido do electrólito é inflamável» («Novas baterias de lítio chegam em cinco anos com marca portuguesa», Luísa Pinto, Público, 9.04.2018, p. 14).

      Uma grande trapalhice mal escrita: na mesmíssima frase, «iões» e «íons». O «causar causando» também mostra bem a falta de releitura e revisão. Dendrito, nesta acepção, há um ano ainda não estava no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, fomos nós que, a 11 de Maio de 2017, aqui sugerimos a sua inclusão nos dicionários. Um leitor anónimo e precipitado (uma desgraça nunca vem só), e os leitores deviam ter o triplo do cuidado, ainda respingou: «Depende do dicionário. Dendrito vem no Houaiss, Aurélio, Aulete, Priberam...» E os eléctrodos não estão trocados? Eu pensava que o ânodo ou anódio era o positivo + e o cátodo ou catódio era o negativo -, mas posso estar enganado.

 

[Texto 9022]

Helder Guégués às 12:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Mar 18

Portas de harmónio

Porque pode ser convicção

 

      «Depois de ter mudado de presidente do partido, de ter eleito um novo líder da bancada parlamentar e de ter escolhido novos coordenadores para as comissões, o que faltava ao PSD? Mudar a mobília. [...] Escancararam-se as três portas de harmónia (sempre fechadas) em madeira e vidrinhos, desmontaram-se os velhos móveis e reorganizaram-se os gabinetes» («A mudança. PSD de mobília às costas», Público, 10.03.2018, p. 10).

      Pode não ser nada, mas pode ser convicção. O Garganta Funda atrapalhou-se: como acabou a falar nas desavenças no PSD, essa falta de harmonia comunicou-se ao texto: é portas de harmónio. Como há harmónios e harmónicas, houve ali um conúbio antinatura.

 

[Texto 8895]

Helder Guégués às 18:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Fev 18

Tradução: «background checks»

Não avançamos

 

      «Tendo em conta as propostas avançadas até agora pela Casa Branca e por alguns congressistas do Partido Republicano, conclui-se que a NRA continua sem grandes razões para se preocupar: armar e treinar professores e reforçar os chamados “background checks” são medidas apoiadas pelo lobby das armas; mexer na idade mínima para a compra de armas e na proibição de acessórios são medidas que dificilmente passam no Congresso — e, se passarem, são candidatas a serem contestadas em tribunal ano após ano» («De proposta em proposta até à decisão que não incomode a NRA», Alexandre Martins, Público, 23.02.2018, p. 26).

      Vá, leitor parvo, agora vai ver o que significa background checks, terá pensado o jornalista. E ontem, dia 22 de Fevereiro, era Dia do Pensamento. Mas não cá, claro, nos Estados Unidos. E ninguém vê estas coisas, não há um editor que corrija isto? Como raio vai o leitor saber, assim do pé para a mão, o que significa a expressão? Não; para mim, quem não sabe traduzi-la é o jornalista, quando, na verdade, é bem simples: verificação de antecedentes. Se querem exibir-se, até podem usar expressões estrangeiras, mas têm de as explicar, de as traduzir logo de seguida, sob pena de não se fazerem entender. Ou é este o objectivo?

 

[Texto 8792]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Fev 18

Como se escreve em alguns jornais

E é tão simples

 

      «A chegada de turistas estrangeiros a Portugal no ano passado representou um ganho de 15.153 milhões de euros para as contas do país. De acordo com o Banco de Portugal, que ontem divulgou as contas que já incluem os dados de Dezembro, esse valor representa uma subida de 19,5% face a 2016, o que corresponde a mais 2472 milhões de euros» («Turismo. Novo recorde já tem um valor: 15.153 milhões de euros», Público, 22.02.2018, p. 19).

      Tenham lá paciência, mas isto assim não se percebe. Aprendam: «No ano passado, os gastos dos estrangeiros que visitaram Portugal ultrapassaram, pela primeira vez, a fasquia dos 15,1 mil milhões de euros» («Turistas deixaram em Portugal 41,5 milhões por dia», Ana Margarida Pinheiro, Diário de Notícias, 22.02.2018, p. 17).

 

[Texto 8789]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | favorito
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27
Jan 18

Vestais e vegetais

Boa amostra

 

      «O discurso era inflamado e digno de um qualquer orador na pólis grega, mas por entre os presentes havia menos versados nos pensamentos da antiguidade clássica. Vai daí, durante alguns minutos houve uma confusão generalizada em todos os textos da comunicação social que chamavam “vegetais” ao que na verdade eram “vestais”. Sérgio Sousa Pinto intervinha nas jornadas parlamentares do PS, criticando os projectos do próprio partido sobre transparência dos políticos e alertava para o risco de no futuro haver “uma classe sacerdotal, de vestais, não no sentido biológico, mas da antiguidade clássica”. Os títulos dispararam, as piadas surgiram e só uma hora depois o equívoco foi desfeito» («A palavra: vestais», Público, 27.01.2018, p. 11).

      Desfeito, mas não inteira nem definitivamente: na Internet ainda há resquícios dessa enormidade, equiparável ao «bramindo o estandarte» de Pedro Lomba. É uma boa amostra da preparação de muitos dos nossos jornalistas. Já que aqui estamos, aproveite-se e diga-se ao que relata esta triste história que a designação do período histórico compreendido entre os alvores dos tempos históricos e a queda do Império Romano do Ocidente se grafa com maiúsculas, Antiguidade Clássica.

 

[Texto 8624]

Helder Guégués às 14:34 | comentar | favorito
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23
Jan 18

Ah, o Knesset...

Para encher colunas

 

      «A embaixada dos Estados Unidos em Israel mudará de Telavive para Jerusalém antes do final de 2019, anunciou Mike Pence, vice-presidente dos EUA, num discurso ontem no Knesset (Parlamento israelita). “Jerusalém é a capital de Israel e o presidente Trump ordenou [essa mudança]”, disse» («EUA mudam a embaixada antes do final de 2019», Público, 23.01.2018, p. 26).

      Salvo pior opinião, isto, que já é uma tradição jornalística, não faz sentido nenhum. Só acontece, felizmente, com o nome de três ou quatro parlamentos (Duma, Dieta, Majlis), mas não deixa de ser mau por isso. O termo significa «assembleia» em hebraico. Então, cada vez que se falasse de um parlamento estrangeiro, tinha de se ir ver como se diz na respectiva língua? Islândia? Alþingi. Butão? Tshogdu. Tailândia? Ratthasapha. Não, parece-me que há formas mais criativas de ocupar espaço.

 

[Texto 8613]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Jan 18

Léxico: «iatista»

Deixe-se disso

 

      No artigo do Público em que se fala do desincrustante biológico, a jornalista usou o termo iatista com a protecção sanitária das aspas. Enfim, uma pecha de muitos jornalistas e tradutores, que os editores não vêem. Deixe-se disso, Lurdes Ferreira. Iatista está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, onde também encontramos iatismo, que é — este sim — brasileirismo.

 

[Texto 8578]

Helder Guégués às 15:54 | comentar | favorito
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