27
Mai 20

Como se escreve por aí

Uma APAV para a língua

 

      «Recorde-se que em Inglaterra já estavam a ser usados testes rápidos, mas não através da saliva. O teste desenvolvido pelo Imperial College de Londres baseava-se num teste de ADN e tem o avale para uso clínico da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde britânica» («Covid-19. Testes rápidos à saliva com resultado em menos de uma hora estão em produção», Maria João Costa, Rádio Renascença, 25.05.2020, 10h50).

      No perfil da RR, a jornalista, que já conhecemos daqui, fala de uma «história de amor [que] começou em 1997 quando cheguei à Renascença», mas é óbvio que é mais uma daquelas relações em que há amor, sim, mas também violência. Fazia falta uma APAV para a língua.

 

[Texto 13 437]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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15
Mai 20

Como se escreve por aí

Assim e ainda pior

 

      «Recuperei palavras que não frequentava há décadas: por exemplo, logaritmo, pandemia ou serológicos. De outras entradas no dicionário só descobri agora as origens. No Grego, a de epidemia (no povo); no Latim, a de vírus (veneno). Dei-me subitamente conta do volte face nas reputações semânticas: expressões que há três meses condenariam qualquer sujeito ao pior opróbrio tornaram-se heroicas nesta lide com o desconhecido: quem havia de dizer que ‘distanciamento social’ e ‘isolamento’ seriam trends humanistas e humanitários no século XXI?» («As 13 lições que Paulo Portas tirou da pandemia de covid-19», Paulo Portas, Sábado, 10.05.2020, 21h59).

      Precisava de uma boa revisão — mas quem ousaria, na Sábado, fazer passar pelo crivo da revisão um texto de Paulo Portas? Perdemos todos. Sim, também o próprio autor, que, desta maneira, não chegará a saber como se escrevem as palavras. Aqui, chamo apenas a atenção para o galicismo volte-face, que se escreve como acabei de fazer, mas de que não precisamos para nada, pois temos, bem nossa, reviravolta. Como só agora descobriu que existia o pangolim, Paulo Portas também fica a saber que existe «reviravolta».

 

[Texto 13 356]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | favorito
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11
Mai 20

Ainda as zaragatoas

Nunca na vida

 

      «O circuito covid não é muito diferente dos outros. Cada uma das zaragatoas — uma espécie de cotonete gigante que permite recolher secreções da cavidade nasal da pessoa que se quer testar — é colocada num tubo próprio. As amostras são depois introduzidas num frasco “que tem de ter tampa de rosca e ser de um material rijo e inquebrável”, que é enviado para o serviço de patologia clínica. Cada um destes frascos é descontaminado e aberto numa câmara de segurança e as zaragatoas, colocadas num suporte, seguem o seu caminho em direcção ao laboratório de biologia molecular» («Viagem ao laboratório onde já se fizeram mais de 15 mil testes à covid-19», Ana Maia, Público, 8.05.2020, p. 12).

      Ana Maia não apenas confunde preposições, como nunca na vida viu uma zaragatoa. A propósito — digo, não digo? —, o teste à covid-19 que me fizeram no Hospital de Santa Maria perdeu-se lá no circuito interno. Aliás, ter-se-á perdido tudo, todo o processo, pois, até hoje, não fui contactado. Pois, acontece — só espero que não aconteça muitas vezes. Continuo doente.

 

[Texto 13 313]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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06
Mai 20

O AO90 aplicado no dia-a-dia

Parem quietos

 

      «Covid-19 não pára negócio do sexo» (Hugo Rainho e Magali Pinto, Correio da Manhã, 30.04.2020, p. 14). Andam há muitos anos num debate diuturno sobre se leva ou não leva acento — e a prática acompanha as dúvidas, porque ora põem ora tiram o acento. Um dia vão assentar.

 

[Texto 13 285]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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14
Abr 20

O caso da Lusa

Deus nos livre

 

      «O incêndio que deflagrava há mais de dez dias na zona de exclusão de Chernobil e se aproximava da central nuclear foi extinto, anunciou esta terça-feira o serviço estatal para situações de emergência da Ucrânia. O responsável desta agência estatal, Nikolai Chechetkin, informou o Presidente Volodymyr Zelenskyi do fim do fogo» («Extinto incêndio que deflagrava há dez dias na zona de exclusão de Chernobil», Observador, 14.04.2020, 15h23).

      É da Lusa (mas pouco ou nada luso), e, por isso, o autor é sempre anónimo. Foi um deles, e por certo que não o que conhece melhor a nossa língua. Quando o plumitivo que redigiu a notícia tiver tempo, o que há-de ser já hoje, agora mesmo, procure saber num dicionário o que significa o verbo «deflagrar». Vai ficar (ou não, e será ainda pior) surpreendido.

 

[Texto 13 147]

Helder Guégués às 18:45 | comentar | favorito
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13
Mar 20

Um «malvisto» mal visto

A padeira e o juiz

 

      «Conheci mal o ex-juiz Rui Rangel. Quando cheguei à carreira, no princípio dos anos 90, estava ele a sair muito mal visto e chamuscado do cargo de secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP)» («O “menino bonito”», Manuel Soares, presidente da Direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, Público, 12.03.2020, p. 15).

      Vamos ensinar o Sr. Juiz Manuel Soares a escrever? Vamos a isso: «Pena é que os ingleses sejam tão malvistos por aqui» (Padeira de Aljubarrota, Maria João Lopo de Carvalho. Alfragide: Oficina do Livro, 2013, p. 185).

 

[Texto 12 950]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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06
Mar 20

Como se escreve por aí

Já é o pão de cada dia

 

      «CORONAVÍRUS. O Covid-19 é um vírus com as costas largas, Tão cedo não vai abrir mão do lugar de que ocupa nos notíciários de todo o mundo. Mas à medida que os dias passam as pessoas deixam de ter nome e passam a ser números. É preciso actualizar as estatísticas. Em Portugal já há seis casos confirmados. O sexto infetado é uma mulher, de Lisboa. Há registos de três mil mortos e 93 mil infectados no mundo. De acordo com as previsões da Diretora Geral de Saúde a procissão ainda vai no nosso adro» («É lá que moram as nuvens», Jorge Araújo, editor da E, Expresso Curto, 5.03.2020).

      Isto é que é rigor... Vamos tentar fazer melhor, o que nem chega a ter mérito algum: «CORONAVÍRUS. A covid-19 é uma doença com as costas largas. Tão cedo não vai abrir mão do lugar que ocupa nos noticiários de todo o mundo. Mas, conforme os dias passam, as pessoas deixam de ter nome e passam a ser números. É preciso atualizar as estatísticas. Em Portugal, já há seis casos confirmados. O sexto infetado é uma mulher, de Lisboa. Há registos de três mil mortos e 93 mil infetados no mundo. De acordo com as previsões da diretora-geral da Saúde, a procissão ainda vai no nosso adro.»

 

[Texto 12 906]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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19
Fev 20

Como se escreve por aí

De qualquer maneira

 

      E desta vez foi assim: «A China decidiu mudar a maneira como estava a contabilizar o número de infectados com Coronavírus (aka Covid-19) e assim somou de um momento para o outro mais de 15 mil novos casos aos quase 50 mil já identificados. Começa a entrar-se em território perigoso a nível político, com os EUA a acusarem Pequim de “falta de transparência” e a porem em causa a “honestidade” das autoridades chinesas» («Tão amigos que nós éramos», Cristina Figueiredo, editora de Política da SIC, Expresso Curto, 14.02.2020).

 

[Texto 12 844]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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