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Linguagista

A estatística, a lógica e os jornalistas

Não me palpita

 

      Como muito bem reparou o leitor R. A., o que diz o estudo é que a estimativa actual é o dobro da estimativa anterior, não, como se lê na notícia da Rádio Renascença, que em Portugal as pessoas com epilepsia são o dobro do estimado. A diferença não é de pormenor: uma coisa é actualizar uma estimativa anterior, outra é sugerir, como faz o título, que os casos de epilepsia duplicaram. O número real não mudou; o que mudou foi a aproximação a esse número. Além disso, a própria formulação é ilógica: dizer que «as pessoas são o dobro do estimado» é, em si, apresentar uma nova estimativa, não uma contagem efectiva. Saberá o jornalista ver a diferença? Hum...

[Texto 21 820]

Como se escreve por aí

Todos os males

 

      «A cruz da Ordem de Malta nas grades das janelas confirma que é este o sítio certo e, passando a porta, entramos quase numa caixa de Pandora. Há fotografias com Carlos III de Inglaterra, Margarida II da Dinamarca, Willem-Alexander dos Países Baixos e uma dezena de retratos diferentes com Juan Carlos de Espanha» («José de Bouza Serrano: “Não voto no Presidente da República. Escrevo ‘viva o rei’ no boletim”», Inês Duarte de Freitas, Público, 27.08.2025, p. 31).

      «Entramos quase numa caixa de Pandora», escreve a jornalista, fascinada com retratos reais e lembranças emolduradas. Deve ser porque, ao abrir-se a porta, escapam legiões de calamidades, peste, guerra, fome... e talvez um retrato de Juan Carlos mal pendurado. Que imagem certeira! Afinal, o que é uma casa apinhada de recordações senão o reservatório secreto de todos os males do mundo? É pena não ter chamado também cavalo de Tróia ao sofá da sala ou Minotauro ao candeeiro do vestíbulo: ficaria ainda mais mitológico.

[Texto 21 669]

Erros de sempre e para sempre

Nem por serem dois

 

      Aqui, é um pouco mais fácil do que a maioria requerida para a eleição papal, mas também dá para escorregar: «Os boletins são contados por três escrutinadores e os nomes lidos em voz alta. Os boletins são então cozidos, passando sempre a agulha pela palavra ‘Eligo’» («Eleição do novo Papa», Paulo João Santos e Secundino Cunha, Correio da Manhã, 14.04.2025, p. 24).

[Texto 21 194]