17
Jul 18

Como se escreve nos jornais

Nem inglês nem português

 

      «A EDIA anunciou em 2016 que a área ocupada por papoilas já tinha “ultrapassado a barreira dos 1000 hectares”. E com a presença de “dois player’s no mercado, é previsível que a área continue a aumentar, contudo a um ritmo mais reduzido”, dizia na altura» («Todos desistiram da plantação de papoila branca no Alqueva», Carlos Dias, Público, 16.07.2018, p. 18).

      Como é que um jornalista não se envergonha de escrever assim? Que não releia o que escreveu, na verdade, não me surpreende muito, mas ninguém o faz no jornal? Ninguém vê? Ninguém sabe?

 

[Texto 9636]

Helder Guégués às 07:48 | comentar | favorito | partilhar
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11
Jul 18

Canábis, canábis, canábis...

Poupem-nos

 

      «Marcelo promulga uso de cannabis para fins medicinais», titula hoje o Público. Esta teimosia é simplesmente antipedagógica e ridícula. É como se, em vez de escreverem, como todos os mortais, «alface», preferissem o científico Lactuca. Poupem-nos.

 

[Texto 9595]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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09
Jul 18

O pobre verbo «cair»

Mais um regresso ao básico

 

      «Um comunista pode ir a um privado? Claro que pode. Mas enquanto permanecerem no seu gueto ideológico, os comunistas vão continuar a ser presas fáceis da sua ideologia e das redes sociais – que não devem ser desvalorizadas. Jerónimo de Sousa[,] que tanto gosta de recorrer aos adágios populares[,] não devia ignorar aquele que diz: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço. Os mitos também caiem assim, parecem reais mas vamos percebendo que não passam de meras ilusões» («Um comunista pode ir a um hospital privado?», Bernardo Ferrão, Expresso Diário, 6.07.2018).

      Erro crasso. Bernardo Ferrão, «caiem» existe, não fique triste, mas é uma forma do verbo «caiar». Atenção à pontuação.

 

[Texto 9580]

Helder Guégués às 11:50 | comentar | favorito | partilhar
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02
Jul 18

Como se escreve nos jornais

Eles sabem lá

 

      «Em fevereiro de 2015, o TRL [Tribunal da Relação de Lisboa] confirmou a sentença de absolvição do ex-militar da primeira instância, à qual o Ministério Público deu visto. Conta Brandão Ferreira que, [sic] este acórdão que o absolvia foi anulado, com o argumento de que Alegre não foi notificado. Acontece que este mudou de advogado e para o lugar de Nuno Godinho de Matos foi Afonso Duarte, por acaso seu filho» («Alegre reclama 75 mil a tenente-coronel», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 2.07.2008, p. 20).

     «Por acaso seu filho» — é então assim que se escreve no moderno jornalismo. Isto é o quê, uma ofensa à mãe?

 

[Texto 9535] 

Helder Guégués às 10:27 | comentar | favorito | partilhar
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28
Jun 18

Concerto das Nações

O desconcerto da imprensa

 

      «Quando o cadáver do pequeno Aylan Kurdi ficou prostrado na areia de uma praia turca, em setembro de 2015, a União Europeia acordou para o drama dos refugiados. A rápida e consertada atuação dos estados-membros permitiu uma resposta à altura da dimensão da tragédia» («A última fronteira», Paulo João Santos, Correio da Manhã, 28.06.2018, p. 2).

      Será que nunca leu a expressão Concerto das Nações, a ordem internacional surgida, no início do século XIX, após a derrota de Napoleão? Não é que os Estados-membros não precisem de conserto também, mas este obtém-se, em última instância, por meio da concertação, da harmonização de interesses. Este erro não é muito diferente do coser/cozer, que ontem vimos na biografia do General Loureiro dos Santos, mas a milhas do «pelintro», o mais ridículo e analfabeto que vi nos últimos anos.

 

[Texto 9513]

Helder Guégués às 14:02 | comentar | favorito | partilhar
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27
Jun 18

Não é receita para tudo

Era bom, era

 

      «A atriz de 51 anos revela que o segredo para o seu relacionamento com Keith Urban durar é o facto de nunca mandarem mensagens de texto, pois podem ser mal interpretadas» («Nicole Kidman. Não às mensagens», Correio da Manhã, 27.06.2018, 45).

      Isso mesmo. Que mulher tão inteligente. Infelizmente, esta receita não é aplicável à nossa relação com os meios de comunicação social porque, mesmo quando nada escrevem, falam, e há sempre motivo de queixa. Para não ir mais longe, o Correio da Manhã de hoje: na página 4 é um «coloca em causa», na página 6 «terem havido», na página 8 é «vídeo-árbitro», e por aí fora.

 

[Texto 9507]

Helder Guégués às 13:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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25
Jun 18

Como se escreve por aí

Tudo como dantes

 

      «A Igreja Católica vai oferecer aos residentes e turistas que se desloquem em Julho e Agosto ao leste algarvio a possibilidade de se confessarem e praticarem esse sacramento em várias línguas, anunciou a diocese do Algarve. A iniciativa inédita “Aproveita as Férias e Reconcilia-te com Deus” é organizada pela vigaria de Tavira (conjunto de paróquias associadas geograficamente), decorrendo em seis igrejas da zona do Sotavento, nas quais os fiéis se podem confessar, sempre às 21h» («Confissões católicas em várias línguas no Sotavento», Público, 25.06.2015, p. 12).

      Vem assim da Lusa e vá de colar nas páginas do Público, onde não há uma alminha que leia o que recebem. Temos vigararia e vigariaria, tinham de usar uma terceira forma errada. A explicação do que é uma vigararia também não está correcta.

 

[Texto 9494]

Helder Guégués às 15:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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23
Jun 18

Prémio Que Raio de Título

Sonotone

 

      «Já não estivemos aqui antes?» (Lídia Paralta Gomes, Expresso, n.º 2382, 23.06.2018). Isto só pode ser falta de ouvido.

 

[Texto 9486]

Helder Guégués às 11:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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19
Jun 18

Siniša Mihajlović, daqui não levas nada

Isso seria pedir muito

 

      «Chama-se Sinisa Mihajlovic, um sérvio com passado brilhante como jogador e muito itinerante como treinador» («Sporting escolhe o sérvio nacionalista do pé-canhão para suceder a Jesus», Marco Vaza, Público, 19.06.2018, p. 45).

      Curiosamente, na fotografia que ilustra o artigo, vê-se o novo treinador do Sporting a mostrar a camisola do clube e o seu apelido aparece grafado com o cáracter especial do alfabeto latino sérvio, Mihajlović. Porque é Siniša Mihajlović. A nossa imprensa é que não é dada a tais apuros. Sim, é verdade: esse apuro tinha de começar com a língua portuguesa. 

 

[Texto 9453] 

Helder Guégués às 13:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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