19
Set 18

Como se escreve nos jornais

Como se vê

 

      «Tesla está a ser investigada pela Justiça dos EUA por suspeitas de fraude. Em causa está tweet de Elon Musk sobre tirar a empresa da bolsa. Notícia da investigação fez despencar as ações» («Justiça investiga Tesla após tweet de Elon Musk», Marta Leite Ferreira, Observador, 18.09.2018, 20h35).

      Como se precisássemos de um brasileirismo quando há, pelo menos, uma dúzia de maneiras de dizer o mesmo com termos nossos. Enfim, mostram a cada passo o mal que conhecem a nossa língua.

 

[Texto 9943]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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14
Set 18

Como se escreve nos jornais

Quando passamos a reler?

 

      «Depois de o português ter durante décadas perdido terreno em Goa, onde o inglês foi-se afirmando a par do konkani como língua do estado, hoje há, porém, um número crescente de indianos a aprender português e não só na antiga colónia, fico a saber durante a conversa» («“Indianos acham que português é língua que cria boas oportunidades de carreira”», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 31.08.2018, 7h48).

      Se fossem descuidos do convidado/entrevistado do jornalista, ainda se admitia, pois é indiano, Shiv Kumar Singh, autor de um dicionário de hindi-português-hindi. Se é convicção, estamos muito mal. Mais um exemplo: «A diversidade é a regra na Índia, que nos últimos anos tornou-se um caso de sucesso económico, com taxas de crescimento semelhantes às da China ou superiores.» E não vimos há dias que a grafia correcta é guzerate? «Discordo de Singh quando diz que não parece português, basta pensar em tantos milhares de portugueses que há de origem indiana, desde o próprio primeiro-ministro até figuras da cultura ou dos negócios, muitos deles goeses, outros de origem gujarate.» A par destes erros, o texto tem muitos outros descuidos, o que é lamentável e inadmissível.

 

[Texto 9914]

Helder Guégués às 09:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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13
Set 18

Como se escreve nos jornais

Está a reinar

 

      «A letra do “Advance Australia Fair”, o hino australiano, data de 1878, embora só tenha sido adotado como hino oficial em 1984, substituindo o “God Save the Queen”[,] o hino do Reino Unido. Colónia britânica até 1901, a Austrália continua a pertencer ao reino da Commonwealth» («Austrália. Criança de nove anos recusa cantar o hino por desrespeitar os indígenas», Diário de Notícias, 13.09.2018, 11h59).

      Calma, calma, não despeçam já o jornalista. Era quase meio-dia, estava com pressa para ir almoçar, e agora ainda não voltou do almoço.

 

[Texto 9912]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | favorito | partilhar
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09
Set 18

«Olhe-se e veja-se»

Pode estar aí o mal

 

      «Olhem-se para todas as estatísticas e veja-se com satisfação que Portugal como sociedade dá hoje mais oportunidade do que nunca. Olhe-se para à União Europeia e veja-se como temos uma sorte tremenda de fazer parte de um espaço tão grande de prosperidade, onde se pode estudar ou trabalhar com todas as garantias» («O meu filho de 2000 entrou ontem na universidade. Festejei, mas...», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 9.09.2018, 9h09).

      Uma espécie de hipercorrecção? Tinha, pelo menos, duas formas de acertar: «Olhem para todas as estatísticas e vejam com satisfação que Portugal como sociedade dá hoje mais oportunidade[s] do que nunca.»/ «Olhe-se para todas as estatísticas e veja-se com satisfação que Portugal como sociedade dá hoje mais oportunidade[s] do que nunca.» E a «assinatura» no fim do artigo? «Enviado do meu iPhone». Pois é, pode estar aí não apenas o meio, mas o mal.

 

[Texto 9886]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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«Uma das razões por que...»

Isto não pode continuar

 

      «Se tivesse falhado por uma ou duas décimas, hoje provavelmente era um advogado formado em Coimbra, a celebrar a entrada do filho no Ensino Superior. Bem, na realidade nem sequer haveria Daniel, pois a mãe é uma antiga colega iscspiana. Quem disse que a universidade não molda o nosso futuro? Na Junqueira descobri mestres, lá fiz amizades para a vida» («O meu filho de 2000 entrou ontem na universidade. Festejei, mas...», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 9.09.2018, 9h09).

      É bom termos mestres a vida toda, e não apenas na universidade. Leonídio Paulo Ferreira, é os Braganças e não os Bragança, como escreveu recentemente. Não lhe perdoo essa, como não perdoo estoutra de hoje: «Uma das razões porque não fui para História foi o ouvir a toda a hora que era um curso que não tinha saídas, o que é falso.» Não! «Uma das razões por que...»

 

[Texto 9885]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | favorito | partilhar
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13
Ago 18

Revisão e uma receita de puré de batata

E nota-se muito, diga-se

 

      «Cozinheiro francês, foi premiado com 31 estrelas Michelin, e era o chefe com mais galardões destes no mundo. Em 1990 foi considerado o cozinheiro do século pelo guia “Gault Millaut”. Era um perfeccionista, que impunha uma disciplina militar nas cozinhas que liderava e a sua receita mais famosa talvez seja a de puré de batata, feita com uma quantidade inacreditável de batata: 250 gramas para um quilo de batatas, fora o leite gordo» («In Memoriam. Joel Robuchon», José Cutileiro, Expresso, 12.08.2018).

      Como alentejano que é, quase de certeza José Cutileiro sabe cozinhar, mas, aqui, não com ingredientes, mas com palavras, foi completamente desastrado, e o revisor não ajudou nada, não por inépcia, mas por outra razão — não há revisor, não há revisão. (E o trema, pá?) Não: o chefe Joël Robuchon por cada quilograma de batata juntava 250 g de manteiga ­— fora o leite gordo, como lembra José Cutileiro. Muito bem, por outro lado, o uso dos termos «cozinheiro» e «chefe». Contudo, porque o leitor não merece só coisas boas, lá nos atirou com o «liderava». Três estrelas em cinco. Ah, sim, eu sei que puré é galicismo, mas tão arraigado, que já ninguém sabe como se dizia em português lídimo. Como era? Mudámos o género, de la purée passou a o puré.

 

[Texto 9770]

Helder Guégués às 07:47 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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11
Ago 18

Mais um prosónimo

Cidade Branca

 

      «Telavive impressiona sobretudo pela surpresa que emana. É uma espécie de Paris, Amesterdão e Londres em versão tropical. Sabemos que o seu centro histórico é Património da Humanidade mas nada nos prepara para a sucessão de obras emblemáticas da arquitetura Bauhaus assinadas por Zeev Rechter, Erich Mendelsohn, Dov Carmi, entre muitos outros. São mais de quatro mil edifícios dispostos de forma clara e luminosa no centro da cidade. A maior concentração de exemplos Bauhaus em todo o mundo formando uma exclusiva Cidade Branca, topónimo pelo qual a cidade é (re)conhecida» («Amar no país mais odiado do mundo», Ana Cancela, TSF, 10.08.2018, 18h42).

      Sabe grafá-la, o que não se vê todos os dias, mas não sabe explicá-la. Cidade Branca é um prosónimo, um cognome. Logo, a jornalista tinha de dizer que Cidade Branca é o outro nome por que Telavive é conhecida.

 

[Texto 9759]

Helder Guégués às 08:32 | comentar | favorito | partilhar
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31
Jul 18

Os gentílicos desconchavados

Irresponsáveis

 

      «Assisti aos atenienses a refugiarem-se no mar como fizeram um dia para escapar aos Persas, mas desta vez o inimigo não tem rosto nem estandarte. Contra quem lutamos nós, os gregos? Contra o clima? Contra nós mesmos? Ou simplesmente contra a vontade caprichosa dos deuses?» («Nós, os gregos», Nuno Camarneiro, Diário de Notícias, 25.07.2018, 7h00).

      É a tal prática desconchavada de grafar os gentílicos antigos com maiúscula e os gentílicos modernos com minúscula. Apanham-se sem um revisor a vigiar, e toca a disparatar.

 

[Texto 9708]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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