13
Mar 19

As aspas nos jornais

Verdes com aspas e verdes sem aspas

 

      «Só que para fazer vingar estes hambúrgueres “verdes” — uns sem produtos de origem animal e outros ovolactovegetarianos —, há o desafio de os tornar saborosos: “Estes hambúrgueres têm de saber pelo menos tão bem como os de carne bovina, e [dizer] isso não nos compete a nós, mas aos nossos consumidores”, argumenta Török. Ainda assim, os resultados têm sido positivos, as vendas têm subido “a pique” e o negócio verde “está a florescer”» («“Se uma cadeia de hambúrgueres consegue combater as alterações climáticas, o mundo também consegue”», Claudia Carvalho Silva, Público, 13.03.2019, pp. 32-33).

      Os hambúrgueres são verdes com aspas, o negócio é verde sem aspas. Há aqui mais qualquer coisa verde, veja o leitor se adivinha.

 

 

[Texto 10 955]

Helder Guégués às 10:47 | comentar | favorito
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12
Mar 19

Tradução: «yogini»

À Women’s Health

 

      «Não demorou muito até que a yogini se qualificasse enquanto professora de yoga. Foi no Dubai que começou a lecionar e é lá também onde dá a maior parte das suas aulas até hoje. Mas, pela partilha deste seu estilo de vida, passou a receber cada vez mais e-mails que a questionavam sobre posições e dicas de treino. Dos pedidos resultou o e-book que sustenta o site da yogini» («Inspire-se nesta yogini. Da evolução pessoal às posições mais sensuais», Women’s Health, 7.03.2019).

      Lá porque a publicação se chama Women’s Health não quer dizer que tenham de escrever como se estivessem na City londrina. Há revisores nestas publicações? É melhor que digam que não. No estatuto editorial, por exemplo, falam no «objetivo» da publicação, nos elementos da «direção», mas depois é assinado pela «direcção». Em português, quer gostem quer não gostem, diz-se iogue: o iogue, a iogue. Se quiserem parecer mais exóticos, outra escolha possível é ioguim: o ioguim, a ioguim. Respeitem o leitor, respeitem a língua.

 

[Texto 10 951]

Helder Guégués às 19:03 | comentar | favorito
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«Espoletar/despoletar»

Um caso sintomático

 

      Muito curioso «O Público errou» desta segunda-feira: «Ontem, na crónica de Vicente Jorge Silva, a palavra “despoletar” (no seu sentido correcto, de tirar a espoleta) foi erradamente substituída por “desencadear”. Pelo lapso, pedimos desculpa ao autor e aos leitores» (p. 4).

      O que temos aqui? Talvez um sinal de vida — dos escassíssimos que temos tido nos últimos anos — dos revisores do Público. Também não é de descartar que o fautor de semelhante troca criminosa levasse uma rabecada das grandes. Esmiucemos o caso. Primeiro, sublinhe-se, pouca gente se entende com o espoletar/despoletar, que, pessoalmente, me parece uma grande treta. Compreende-se, contudo, que haja pessoas mais agarradas a estes termos do que outras, pelo seu passado ou por qualquer outra razão. Quando não estão a ser usados no seu sentido próprio, sugiro sempre que se substituam por termos inequívocos, e entre eles está o verbo «desencadear». Sendo assim, temos de citar o trecho da crónica em que houve esta substituição lexical. «Não basta confiar, por isso, num Presidente capaz de desencadear essas ameaças encarnando um populismo “bom” ou num primeiro-ministro que conquista a guerra das audiências cozinhando uma cataplana no programa da Cristina» («Da violência doméstica à vertigem bancária», Público, 10.03.2019, p. 32).

      A meu ver, salvo num pormenor — decisivo no episódio —, que é a autorização/conhecimento do autor do texto, a substituição é legítima. Mais: o texto de Vicente Jorge Silva carecia de uma poda muito maior, pois tem erros. Ainda tem erros, e não apenas gramaticais. A preocupação, mesmo indignação, que se adivinha nas entrelinhas devia ir mais para estes erros do que para a não autorizada, ainda que justificável, substituição. Pensem nisto.

 

[Texto 10 948]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | favorito
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24
Jan 19

Como se escreve nos jornais

Não dá gosto

 

      «Muito melhor, mais próxima de nós. Ajuda-nos a perceber o que ainda não sabemos, nem vamos saber na vida real, sobre antigos aliados que espetam facas nas costas (conselhos nacionais antecipados), sobre pequenas ofertas ilegais para os cofres exangues dos partidos (de facto, grandes rapinas para alguns tenores dos partidos), enfim, ajuda-nos a conhecer os fios com que se cozem alianças improváveis...» («Barão Negro: ser eleitor obriga a estudos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 23.01.2019, 22h12).

      Então agora já nem a crónica do chefe revêem? Ficamos a saber as linhas com que se cose a revisão nos jornais hoje em dia.

 

[Texto 10 646]

Helder Guégués às 09:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Dez 18

O jornalismo que temos

Devem estar a brincar

 

      Agora uma notícia da Madeira: «A estrada que liga a via rápida junto ao túnel de acesso ao Faial até ao centro do Porto da Cruz volta a preocupar os moradores das proximidades e transeuntes. Mesmo em frente à casa onde nasceu um dos homens fortes do 25 de Abril e antigo Presidente da República, general Marechal Spínola» («Estrada Marechal Spínola ameaça desmoronar», Jornal da Madeira, 6.12.2018, p. 5).

      Perante tantas trapalhadas, não me admira que queiram salvar o jornalismo. Eu ajudo de várias formas, mas convinha que o jornalismo se ajudasse a si próprio. Era bom que só tivesse de lembrar que é homem-forte que se escreve. Oh, infelizes! António Sebastião Ribeiro de Spínola não nasceu na Madeira, mas sim na Rua Serpa Pinto, n.º 100, Freguesia de St.º André, em Estremoz, Alentejo (aqui, e lá está a lápide). Muito perto, por sinal, do Regimento de Cavalaria 3 (RC3), onde em 1961 realizou o aprontamento para Angola do Grupo de Cavalaria 345, cujos êxitos contribuíram para que sete anos mais tarde fosse escolhido para governador e comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné.

 

            [Texto 10 410]

Helder Guégués às 10:35 | comentar | favorito
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11
Nov 18

A mentira e o AOLP90

A brincar, a brincar

 

      «Eu fico sempre convencido com as pessoas perentórias. Pelo menos ficava, quando a palavra se escrevia “peremptória” e era mais perentória por isso. Hoje, as ganas, mesmo de uma mulher do Alto Minho, deixam-me mais cético (não tão cético como antigamente, quando se escrevia “céptico”, mas ainda assim cético). Vai daí, recorri ao meu método para me curar de um espanto: de que estamos a falar quando estamos a falar? Isto é, de que password falava a deputada Emília Cerqueira?» («O caso da password promíscua», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 11.11.2018, 6h19).

      Isso é que era, o Diário de Notícias aparecer na edição de 1 de Janeiro de 2019 totalmente limpo do pesadelo do Acordo Ortográfico de 1990. Mas isso é mais notícia para o 1 de Abril...

 

[Texto 10 271]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
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25
Out 18

«Raphael e Michelangelo»...

Antes escrito na areia

 

      Edição de ontem do Público, «Escrito na pedra»: «Itália não é um país intelectual. Não avaliem a Itália pelo simples facto de ter produzido Raphael e Michelangelo» (Umberto Eco, filósofo e escritor, 1932-2016).» Umberto Eco disse mesmo isto? Sabe-se lá, há tantas aldrabices nisto das citações. O que sei é que nunca eu, português, escreveria «Raphael e Michelangelo», nem concebo que alguém minimamente atilado o faça. Não é nada, os plumitivos do Mosaico, jornal d’instrucção e recreio, em meados do século XIX, escreviam melhor.

 

[Texto 10 186]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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20
Out 18

Sobre o PAN

Nem aos pares

 

      «O partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) apresentou uma queixa à Comissão Europeia contra as dragagens do Sado» («PAN queixa-se à UE contra dragagens», Sebastião Almeida, Público, 20.10.2018, p. 19). «Texto editado por Ana Fernandes», lê-se ao fundo do artigo. Pois nem os dois juntos acertaram no nome do partido, que já vi escrito de várias formas, é verdade. Eles com certeza sabem, e o que eles dizem é que são o partido Pessoas-Animais-Natureza, PAN. Com hífenes, e não com meias-riscas como se vê na Wikipédia.

 

[Texto 10 161]

Helder Guégués às 18:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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