15
Dez 18

Léxico: «gueês»

Menos uma

 

      A festa do Timket ou Baptismo do Senhor é celebrada na Etiópia a 19 de Janeiro. Falta pouco. As cerimónias começam na véspera e giram também em torno da Arca da Aliança e das Tábuas da Lei, que acabam por ser o verdadeiro centro da festa. Na verdade, a festa começa na véspera. Os crentes dirigem-se para as igrejas, habitualmente pequenas, e, espontaneamente, formam-se coros entre a multidão. São cantos litúrgicos, alguns em gueês, a antiga língua preservada na liturgia, e outros mais modernos em amárico, a língua franca da Etiópia. Ora bem, se amárico ainda está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, gueês (grafia usada na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, por exemplo) não está. Se a única grafia fosse ge’ez, eu ainda compreendia a sua rejeição, mas assim, não.

 

            [Texto 10 462]

Helder Guégués às 16:43 | comentar | favorito | partilhar
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14
Dez 18

Léxico: «locado»

Diz o legislador

 

      «O grupo de trabalho parlamentar da Habitação aprovou esta sexta-feira o projeto de lei do Bloco de Esquerda para punir o assédio no arrendamento, com a introdução de propostas de alteração do PS, nomeadamente uma coima aos senhorios de 20 euros por dia. [...] O diploma determina que “é proibido o assédio no arrendamento ou no subarrendamento”, entendendo-se como tal “qualquer comportamento ilegítimo do senhorio, de quem o represente ou de terceiro interessado na aquisição ou na comercialização do locado, que, com o objetivo de provocar a desocupação do locado, perturbe, constranja ou afete a dignidade do arrendatário, subarrendatário ou das pessoas que com estes residam legitimamente no locado, os sujeite a um ambiente intimidativo, hostil, degradante, de perigo, humilhante, desestabilizador ou ofensivo, ou impeça ou prejudique gravemente o acesso e a fruição do locado”» («Senhorios vão ser multados se pressionarem inquilinos a sair», Rádio Renascença, 14.12.2018, 14h43).

      Quatro locados de uma assentada — e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora sem um locado sequer. Não é invenção dos deputados bloquistas, a palavra anda aí em diplomas legais e em livros de Direito. É só ter os olhos abertos.

 

            [Texto 10 458]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «ouriço»

Não são os mesmos

 

      «São operacionais à civil, confundem-se na multidão, mas estão atentos a qualquer suspeita. Andam em carros descaracterizados, têm formação em luta corpo a corpo, em técnicas de dissimulação e cobertura e em profiling (uma técnica de análise de perfil, com base nas características observadas e no comportamento dos suspeitos). [...] Tal como já aconteceu em eventos como o festival da Eurovisão e a Web Summit, a Polícia de Segurança Pública irá ainda colocar, em em algumas praças, os chamados “ouriços” (bolas de metal com picos de aço), de modo a evitar tentativas de atentados por atropelamento» («Confundem-se na multidão, mas eles andam aí. Polícia reforça prevenção de atentados», Sara de Melo Rocha, TSF, 14.12.2018, 9h20).

      Um pouco diferentes, é claro, dos ouriços do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, além de que são de uso policial e não militar: «MILITAR obstáculo contra carros de combate, constituído por três barrotes ou vigas de ferro entrecruzadas».

 

            [Texto 10 456]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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13
Dez 18

Léxico: «praxista/praxante»

Não é o que segue as praxes

 

   «Chefe do Estado-Maior General quer “rigorosas sanções disciplinares” para praxistas», lê-se ainda no Diário de Notícias. Curiosamente, e isto não acontece pela primeira vez, quando clicamos, abre-se o artigo, assinado por Manuel Carlos Freire, e o título difere um pouco: «Chefe do Estado-Maior General quer “rigorosas sanções disciplinares” para autores de praxes». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não apenas não acolhe especificamente esta acepção de praxista, como se esqueceu de praxante.

 

            [Texto 10 455]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «infra/rata»

Pois é pena

 

      «Apesar de proibida, o comando na altura tolerava-a e sempre fez vista grossa a este rito iniciático violento, humilhante e prepotente que não passa de uma forma de bullying efetuado pelos mais antigos sobre os mais novos, os alunos do primeiro ano [da Academia Militar] — designados por infras — que, por definição, são um monte de merda que por aberração da natureza se transformou em Homo erectus, que fica 40 pontos abaixo de cão e 20 acima de polícia, que a partir do momento que entra na porta de armas perde a sua identidade e é-lhe atribuído uma alcunha, designada por nome informático, e um grito de guerra pelo qual passará obrigatoriamente a responder» («“Tínhamos de mergulhar na fossa onde eram colocados os dejetos dos cavalos”», Nuno Pereira da Silva, coronel de infantaria na reserva, Diário de Notícias, 13.12.2018, 17h01).

      São os infras na Academia Militar, os ratas no Colégio Militar. Nos Pupilos do Exército não sei se os caloiros têm nome na gíria; sei apenas que qualquer aluno é pilão. Enfim, tudo isto está fora dos dicionários, e é pena.

 

            [Texto 10 454]

Helder Guégués às 21:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «acupuncturista»

Manias

 

      «“Qual é o sítio mais estranho onde se espetam agulhas?” Liliana Grande, terapeuta de acunpuntura [sic] e reiki, responde a esta e outras perguntas de António Raminhos no próximo episódio d’Os Mal-amados» («Raminhos faz as perguntas todas à acupunturista Liliana Grande», V Digital, 13.12.2018, 18h00).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só deixa que se vá a um acupunctor ou uma acupunctora. Manias. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✓.

 

            [Texto 10 452]

Helder Guégués às 19:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Léxico: «geminídea»

Mas anda por aí

 

      «Durante esta semana, vai poder assistir a uma chuva de estrelas — ou melhor, de meteoros das Gemínidas. Em Portugal, o fenómeno vai ser visível de 14 a 17 de Dezembro, apesar de já ter começado no dia 4 deste mês, mas com menos intensidade. [...] Em Dezembro, todos os anos, a Terra cruza a órbita do asteróide Faetonte e são os seus detritos que dão origem ao enxame das Gemínidas, que vai buscar o seu nome às estrelas cadentes que parecem sair da constelação dos Gémeos. Para localizar esta constelação, e a chuva de estrelas, basta procurar as suas estrelas mais brilhantes, Castor e Pólux» («Dezembro é mês de chuva de estrelas», Sofia Neves, Público, 11.12.2018, 18h38).

      O que eu sei é que o VOLP da Academia Brasileira de Letras regista o substantivo geminídea.

 

            [Texto 10 451]

Helder Guégués às 19:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «picar o ponto»

Não vão saber

 

      «‘Picar o ponto’ com impressões digitais. Cidadãos querem controlar presenças dos deputados» (Joana Carvalho Reis, TSF, 13.12.2018, 9h35). É curioso, porque «ponto» é, etimologicamente, «picada». Este texto, porém, não é sobre etimologia. Bem pode o falante, novo ou adventício, correr de picar para ponto e desta para aquele, não vai encontrar a expressão no dicionário da Porto Editora.

 

            [Texto 10 450]

Helder Guégués às 19:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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