24
Ago 19

Léxico: «pinguim-azul»

Ainda não temos este

 

      «Dois pinguins-azuis foram recentemente capturados pela polícia, depois de terem “invadido” um restaurante de sushi em Wellington, capital da Nova Zelândia» («Pinguins fazem ninho em restaurante de sushi», Filomena Abreu, Notícias Magazine, 28.07.2019, p. 8).

      O pinguim-azul ou pinguim-fada (Eudyptula minor) é a mais pequena de todas as espécies de pinguim em todo o mundo. Ainda assim, não cabe nos nossos dicionários.

 

[Texto 11 884]

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23
Ago 19

Léxico: «museografar»

Pois anda por aí

 

      «A reconstituição da Bouça foi a primeira museografia do SAAL [Serviço Ambulatório de Apoio Local], ao vivo. Em Serralves, conclui-se que museografar um momento revolucionário implica uma simplificação, e uma contenção, talvez necessárias para que o conhecimento possa avançar» («O SAAL chegou ao museu», Jorge Figueira, Público, 17.12.2014, 2h09).

      Pois, não se vê muito — mas o adjectivo/particípio, museografado, vai-se vendo aqui e ali, e também não está nos nossos dicionários.

 

[Texto 11 883]

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22
Ago 19

Léxico: «manjoeiro | charniqueiro»

Vejam lá isso bem

 

      «Manjoeiros. Também conhecidos como charniqueiros, são o doce típico [de Loures]» («O primeiro concelho a abraçar a República», Catarina Mendes, Jornal de Notícias, 2.08.2019, p. 46).

      Aqui tão perto. Nos nossos dicionários, nada de nada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista como adjectivo relativo à charneca charnequeiro, mas o certo é que relativo à Charneca, povoação do concelho de Almada, há vocabulários que registam charniqueiro. Portanto, vejam lá isso. Manjoeiro, recorde-se, é também topónimo.

 

[Texto 11 882]

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21
Ago 19

Léxico: «vlogue»

Talvez nunca

 

      «Boram fez fortuna através dos dois canais que tem no YouTube: um em que apresenta críticas a brinquedos e outro em que publica ‘vlogs’, vídeos que documentam o seu dia a dia com uma mestria que já a tornou rica» («Boram. Youtuber com seis anos compra casa de sete milhões», Jornal de Notícias, 2.08.2019, p. 37).

      Como é muito menos usado, talvez os escribas indígenas nunca cheguem a ponderar que não há razão para não o aportuguesar, como aconteceu com «blogue». Alguns, de resto, julgando prestar um melhor serviço à língua, quando não à sua própria preguiça física e mental, escrevem «blog». Atroz. Embora haja escreventes de todas as classes, províncias, idades, seitas, sexos e todos os estágios de demência a escrever «blog», inclino-me a crer, na minha visão psicologista, que são os neofóbicos que mais o fazem.

 

[Texto 11 881]

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18
Ago 19

Léxico: «adquirido»

Este ainda não foi adquirido

 

      «A leitura é um adquirido civilizacional tão frágil como todos os outros. Não vive sozinha, vem em pacote com o modo como as sociedades evoluem, com a economia, a política e a religião, incrusta-se na educação para o bem e para o mal, e acompanha as grandes tendências dessa coisa intangível que é a “mentalidade”, a “visão do mundo”, aquilo que os alemães, que têm as melhores palavras para a filosofia, chamam Weltanschauung» («Ler a Guerra e Paz num ecrã de telemóvel», José Pacheco Pereira, Público, 27.07.2019, p. 8).

      Para começar pelo princípio: em alguns dicionários, adquirido nem sequer está registado. Pela consulta do dicionário da Porto Editora, o leitor também não vai longe, pois a acepção que acolhe é jurídica (no plural, adquiridos, «DIREITO bens obtidos pelos cônjuges a título oneroso depois do casamento»).

 

[Texto 11 878]

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16
Ago 19

Léxico: «quimera»

Os tais esquecimentos

 

    «A equipa do investigador Juan Carlos Izpsisúa [sic] modificou geneticamente embriões de macaco, de forma desativar a formação dos órgãos, e depois injetou-lhes células estaminais humanas, que dão origem às células de todos os outros tecidos, para estudar o processo de formação dos órgãos. A ideia foi dar um passo mais no estudo da formação dos órgãos, com vista à possibilidade de, no futuro, gerar novos órgãos para transplante, segundo noticia o El País. A gestação da quimera, assim chamada numa alusão aos seres monstruosos que eram uma mistura de partes de animais na mitologia grega, não avançou, pelo que não houve nascimento do ser híbrido» («China. Cientistas espanhóis criaram embrião de homem e macaco», Diário de Notícias, 31.07.2019, 21h22).

      No dicionário da Porto Editora, só temos quimerismo: «BIOLOGIA existência, num mesmo organismo, de tecidos ou grupos celulares com origem genética distinta». Estranhamente, quimera só aparece registado num domínio diferente: «BOTÂNICA organismo vegetal, misto, constituído por tecidos diferentes». Isto, evidentemente, não devia acontecer.

 

[Texto 11 876]

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14
Ago 19

Léxico: «cervense»

Não os esqueçam

 

      Grande susto, ontem, com o blogue todo desconfigurado. Um pesadelo negro para mim, um sonho róseo para os meus inimigos. Prossigamos. Devagarinho, um texto por dia, como por receita médica. Como vem sendo habitual, ainda maioritariamente sobre vocábulos ou acepções que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem e devia ter, ou sobre definições que precisam de ser corrigidas ou melhoradas.

      Gostava de ir à XXI Feira do Linho em Ribeira de Pena, no Alto Tâmega, provar o vinho verde, o mel, comer um bom naco de vitela maronesa e de cabra bravia... Mentira, sou quase vegetariano. Bem, mas que se pode fazer lá além de visitar a feira? A Evasões diz que podemos comprar peças tradicionais de linho na Cooperativa dos Artesãos Cervences. É também assim que está escrito no Facebook. Cerva é uma antiga vila e freguesia do concelho de Ribeira de Pena. O adjectivo relativo a Cerva só pode ser, salvo pior opinião, cervense — pois o sufixo nominal é -ense e não -ence. Por exemplo, de Corvo, muito parecido, corvense. Vêem o resultado de os lexicógrafos esquecerem estas gentes, estas terras?

 

[Texto 11 874]

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11
Ago 19

Léxico: «glaceado»

Desatentos

 

    «Depois, se desejar algo mais saciante e rico, há algumas maravilhas mais para o fim do capítulo, quando nos aproximamos da tarte de chocolate e manteiga de amendoim, do bolo glaceado de laranja e polenta, e até do bolo de caramelo» (As Delícias de Ella para os Amigos, Ella Woodward. Tradução de Patrícia Cascão. Alfragide: Lua de Papel, 2017, p. 11).

      Ora cá temos mais uma palavra clandestina na língua portuguesa — usa-se, mas os nossos dicionários, ingratos e desatentos, ignoram-na olimpicamente. E, contudo, acolhem glacé.

 

[Texto 11 871]

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