17
Jun 20

«Pacta sunt servanda»

Ainda o latim

 

      Para não haver divergências na interpretação, o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, disse-o em latim: «Pacta sunt servanda». É um antigo adágio jurídico que significa «os pactos são para cumprir». Ouvi a notícia ontem num qualquer canal, e o pivô não disse, se é que sabia, o que significa. Talvez provenha de uma obra ulpiniana, mas eu já nem quero que este adjectivo vá para os dicionários, isso já seria sonhar, mas, agora que tem o Dicionário de Locuções Latinas e Expressões Estrangeiras, a Porto Editora deve recolhê-lo. Que sirva, pelo menos, para os jornalistas saberem.

 

[Texto 13 564]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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26
Mai 20

O latim mal usado

Limite-se ao português

 

      «Na última semana a Suécia foi o país com mais mortes per capita da Europa» (Maria João Guimarães, Público, 21.05.2020, p. 10). Há muito que não me ria com tanto gosto. Primeiro, quando li o título, quis ignorar, mas depois um leitor confessou-me a sua estranheza pelo uso da locução latina neste contexto e cá estou. (E outro leitor chamou-me a atenção para a incongruência, que depois comprovei, do corpo do artigo.) Maria João Guimarães, aqui, as contas não são feitas por cabeça — mas por milhão de cabeças! Se não sabe usar expressões estrangeiras, não o faça, limite-se a escrever em português.

 

[Texto 13 423]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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17
Fev 20

Meu rico latim

Antes permanecesse ignorada

 

      Uma turma, acompanhada do biólogo Miguel Porto, de uma escola foi fazer uma visita ao campo para observar diversas espécies, ali para os lados do Poceirão, Setúbal. Vai daí — tropeçaram com espécimes da Elatine brochonii, planta que não se sabia que existia em Portugal. O que pretendo dizer? Elatine não tinha de estar nos dicionários? Bem, mas não é por isso que escrevo este texto. No programa Código Postal, na rádio Observador, falaram desta descoberta. O jornalista Miguel Viterbo Dias pronunciou várias vezes — desafiado pelos colegas de programa — o nome científico da planta. Até parecia que os outros o consideravam autoridade na matéria. Pois bem, nem uma vez o pronunciou bem. Esta pequenina planta foi descoberta em 1883 numa lagoa de Saucats, em França, pelo advogado — e botânico nos tempos livres, ou ao contrário, não sei ­— Brochon (1833-1896). O nome foi-lhe dado, em homenagem ao seu descobridor, por Clavaud (1828-1890). Vamos ao que interessa: nunca a palavra brochonii, latim científico, se podia pronunciar como aquele jornalista o fez repetidamente, /brocsoni/. Não, não: aquele dígrafo era em latim equivalente ao χ (qui) grego; logo, o h seria aqui consoante ociosa.

 

[Texto 12 824]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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17
Dez 19

E o plural de «curriculum» é...

Também não vejo desculpa

 

      «“Tinha a expectativa de que — quando aceitei o seu convite que muito me honrou — ao escolher uma direção de enorme valia profissional, diversa nos curriculuns, nas experiências e no género, formada por jornalistas com provas dadas da sua competência e rigor, de poder contribuir para prestigiar o serviço público de televisão e todos os que nele trabalham”, acrescentou Flor Pedroso, que termina agradecendo ao presidente da RTP, Gonçalo Reis, “pela forma sempre leal e frontal” com que foram “ultrapassando os problemas que iam surgindo”» («“Insinuações, mentiras e calúnias.” A carta de demissão de Maria Flor Pedroso», TSF, 16.12.2019, 14h31).

      Há-de ser para rimar com «puns». Não, Maria Flor Pedroso, o plural de curriculum não é «curriculuns». Não se devia dar à maçada de inventar o que já foi inventado: ou opta pelo plural latino, curricula, ou pelo plural português, currículos.

 

[Texto 12 489]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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19
Fev 19

Gramática e erros de latim

Faz mesmo falta

 

      «Este é um livro para todos? O autor acredita que sim. Os alunos e os professores serão os leitores mais assíduos, seja no secundário ou no ensino universitário, mas Frederico Lourenço está em crer que até os curiosos podem tirar partido desta obra. Uma gramática moderna e atualizada que vai ao essencial do que é preciso saber para abordar a leitura de textos latinos em prosa e em verso» («Habemus Gramaticae», Teresa Dias Mendes, TSF, 19.02.2019, 8h49).

      Eu vou comprá-la, certamente, mas a questão é: não fará mais falta a Teresa Dias Mendes? Quantas gramáticas são? É uma: «São 500 páginas, que se dividem em 3 partes: morfologia, sintaxe e uma lista do vocabulário essencial da língua latina, que ajuda os simplesmente curiosos. Há ainda uma “Antologia de textos” comentados, desde o século II a.C., onde o autor garante o prazer intelectual proporcionado pelo conhecimento do latim.» Grammatica, ae pertence à primeira declinação, como porta ou papa. E não se diz, Teresa Dias Mendes, «habemus papam», único latim que 99 % das pessoas sabem? Então, como quer concluir? Mesmo se fossem duas, dir-se-ia «habemus grammaticas», porque é objecto directo.

 

[Texto 10 826]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | favorito
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19
Jul 18

«In loco parentis»

Mais um pouco de latim

 

      «Nessa altura, os colégios eram vistos como in loco parentis (o lugar dos pais), o que significava que eram responsáveis pela atitude moral dos alunos» (A Minha Breve História, Stephen Hawking. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: Gradiva, 2014, p. 36).

      Não sei se os leitores percebem assim, parece-me equívoco. A melhor tradução é «no lugar dos pais», que é, de facto, essa doutrina de que a escola assume a responsabilidade dos pais, está em vez, em lugar dos pais.

 

[Texto 9656]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | favorito
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31
Jan 18

Quod non est in actis...

É uma questão científica...

 

      «“Não é arguido, ponto final. O que não está no processo não esta [sic] no Mundo. Quando for constituído arguido não há drama nenhum”, referiu [o advogado] João Correia esta tarde aos jornalistas» («Advogado reitera: Luís Filipe Vieira “não é arguido, ponto final”», Carolina Rico, TSF, 31.01.2018, 19h47).

      O que não está no processo, não está no mundo. Isto parece e é profundo, mas não é da lavra do advogado. É um axioma jurídico, um brocardo latino: Quod non est in actis, non est in hoc mundo. O mundo verdadeiro está na lei.

 

[Texto 8655]

Helder Guégués às 21:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Ago 17

Léxico: «garo»

Em português

 

      «As escavações de Junho “deram mais pistas para datar o fim da produção de garum [pasta de peixe feita das vísceras de atum ou cavala, misturadas com outros peixes] neste complexo”, da qual Tróia se tornou imagem de marca no Império Romano» («Encontrados vestígios dos últimos romanos que passaram em Tróia», Público, 3.08.2017, p. 13).

      Senhora arqueóloga, se a palavra já está aportuguesada — garo —, não deve usar a palavra latina. Senhor jornalista, se a palavra é latina, garum, tinha de a grafar em itálico.

 

[Texto 8072]

Helder Guégués às 18:24 | comentar | favorito
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