31
Jan 18

Quod non est in actis...

É uma questão científica...

 

      «“Não é arguido, ponto final. O que não está no processo não esta [sic] no Mundo. Quando for constituído arguido não há drama nenhum”, referiu [o advogado] João Correia esta tarde aos jornalistas» («Advogado reitera: Luís Filipe Vieira “não é arguido, ponto final”», Carolina Rico, TSF, 31.01.2018, 19h47).

      O que não está no processo, não está no mundo. Isto parece e é profundo, mas não é da lavra do advogado. É um axioma jurídico, um brocardo latino: Quod non est in actis, non est in hoc mundo. O mundo verdadeiro está na lei.

 

[Texto 8655]

Helder Guégués às 21:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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03
Ago 17

Léxico: «garo»

Em português

 

      «As escavações de Junho “deram mais pistas para datar o fim da produção de garum [pasta de peixe feita das vísceras de atum ou cavala, misturadas com outros peixes] neste complexo”, da qual Tróia se tornou imagem de marca no Império Romano» («Encontrados vestígios dos últimos romanos que passaram em Tróia», Público, 3.08.2017, p. 13).

      Senhora arqueóloga, se a palavra já está aportuguesada — garo —, não deve usar a palavra latina. Senhor jornalista, se a palavra é latina, garum, tinha de a grafar em itálico.

 

[Texto 8072]

Helder Guégués às 18:24 | comentar | favorito | partilhar
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21
Mar 17

Nem o latim escapa

Lorem ipsum

 

      Imagino o Tio Aires lá na Aldeia de Mato quando leu com toda a atenção a sua secção preferida no Público e, na legenda à imagem do artigo sobre o jogo FC Porto-V. Setúbal, deparou com isto: «Legenda Em delit am, conullum zzril illa aut alis nit adigna corting eriustrud» («Sem décima, sem liderança e sem sombra de Soares», Augusto Bernardino, Público, 20.03.2017, p. 38). Caramba, até este latim de encher, por acaso ciceroniano, Lorem ipsum dolor sit amet..., foi desvirtuado. Podia ser, sei lá, «asinus asinum fricat asinus asinum fricat asinus asinum fricat...», mas não. Confesso: o Tio Aires não lê o Público, mas sim o Correio da Manhã, que às 8 da noite, numa rotina à prova de bomba, já está a forrar a casota da Frisquette, a pêlo de arame que veio do frio (da Suíça).

 

[Texto 7593]

Helder Guégués às 19:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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15
Fev 17

O que é a «positio»

Não me parece

 

      «Houve críticas dentro da própria Igreja Católica, com o editor de religião da revista Newsweek, Kenneth Woodward, a escrever uma carta à publicação católica First Things a dizer que “o Opus Dei subverteu o processo de canonização para conseguir beatificar o seu homem. Numa palavra, foi um escândalo – desde a conduta dos tribunais à escrita do positivo e ao tratamento dos especialistas escolhidos para julgar o caso”» (Opus Dei – Eles Estão no meio de Nós, Rui Pedro Antunes. Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2016, p. 173).

      «Positivo»? Só pode ser confusão. Não apenas nunca vi a palavra traduzida, como a tradução não seria essa. É positio, em latim, e foi precisamente ontem que a li num artigo do Público, da autoria da jornalista Natália Faria, a propósito da canonização da Ir. Lúcia: «Concluída a fase diocesana, um relator nomeado pela Santa Sé deverá elaborar a chamada positio — um compêndio dos relatos e estudos realizados por uma comissão jurídica. Será este texto, que poderá demorar ainda dois a três anos a ser redigido, que definirá se a Igreja deve declarar as virtudes de santidade de Lúcia Rosa dos Santos — nome civil da carmelita» («Canonização da irmã Lúcia passa para as mãos da Santa Sé», Público, 14.02.2017, p. 15). Salvo erro, não é o relator que elabora a positio, mas o postulador, com o auxílio de um colaborador e na dependência do relator. E positio é a redução de positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis (ou super martyrio), ou seja, «posição sobre a vida, virtudes e reputação de santidade (ou sobre o martírio)». Já esta semana, também vi escrito, erradamente, «posicio». Quem o escreveu, é claro, nunca lera a palavra nem conhecia o conceito.

 

[Texto 7481]

Helder Guégués às 20:22 | comentar | favorito | partilhar
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14
Jan 17

«Incertae sedis»

Um pouco de latim

 

      «Já mais difícil é dizer cientificamente quem são os seus parentes evolutivos, pelo que muitos paleontólogos limitam-se a classificá-los como incertae sedis, a expressão em latim para “posição incerta”, ou a dizer que se relacionam de alguma forma com os moluscos» («Até que enfim que os hiolitos (já lá iremos) encontraram o seu lugar na árvore da vida», Teresa Firmino, Público, 14.01.2017, p. 27). No jornal El País dizem isto com muito mais graça: «Hasta ahora se los había clasificado como moluscos, como un grupo enteramente nuevo de animales o, peor aún, como incertae sedis (posición incierta), que es el eufemismo que usan los taxónomos para confesar que no tienen ni idea de dónde colocar algo» («Un testigo de la ‘explosión’ que originó a los animales», Javier Sampedro, El País, 14.01.2017, 10h41). Não é o único aspecto invejável: em 63 comentários, nem meia dúzia de leitores se desviam um pouco do assunto.

 

[Texto 7409]

Helder Guégués às 18:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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16
Dez 16

Sobre «condestável»

É como quem diz

 

      Ontem, no programa Quinta Essência, da Antena 2, ouvi, aliás pela segunda ou terceira vez, a historiadora Manuela Mendonça falar do reinado de D. João II. Convidada a dar uma explicação da etimologia do vocábulo «condestável», respondeu logo alegremente: «Eu tenho uma teoria sobre isso.» E que teoria é essa? Bem, Carlos Magno estrutura o seu império em condados, e no topo da hierarquia do seu palácio põe condes. O botelheiro era conde; o escanção era conde; o que tratava do estábulo do rei era conde — o conde do estábulo, que viria a dar «condestável». Muito bem, muito bem... «Aqui para nós. Vá, vamos cá introduzir um factor de modéstia: é uma ideia sua ou está consagrado assim?» Era uma ideia da historiadora: «Não, é uma ideia minha. Eu também tenho o direito de ter ideias.» Eu também tenho uma teoria: só é uma ideia sua no sentido de se ter apropriado dela. Há muito, muito tempo que se conhece e está registada essa etimologia: condestável vem do latim tardio comes stabuli. Está a escapar-me alguma coisa?

 

[Texto 7330]

Helder Guégués às 16:22 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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04
Nov 16

«Acheta domesticus»

Vai um grilo?

 

      E a propósito do nome científico, ontem a minha filha quis um chupa-chupa com um grilo, um Acheta domesticus. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura não veio já dizer que o futuro da alimentação da humanidade passará precisamente pelo consumo de insectos? Então, já vêem. E, embora seja a Holanda um dos principais produtores de insectos comestíveis do mundo, o chupa veio dos Estados Unidos, com o aval, decerto, da Administração de Alimentos e Drogas. O único erro que vi foi no rótulo, em que se lia «Ancheta Domestica». Nada é perfeito.

 

[Texto 7220]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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19
Set 16

«Fórum/fóruns; foro/foros»

Estou com a malta

 

      «Um dia destes acordei e tudo tinha levado sumiço. As Notes, primeiro, e depois todo o meu Gmail. Todo. Tudo. Peritos foram convocados para me salvarem. Fez delete? Não. Foi ver o trash? Fui. Manobras foram praticadas de recuperação. Fora de horas, fui ver os chats, os fora (fóruns, diz a malta), fui aos sites» («Fujam, vem aí o update», Clara Ferreira Alves, «E»/Expresso, 17.09.2016).

      E diz a malta muito bem, Clara Ferreira Alves, porque dizer «ver os fora fora de horas» ia deixar o nosso interlocutor desconfiado da nossa inteireza mental. E, na escrita, tudo junto e sem itálico, é melhor pensar numa alternativa. Para Rebelo Gonçalves, essa alternativa era foro/foros. Isto é que é português — tal como fórum/fóruns, que só pode causar arrepios a latinistas retirados do mundo.

 

[Texto 7104]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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