23
Jul 19

Léxico: «afrodescendente»

Está muito mal

 

      «O deputado do CDS Hélder Amaral diz que foi alvo de atitudes racistas, em 2007, no Parlamento Europeu. O único deputado afrodescendente com assento parlamentar revela que, primeiro, “acharam que era empregado de mesa” e que, posteriormente, “e depois de várias vezes terem pedido para confirmar se era mesmo deputado”, não o queriam deixar falar sem antes lerem os seus discursos» («Hélder Amaral sofreu racismo no Parlamento Europeu. “Acharam que era empregado de mesa”», Marina Pimentel, Rádio Renascença, 20.07.2019).

      Impressionante, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Infelizmente, está lá mal grafado «luso-descendente». É lusodescendente como é afrodescendente, porque não estão em causa duas etnias. E, vamos lá ver, se escrevem «luso-descendente», como é que grafam «eurocomunista»? Percebem? Eu não. Pelo menos eles sabem escrever: Djass – Associação de Afrodescendentes.

 

[Texto 11 821]

Helder Guégués às 06:42 | comentar | favorito
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22
Jul 19

Léxico: «correio | mula»

Casmurrices e aselhices

 

      «Dois “correios” de droga detidos à chegada a Portugal» (Jornal de Notícias, 20.07.2019, p. 21).

      É uma acepção de correio que se vê cada vez mais na imprensa. Serve para substituir o brasileirismo mula. O que me traz à mente outro erro de uma tradução do castelhano: no original, estava camello, que o tradutor verteu para «mula». Ora, basta ver no DRAE: «m. coloq. Persona que vende drogas tóxicas al por menor.» Ou seja, ao nosso correio/mula corresponde o castelhano correo; o camello castelhano é o nosso passador. O que me leva a isto: «The Mule, ou O Correio de Droga (desastrada tradução), é um pequeno grande filme, para todas as idades e crenças, na melhor tradição de Hollywood – que, infelizmente, os Oscars não souberam valorizar» («Um super Clint (Eastwood) no filme “The Mule – O Correio de Droga”», Manuel Halpern, Visão, 1.02.2019, 7h00). Suponho (não vi o filme) que a crítica à tradução tem que ver com as várias acepções de mule, que, além de correio de droga, também significa pessoa muito casmurra. Como o crítico nada explica, ficamos assim. (Ou não, devemos chamar-lhe a atenção para este erro crasso no seu artigo: «Sobre vários pontos de vista, Clint Eastwood é o maior herdeiro de John Ford. Insiste num cinema “clássico”, com uma estrutura linear em que se conta uma boa história, nunca perdendo de vista a escala humana e as dimensões interiores das personagens com todas as suas contradições.»)

      Avancemos um pouco mais: mula, para o dicionário da Porto Editora, é um termo coloquial brasileiro que designa a «pessoa que transporta droga através de fronteiras internacionais, frequentemente dentro do próprio estômago». Como há quem entenda (sem afirmar que é brasileirismo) que mula é sobretudo o transporte de drogas que atravessa fronteiras, não apenas a tradução de camello estaria certa se se optasse por «mula», como seria a tradução ideal do título do filme de Clint Eastwood — o protagonista, que seria obstinado e no fim acabaria como passador de droga. Na intenção do realizador, estaria então este duplo sentido do termo, que a tradução portuguesa arruinaria.

      Retomando a definição daquele dicionário: «frequentemente dentro do próprio estômago». «No corpo», diria eu. Nos últimos tempos, lemos notícias em que se diz que estava escondida no ânus, na vagina, na boca, colada ao tronco, debaixo do capachinho...

 

[Texto 11 819]

Helder Guégués às 11:10 | comentar | favorito

Léxico: «extraveicular»

Fora do veículo

 

      «Desta forma, para se conseguir uma solução mais avançada e com menos riscos, Pedro Arezes [professor catedrático da Escola de Engenharia da Universidade do Minho] sugere o recurso a “modelos computacionais que podem simular o que vai acontecer entre os astronautas e os fatos em atividade extraveicular” e que antecipam “o desempenho musculoesquelético”» («Um contributo português para a evolução dos fatos», Sandra Freitas, Jornal de Notícias, 20.07.2019, p. 31).

 

[Texto 11 818]

Helder Guégués às 07:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Jul 19

Léxico: «telecontagem»

Mais um ano

 

      «De acordo com o operador [EDP], “atualmente, já 70% do consumo de energia é recolhido por telecontagem”, ou seja, todos os clientes empresariais e os circuitos de iluminação pública» («Novos contadores acabam com estimativas na luz», Bárbara Silva, Jornal de Notícias, 20.07.2019, p. 14). «Três pequenas cooperativas (CELER, A Lord e Cooperativa de S. Simão de Novais) procederam já à substituição total dos contadores permitindo a telecontagem, estando uma outra (CEVE) a terminar o processo» («Novos contadores vão pôr fim a estimativas», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 19.07.2019, p. 25).

      Os consumidores residenciais é que ainda não merecem igual tratamento. Ainda esta semana recebi uma SMS: «Evite estimativas na sua fatura, comunique a sua leitura, etc.» Nunca comunico. Temos de esperar até 1 de Janeiro de 2021, quando for obrigatório para todos os operadores terem os contadores inteligentes a comunicar à rede os consumos.

 

[Texto 11 817]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Jul 19

Léxico: «queimódromo»

Está aí há anos

 

      «Não há indícios de crime no caso de jovem seminua encontrada junto ao Queimódromo, no Porto» (Patrícia Carvalho, Público, 8.05.2019, 13h11). Falámos aqui de queimódromo em 21 de Julho de 2017. Lembrei-me disto, não porque faz amanhã exactos dois anos, mas porque vi a palavra na primeira página (falsa primeira página, publicitária) da edição de hoje do Jornal de Notícias. Não me parece que se deva esperar mais para a levar para todos os dicionários.

 

[Texto 11 815]

Helder Guégués às 10:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Jul 19

Raças de galinhas

Se é nosso, desprezam

 

      O artigo que acabei de citar («O mito da galinha “do campo”», Luís Ribeiro, Sábado, 21.02.2019) menciona as quatro estirpes de galinhas autóctones portuguesas, nenhuma delas, para o bem e para o mal, alvo da cobiça da indústria: preta lusitânica, amarela, pedrês portuguesa e branca. Estão em risco de extinção. Os nossos dicionários já lhes abreviaram os últimos estertores. O que é nacional é para desprezar, parece ser o lema.

 

[Texto 11 814]

Helder Guégués às 21:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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