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Linguagista

O hífen em locuções — caos e arbítrio

Sinal de esperança ou mero lapso?

 

      «Uma língua, qualquer língua, possui um léxico tanto mais extenso e rico quanto maiores forem as exigências que se lhe apresentam e a pluralidade de contextos e situações em que tiver de ser usada. Uma língua apenas de âmbito familiar e do dia-a-dia possuirá seguramente um vocabulário mais reduzido e pouco diversificado do que uma língua que, além de falada em diferentes geografias, é usada nos contextos mais diversos – formais e informais, orais e escritos, gerais e especializados, oficiais e legislativos, educativos, científicos, tecnológicos, multilingues, multiculturais» («A língua portuguesa e a UE», Margarita Correia, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 28).

      Ah, como isto é curioso e como é bom estar vivo em 2021 para o ver: Margarita Correia é professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa, e, usando, sabe-se lá com que convicção, as regras do Acordo Ortográfico de 1990, escreve «dia-a-dia». Isso não contraria frontalmente o que estatui a Base XV, n.º 6, do Acordo Ortográfico de 1990? Ah, sim, eu — e não sou o único — sou defensor de que a diferenciação gráfica, pelo uso dos hífenes, devia continuar a fazer-se. Afirmei-o aqui, em 2015, a propósito de pés-de-galinhas/pés de galinha. Será a Professora Margarita Correia defensora do mesmo? Nada mudou; pelo contrário, tem vindo a alastrar o caos na ortografia do português. Continuar a fingir que o problema não existe ou que se resolverá com o tempo (com a morte do último português sensato que acha que isto foi um verdadeiro atentado à língua) não ajudará em nada. Só há uma coisa que se vai consolidando: o caos.

 

[Texto 15 087]

Importação de palavras

Felizmente, não

 

      «Quanto mais as línguas crescem, mais mestiças se tornam – é inevitável. Foi mestiço o latim; são mestiças grandes línguas como o inglês, o espanhol, o francês, o português; a extensão dos seus vocabulários faz-se também por importação de palavras de outras línguas, nestas disponíveis para denominar conceitos que são novos para a língua recetora. A importação de palavras não é, por si só, uma desvantagem, mas carece de observação, análise e registo sistemáticos, processos que por aqui se confundem frequentemente com remoques puristas e prescrições pontuais, tantas vezes pouco fundamentadas» («A língua portuguesa e a UE», Margarita Correia, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 28).

      Carece desse trabalho, decerto — mas é maioritariamente um processo natural, espontâneo, dos falantes. E ainda bem que assim é, porque esperar pela chancela da academia era capaz de atrasar um pouco o processo.

 

[Texto 15 086]