22
Out 20

A língua e o futebol

Falta-lhes o melhor

 

      «O treinador do Benfica, Jorge Jesus, gerou algum sobressalto no tribunal quando, na qualidade de testemunha do processo Football Leaks, tratou a procuradora do Ministério Público por “você”. António Ventinhas, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, diz que as formalidades em audiência servem para conferir “serenidade” aos julgamentos. [...] Ventinhas sublinha que as formas corretas como os procuradores do Ministério Público devem ser tratados são “senhor(a) doutor(a)” ou “senhor(a) procurador(a)”; no caso dos juízes, utiliza-se o “senhor(a) juiz(a)” ou “meritíssimo/a”» («Jesus tratou a procuradora por “você”. Porque é que não deve fazê-lo?», João Vasconcelos e Sousa, Jornal de Notícias, 20.10.2020, 17h27).

 

[Texto 14 197]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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13
Out 20

Então agora é «cinquentésimo»?

Veremos

 

      «Até Zimbardo se esquecera de que tudo não passava de uma experiência. Alertado para o horror, a experiência terminou ali, constatando-se depois que a psicóloga que denunciou o caso era a cinquentésima pessoa a ali entrar e a primeira a protestar. A conclusão, envolta ainda em grande polémica, é que quando há uma ideologia e um enquadramento social que legitime o abuso, é fácil que o comum dos mortais se transforme no que esperam dele» («A Experiência de Zimbardo e os presos afegãos», Isabel Stilwell, Destak, 12.01.2012, 18h55). Acharmos inacreditável que alguém, e mormente quem escreve em jornais, não saiba que ao que, numa série, ocupa o lugar correspondente ao número 50 se dá o nome de quinquagésimo, não cinquentésimo, pode não ser a melhor abordagem. É claramente um caso de etimologia popular — pelo que nasce, logo à partida, legitimada, verificadas que estão todas as condições para vingar.

 

[Texto 14 133]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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06
Out 20

Léxico: «beef»

Disputas alienígenas

 

      «Nas redes sociais, foram muitos os adolescentes que, face às informações de um confronto entre grupos rivais, apelaram a que terminem os “beefs” (“disputas”) entre diferentes zonas da Grande Lisboa. “Vocês têm de parar com esses ‘beefs’ das zonas, já está na hora de crescer”, lia-se numa publicação partilhada no Twitter por mais de 500 pessoas e apoiadas por cerca de mil utilizadores» («Rapaz morto à facada em luta de grupos rivais da Grande Lisboa», Inês Banha e Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 3.10.2020, p. 16). «O chamado “beef” (encontro marcado exclusivamente para confrontos) foi agendado para quinta-feira, na estação da CP de Amadora» («Confronto fatal com origem em disputa por raparigas», Alexandre Panda, Jornal de Notícias, 4.10.2020, p. 12).

 

[Texto 14 088]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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Como se escreve por aí

Fique só pelo árabe

 

      «Em parte, essa suposta autenticidade de Trump ajudou-o a seduzir gente suficiente para negar a presidência a Hillary Clinton: ao passo que Trump era visto como um fanfarrão mentiroso mas ao menos autêntico, Clinton era vista por muito eleitorado (alerta para a misoginia indisfarçada) como uma sabichona pespinenta, evidentemente bem preparada para ser presidente, mas insincera. Essa imagem, e o sexismo inerente a ela, permitiu construir com o episódio uma espécie de caricatura: Clinton era a “marrona”, a melhor aluna da turma que sempre se preparou para passar naquele exame; Trump o gândulo da turma que gosta de armar bulha e humilhar os outros (no outro dia disse-vos que não se podia falar uns minutos em português sem usar árabe e não vos enganei: “gândulo” vem do árabe clássico gandur ou gundur, “jovem mimado e mulherengo que vive sem trabalhar”)» («Trump é uma pessoa horrível (e isso importa)», Rui Tavares, Público, 2.10.2020, p. 44).

      A juntar à «nova» ortografia, é já fazer demasiados estragos, não, Rui Tavares? Diz-se pespineta (ou pispirreta) e gandulo, não como deixou aí escrito. Aliás, é inacreditável como foi saber como se escreve em árabe e não o fez para o português.

 

[Texto 14 086]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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04
Out 20

«Linguagem inclusiva»

Uma baboseira

 

      «A diretiva do Ministério da Defesa sobre a “utilização de linguagem não discriminatória” pelas Forças Armadas está a causar mal-estar entre os militares, e a associação que representa os oficiais afirma que a orientação da Secretaria-Geral “é ofensiva e um disparate”. Até porque existem “problemas gravíssimos, a nível de saúde e remunerações”, que carecem de soluções, lembra a estrutura associativa» («Militares em guerra com regras de língua», Ana Correia Costa, Jornal de Notícias, 1.10.2020, p. 8).

      Decerto, mas a melhor descrição desta iniciativa do Ministério da Defesa já foi feita numa só palavra pelo Conselho Nacional da Associação de Oficiais das Forças Armadas: «baboseira». Não chegou o que fizeram com o Acordo Ortográfico, infelizes?

 

[Texto 14 082]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
23
Set 20

Emília-Romanha, Véneto, Toscana, etc.

Os toscos

 

      «Em Janeiro votou-se na Emilia-Romagna e na Calábria, agora 18,6 milhões de eleitores escolhem os governos de sete regiões — para além da Toscana, Veneto, Campânia, Ligúria, As Marcas, Apúlia e Vale d’Aosta (região francófona com o seu próprio sistema partidário)» («Sete regiões votam, mas futuro da direita joga-se na Toscana», Sofia Lorena, Público, 20.09.2020, p. 22).

      Não vimos já mais de uma vez que devemos dizer Emília-Romanha? Como também é Véneto. (Mas, na Infopédia, encontramo-lo com e sem acento é conforme dá na veneta.) Vá lá, escreveu Toscana e não, como fazem muitos toscos, «Toscânia». (Como corrigi na semana passada no texto de um autor português.)

 

[Texto 14 013]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Set 20

Léxico: «medicane»

Só para sabermos

 

      «O Ianos é um medicane (aglutinação entre as palavras “Mediterranean” — “Mediterrâneo” e “hurricane” — “furacão”, como são designados os ciclones tropicais no mar Mediterrâneo. Este tipo de tempestades relativamente raras têm características semelhantes aos furacões, mas podem formar-se sob águas frias e movem-se geralmente de oeste para este. [...] Em setembro de 2018 um medicane provocou a morte de duas pessoas na Grécia» («Grécia prepara-se para enfrentar rara tempestade equiparada a furacão», Carolina Rico, TSF, 18.09.2020, 9h51, itálicos meus).

 

[Texto 13 992]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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11
Set 20

Léxico: «botelhão»

Olha, olha...

 

      Enquanto o botellón se perde nas burocracias interdepartamentais, eis que do mesmo Porto surge a solução: «Está a aumentar o consumo de bebidas alcoólicas na rua, conhecido por fenómeno “Botelhão”. Já faz parte do planeamento semanal da PSP do Porto ações fiscalização, sobretudo, nas noites de fim de semana e em zonas como a Ribeira, a Cordoaria e a Baixa» («Fenómeno “Botelhão” no Porto leva a mais fiscalizações da PSP», Celso Paiva Sol, Rádio Renascença, 11.09.2020, 10h50).

      Está bem visto — ainda que possa ser resultado de problemas auditivos do jornalista. (Oiça o Goucha.) Vamos estar atentos.

 

[Texto 13 945]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | favorito
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