19
Jan 19

Eu não, usam eles

Século XXI

 

      A minha filha diz-me que já consegue dropar a rampa maior na pista de patins em linha; Boss AC confessa que gosta de samplar (mas os dicionários registam «samplear») temas de outros intérpretes; na Internet, ensinam-nos a hackear. Não hackeio, não sampleio, não dropo (nem me drogo), mas tenho de manter os sentidos bem despertos para o que se passa à minha volta.

 

[Texto 10 617]

Helder Guégués às 20:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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16
Jan 19

«Brexit» e afins

Se a lógica mandasse

 

      «O texto impunha que a cláusula de garantia, acordada pelas partes para evitar a fronteira física e os controlos alfandegários entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda — e que era disputada por brexiteers e remainers —, “expiraria no dia 31 de Dezembro de 2021”, se entrasse em vigor» («Acordo de May estilhaçado pelos deputados que hoje decidem o seu futuro», António Saraiva Lima, Público, 16.01.2019, p. 3).

      Por muito que se arraste, não deixará de ser um processo efémero, e por isso nem sequer brexit eu levaria para os dicionários. Mas está em alguns, e, pior, não o grafam em itálico. Em boa lógica, levar aquele devia implicar a necessidade de levar, até porque menos conhecidos, também brexiteer, remainer e backstop. Cá, aqui e ali, e até no Brasil, usa-se «brexiteiro». No texto anterior, cito Rui Tavares, que usa frequentemente essa palavra.

 

[Texto 10 597]

Helder Guégués às 12:25 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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14
Jan 19

A gíria dos médicos

Para nós, é chinês

 

      Na Antena Aberta de hoje, sobre o estado da saúde em Portugal, António Jorge, comparando-a com o «economês», hesitou na designação para a gíria médica: mediquês ou medicinalês? Porque não, digo eu, medicinês, muito mais próximo de «chinês», pois, como afirmou um professor universitário, Paulo Santos, a quem se dirigia a pergunta, na Europa, 70 % dos doentes não entendem o que lhes diz o seu médico? Talvez até se usem todas, em maior ou menor medida, mas nenhuma se solidificou ainda.

 

[Texto 10 584]

Helder Guégués às 13:02 | comentar | favorito | partilhar
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11
Jan 19

Um novo dicionário

Vamos comprová-lo

 

      «O dicionário de Morais e Silva regista, apenas, a palavra “obrigado” como particípio passado de obrigar, mas o dicionário da Língua Portuguesa, saído já em 2018, regista a palavra como adjetivo, interjeição ou como tempo verbal. Registos que atestam que os “próprios dicionários, enquanto elementos de estabilização da língua, mostram a forma como o conjunto da comunidade vai reconhecendo aquilo que é o uso reconhecido”, explica Maria Antónia Coutinho [investigadora do Centro de Linguística da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]» («Já disse “obrigado” hoje? Aprenda a saborear o agradecimento», Sandra Xavier e Fernando Alves, TSF, 11.01.2019, 12h14).

      Então, é «o dicionário da Língua Portuguesa» e não se diz mais nada? Tive de ouvir a entrevista para saber que se trata do Dicionário da Língua Portuguesa — Léxico, Gramática, Prontuário, de Aldina Vaza e Emília Amor (Alfragide: Texto Editora, 2018). Da entrevista que as autoras deram a Rita Pimenta, do Público («Dicionários em papel para quê? (e para quem?)», 30.12.2018, 7h41), extraio este trecho, que, se não serve para os dicionaristas já falecidos, serve para os outros, aspecto para o qual estou frequentemente a chamar a atenção: «A lista definitiva [dos vocábulos incluídos neste dicionário] teve ainda de incluir, posteriormente, todas as palavras que foram usadas na redação dos artigos (como nas definições e nos exemplos), mas que não constavam na nomenclatura criada.» Não conheço nenhum dicionário que cumpra este critério — e agora falta comprová-lo neste.

 

[Texto 10 578]

Helder Guégués às 17:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Como se escreve (e se pensa) por aí

Uma miséria

 

      «É o maior evento LGBTI da Europa — todos os anos, uma cidade europeia recebe conferências, concertos e uma Marcha Pride, para celebrar o orgulho LGBTI (Lésbico, Gay, Bissexual, Transexual e Intersexual). Portugal vai candidatar-se para receber a edição de 2022 do EuroPride» («Portugal avança com candidatura para receber o maior evento LGBTI da Europa», Joana Carvalho Reis, TSF, 11.01.2018, 7h29).

      Foi mesmo muito a tempo que, a 20 de Junho passado, propus que o dicionário da Porto Editora registasse intersexo e LGBTI. Quanto ao artigo da TSF, para quê aquela salsada de «marcha» e «pride»? Então não se costuma escrever «marcha do orgulho»? Não estamos em Portugal, Joana Carvalho Reis? (De vez em vez, espreito as caixas de comentários destas notícias, para avaliar a saúde mental dos Portugueses. Uma miséria. Choninhas que na vida real são incapazes de levantar os olhos para os outros, na vida virtual são uns facínoras. Um pede um novo terramoto em Lisboa para aqueles dias. Outro queria que fossem manifestar-se para o Árctico. E por aí fora. Um ponto em comum: escrevem todos mal como a porra. Mas hoje é Dia Internacional do Obrigado, e eu agradeço que toda essa gente exista: até parece que somos mais normais, não é? Já se sabe que, de perto, ninguém é normal.)

 

[Texto 10 576]

Helder Guégués às 14:34 | comentar | favorito | partilhar
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31
Dez 18

Brasil: posse e porte de arma

O mundo explicado às criancinhas

 

      Chegaram-me ecos, esta madrugada, de que os Brasileiros, ou uma parte significativa, o que dá logo milhões, não compreendem a diferença entre posse e porte de arma. Tudo isto, é claro, a propósito da intenção bolsonaresca de assinar um decreto para permitir a posse de arma de fogo a todas as pessoas sem cadastro. Não é o pior nem o melhor exemplo para explicar que, nestas questões, nem sempre o conceito comum e o conceito científico ou legal coincidem, o que me leva a incentivar os lexicógrafos a copiarem, sem pejo nem receio, as definições legais. A última vez que o fiz aqui foi a propósito do crime de violação. No caso concreto do Brasil, não me se afigura assim tão difícil: a posse é relativa ao direito de possuir, em casa ou no local de trabalho, uma arma; o porte é relativo ao direito de a transportar, de a levar consigo fora de casa ou do local de trabalho. Para desmentir as antevisões de um Faroeste no Brasil, basta ver que o decreto só diz respeito à posse, não ao porte.

 

 [Texto 10 515]

Helder Guégués às 09:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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28
Dez 18

Dez dias, 200 páginas

Outra vez: pobres leitores

 

      «Com 200 páginas, ‘Político Esfaqueado ou É Morto ou É Eleito’ foi escrito em apenas dez dias» («Judite de Sousa escreve novo livro em dez dias», Paulo Abreu, Correio da Manhã, 16.12.2018, p. 41). Escrito em dez dias... Qualquer livro desta dimensão demora mais do que isso a rever. O primeiro livro estava errado logo no título, nunca corrigido: Olá Mariana. (Opção, muitas vezes, dos paginadores, que, pelo princípio de Peter, se põem a opinar sobre estas matérias.) Agora este, 15 euros... Pobres leitores.

 

[Texto 10 503]

Helder Guégués às 15:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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