26
Mar 20

«O grupo capitaneado por...»

Já se sabe o que escreveriam

 

      Por vezes, em algumas coisas, os jornalistas brasileiros mostram ter mais trambelho do que os portugueses (jornalistas ou não): «Pesquisadores americanos e europeus conseguiram usar um método bem conhecido para identificar com precisão a presença de anticorpos contra o novo coronavírus no sangue humano. [...] O grupo capitaneado por Florian Krammer, da Escola de Medicina Icahn, no Hospital Mount Sinai (Nova York), divulgou os dados no site Medrxiv (www.medrxive.org), que é dedicado ao armazenamento dos chamados “pré-prints”, ou seja, versões iniciais de estudos que ainda não passaram pelo crivo de outros pesquisadores antes de serem aceitos para publicação em revista científica» («Método identifica anticorpos contra vírus», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 24.03.2020, p. B6).

 

[Texto 13 025]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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12
Mar 20

Léxico: «martemoto»

Invencionice inútil

 

      «Através dos instrumentos da InSight, detectaram-se 174 sismos até 30 de Setembro de 2019 e muitos eram pequenos sismos. Verificou-se que 24 deles tinham uma magnitude entre os três e quatro graus. “Detectámos sinais de martemotos [marsquakes] com menos de dois e mais de quatro”, indica Bruce Banerdt, clarificando que a escala usada em Marte é semelhante à da Terra» («Os “martemotos” mostram-nos que Marte é geologicamente activo», Teresa Sofia Serafim, Público, 25.02.2020, p. 36).

      Claro que não precisamos de um termo específico para designar o que não difere em nada do que conhecemos, mas nunca se sabe, pode pegar.

 

[Texto 12 944]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
11
Mar 20

Os primeiros computadores

Este mantém-se

 

      «Katherine Johnson, a mulher negra cujo génio matemático a levou de um trabalho na NASA, com muita discriminação à mistura, para um papel fundamental na missão de levar humanos à lua, morreu esta segunda-feira aos 101 anos, anunciou a NASA. [...] Katherine Johnson e a sua equipa de mulheres negras na NASA eram conhecidas como “computadores” quando o termo era usado para pessoas que trabalhavam em computação. A matemática teve uma carreira de 33 anos na agência especial norte-americana. Trabalhou no Projeto Mercúrio e no programa Apollo, que levou pela primeira vez humanos à lua. Johnson foi responsável pelos cálculos que sincronizavam a nave lunar e o módulo de comando em órbita» («Morreu Katherine Johnson, matemática da NASA que ajudou o Homem a chegar à Lua», Inês Rocha, Rádio Renascença, 24.02.2020, 15h57).

      Felizmente, ainda não saiu dos dicionários. A Porto Editora acolhe-o: «aquele que faz cômputos ou cálculos; calculador».

 

[Texto 12 929]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Primor inexcedível, procura-se

Dos melhores, mas

 

      «Paulo Portas, ex-líder do CDS, recordou Vasco Pulido Valente, que hoje morreu aos 78 anos, como “brilhante colunista político”, a quem deve “uma amizade sem interrupção durante mais de 30 anos”. [...] Além do mais, acrescentou, “escrevia português com um primor inexcedível, o que não é coisa pouca nos tempos que correm”» («Portas recorda amigo e “brilhante colunista político”», TSF, 21.02.2020, 20h06).

      Não é bem assim, admitam: não poucas vezes o excedemos, quer dizer, o corrigimos aqui. Afirmar o contrário só porque morreu seria indigno de qualquer um de nós.

 

[Texto 12 928]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Mar 20

Na linha do equador

Só com aptidões funambulísticas

 

      «A portuguesa de 52 anos foi brutalmente assassinada, ao final da tarde de segunda-feira. Doze anos depois de chegar às terras da Linha do Equador, para fazer voluntariado com crianças de rua» («É lá que moram as nuvens», Jorge Araújo, editor da E, Expresso Curto, 5.03.2020).

      Jorge Araújo acha que é um lugar — mas só um funambulista ia conseguir manter-se nele. Não: é linha do equador. Não tem de quê.

 

[Texto 12 905]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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Léxico: «exame autóptico»

Só para saberem que existe

 

      «Representante legal da mulher condenada a 25 anos de prisão, [sic] queixa-se de o Tribunal não ter aceitado a exumação aos restos mortais do corpo de Luís Grilo, marido de Rosa Grilo, a audição do consultor técnico forense João de Sousa e de exames autópticos ao cadáver» («Rosa Grilo. Defesa vai recorrer da condenação e “continua confiante”», Rádio Renascença, 3.03.2020, 22h16).

 

[Texto 12 903]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Mar 20

Pouco ou nada lidos

Obrigados, corre mal

 

      «O livro foi comprado na Sá da Costa, no Chiado, e na capa estão o título (“Beethoven”), o pós-título razoável (“Grandes Biografias”), a editora (Aster), o autor (Emil Ludwig, 1881-1948) e a imagem de um génio. Lá dentro, na página cinco, uma assinatura perfeitamente legível: António dos Santos Castro, 1971; lá pelo meio, descobri depois, um boletim do Totobola de 1975 por preencher e dois papeis [sic] de prata cinza e vermelhos espalmados que, suponho, terão em tempos servido para embrulhar bombons» («O Sporting nasceu um dia. Mas se não tivesse nascido, seguramente alguém o teria inventado», Pedro Candeias, editor, Expresso Curto, 4.03.2020).

      O patrão obriga-os a declararem o que andam a ler — mas alguns ficam-se pelo título e até ignoram que ao título secundário relacionado com o principal se dá o nome de subtítulo e não, ó infelizes, «pós-título», coisa que não existe.

 

[Texto 12 901]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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04
Mar 20

Como se escreve por aí

Um surto?

 

      «Ao dia de hoje parece inevitável que vamos ter de aprender a viver com o Covid-19. A infeção por este novo coronavírus registou os primeiros casos em Portugal. Para o ajudar a estar informado, o Expresso lançou esta newsletter exclusiva com as últimas novidades, sugestões de leituras e informação úteis, que lhe enviaremos sempre que seja oportuno» («Nova Newsletter Expresso — Tudo que precisa de saber sobre o novo coronavírus», Expresso, 3.03.2020). Está a alastrar, pois já vimos aqui recentemente: «Aos dias de hoje a população de Nisa não sabe quem eram as despenadeiras que entre os séculos XVIII e XIX terão abreviado a agonia a doentes terminais lá da terra, como constatou a TSF entre populares de várias idades. Mas à boleia do livro de Teófilo Braga é revelado que as despenadeiras acreditavam estar a praticar um ato de caridade poupando o moribundo ao sofrimento» («Quem eram as despenadeiras de Nisa? As mulheres que ajudavam a morrer», TSF, 20.02.2020, 10h47).

      Bem sei que o que está na moda é afirmar, garantir, que tudo está correcto, o que, evidentemente, é uma mentira irresponsável, mas eu não sigo por aí. Nunca antes vi esta expressão, que me parece mero decalque do castelhano, também não recomendável, a día de hoy/al día de hoy.

 

[Texto 12 890]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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