20
Ago 19

Disparates na CMTV

Outro nível

 

       «José Pedro, de 21 anos, estava internado no Hospital Psiquiátrico de Viseu e foi pedir ajuda à prima Cristina Ferreira, que o acolheu em sua casa. Sofreu um ataque de fúria e proferiu vários golpes de faca contra a familiar, matando-a sem piedade. Depois atirou-se da varanda do apartamento para a rua, sofrendo ferimentos muito graves» («O jovem de 21 anos foi presente a um juiz do Tribunal de Viseu, a quem acabaria por confessar o crime», Luís Oliveira, CMTV, 29.07.2019, 11h59).

      Proferir golpes de faca! Estes repórteres da CMTV estão noutro nível. Um nível, diga-se, que já em 2011, no tempo da PàF, Pedro Lomba atingira com o seu inenarrável «bramindo o estandarte», que nunca esqueceremos. Conhecem as palavras, sim, mas de outiva.

 

[Texto 11 880]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
19
Jul 19

Léxico: «capitã»

É assim que as coisas se apresentam

 

      «Capitã do “Sea Watch 3” foi ouvida no âmbito de acusação ao auxílio à imigração ilegal» («Carola disse que não fez nada e foi mandada em paz», Ivete Carneiro, Jornal de Notícias, 19.07.2019, p. 29).

      Desde que se começou, por bons motivos, a subverter certas regras dicionarísticas, esperamos sempre mais. Assim, será que se justifica dicionarizar o feminino juíza, mas não capitã? Porque não?

  

[Texto 11 811]

Helder Guégués às 15:55 | comentar | favorito
07
Jul 19

Como se escreve por aí

Enxerguem-se

 

      Tenho um agregador de notícias que, como qualquer rede lançada ao mar, traz peixe, mas também, enredado, vem muito lixo. As mais ridículas — estão a ouvir? — são da Selfie by TVI e, para minha higiene mental, acabei de as bloquear. Um exemplo, repetido diariamente: «Maria Cerqueira Gomes partilha foto rara e comovente com o filho», assinada por um tal Igor Pires. Foto rara... é como se se referisse a uma foto de Anastásia Nikolaevna Romanov. Se o ridículo matasse...

 

[Texto 11 705]

Helder Guégués às 11:04 | comentar | favorito
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28
Jun 19

«Trabalhos de desconstrução»

Desconstrução civil

 

      De quando em quando, cai uma palavra ou expressão no goto dos jornalistas, e depois é até à exaustão: «Começaram esta manhã, os trabalhos de desconstrução do Prédio Coutinho. No interior ainda estão nove moradores que recusam a entregar seis habitações» («Prédio Coutinho começa a ser desmantelado», Rádio Renascença, 28.06.2019, 8h57). Agora é esperar, que já vem outra monomania que substituirá esta.

 

[Texto 11 634]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Jun 19

Guia supremo

Pode ser esta

 

      «O presidente dos EUA assinou uma ordem executiva a impor mais sanções ao Irão em resposta ao drone dos EUA abatido há quatro dias. Donald Trump referiu que a medida pode prolongar-se “durante anos” e vai afetar o guia supremo da República Islâmica, Ali Khamenei» («Novas sanções dos EUA visam o guia supremo», Destak, 25.06.2019, p. 6, itálico meu).

      Ora cá está uma forma de evitar, pelo menos neste caso, a tal palavrinha copiada do inglês que invadiu todos os nossos textos, de jornais a teses de doutoramento.

 

[Texto 11 613]

Helder Guégués às 08:05 | comentar | favorito
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23
Jun 19

Já não há poetisas

A inveja do pénis

 

      «Na primeira biografia dedicada à grande poeta, cabem, sem medos nem genuflexões, muitas das suas facetas» («Arquipélago de memórias», S. S. C., Visão, 16-22.05.2019, p. 123). Não vai demorar muito até os lexicógrafos darem conta que «poetisa» já não se usa. É que, nos últimos anos, as poetisas querem, à viva força, ser poetas (a inveja do pénis?), e os jornalistas, recenseadores, prefaciadores, etc., passaram a ter receio de as ofenderem se lhes chamarem poetisas. Ah, sim, e alguns, os mais «requintados», até já acham ridículo usar-se a palavra «poetisa». Quanto a mim, é a eles que acho ridículos e dignos de dó, e espero que passem tão depressa como a própria moda.

 

[Texto 11 596]

Helder Guégués às 09:56 | comentar | favorito
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05
Jun 19

Léxico: «bicicletário»

Podemos usá-lo

 

      «“Um dos maiores obstáculos à utilização quotidiana da bicicleta na cidade prende-se com a falta de lugares adequados para deixar a bicicleta em segurança. Os ‘bicicletários’, como também são conhecidos os estacionamentos para bicicleta, devem oferecer conforto e segurança aos ciclistas, sendo em simultâneo uma opção económica para autoridades públicas locais promoverem esta forma de mobilidade saudável, ecológica e amiga das cidades”, declara a MUBi [Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta]» («Onde posso estacionar a bicicleta? Uma ferramenta online já dá essa informação», Motor 24, 5.06.2019).

      Já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como brasileirismo. Agora vamos ver a frequência de uso. Que nos faz falta, isso sem dúvida. Sempre é melhor do que «doca», por exemplo, cujo sentido, todavia, não é inteiramente sobreponível. Entretanto, já experimentei, gratuitamente, uma moto da Acciona Motosharing, que pode vir a ser o melhor serviço em Lisboa.

 

[Texto 11 486]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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03
Jun 19

Português sem compromisso

Sem cerimónia

 

      «Você sonha, a gente realiza», lê-se nos tapumes de uma obra na Quinta da Marinha. A empresa é a Major Development. Será a mesma que tem sede na Tailândia? Bem, a esta hora até a rainha Suthida, sob cujos auspícios a empresa opera, já fala este português popular.

 

[Texto 11 466]

Helder Guégués às 11:11 | comentar | favorito
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01
Jun 19

A intuição e o trabalho

Inadmissível

 

      A ortografia não é tudo, mas é uma boa parte da língua. Aqui um tradutor verteu hedgehog por «ouriço-caixeiro». Uma pessoa que lida com a língua todos os dias, como é o caso de um tradutor, tem de se imunizar contra estes desvios de cariz popular, estas corruptelas filhas da ignorância, o que só pode conseguir por muita leitura e muita consulta de dicionários. Aqui de pouco valem intuições.

 

[Texto 11 456]

Helder Guégués às 10:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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