14
Jan 20

Léxico: «omissíssimo»

Interessantíssimo

 

      «Na ilha de Batudaka detectou-se ainda uma nova subespécie, a Cyornis omissus omississimus. Com várias tonalidades de azul, é ainda alaranjada na garganta. O seu nome omississimus quer dizer “o mais esquecido” e é uma referência aos investigadores que nunca repararam nela. E agora, de uma assentada, descobriram dez aves novas para a ciência» («Descobertas dez novas aves canoras em ilhas pouco exploradas da Indonésia», Teresa Sofia Serafim, Público, 10.01.2020, p. 38).

      Sim, significa, é o superlativo absoluto sintético de «omisso». Parece que em português a maior palavra palindrómica é precisamente «omissíssimo». Isto é fácil comprovar; já quanto à frase palindrómica mais extensa, ainda não foi escrita.

 

[Texto 12 625]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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13
Jan 20

O português das moções partidárias

Grau zero

 

      Ouvi na rádio a notícia, mas o Rajah não parava de falar — «Senhor, conduzirr em Lisboa muto peligroso.» —, além de que este duplo erro na oralidade não se revelaria em toda a sua crueza: uma moção ao IX Congresso do Livre, assinada por cinco militantes, intitulada «Recuperar o LIVRE, resgatar a política», termina com este parágrafo antológico: «Hei-nos chegados a um ponto em que as causas defendidas pelo LIVRE parecem não conseguir sobrepor-se ao ruído constante provocado pelos faits divers mais estapafúrdios; em que o coletivo parece soçobrar numa desmedida exposição mediática do indivíduo; em que o partido se arrisca a ver a sua própria sobrevivência posta em causa. Assim sendo, no caso de a deputada não se dispuser [sic] a renunciar às suas funções, o LIVRE não tem outra alternativa a não ser retirar-lhe a confiança política.»

      E pronto, é isto, chegámos ao grau zero da ortografia. Atingido este ponto, só podemos melhorar.

 

[Texto 12 624]

Helder Guégués às 18:59 | comentar | favorito
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10
Jan 20

Chefe mas pouco

Lições inesperadas

 

      «Insistiu que é preciso “estar alerta” e avisou que é contra a ideia de que “a melhor maneira de fazer política é o silêncio, fingir que as coisas não acontecem, meter a cabeça na areia e deixar que as coisas passem”. “Não. Acho que, quando há sinais como aqueles que foram dados na entrevista de um dos chefes ideológicos e políticos da extrema-direita americana [Steve Bannon] no Expresso todos devemos estar atentos e não levar a brincar estas questões”, afirmou, numa receção onde estava o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, diplomatas e deputados à Assembleia da República» («Três alertas em dois dias. Ferro Rodrigues volta à carga contra populistas: “Temo que algo grave se venha a passar”», Rádio Renascença, 7.01.2020, 21h15, itálico meu).

      Para a maioria dos jornalistas, a palavra inevitável, insubstituível, seria «líder». As lições vêm muitas vezes de onde menos as esperamos.

 

[Texto 12 610]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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06
Jan 20

É esta igualdade que querem?

Capitã, juíza, procuradora, poetisa...

 

       «A Capitão Edna Almeida tem 29 anos e a adjunta, a Alferes Sandra Pacheco, 24. Estão, desde o início de dezembro (do ano passado 2019) à frente do Destacamento Territorial de Moncorvo que comporta ainda os concelhos de Freixo de Espada à Cinta e Alfândega da Fé. As duas comandam 90 homens. [...]  A capitão e não capitã (é a designação para este posto da GNR, tanto para homens com para mulheres) Edna Almeida já este noutros comandos na zona de Lisboa, e agora aos 29 anos pediu para vir para perto da terra onde nasceu (Macedo de Cavaleiros)» («As mulheres que comandam 90 homens na GNR de Moncorvo», Afonso de Sousa, TSF, 1.01.2020, 15h23).

     As mulheres têm lutado muito, ao longo dos tempos, pela igualdade — e, neste caso, os homens anuem ou concedem de boamente: é sempre, homem ou mulher, «capitão». Irónico, não é? Se eu fosse mulher, queria ser capitã.

 

[Texto 12 577]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Chipre — omissão do artigo

O que se deve saber

 

      «Disse que era do Chipre e que se chamava Mike» (O Homem Que Via Tudo, Deborah Levy. Tradução de Alda Rodrigues. Lisboa: Relógio D’Água, 2019, p. 32).

      A tradutora — e o revisor, não mencionado — devia saber que o topónimo Chipre, em português de lei, não ocorre com artigo definido.

 

[Texto 12 576]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Dez 19

Eduardo dos Santos

Família Santos

 

      «Uma “caça às bruxas” contra a família Santos» («“Não sei se sou a mulher mais rica de Angola.” Isabel dos Santos diz que nunca foi favorecida pelo pai», Carolina Rico, TSF, 20.12.2019, 14h55). Muito bem, a jornalista acertou — acertou como não acertam revisores, tradutores, autores e outros jornalistas. Logo depois, porém, a própria Isabel dos Santos abre a boca e estraga a pintura: «Se me pergunta se há uma perseguição à família do antigo Presidente dos Santos, sim, há, isso é claro.»

 

[Texto 12 518]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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18
Dez 19

Léxico: «iglódromo»

Para juntar à lista

 

      «O futuro Centro de Exposições Transfronteiriço da Guarda vai ser construído no Parque Urbano — vulgarmente conhecido por Polis — na área onde está instalado o “Iglódromo”» («Centro de Exposições será no Parque Urbano do Rio Diz», O Interior, 13.12.2019). Está a revelar-se muito produtivo, ao que parece. Já aqui vimos, por exemplo, praxódromo, pescódromo, queimódromo, e até uns jocosos joelhódromo, cervejódromo e palmódromo. Entretanto, é claro, a noção do significado do elemento de composição -dromo perdeu-se quase completamente.

 

[Texto 12 491]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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Léxico: «feito de»

Nova tentativa

 

      «Uma equipa de dez investigadores do Instituto Politécnico de Viseu (IPV) e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro está a desenvolver um produto alimentar criado à base de insetos. A farinha de zângão foi criada há mais de um ano e já recebeu um prémio. A ideia partiu de um desafio feito a Paula Correia. [...] A farinha de zângão deverá começar a ser comercializada dentro de um ano, mas para que isso aconteça tem primeiro que ser concluído o registo deste produto no catálogo nacional de alimentos» («Pão e biscoitos feitos a partir de farinha de zangão», José Ricardo Ferreira, TSF, 17.12.2019, 9h31).

      O problema está, não na farinha de zângão (que tem «um ligeiro sabor picante» — vivos ou mortos, picam sempre), mas na fraseologia: basta escrever, José Ricardo Ferreira, «feitos de». O pior — pior, porque num dicionário, que vai permanecer por décadas e ser lido por muita gente — é que a Porto Editora também cai repetidamente no mesmo erro em várias definições. Já esta semana, na definição de «hemoderivado», por exemplo: «que ou substância que é produzida a partir do sangue ou dos seus constituintes». Ora, «feito de» é mais português, mais curto, mais lógico. Precisarão, acaso, de mais razões?

 

[Texto 12 490]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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