26
Out 20

Léxico: «anticovid»

É isso mesmo, A. S. R.

 

      «A Câmara de Paredes anunciou novas medidas preventivas para conter os efeitos da pandemia de covid-19 no concelho. As novas regras, que entraram hoje em vigor, passam pelo cancelamento de eventos públicos e pela redução do horário de funcionamento dos cafés e restaurantes» («Paredes reforça medidas anticovid», A. S. R., Jornal de Notícias, 22.10.2020, p. 21).

      Pois evidentemente! Agora grafar como o faz a Porto Editora, COVID-19, ou se vê por aí, Covid-19, é que gera monstros assustadores — anti-COVID-19 e anti-Covid-19! Poupem-nos. Felizmente, a esmagadora maioria da imprensa opta por escrever «covid-19».

 

[Texto 14 217]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (2) | favorito
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23
Nov 19

Léxico: «idade do gelo»

Houve muitas

 

      «O escorrega deserto parecia o esqueleto de um animal enorme, desaparecido durante a Idade do Gelo» (1Q84, Livro 3, Haruki Murakami. Tradução de Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso. Alfragide: Casa das Letras, 2012, p. 249). Esperava que estivesse nos dicionários, mas não. E a propósito: tendo havido já à volta de uma dúzia de idades do gelo, fará sentido grafá-la com maiúsculas iniciais? Ou, ao fazê-lo, estamos a referir-nos à última, ocorrida há vinte mil anos?

 

[Texto 12 340]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
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31
Jan 19

Pontos cardeais e colaterais

Talvez em Fevereiro

 

      «O Instituto Português do Mar e da Atmosfera registou esta manhã um sismo de magnitude 3.3 (na escala de Richter), com epicentro a cerca de oito quilómetros a Oeste-Noroeste de Silves» («Sismo de magnitude 3.3 registado perto de Silves», Carolina Rico, TSF, 31.01.2019, 12h52).

      Carolina Rico, se calhar já não é em Janeiro que vai escrever isto correctamente, não? O que está estabelecido no Acordo Ortográfico de 1990 é que a maiúscula deve ser usada apenas «nos pontos cardeais ou equivalentes, quando empregados absolutamente». Não é o caso. Estude um pouco, com sorte não vai morrer mais cedo por causa do esforço.

 

[Texto 10 691]

Helder Guégués às 16:34 | favorito
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16
Jan 19

Estrangeirismos e maiúscula

Aprofundando a questão

 

      «Vai ser preciso começar tudo de novo e é difícil acreditar que as clivagens ontem reveladas pelo Parlamento britânico permitam uma negociação aceitável pelos 27. O “Brexit” dificilmente poderá ser suave depois do que aconteceu. Os piores pesadelos para o futuro do Continente, Ilhas Britânicas incluídas, tornaram-se ainda mais reais» («God Save UK», Manuel Carvalho, Público, 16.01.2019, p. 6).

      Ainda se tem de equacionar esta questão: então se brexit é — qual a dúvida? — um estrangeirismo, não temos de o grafar como se faz na língua de que provém? Evidentemente. Logo, será Brexit. Nós não temos (embora muitos dos nossos tradutores se esqueçam ou não saibam) adjectivos próprios — mas é um estrangeirismo. Por fim, topónimos: é Ilhas Britânicas, com maiúscula, sim. Já «continente» com maiúscula é mera convenção com menos força e, no caso, nunca é a minha opção.

 

[Texto 10 598]

Helder Guégués às 14:02 | ver comentários (1) | favorito
16
Jan 18

A nor-nordeste de Arraiolos

Jornalismo desnorteado

 

      «Um primeiro comunicado informava que “pelas 11h51 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 4.9 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 8 km a Norte-Nordeste de Arraiolos”» («Sismo de 4,9 gera pânico em Évora. “Nunca senti uma coisa como esta”», Rosário Silva, Rádio Renascença, 15.01.2018, 11h59).

      Foi mesmo isto que se podia ler no comunicado do Instituto Português do Mar e Atmosfera? Bem, talvez seja verdade. Seja como for, as redacções deviam curar-se do psitacismo de que sofrem há anos e deixar de se limitar a copiarem o que diz a Lusa. Qualquer jornalista tem de saber que a única pontuação que se pode empregar na numeração é a vírgula, para separar a parte inteira da parte decimal. Logo, 4,9. Por outro lado, os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais grafam-se com minúscula inicial. Logo, norte-nordeste. Por último, nos pontos subcolaterais, o habitual é reduzir o primeiro termo. Logo, nor-nordeste. Só não aprendem se não quiserem.

 

[Texto 8585]

Helder Guégués às 08:47 | ver comentários (1) | favorito
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06
Set 17

Raças superiores

Agora é assim?

 

      «Eu sou Moritz, o Grand Danois por si comprado, no início da guerra, a um agricultor da Flandres» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 75). Neste caso, a maioria dos leitores não estranhará muito, ou encolherá os ombros, já que nem sequer é português. Mas aqui? «Quem conheceu Byron pôde testemunhar a imensa dor causada pela morte do seu cão Terra Nova, amigo de todas as horas, confidente de todos os instantes» (Idem, ibidem, p. 60). Ou aqui? «A questão da posse desse Perdigueiro nunca ficou resolvida entre mim e o meu pai» (Idem, ibidem, p. 223). E por aí fora: Pastor Alemão, Caniche, Galgo Afegão, etc. Pouco faltou para glorificarem a própria merda de cão: Cocó de Cão.

 

[Texto 8132]

Helder Guégués às 10:20 | ver comentários (1) | favorito
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