26
Mar 20

«O grupo capitaneado por...»

Já se sabe o que escreveriam

 

      Por vezes, em algumas coisas, os jornalistas brasileiros mostram ter mais trambelho do que os portugueses (jornalistas ou não): «Pesquisadores americanos e europeus conseguiram usar um método bem conhecido para identificar com precisão a presença de anticorpos contra o novo coronavírus no sangue humano. [...] O grupo capitaneado por Florian Krammer, da Escola de Medicina Icahn, no Hospital Mount Sinai (Nova York), divulgou os dados no site Medrxiv (www.medrxive.org), que é dedicado ao armazenamento dos chamados “pré-prints”, ou seja, versões iniciais de estudos que ainda não passaram pelo crivo de outros pesquisadores antes de serem aceitos para publicação em revista científica» («Método identifica anticorpos contra vírus», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 24.03.2020, p. B6).

 

[Texto 13 025]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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04
Mar 20

Como se escreve por aí

Um surto?

 

      «Ao dia de hoje parece inevitável que vamos ter de aprender a viver com o Covid-19. A infeção por este novo coronavírus registou os primeiros casos em Portugal. Para o ajudar a estar informado, o Expresso lançou esta newsletter exclusiva com as últimas novidades, sugestões de leituras e informação úteis, que lhe enviaremos sempre que seja oportuno» («Nova Newsletter Expresso — Tudo que precisa de saber sobre o novo coronavírus», Expresso, 3.03.2020). Está a alastrar, pois já vimos aqui recentemente: «Aos dias de hoje a população de Nisa não sabe quem eram as despenadeiras que entre os séculos XVIII e XIX terão abreviado a agonia a doentes terminais lá da terra, como constatou a TSF entre populares de várias idades. Mas à boleia do livro de Teófilo Braga é revelado que as despenadeiras acreditavam estar a praticar um ato de caridade poupando o moribundo ao sofrimento» («Quem eram as despenadeiras de Nisa? As mulheres que ajudavam a morrer», TSF, 20.02.2020, 10h47).

      Bem sei que o que está na moda é afirmar, garantir, que tudo está correcto, o que, evidentemente, é uma mentira irresponsável, mas eu não sigo por aí. Nunca antes vi esta expressão, que me parece mero decalque do castelhano, também não recomendável, a día de hoy/al día de hoy.

 

[Texto 12 890]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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10
Jan 20

Chefe mas pouco

Lições inesperadas

 

      «Insistiu que é preciso “estar alerta” e avisou que é contra a ideia de que “a melhor maneira de fazer política é o silêncio, fingir que as coisas não acontecem, meter a cabeça na areia e deixar que as coisas passem”. “Não. Acho que, quando há sinais como aqueles que foram dados na entrevista de um dos chefes ideológicos e políticos da extrema-direita americana [Steve Bannon] no Expresso todos devemos estar atentos e não levar a brincar estas questões”, afirmou, numa receção onde estava o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, diplomatas e deputados à Assembleia da República» («Três alertas em dois dias. Ferro Rodrigues volta à carga contra populistas: “Temo que algo grave se venha a passar”», Rádio Renascença, 7.01.2020, 21h15, itálico meu).

      Para a maioria dos jornalistas, a palavra inevitável, insubstituível, seria «líder». As lições vêm muitas vezes de onde menos as esperamos.

 

[Texto 12 610]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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06
Jan 20

«O facto de»

Curioso...

 

      «Todos diferentes, temos em comum [o facto de] cultivarmos vinhas próprias e fazermos vinhos com uma viticultura biológica provenientes de terras ou regiões ligadas às nossas origens, com vinificações naturais de baixa intervenção. Alguns dos vinhos não têm adição de sulfitos, a maioria deles leva doses baixas. Trabalhar de modo natural e artesanal não é um fim mas sim um meio para evidenciar a identidade do território de origem. Vivemos todos na região vitícola de Lisboa e o que nos une é gostarmos de vinho e estarmos a fazer um caminho conjunto na produção. Partilhamos material, ajudamo-nos no campo e na adega, somos críticos e francos sobre os vinhos uns dos outros, entre viagens pela Europa do vinho e boas gargalhadas» («Qualquer coisa se pode escrever, mas nem tudo o que se escreve tem fundamento», Público, 28.12.2019, 3h43), escreve um grupo de produtores de vinho em resposta a um artigo, que consideraram insultuoso, de Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinhos no Douro. Reparem: os autores, produtores de vinho, omitiram — e bem — a ominosa muleta «o facto de», que alguém no Público, certamente um jornalista, considerou imprescindível. Curioso...

 

[Texto 12 578]

 

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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12
Jul 19

O que se passa com esta gente?

Uma coisa sem senso

 

      «A luta derrotada para a introdução no Censos de uma pergunta sobre as “origens étnico-raciais” dos portugueses veio trazer a lume uma confusão categorial com potencial racista, aproveitada por Fátima Bonifácio, no PÚBLICO, a 6 de Julho» («A paixão xenófoba de Bonifácio, a questão cigana e o racismo de Estado», José Gabriel Pereira Bastos, Público, 12.07.2019, p. 20).

      Trata-se de um excerto de um artigo de opinião. O autor não é jornalista, mas sim antropólogo e psicanalista. A minha pergunta é só uma e muito simples: o que se passou entretanto para que pessoas à primeira vista normais, licenciadas e até doutoradas, escrevam «o Censos»?

 

[Texto 11 757]

Helder Guégués às 15:41 | comentar | favorito
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28
Jun 19

«Trabalhos de desconstrução»

Desconstrução civil

 

      De quando em quando, cai uma palavra ou expressão no goto dos jornalistas, e depois é até à exaustão: «Começaram esta manhã, os trabalhos de desconstrução do Prédio Coutinho. No interior ainda estão nove moradores que recusam a entregar seis habitações» («Prédio Coutinho começa a ser desmantelado», Rádio Renascença, 28.06.2019, 8h57). Agora é esperar, que já vem outra monomania que substituirá esta.

 

[Texto 11 634]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jun 19

Já não há poetisas

A inveja do pénis

 

      «Na primeira biografia dedicada à grande poeta, cabem, sem medos nem genuflexões, muitas das suas facetas» («Arquipélago de memórias», S. S. C., Visão, 16-22.05.2019, p. 123). Não vai demorar muito até os lexicógrafos darem conta que «poetisa» já não se usa. É que, nos últimos anos, as poetisas querem, à viva força, ser poetas (a inveja do pénis?), e os jornalistas, recenseadores, prefaciadores, etc., passaram a ter receio de as ofenderem se lhes chamarem poetisas. Ah, sim, e alguns, os mais «requintados», até já acham ridículo usar-se a palavra «poetisa». Quanto a mim, é a eles que acho ridículos e dignos de dó, e espero que passem tão depressa como a própria moda.

 

[Texto 11 596]

Helder Guégués às 09:56 | comentar | favorito
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16
Abr 19

Tradução: «maîtriser»

Ouro ou esterco

 

    «“O fogo está completamente sob controlo. Está parcialmente extinto, há ainda incêndios residuais para extinguir”, explicou o tenente-coronel Gabriel Plus, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Paris» («Fogo na catedral de Notre-Dame “sob controlo” e “parcialmente extinto”», Rádio Renascença, 16.04.2019, 6h06).

      É este o domínio da língua que os nossos jornalistas mostram. O que o porta-voz dos Bombeiros de Paris disse foi que o incêndio estava «complètement maîtrisé». Se traduzem maîtriser por «controlar» e contrôler também por «controlar», estamos feitos. Na verdade, como já tenho demonstrado, e fá-lo-ei de novo se for necessário, até tradutores literários vertem meia dúzia de verbos franceses ou ingleses por um único — «controlar». E depois arrogam-se o estatuto de co-autores, co-criadores. Gabam-se de criar ouro, como escreveu Voltaire dos que procuravam a pedra filosofal, quando nem sequer seriam capazes de criar esterco.

 

[Texto 11 195]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | favorito
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