10
Jan 20

Chefe mas pouco

Lições inesperadas

 

      «Insistiu que é preciso “estar alerta” e avisou que é contra a ideia de que “a melhor maneira de fazer política é o silêncio, fingir que as coisas não acontecem, meter a cabeça na areia e deixar que as coisas passem”. “Não. Acho que, quando há sinais como aqueles que foram dados na entrevista de um dos chefes ideológicos e políticos da extrema-direita americana [Steve Bannon] no Expresso todos devemos estar atentos e não levar a brincar estas questões”, afirmou, numa receção onde estava o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, diplomatas e deputados à Assembleia da República» («Três alertas em dois dias. Ferro Rodrigues volta à carga contra populistas: “Temo que algo grave se venha a passar”», Rádio Renascença, 7.01.2020, 21h15, itálico meu).

      Para a maioria dos jornalistas, a palavra inevitável, insubstituível, seria «líder». As lições vêm muitas vezes de onde menos as esperamos.

 

[Texto 12 610]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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06
Jan 20

«O facto de»

Curioso...

 

      «Todos diferentes, temos em comum [o facto de] cultivarmos vinhas próprias e fazermos vinhos com uma viticultura biológica provenientes de terras ou regiões ligadas às nossas origens, com vinificações naturais de baixa intervenção. Alguns dos vinhos não têm adição de sulfitos, a maioria deles leva doses baixas. Trabalhar de modo natural e artesanal não é um fim mas sim um meio para evidenciar a identidade do território de origem. Vivemos todos na região vitícola de Lisboa e o que nos une é gostarmos de vinho e estarmos a fazer um caminho conjunto na produção. Partilhamos material, ajudamo-nos no campo e na adega, somos críticos e francos sobre os vinhos uns dos outros, entre viagens pela Europa do vinho e boas gargalhadas» («Qualquer coisa se pode escrever, mas nem tudo o que se escreve tem fundamento», Público, 28.12.2019, 3h43), escreve um grupo de produtores de vinho em resposta a um artigo, que consideraram insultuoso, de Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinhos no Douro. Reparem: os autores, produtores de vinho, omitiram — e bem — a ominosa muleta «o facto de», que alguém no Público, certamente um jornalista, considerou imprescindível. Curioso...

 

[Texto 12 578]

 

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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12
Jul 19

O que se passa com esta gente?

Uma coisa sem senso

 

      «A luta derrotada para a introdução no Censos de uma pergunta sobre as “origens étnico-raciais” dos portugueses veio trazer a lume uma confusão categorial com potencial racista, aproveitada por Fátima Bonifácio, no PÚBLICO, a 6 de Julho» («A paixão xenófoba de Bonifácio, a questão cigana e o racismo de Estado», José Gabriel Pereira Bastos, Público, 12.07.2019, p. 20).

      Trata-se de um excerto de um artigo de opinião. O autor não é jornalista, mas sim antropólogo e psicanalista. A minha pergunta é só uma e muito simples: o que se passou entretanto para que pessoas à primeira vista normais, licenciadas e até doutoradas, escrevam «o Censos»?

 

[Texto 11 757]

Helder Guégués às 15:41 | comentar | favorito
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28
Jun 19

«Trabalhos de desconstrução»

Desconstrução civil

 

      De quando em quando, cai uma palavra ou expressão no goto dos jornalistas, e depois é até à exaustão: «Começaram esta manhã, os trabalhos de desconstrução do Prédio Coutinho. No interior ainda estão nove moradores que recusam a entregar seis habitações» («Prédio Coutinho começa a ser desmantelado», Rádio Renascença, 28.06.2019, 8h57). Agora é esperar, que já vem outra monomania que substituirá esta.

 

[Texto 11 634]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jun 19

Já não há poetisas

A inveja do pénis

 

      «Na primeira biografia dedicada à grande poeta, cabem, sem medos nem genuflexões, muitas das suas facetas» («Arquipélago de memórias», S. S. C., Visão, 16-22.05.2019, p. 123). Não vai demorar muito até os lexicógrafos darem conta que «poetisa» já não se usa. É que, nos últimos anos, as poetisas querem, à viva força, ser poetas (a inveja do pénis?), e os jornalistas, recenseadores, prefaciadores, etc., passaram a ter receio de as ofenderem se lhes chamarem poetisas. Ah, sim, e alguns, os mais «requintados», até já acham ridículo usar-se a palavra «poetisa». Quanto a mim, é a eles que acho ridículos e dignos de dó, e espero que passem tão depressa como a própria moda.

 

[Texto 11 596]

Helder Guégués às 09:56 | comentar | favorito
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16
Abr 19

Tradução: «maîtriser»

Ouro ou esterco

 

    «“O fogo está completamente sob controlo. Está parcialmente extinto, há ainda incêndios residuais para extinguir”, explicou o tenente-coronel Gabriel Plus, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Paris» («Fogo na catedral de Notre-Dame “sob controlo” e “parcialmente extinto”», Rádio Renascença, 16.04.2019, 6h06).

      É este o domínio da língua que os nossos jornalistas mostram. O que o porta-voz dos Bombeiros de Paris disse foi que o incêndio estava «complètement maîtrisé». Se traduzem maîtriser por «controlar» e contrôler também por «controlar», estamos feitos. Na verdade, como já tenho demonstrado, e fá-lo-ei de novo se for necessário, até tradutores literários vertem meia dúzia de verbos franceses ou ingleses por um único — «controlar». E depois arrogam-se o estatuto de co-autores, co-criadores. Gabam-se de criar ouro, como escreveu Voltaire dos que procuravam a pedra filosofal, quando nem sequer seriam capazes de criar esterco.

 

[Texto 11 195]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | favorito
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12
Mar 19

Os contabilistas e a tradução

Eles lá sabem

 

      «Depending on whether or not *** is counted is with them.» Isto é canja, terá pensado a tradutora: «Dependendo se a *** é ou não contabilizada.» O dinheiro assenhoreou-se do mundo, e cá estão os contabilistas a tratar até das traduções. É assim.

 

[Texto 10 952]

Helder Guégués às 22:08 | comentar | favorito
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26
Set 18

A língua nos últimos dias II

Até nos arrepiamos

 

      «Maravilhar é a palavra certa, confirma o biólogo brasileiro Luiz Rocha, curador da coleção de peixes da Academia de Ciências da Califórnia e colíder da expedição. “É um dos peixes mais bonitos que alguma vez vi”, confessa. “Quando mergulhámos, estávamos tão encantados com eles que ignorámos tudo o resto à volta”, conta divertido» («Peixes psicadélicos descobertos em recifes profundos no Brasil», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.09.2018, 6h16).

 

[Texto 9997]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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