16
Abr 19

Tradução: «maîtriser»

Ouro ou esterco

 

    «“O fogo está completamente sob controlo. Está parcialmente extinto, há ainda incêndios residuais para extinguir”, explicou o tenente-coronel Gabriel Plus, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Paris» («Fogo na catedral de Notre-Dame “sob controlo” e “parcialmente extinto”», Rádio Renascença, 16.04.2019, 6h06).

      É este o domínio da língua que os nossos jornalistas mostram. O que o porta-voz dos Bombeiros de Paris disse foi que o incêndio estava «complètement maîtrisé». Se traduzem maîtriser por «controlar» e contrôler também por «controlar», estamos feitos. Na verdade, como já tenho demonstrado, e fá-lo-ei de novo se for necessário, até tradutores literários vertem meia dúzia de verbos franceses ou ingleses por um único — «controlar». E depois arrogam-se o estatuto de co-autores, co-criadores. Gabam-se de criar ouro, como escreveu Voltaire dos que procuravam a pedra filosofal, quando nem sequer seriam capazes de criar esterco.

 

[Texto 11 195]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | favorito
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12
Mar 19

Os contabilistas e a tradução

Eles lá sabem

 

      «Depending on whether or not *** is counted is with them.» Isto é canja, terá pensado a tradutora: «Dependendo se a *** é ou não contabilizada.» O dinheiro assenhoreou-se do mundo, e cá estão os contabilistas a tratar até das traduções. É assim.

 

[Texto 10 952]

Helder Guégués às 22:08 | comentar | favorito
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26
Set 18

A língua nos últimos dias II

Até nos arrepiamos

 

      «Maravilhar é a palavra certa, confirma o biólogo brasileiro Luiz Rocha, curador da coleção de peixes da Academia de Ciências da Califórnia e colíder da expedição. “É um dos peixes mais bonitos que alguma vez vi”, confessa. “Quando mergulhámos, estávamos tão encantados com eles que ignorámos tudo o resto à volta”, conta divertido» («Peixes psicadélicos descobertos em recifes profundos no Brasil», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.09.2018, 6h16).

 

[Texto 9997]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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A língua nos últimos dias

Resistir ou deixar andar?

 

      «Enquanto foi possível obter acôrdo entre os principais dirigentes, não se tornava difícil resolver os casos litigiosos, os imprevistos, as omissões do Alcorão e da Suna» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 7).   

      Agora, os linguistas instantâneos afirmam, categóricos, que «líder» é o termo genérico, nem vale a pena resistir. É a evolução. Nas traduções e nos jornais, mete nojo: é «líder», «liderança» e «liderar» a torto e a direito. Oponho-me quanto posso, mas são muitos e eu sou só um.

 

[Texto 9995]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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12
Ago 18

«Pôr de lado/pôr em dúvida»

É a evolução, estúpido

 

      «António Costa coloca de lado uma hipótese de demissão do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. Para quem pensa que o ministro se vai demitir, “pode tirar o cavalinho da chuva”, disse o primeiro-ministro. [...] Primeiro, António Costa coloca em dúvida que os problemas que a comunicação social tem reportado existam, de facto» («Demissão do ministro da Saúde? Podem “tirar o cavalinho da chuva”, diz Costa», Rádio Renascença, 11.08.2018, 11h19).

      Então agora já não se diz pôr de lado e pôr em dúvida? Os desculpabilizadores andam por aí — e também escrevem livros, muito apreciados por eles próprios —, e asseguram que tudo está bem, é a evolução da língua, um organismo vivo.

 

[Texto 9763]

Helder Guégués às 09:31 | comentar | favorito
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18
Jun 18

Como se escreve por aí

O Céu e o Inferno

 

      «CEO da Audi detido devido a escândalo de emissões» (TSF, 18.06.2018, 11h15). «Esta segunda-feira, durante o romper do sol em Munique, a polícia deteve Rupert Stadler, o presidente executivo da Audi, uma marca do universo Volkswagen (99,5%)» («Uma decisão inesperada: protagonista da Audi sofre punição severa», Abílio Ferreira, Expresso Diário, n.º 1200, 18.06.2018).

 

[Texto 9442]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | favorito
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24
Abr 18

«Contabilização» por «contagem»

As melhoras

 

      «A contabilização do tempo de serviço militar obrigatório (que acabou definitivamente em 2004) passará a ter efeitos mais abrangentes do que até aqui, facilitando o acesso à reforma no regime geral de Segurança Social» («Serviço militar obrigatório facilita acesso à pensão», Raquel Martins, Público, 24.04.2018, p. 18).

      É o psitacismo jornalístico: um lembrou-se de dizer de forma diferente — e só por acaso errada —, e pouco depois já era uma legião. Que tristeza! Sempre se disse, e até as melhores cabeças concordavam que não havia nada para melhorar, «contagem de tempo de serviço», e agora, isto.

 

[Texto 9103]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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