12
Jul 19

O que se passa com esta gente?

Uma coisa sem senso

 

      «A luta derrotada para a introdução no Censos de uma pergunta sobre as “origens étnico-raciais” dos portugueses veio trazer a lume uma confusão categorial com potencial racista, aproveitada por Fátima Bonifácio, no PÚBLICO, a 6 de Julho» («A paixão xenófoba de Bonifácio, a questão cigana e o racismo de Estado», José Gabriel Pereira Bastos, Público, 12.07.2019, p. 20).

      Trata-se de um excerto de um artigo de opinião. O autor não é jornalista, mas sim antropólogo e psicanalista. A minha pergunta é só uma e muito simples: o que se passou entretanto para que pessoas à primeira vista normais, licenciadas e até doutoradas, escrevam «o Censos»?

 

[Texto 11 757]

Helder Guégués às 15:41 | comentar | favorito
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28
Jun 19

«Trabalhos de desconstrução»

Desconstrução civil

 

      De quando em quando, cai uma palavra ou expressão no goto dos jornalistas, e depois é até à exaustão: «Começaram esta manhã, os trabalhos de desconstrução do Prédio Coutinho. No interior ainda estão nove moradores que recusam a entregar seis habitações» («Prédio Coutinho começa a ser desmantelado», Rádio Renascença, 28.06.2019, 8h57). Agora é esperar, que já vem outra monomania que substituirá esta.

 

[Texto 11 634]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jun 19

Já não há poetisas

A inveja do pénis

 

      «Na primeira biografia dedicada à grande poeta, cabem, sem medos nem genuflexões, muitas das suas facetas» («Arquipélago de memórias», S. S. C., Visão, 16-22.05.2019, p. 123). Não vai demorar muito até os lexicógrafos darem conta que «poetisa» já não se usa. É que, nos últimos anos, as poetisas querem, à viva força, ser poetas (a inveja do pénis?), e os jornalistas, recenseadores, prefaciadores, etc., passaram a ter receio de as ofenderem se lhes chamarem poetisas. Ah, sim, e alguns, os mais «requintados», até já acham ridículo usar-se a palavra «poetisa». Quanto a mim, é a eles que acho ridículos e dignos de dó, e espero que passem tão depressa como a própria moda.

 

[Texto 11 596]

Helder Guégués às 09:56 | comentar | favorito
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16
Abr 19

Tradução: «maîtriser»

Ouro ou esterco

 

    «“O fogo está completamente sob controlo. Está parcialmente extinto, há ainda incêndios residuais para extinguir”, explicou o tenente-coronel Gabriel Plus, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Paris» («Fogo na catedral de Notre-Dame “sob controlo” e “parcialmente extinto”», Rádio Renascença, 16.04.2019, 6h06).

      É este o domínio da língua que os nossos jornalistas mostram. O que o porta-voz dos Bombeiros de Paris disse foi que o incêndio estava «complètement maîtrisé». Se traduzem maîtriser por «controlar» e contrôler também por «controlar», estamos feitos. Na verdade, como já tenho demonstrado, e fá-lo-ei de novo se for necessário, até tradutores literários vertem meia dúzia de verbos franceses ou ingleses por um único — «controlar». E depois arrogam-se o estatuto de co-autores, co-criadores. Gabam-se de criar ouro, como escreveu Voltaire dos que procuravam a pedra filosofal, quando nem sequer seriam capazes de criar esterco.

 

[Texto 11 195]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | favorito
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12
Mar 19

Os contabilistas e a tradução

Eles lá sabem

 

      «Depending on whether or not *** is counted is with them.» Isto é canja, terá pensado a tradutora: «Dependendo se a *** é ou não contabilizada.» O dinheiro assenhoreou-se do mundo, e cá estão os contabilistas a tratar até das traduções. É assim.

 

[Texto 10 952]

Helder Guégués às 22:08 | comentar | favorito
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26
Set 18

A língua nos últimos dias II

Até nos arrepiamos

 

      «Maravilhar é a palavra certa, confirma o biólogo brasileiro Luiz Rocha, curador da coleção de peixes da Academia de Ciências da Califórnia e colíder da expedição. “É um dos peixes mais bonitos que alguma vez vi”, confessa. “Quando mergulhámos, estávamos tão encantados com eles que ignorámos tudo o resto à volta”, conta divertido» («Peixes psicadélicos descobertos em recifes profundos no Brasil», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.09.2018, 6h16).

 

[Texto 9997]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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A língua nos últimos dias

Resistir ou deixar andar?

 

      «Enquanto foi possível obter acôrdo entre os principais dirigentes, não se tornava difícil resolver os casos litigiosos, os imprevistos, as omissões do Alcorão e da Suna» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 7).   

      Agora, os linguistas instantâneos afirmam, categóricos, que «líder» é o termo genérico, nem vale a pena resistir. É a evolução. Nas traduções e nos jornais, mete nojo: é «líder», «liderança» e «liderar» a torto e a direito. Oponho-me quanto posso, mas são muitos e eu sou só um.

 

[Texto 9995]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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