26
Set 18

A língua nos últimos dias II

Até nos arrepiamos

 

      «Maravilhar é a palavra certa, confirma o biólogo brasileiro Luiz Rocha, curador da coleção de peixes da Academia de Ciências da Califórnia e colíder da expedição. “É um dos peixes mais bonitos que alguma vez vi”, confessa. “Quando mergulhámos, estávamos tão encantados com eles que ignorámos tudo o resto à volta”, conta divertido» («Peixes psicadélicos descobertos em recifes profundos no Brasil», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.09.2018, 6h16).

 

[Texto 9997]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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A língua nos últimos dias

Resistir ou deixar andar?

 

      «Enquanto foi possível obter acôrdo entre os principais dirigentes, não se tornava difícil resolver os casos litigiosos, os imprevistos, as omissões do Alcorão e da Suna» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 7).   

      Agora, os linguistas instantâneos afirmam, categóricos, que «líder» é o termo genérico, nem vale a pena resistir. É a evolução. Nas traduções e nos jornais, mete nojo: é «líder», «liderança» e «liderar» a torto e a direito. Oponho-me quanto posso, mas são muitos e eu sou só um.

 

[Texto 9995]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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12
Ago 18

«Pôr de lado/pôr em dúvida»

É a evolução, estúpido

 

      «António Costa coloca de lado uma hipótese de demissão do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. Para quem pensa que o ministro se vai demitir, “pode tirar o cavalinho da chuva”, disse o primeiro-ministro. [...] Primeiro, António Costa coloca em dúvida que os problemas que a comunicação social tem reportado existam, de facto» («Demissão do ministro da Saúde? Podem “tirar o cavalinho da chuva”, diz Costa», Rádio Renascença, 11.08.2018, 11h19).

      Então agora já não se diz pôr de lado e pôr em dúvida? Os desculpabilizadores andam por aí — e também escrevem livros, muito apreciados por eles próprios —, e asseguram que tudo está bem, é a evolução da língua, um organismo vivo.

 

[Texto 9763]

Helder Guégués às 09:31 | comentar | favorito | partilhar
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18
Jun 18

Como se escreve por aí

O Céu e o Inferno

 

      «CEO da Audi detido devido a escândalo de emissões» (TSF, 18.06.2018, 11h15). «Esta segunda-feira, durante o romper do sol em Munique, a polícia deteve Rupert Stadler, o presidente executivo da Audi, uma marca do universo Volkswagen (99,5%)» («Uma decisão inesperada: protagonista da Audi sofre punição severa», Abílio Ferreira, Expresso Diário, n.º 1200, 18.06.2018).

 

[Texto 9442]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | favorito | partilhar
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24
Abr 18

«Contabilização» por «contagem»

As melhoras

 

      «A contabilização do tempo de serviço militar obrigatório (que acabou definitivamente em 2004) passará a ter efeitos mais abrangentes do que até aqui, facilitando o acesso à reforma no regime geral de Segurança Social» («Serviço militar obrigatório facilita acesso à pensão», Raquel Martins, Público, 24.04.2018, p. 18).

      É o psitacismo jornalístico: um lembrou-se de dizer de forma diferente — e só por acaso errada —, e pouco depois já era uma legião. Que tristeza! Sempre se disse, e até as melhores cabeças concordavam que não havia nada para melhorar, «contagem de tempo de serviço», e agora, isto.

 

[Texto 9103]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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05
Mar 18

Verbo «pôr», a segunda morte

E o vencedor é...

 

      Gostei do resultado do Festival da Canção. Cláudia Pascoal, com O Jardim, mereceu vencer. Quando não fosse por outra razão, percebe-se claramente a letra, o que não se pode dizer nem de metade dos participantes. Curioso, cantam, mas não percebemos patavina do que estão a dizer, tirando uma ou outra palavra. Quem também esteve mal foi o apresentador Pedro Fernandes quando disse para Filomena Cautela: «Mete a mão na anca, mete a mão na anca!» Ele é que, assim, mete os pés pelas mãos. Filomena Cautela podia meter a mão em alguns sítios, mas não de certeza na anca, uma proeminência. E pronto, agora vamos ver como será no Alta e Serena. Perdão, Altice Arena.

 

[Texto 8858]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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03
Fev 18

«Colocar perguntas»

A língua (mal) reinventada

 

      «Mas talvez por andarmos todos tão divertidos com isto, penso que os jornalistas se terão esquecido de colocar a João Correia uma pergunta muito importante, e que é de longe aquela que mais me interessa ver respondida: de quem é ele advogado, afinal?» («João Correia é advogado de quem, afinal?», João Miguel Tavares, Público, 3.02.2018, p. 52).

      Agora — e provavelmente para sempre — já não se fazem perguntas nem se pergunta, simplesmente: «colocam-se perguntas». De evolução em evolução até à extinção. É por isso que, gente próvida e sábia, nos propinam diariamente doses de inglês.

 

[Texto 8672]

Helder Guégués às 17:56 | comentar | favorito | partilhar
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13
Nov 17

Campos de futebol como medida

Alguma coisa mudou

 

      «Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol» («Ajuda pós-fogos. “Prontamente é o que se faz na Galiza. Em Portugal é estudos”», Rádio Renascença, 13.11.2017, 10h45).

      Ah, os famigerados campos de futebol, a medida de todas as coisas para os jornalistas portugueses. Mas esperem! Alguma coisa mudou: não faziam equivaler um campo de futebol a um hectare? Eu sei, eu sei, os campos de futebol não têm todos as mesmas dimensões. Mas insisto: o que mudou? Qual é agora o padrão?

 

[Texto 8333]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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