13
Mai 19

Uma gramática de alto-valiriano...

Alguma dúvida sobre isto?

 

      «Pode soar estranho, mas, sim, há mesmo pessoas pagas especificamente para criar as línguas fictícias faladas nos filmes e séries de televisão. Linguista de formação, há anos que David J. Peterson ganha a vida a inventar novos idiomas. [...] Ao longo da carreira, Peterson já criou mais de 50 línguas fictícias para projetos televisivos e cinematográficos. É ele o responsável pela existência do ‘Valyrian’ e do ‘Dothraki’, duas línguas faladas na aclamada série “A Guerra dos Tronos”. [...] Com o advento da internet, a aprendizagem de línguas ficcionais tornou-se uma possibilidade real para muitos fãs de filme e séries de culto. Algumas das mais conhecidas são o Klingon, a língua falada em “Star Trek” — que tem reunido um grupo impressionante de falantes desde a década de 1990, com o criador da língua, Mark Okrand, ainda a lançar regularmente novas palavras — e o Na’vi, falado em “Avatar”, o sucesso de bilheteiras de James Cameron» («Estudava ‘Valyrian’ 18 horas por dia. Uma das línguas da Guerra dos Tronos já tem gramática», Rita Carvalho Pereira, TSF, 13.05.2019, 13h25).

      Se Rita Carvalho Pereira também disser English em vez de inglês, é coerente; se não disser (como, apesar de tudo, supomos), então está errado. Ficcional, sim, mas traduzível, adaptável. «Valiriano», «dotraqui» e «clíngon», por exemplo. Na obra A Glória dos Traidores, de George R. R. Martin, publicada pela Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, o erro é outro (e repetido noutras obras da saga): escrevem «alto valiriano». Ora, se se escreve alto-alemão, tem de se escrever alto-valiriano. Pormenores da língua que escapam aos apressados.

 

[Texto 11 354]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | favorito
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Léxico: «ludita»

Nesse não

 

      «No século XIX, no início da revolução industrial, um grupo secreto de trabalhadores ingleses da indústria têxtil, conhecido por “ludistas”, destruíam as novas máquinas que ameaçavam os seus postos de trabalho. No século XXI, o carvão foi substituído por robots e inteligência artificial: segundo os dados do Eurobarómetro, nove em cada dez portugueses consideram que o novo carvão rouba — é mesmo este o verbo utilizado — os empregos existentes» («O novo carvão», Ana Fontoura Gouveia, economista, Nova School of Business and Economics, Público, 13.05.2019, p. 22).

      Há dicionários que registam «ludita» e «ludista» — felizmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não caiu nesse erro. Sim, para mim, erro. Ludismo, mas ludita. Já quanto à definição, muito ganharia o dicionário da Porto Editora se dissesse que é o «movimento surgido, no seio da indústria têxtil inglesa, no início do século XIX que se opunha à mecanização do trabalho e que considerava a industrialização a causa do desemprego e da miséria social».

 

[Texto 11 352]

Helder Guégués às 17:33 | comentar | ver comentários (4) | favorito
10
Mai 19

«Boa-Hora | Moel»

E um pouco de memória

 

      «“Um pesado de recolha do lixo da Câmara de Lisboa, quando estava a fazer marcha-atrás, caiu de uma altura superior a quatro metros para a Travessa da Boa-Hora à Ajuda, em circunstâncias ainda por apurar”, disse fonte dos bombeiros, referindo que o alerta foi dado pelas 00h20» («Acidente aparatoso em Lisboa. Camião do lixo cai para a rua e danifica viaturas», Rádio Renascença, 10.05.2019, 7h54).

      São mais as vezes em que se vê sem hífen do que com hífen — mas é com hífen que se escreve. Na placa toponímica da Travessa da Boa-Hora ao Bairro Alto, garanto que o hífen está lá. Os topónimos também são maltratados, essa é a verdade. Já hoje corrigi aqui uma jornalista que escreveu «São Pedro de Muel». Seja verdade ou não que Moel vem de Moer (antiga denominação da ribeira de Moel, situada a norte de São Pedro de Moel), temos de convir que como mnemónica é muito útil.

 

[Texto 11 341]

Helder Guégués às 09:17 | comentar | favorito
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14
Mar 19

Ortografia: «tintim por tintim»

Antes do incomum

 

      «Os sons que produzimos de forma espontânea para exprimir sentimentos como tristeza, raiva, vergonha, dúvida, surpresa, alegria ou calma são muito mais do que sons e dizem muito mais sobre aquilo que estamos a sentir. É como se não fosse necessário contar tudo ‘tim-tim por tim-tim’ porque, tal como o olhar, também as nossas expressões vocais são um espelho da alma» («A voz consegue transmitir pelo menos 24 emoções não verbais», André Rodrigues, Rádio Renascença, 14.03.2019).

      Ó André Rodrigues, já percebemos que é proclive a factos invulgares, exóticos, quando não inócuos. Para dizer tudo, ficava-lhe bem, à sua rubrica, o chamadoiro «Informação (In)útil», só que a ágil TSF apropriou-se dele. Agora vejamos: antes de tentar dominar o incomum, convém dominar a ortografia. Escreve-se, anote para sempre, tintim por tintim. E esqueça a porcaria das aspas.

 

[Texto 10 963]

Helder Guégués às 07:05 | comentar | favorito
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13
Mar 19

Ortografia: «palatabilidade»

O que se diz e o que se escreve

 

      «“Vamos tentar diminuir o fosforo [sic] o máximo possível sem tirar a palatibilidade[,] que é extremamente importante num produto como este”, conclui [a nutricionista Flora Correia]» («Uma alheira para doentes e atletas? Mirandela tem», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 13.03.2019, 11h00).

      De onde vem aquele primeiro i, podem explicar-nos? Pode ter sido a nutricionista a dizê-la assim, mas foi a jornalista que a escreveu — e devia ter corrigido o erro. Ou a nutricionista também usou a palavra «fósforo» sem acento?

 

[Texto 10 956]

Helder Guégués às 11:28 | comentar | favorito
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12
Mar 19

Ortografia: «preestabelecido»

Como se fosse novidade

 

      Há quem saiba: «Uma das consequências da liberalização dos costumes que ocorreu nos anos sessenta foi desaparecerem os modelos preestabelecidos para as relações humanas» (Tudo Tem o Seu Tempo, Ana Maria Magalhães. Alfragide: Editorial Caminho, 2012, p. 266). E há quem não saiba (quase sempre os mesmos): «Os sociais-democratas defendem que o protecionismo está a prejudicar o setor e dizem que os operadores beneficiariam de um regime aberto, sem limites territoriais e preços pré-estabelecidos, onde a lógica de mercado funcionasse» («PSD quer acabar com contingentes e uniformização no setor do táxi», Destak, 12.03.2019, p. 4).

 

[Texto 10 950]

Helder Guégués às 18:55 | comentar | favorito
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Ortografia: «minifrigorífico»

Como sempre

 

      Há quem saiba: «Em frente da cama, na parede, havia um grande LCD e, ao lado de uma escrivaninha com tampo de correr e de um minifrigorífico, uma mesa de jantar com quatro cadeiras» (Sozinhos na Ilha, Tracey Garvis Graves. Tradução de Mário Dias Correia. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 33). E há quem não saiba: «Além dos aparelhos de refrigeração com função de venda direta, os novos rótulos vão aplicar-se a cinco grupos de produtos domésticos, cada um com a sua versão. É o caso das máquinas de lavar loiça; máquinas de lavar roupa e máquinas de lavar e secar roupa; frigoríficos, incluindo os mini-frigoríficos para vinho; lâmpadas; e ecrãs eletrónicos, incluindo televisores» («Nova rotulagem daqui a dois anos», João Moniz, Destak, 12.03.2019, p. 4).

 

[Texto 10 949]

Helder Guégués às 18:52 | comentar | favorito
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