27
Mai 20

Como se escreve no Brasil

O padre e o ministro

 

      «A Igreja celebra hoje, no Domingo da Ascenção do Senhor, o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Neste ano, tem como tema “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2) A vida faz-se história. Papa Francisco se dedicou ao tema. Segundo ele, para não nos perdermos, precisamos respirar a verdade das histórias que edificam» («Histórias que edificam», padre Omar, reitor do Santuário do Cristo Redentor do Corcovado, O Dia, 24.05.2020, p. 4).

      Já menos edificante é a ortografia do padre Omar. Oh Senhor, é ascensão. Cá também temos muitas criaturas a darem o mesmo erro. E, ao mesmo tempo, vê-se isto: o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais chama-se Jorge Ascenção, mas na imprensa vê-se frequentemente o nome «corrigido» («errogido», diz a minha filha) para Jorge Ascensão. Ah, este mundo é muito curioso. O que mais falta é perspicácia e discernimento. Ainda assim, o P.e Omar parece saber um pouco mais de ortografia do que Abraham Weintraub, o ministro da Educação daquele país até há pouco decente e agora uma anedota.

 

[Texto 13 432]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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12
Mai 20

Tradução: «cluster»

Dificuldade nenhuma

 

      Também vi o filme Contágio, de 2011, realizado por Steven Soderbergh. Claro, agora já é tarde, mas queria lembrar ao tradutor, Ricardo Brito, da Solegendas, que se escreve fómites e não «fômites». Para começar. Por outro lado, devia ter-se esforçado um tudo-nada para ultrapassar a dificuldade — que não é, na verdade, dificuldade nenhuma — de traduzir cluster. Espero que esta pandemia que estamos a enfrentar lhe mostre o caminho.

 

[Texto 13 329]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | favorito
21
Fev 20

Ortografia: «fluido»

Convicções erradas

 

      «A ausência de gravidade faz com que os corpos dos astronautas percam massa muscular e densidade óssea, os olhos também ficam afetados e fluídos deslocam-se até ao cérebro» («“Banhos a seco” para estudar o corpo humano? A Agência Espacial Europeia procura participantes», Sofia Freitas Moreira, Rádio Renascença, 19.02.2020, 7h49).

      Não sabem escrever nem, naturalmente, pronunciar correctamente a palavra. Nada que uma boa reencarnação não resolva.

 

[Texto 12 853]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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06
Fev 20

Ganimedes

Está errado

 

      «Ganimedes é o terceiro satélite galileano de Júpiter e o maior de todos. De facto, é o maior satélite do Sistema Solar, sendo muito maior que Plutão e mesmo maior que Mercúrio embora tenha só cerca de metade da sua massa» (Pequeno Atlas do Sistema Solar, E. Ivo Alves. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 117).

      Ganimedes, pois então, e é também esta a grafia que a Porto Editora usa e a mesma que vejo consagrada na página 488 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Quer se trate do antropónimo ou do astrónimo, quer se trate do nome comum, não é acentuado. Ia perguntar porque é que então este espertalhão aqui diz que sem acento é a ortografia brasileira — ia, mas já não pergunto. Está numa famigerada enciclopédia colaborativa na internet. Está errado.

 

[Texto 12 775]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Fev 20

Ortografia: «cerebrocardiovascular»

Ainda acertam

 

      «“Não obstante o decréscimo verificado nos últimos anos, as doenças cérebro-cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal e a esperança de vida saudável aos 65 anos de idade é inferior à média europeia” sublinham os investigadores» («68% da população apresenta dois ou mais fatores de risco para doenças cardiovasculares», Rádio Renascença, 4.02.2020, 6h47).

      Eu também o sublinho, mas com a esferográfica vermelha: a grafia é cerebrocardiovascular.

 

[Texto 12 769]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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03
Fev 20

Uma ortografia em forma de assim

Aqui não há acordo

 

      «“Señores guardias civiles/Aqui pasó lo de siempre/Han muerto quatro romanos/Y cinco cartagineses”, escreveu Federico Garcia Lorca, pouco antes de o terem despachado sem cerimónia no escuro da noite andalusa, como mais um cartaginês. [...] Tudo bule com as nossas tradições. Dantes tínhamos o nosso 31 de Janeiro, no Porto. Resta-nos o 1 de Fevereiro, em Lisboa: ceguinhos a cantar que tinham morto [sic] o Rei e o Príncipe Real e fora triste cena de horror no Reino de Portugal» («Nada muda muito», José Cutileiro, TSF, 31.01.2020, 8h51).

      Só por fazer fronteira com Portugal, não se justifica dar esse cunho tão luso à Andaluzia. «O autor não escreve segundo a grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990», avisam-nos, mas isso não chega. Quanto ao «bule», tive de reler a frase, pois inicialmente, e não estou a brincar, como é sobre os Ingleses, era natural aparecer ali um bule. A terceira pessoa do singular do verbo bulir, José Cutileiro, é «bole». Pese embora o u do radical, na 2.ª e 3.ª pessoas do singular e na 3.ª do plural passa a o.

 

[Texto 12 751]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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16
Dez 19

Ortografia: «de mão-cheia»

Volto a lembrar

 

      «Era, além disso, uma cozinheira maravilhosa, uma jardineira de mão cheia, uma mulher que adorava beber o seu copo e se deliciava com uma partida de cartas. A casa de Pinner Hill Road cheirava a assados e a carvão e tinha sempre gente a entrar e a sair: a tia Win, irmã da mãe de Elton, o tio Reg, os seus primos, o homem que cobrava a renda, o senhor da lavandaria, o homem que vinha entregar o carvão» («Sir Elton John e o problema da mobilidade social», António Araújo, Diário de Notícias, 14.12.2019, p. 54).

      Já aqui vimos que se escreve com hífen, de mão-cheia. Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é assim que está grafado. E no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, claro.

 

[Texto 12 481]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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14
Dez 19

Desarranjos ortográficos

Prove-o

 

      «A maior alteração na ortografia da língua portuguesa, na variante lusoafricana depois do acordo ortográfico de 1990, foi a supressão das consoantes mudas ou não articuladas, ou seja, que não se pronunciam, tal como já acontece na variante brasileira» (Manual do Bom Português Atual, Lúcia Vaz Pedro. Vila Nova de Gaia: Calendário de Letras, 2016, p. 102).

      Começa logo por estar mal pontuada, mas esqueçamos agora esse pormenor. O bom português actual não é este, obviamente — e nem no português com o Acordo Ortográfico de 1990 se escreve «lusoafricano». Escreve? Prove-o.

 

[Texto 12 472]

Helder Guégués às 18:45 | comentar | favorito
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