19
Mai 18

«Alto-funcionário»?

Mais dúvidas do que certezas

 

      Merece este textinho à parte: finalmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora reconhece (ver aqui) que «campomaiorense» era incorrecto, e agora já grafa campo-maiorense. Uf! Pronto, siga. Só voltei a pensar no caso porque me apareceu agora aqui um «alto-funcionário» (para traduzir, notem bem, equerry, que já aqui nos ocupou). Está bem que, por analogia, processo que tantas vezes defendo, temos «alto-comissário», mas também é verdade que é dos poucos (único?) casos em que aparece hifenizado. É sempre «alto dignitário» que se escreve, por exemplo. Que dizem?

 

 [Texto 9249]

Helder Guégués às 16:17 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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11
Mai 18

Ortografia: «campo-maiorense»

Ora essa! Explica lá

 

      «Em 2015, perto de 7500 voluntários prepararam a última edição das Festas do Povo, na qual participaram 99 ruas, numa extensão de cerca de dez quilómetros, que se deram a conhecer ao mundo durante a famosa “noite da enramação”, na qual os campo-maiorenses se mobilizam para decorar cada uma das suas ruas, de forma a dar início às festas» («Flores de papel de Campo Maior vão decorar ruas de Hiroxima», Carlos Dias, Público, 11.05.2018, p. 19).

      Estranhamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «campomaiorense». E, contudo, acolhe «ponte-limense», em tudo igual. Não, está errado, é mesmo campo-maiorense. Que eu saiba, nos nomes de naturalidade ou nacionalidade formados por compostos, usa-se sempre o hífen. Excepção, assim à primeira vista, é somente neozelandês, e isso porque o primeiro elemento é uma forma reduzida.

 

[Texto 9205]

Helder Guégués às 11:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
23
Abr 18

Ortografia: «carroçaria»

Saberá que existem dicionários?

 

      «A Rua da Centieira é a Alfama do Parque das Nações. Com prédios que não passam do primeiro andar, muitos em avançado estado de degradação, não se assemelha em nada às vias largas e modernas da freguesia herdeira da Expo 98. [...] Na esquina da rua, continua de pé a fachada da UTIC, a União de Transportes para Importação e Comércio. Só que, por detrás da fachada, a fábrica de carrocerias de autocarros foi substituída por um condomínio de luxo» («Uma rua do século XIX num bairro do século XXI», Rádio Renascença, 23.04.2018, 8h00).

      Carroceria é variante, sim, mas apenas usada no Brasil, onde, em contrapartida, quase não usam a nossa carroçaria. O jornalista não devia ignorar isto, mas enfim. O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves nem sequer regista aquela variante, que está mais próxima do étimo francês, carrosserie. Não foi apenas a rua que veio do século XIX, mas a própria grafia: no início do século XX, ainda Leite de Vasconcelos dizia que «centeeira» — que é actualmente a única grafia — era alentejanismo. Centeeira é, para quem não sabe, o terreno onde foi semeado centeio. E temos mais topónimos derivados de «centeio».

 

[Texto 9089]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | favorito | partilhar
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03
Abr 18

Ortografia: «connosco»

Nunca o saberei

 

      «E, finalmente, é difícil falar quando caminhamos três quilómetros apenas para darmos conosco no meio do desfile do Dia dos Fundadores em Roseville, na Virgínia» (As Miúdas de Gallagher: Juro Dizer a Verdade, Toda a Verdade e nem sempre a Verdade, Ally Carter. Tradução de Rita Figueiredo e revisão de Joana Ambulate. Amadora: Booksmile, 2014, p. 215).

      A criancinha, que é quem está a ler este livro, diz-me que aparece pelo menos mais um «connosco» avariado. E foi revisto... Aliás, provavelmente, a culpa é toda da revisora: pode a tradutora ter escrito bem e a revisora errogiu, como diz a criancinha. Ou podem — azar é azar — ambas ignorar que o vocábulo «connosco» não foi (nem havia motivo para tal) alterado com o Acordo Ortográfico de 1990. E, se tem este erro, tem de ter outros e muito mais graves. Nunca o saberei. A não ser que me obriguem.

 

[Texto 9004]

Helder Guégués às 22:47 | comentar | favorito | partilhar
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02
Mar 18

Ortografia: «insulinodependente»

Falta de dicionários?

 

      «Até agora, a doença é divida em dois tipos. A diabetes de tipo 1 surge maioritariamente na infância e é também conhecida como Diabetes Insulino-Dependente, enquanto a de tipo 2, mais comum, é diagnosticada normalmente na idade adulta e causada por um desequilíbrio no metabolismo da insulina. [...] A investigação propõe cinco tipos de diabetes — as análises mostram diferenças genéticas em cada grupo» («Afinal, há cinco tipos de diabetes», Joana Carvalho Reis, TSF, 2.03.2018, 8h21).

      A jornalista Joana Carvalho Reis não frequenta dicionários, ou saberia que se escreve insulinodependente. Creio que no Brasil não se usam os termos «insulinodependência» e «insulinodependente». Em contrapartida, embora se usem cá, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista os vocábulos «insulinorresistência» e «insulinorresistente».

 

[Texto 8843]

Helder Guégués às 10:52 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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01
Mar 18

Neopelagianismo e neognosticismo

Era previsível

 

      «Texto do documento da Congregação para a Doutrina da Fé condena tanto o neo-pelagianismo como o neo-gnosticismo, ou seja, as ideias de que a pessoa se pode salvar a si mesma» («Vaticano publica documento sobre salvação, face às confusões deste tempo», Aura Miguel, Rádio Renascença, 1.03.2018, 13h10).

      Eu nem queria que fossem para os dicionários — se pelo menos os jornalistas, pessoas que lidam todos os dias com a língua escrita, não errassem nisto. Assim, tem de ser: neopelagianismo e neognosticismo. Uma escapatória, mas que não podem usar comigo, é afirmarem que está assim na carta aos bispos. Pois, mas cada macaco no seu galho. Placet ignorantibus.

 

[Texto 8837]

Helder Guégués às 14:04 | comentar | favorito | partilhar
11
Fev 18

Extremo Oriente

Extremo desmazelo

 

      «[Depois do ângelus, na Praça de São Pedro] O Papa endereçou também uma mensagem especial de congratulação às nações do extremo-oriente, que neste dia assinalam a passagem de ano lunar, um evento sempre acompanhado de grandes celebrações» («Papa inscreve-se na Jornada Mundial da Juventude no Panamá», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 11.02.2018, 11h57).

      Filipe d’Avillez, alguma dificuldade com os topónimos? Grafam-se com maiúscula inicial e só excepcionalmente têm hífen. Assim, é Extremo Oriente, como também Médio Oriente ou Próximo Oriente. (E os dias mundiais disto e daquilo também se grafam com maiúscula: Dia Mundial do Doente. Acredite: fazer bem e fazer mal levam o mesmo tempo.)

 

 [Texto 8727]

Helder Guégués às 17:20 | comentar | favorito | partilhar
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10
Fev 18

Ortografia: «bege»

E não há outra

 

      «Minutos depois, David McNaughton aparece em trajes beije-caqui de explorador e leva-nos a bordo da sua carrinha» («Uma lança bóer na África do Sul», Marco C. Pereira, suplemento «b. i.»/Sol, 20.01.2018, p. 29).

      Podia ser uma nova cor inventada por Marco C. Pereira, mas não, é apenas um erro. É bege que se escreve, Marco C. Pereira. «Beije» é uma forma verbal.

 

 [Texto 8719]

Helder Guégués às 18:24 | comentar | favorito | partilhar
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