18
Jul 19

Ortografia e jornais

Henrique, o Inverificador

 

      Vamos agora para coisas mais miúdas. «A este propósito da diversidade, bastaria ver a votação de terça-feira para a detetarmos. Gente de todas as etnias, vestidas de formas que iam do ‘ultraformal’ ao ‘estilo campista’, temos representantes. Até para o mau-gosto piroso, como Berlusconni, que com a mão direita entrapada fazia questão de distribuir sorrisos e apertos de mão (com a esquerda)» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      Henrique Monteiro, salta à vista, é muito mais cuidadoso na escrita do que muitos outros jornalistas — mas também descura certos aspectos, como, neste caso, o nome de um político. Como jornalista, não é o que devia fazer, verificar? É Berlusconi. E em que dicionário viu Henrique Monteiro a grafia «mau-gosto»? Aqui entram os dicionários: porque é que não registam, no verbete gosto, a subentrada «bom gosto» e «mau gosto»? Sim, há outras: «bom humor»/«mau humor», etc. Diga-se também, vem mesmo a propósito, que não há em Portugal, do que conheço, jornal que, na edição em linha, aplique tão indecorosamente mal as regras do Acordo Ortográfico de 1990 como o Expresso. Se respeitassem, como deviam, os leitores, deixavam hoje mesmo, agora, de aplicar a execrável nova grafia e dedicavam-se a reaprender as regras do Acordo Ortográfico de 1945. Demoraria, mas o progresso seria mais seguro. Teria de haver novo período de transição, agora para trás.

 

[Texto 11 805]

Helder Guégués às 11:52 | comentar | favorito
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06
Jul 19

O drama das maiúsculas e das minúsculas

Impenetrável

 

      «Em Portugal, acompanhados por Dan Graham, estiveram na luxuosa moradia do ex-treinador do Manchester United em Troia, onde aproveitaram para ir à praia e apanhar banhos de Sol» («De Troia até ao Porto», Carolina Pinto Ferreira, Correio da Manhã, 5.07.2019, p. 38).

      Se falham nestas merdices, já dá para adivinhar como será no resto. Os arcanos por detrás de Sol/sol são impenetráveis.

 

[Texto 11 695]

Helder Guégués às 14:51 | comentar | favorito
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29
Jun 19

Contra o AO90

Mais de dois por ano

 

      Na sua crónica no Público, diz hoje Pacheco Pereira que prometeu a si próprio escrever um ou dois artigos por ano contra o Acordo Ortográfico de 1990. Cada um faz o que pode.

      Vamos a um caso prático. Vou adoptar um gato. Naturalmente, não quero ir muito longe buscá-lo. Pesquiso na aplicação da OLX: «gatos adopção». Um tigrado de olhos azuis podia ser o eleito. Depois lembro-me da divisão que quiseram fazer na sociedade portuguesa, amaldiçoo aquela gente toda e escrevo, simulando cuspir para o lado: «gatos adoção». Aparecem oito resultados — nenhum coincidente com a outra pesquisa. Podem objectar-me: «Mas isso é a aplicação que não está bem concebida!» É então esse o problema, a aplicação, não o acordo? Alguém inteligente pode fazer semelhante afirmação?

      Com as décadas que levamos de democracia depois do 25 de Abril, estou convencido de que a imposição do AO90 foi a decisão política mais estúpida, desnecessária e antidemocrática.

 

[Texto 11 644]

Helder Guégués às 17:22 | comentar | favorito
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26
Jun 19

Léxico: «mesa-tenista»

Agora também é nossa

 

      «Fu Yu conquistou, esta quarta-feira, a medalha de ouro de ténis de mesa dos II Jogos Europeus, que decorrem em Minsk, na Bielorrússia. A mesa-tenista portuguesa, de 40 anos, derrotou a alemã Ying Han, de 55, por 4-2 (11-5, 11-8, 9-11, 9-11, 11-6 e 11-7)» («Fu Yu conquista medalha de ouro dos Europeus em ténis de mesa», Rádio Renascença, 26.06.2019, 16h51).

      A palavra veio mesmo do Brasil? Bem, não interessa, está a ser usada entre nós cada vez com maior frequência. (No Observador, a jornalista Mariana Fernandes ainda não encontrou, no caos da redacção, o dicionário certo.)

 

[Texto 11 624]

Helder Guégués às 17:34 | comentar | favorito
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12
Jun 19

Ortografia: «corte»

Os erros dos que chegam agora

 

      «Henrique Raposo critica ainda aquilo a que chama “as portas giratórias da côrte lisboeta”: “são sempre as mesmas pessoas que almoçam nos mesmos sítios que se convidam uns aos outros”» («Sócrates, Berardo, a banca. “As portas giratórias da côrte lisboeta”», Rádio Renascença, 12.06.2019).

      A Rádio Renascença tem muito disto, talvez até mais do que outras — são os restos das rádios ágrafas, como já aqui escrevi. Era bom que ainda houvesse esses acentos diferenciais (assim como também o trema seria bem-vindo) para distinguir certas homógrafas, errar-se-ia muito menos na pronúncia. Agora, Rádio Renascença, seja para reis, seja para animais, seja forma verbal, é sempre e só corte. Só varia a pronúncia.

 

[Texto 11 528]

Helder Guégués às 12:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Jun 19

Ortografia: «xadrez»

E não se corrige?

 

      «Sem se assumir como líder de um partido anti-PAN, Santana Lopes mostra atenção à última surpresa do xadrês partidário nacional e, embora defenda os valores e tradições portugueses, admite que nos eventos polémicos que envolvam a utilização de animais, o Aliança será “liberal”: “Não gostamos de proibições”, afirma» («Santana escreve às “Aliadas” e “Aliados” e admite “referendos locais” sobre touradas», Ângela Silva, Expresso, 10.06.2019, 20h11).

      A jornalista Ângela Silva está quase a escrever em tétum: nesta língua é que se escreve xadrés. Em português é xadrez, como tinha obrigação de saber. (E tão boa mnemónica que proporciona.) Já tenho deparado com o erro, é verdade, mas num jornalista é sempre mais grave.

 

[Texto 11 522]

Helder Guégués às 15:24 | comentar | favorito
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24
Mai 19

Pobre ortografia, pobres leitores

Trágico

 

     A pressa do jornal i em dar a notícia (puf!) do dia até o levou a esquecer as basezinhas da primária: «May afirmou que fez tudo ao seu alcançe para chegar a um acordo para o Brexit» («É oficial: Theresa May apresenta demissão», 9h58). Para esta gente, questões como seguir ou não o Acordo Ortográfico de 1990 é pura bizantinice. O problema não é a ortografia — são eles. Imaginem agora o impacto destes dislates constantes — e em todos os meios de comunicação — nos falantes, eles próprios já analfabetos funcionais, ou perto disso. (Regista analfabetismo funcional, Porto Editora.)

 

[Texto 11 410]

Helder Guégués às 12:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Mai 19

«Bertolt Brecht | Leibniz»

Eugen & Gottfried

 

      Eugen Berthold Friedrich Brecht era um inconstante e, se primeiro pensou que o h estava a mais no nome, mais tarde trocou o d por t, para ficar conhecido por Bertolt Brecht. Acontece que alguns tradutores só sabem metade da história, e escrevem sempre, são constantes, «Bertold Brecht». Outro azarado é Leibniz, não raro deturpado em «Leibnitz».

 

[Texto 11 394]

Helder Guégués às 11:12 | comentar | favorito
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13
Mai 19

Uma gramática de alto-valiriano...

Alguma dúvida sobre isto?

 

      «Pode soar estranho, mas, sim, há mesmo pessoas pagas especificamente para criar as línguas fictícias faladas nos filmes e séries de televisão. Linguista de formação, há anos que David J. Peterson ganha a vida a inventar novos idiomas. [...] Ao longo da carreira, Peterson já criou mais de 50 línguas fictícias para projetos televisivos e cinematográficos. É ele o responsável pela existência do ‘Valyrian’ e do ‘Dothraki’, duas línguas faladas na aclamada série “A Guerra dos Tronos”. [...] Com o advento da internet, a aprendizagem de línguas ficcionais tornou-se uma possibilidade real para muitos fãs de filme e séries de culto. Algumas das mais conhecidas são o Klingon, a língua falada em “Star Trek” — que tem reunido um grupo impressionante de falantes desde a década de 1990, com o criador da língua, Mark Okrand, ainda a lançar regularmente novas palavras — e o Na’vi, falado em “Avatar”, o sucesso de bilheteiras de James Cameron» («Estudava ‘Valyrian’ 18 horas por dia. Uma das línguas da Guerra dos Tronos já tem gramática», Rita Carvalho Pereira, TSF, 13.05.2019, 13h25).

      Se Rita Carvalho Pereira também disser English em vez de inglês, é coerente; se não disser (como, apesar de tudo, supomos), então está errado. Ficcional, sim, mas traduzível, adaptável. «Valiriano», «dotraqui» e «clíngon», por exemplo. Na obra A Glória dos Traidores, de George R. R. Martin, publicada pela Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, o erro é outro (e repetido noutras obras da saga): escrevem «alto valiriano». Ora, se se escreve alto-alemão, tem de se escrever alto-valiriano. Pormenores da língua que escapam aos apressados.

 

[Texto 11 354]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | favorito
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