19
Set 18

Só se fosse em inglês

Mais choferes e mais erros

 

      «Os taxistas manifestam-se em Lisboa, Porto e Faro contra a entrada em vigor, em novembro, da lei que regula as quatro plataformas eletrónicas de transporte que operam em Portugal – Uber, Taxify, Cabify e Chaffeur Privé» («#Somos Táxi. ANTRAL admite prolongar protesto e deixa apelo aos partidos», Rádio Renascença, 19.08.2018, 8h43).

      Graças a Deus, # Não Somos Táxi. Adiante. Eu não sabia que já tínhamos outro concorrente. Não admira, é novo — tão novo que os jornalistas ainda nem atinam com a grafia correcta. É Chauffeur Privé.

 

[Texto 9944]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito | partilhar
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13
Set 18

Léxico: «papel-bíblia»

O catálogo é mais vasto

 

      «Para Lobo Antunes[,] esta publicação numa coleção tão especial, desde a encadernação ao papel bíblia, tem um valor comparável ao prémio da Academia Sueca: “Estar na Pléiade é como receber um Nobel.” Acrescenta: “É uma biblioteca onde se encontram vários Nobel da Literatura.”» («António Lobo Antunes: “Estar na Pléiade é como receber o Nobel”», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 12.09.2018, 18h26).

      É papel-bíblia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem um escasso catálogo: papel-alumínio e papel-carbono. Dêem uma olhadela no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 9907]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
12
Set 18

«Cônjuge», uma palavra amaldiçoada

Há poucas assim

 

      «Atualmente, a Constituição romena diz que um casamento é uma união entre “conjugues”, não definindo sexo nem orientação sexual» («Roménia vai referendar definição constitucional de “família”», Rádio Renascença, 12.09.2018, 14h53).

      Pobres Romenos, e pobres jornalistas, leitores e ouvintes. Então não é cônjuge, caramba? E conseguirão articular a palavra sem umas sessões de terapia da fala? E escrevê-la sem um professor ou revisor ao lado? Há poucas palavras tão maltratadas como «cônjuge»: estropiam-na na oralidade e na escrita, e aqui de várias maneiras. E, para cúmulo, deram em falar de «o» cônjuge e «a» cônjuge. A palavra é do género masculino!

 

[Texto 9906]

Helder Guégués às 16:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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11
Set 18

Ortografia: «sopinha-de-massa»

Houve uma troca

 

      «Jorge Dias conhece Carlos desde os tempos em que era juiz-de-linha. O primeiro não britânico a dirigir a final de Wimbledon (em 2001) reconheceu-lhe, desde logo, algumas qualidades para ser um bom árbitro: boa apresentação e educação, sabia comunicar bem, tinha bom espírito de equipa, sabia ouvir e gostava de aprender, mas era “sopinha de massa” e quando falasse poderia ser alvo de gozo. “Certo é que resolveu ser operado e lembro-me que teve que aprender a falar de novo. Isto só para demonstrar a força de vontade e a personalidade que ele tinha em querer mudar para ter futuro na arbitragem”, recorda Dias, que, em 2007, viu Ramos suceder-lhe numa final de Wimbledon, aquela em que Roger Federer conquistou o quinto título consecutivo no torneio» («Inflexibilidade faz de Carlos Ramos um dos melhores do mundo», Pedro Keul, Público, 11.09.2018, p. 40).

      Pedro Keul, é sopinha-de-massa (e esqueça as aspas). Não é consensual, mas eu escrevo juiz de linha. Se quiser fugir à polémica e à dúvida, escrevo juiz auxiliar.

 

[Texto 9897]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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09
Set 18

Ortografia: «beneficente»

Para quê, não é?

 

      «Este ano Sadie Bristow já tinha vencido mais de 40 jogos de ténis no segmento da liga inglesa para a sua idade: 9 anos. Mas a jovem tenista britânica não resistiu a um choque anafilático durante as férias com a família na região de Kent. Ainda foi aerotransportada para o Hospital São Jorge em Londres[,] mas não sobreviveu. [...] O pai anunciou que pretende criar uma organização beneficiente com o seu nome para pessoas com a mesma doença: “Ela foi uma inspiração e queremos que isso continue”» («Jovem tenista inglesa morre aos 9 anos», Diário de Notícias, 7.09.2018, 21h00).

      Como é que ainda há jornalistas que erram em coisa tão comezinha? É beneficente, como é beneficência, outra vítima frequente da insciência dos torcionários da língua. No caso, o mais revoltante é que a edição é digital e ninguém corrige nada — mas não deixam de receber o preço da edição premium. Passam minutos, horas e dias e é como se tivesse sido escrito na pedra. Tinha de haver aqui, na falta de revisores, uma revisão cruzada feita pelos próprios jornalistas: se foi escrito por A, é relido/revisto por B.

 

[Texto 9884]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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05
Set 18

Léxico: «cherem»

Ah, isso é que não é

 

      «Espinosa nasceu e viveu em Amesterdão, mas foi banido da Sinagoga Portuguesa em 1656, tendo de abandonar a cidade. O chérem que sofreu é a punição máxima da religião judaica, mas, de início, nada fazia prever a heresia» («Nos Países Baixos», Carlos Fiolhais, Público, 5.09.2018, p. 39).

      Também não se compreende esta ortografia. O acento agudo representa alguma espécie de aportuguesamento? Então, não se escreve em itálico. Mais e muito mais importante: o cherem, uma espécie de anátema (e não de excomunhão, como se lê aqui e ali), não é a punição máxima da religião judaica.

 

[Texto 9864]

Helder Guégués às 11:01 | comentar | favorito | partilhar
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Pobre ortografia

Então, é simples

 

      «A rádio pública de Israel emitiu um pedido de desculpa aos seus ouvintes depois de ter passado uma música [Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses)] de Richard Wagner. O compositor alemão do século XIX não é bem visto [sic] em Israel, por causa das suas posições antisemitas e por ser adorado por Adolf Hitler» («Rádio israelita pede desculpa por passar Richard Wagner», Rádio Renascença, 4.09.2018, 15h56).

      Disseram-lhes que com o Acordo Ortográfico de 1990 era simples, bastava eliminar os hífenes, e eles assim fizeram: «anti-semita», é claro, passa logo a *«antisemita». (Richard Wagner malvisto em Israel por ser «adorado» por Hitler passa um pouco das marcas. E se Hitler também «adorasse» salsichas, que devíamos fazer? No mesmo artigo: «O pedido de desculpa da rádio pública foi criticado por Jonathan Livny, diretor da Wagner Society de Israel, para quem o mais importante é a “beleza” da música e não as ideias de quem a compõe.» O Times of Israel alarga-se nos motivos da rejeição do legado wagneriano: «is infused with anti-Semitism, misogyny, and proto-Nazi ideas of racial purity, was Adolf Hitler’s favorite composer».)

 

[Texto 9858]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | favorito | partilhar
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23
Ago 18

Topónimo: «Catar»

É assim tão difícil?

 

      «Para os espectadores da emissora de televisão jornalística do Catar a série começa, após uma breve introdução, com o tráfico de escravos português e com o historiador G. Ugo Nwokeji a declarar o seguinte: “no começo, (a escravatura) foi um projecto português. Os portugueses acabavam de sair das Cruzadas, durante as quais tinham levado a cabo uma guerra terrível contra os muçulmanos. Uma parte da aventura (portuguesa) em África visava, aliás, protegê-los dos muçulmanos e manter uma vantagem sobre estes.”» («Falsificando a história: da Al Jazira para os ingénuos deste mundo», João Pedro Marques, Público, 21.08.2018, p. 38).

 

[Texto 9819]

Helder Guégués às 07:08 | comentar | favorito | partilhar
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