17
Dez 19

E o plural de «curriculum» é...

Também não vejo desculpa

 

      «“Tinha a expectativa de que — quando aceitei o seu convite que muito me honrou — ao escolher uma direção de enorme valia profissional, diversa nos curriculuns, nas experiências e no género, formada por jornalistas com provas dadas da sua competência e rigor, de poder contribuir para prestigiar o serviço público de televisão e todos os que nele trabalham”, acrescentou Flor Pedroso, que termina agradecendo ao presidente da RTP, Gonçalo Reis, “pela forma sempre leal e frontal” com que foram “ultrapassando os problemas que iam surgindo”» («“Insinuações, mentiras e calúnias.” A carta de demissão de Maria Flor Pedroso», TSF, 16.12.2019, 14h31).

      Há-de ser para rimar com «puns». Não, Maria Flor Pedroso, o plural de curriculum não é «curriculuns». Não se devia dar à maçada de inventar o que já foi inventado: ou opta pelo plural latino, curricula, ou pelo plural português, currículos.

 

[Texto 12 489]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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06
Dez 19

«Homo sapiens» tem plural?

O homem que (por vezes) sabe

 

      «Eu poderia dizer que o texto de João Miguel Tavares podia servir de ilustração da definição de ideologia que dou no texto em cima; também podia apontar a contradição lógica de alguém que escreve “a minha carta a Greta Thunberg”, ao mesmo tempo que denuncia os que usam a popularidade da jovem sueca “para se porem em bicos de pés”. Mas aquilo a que fui mesmo sensível foi à declinação de homo sapiens no singular, quando a frase exigia o plural, isto é homines sapientes. Este pecado gramatical, esta insensibilidade filológica, é de longe muito mais grave do que o aquecimento climático. Digo-o não do lugar de um latinista, mas de quem não perdoa à escola que lhe coube em sorte, no seu tempo de aluno, os métodos miseráveis e bafientos do ensino do latim, o que só me faz aumentar o respeito por tudo o que já esqueci» («Livro de recitações», António Guerreiro, «Ípsilon»/Público, 6.12.2019, p. 2). O excerto do texto de João Miguel Tavares em causa era este: «Esta ideia de nos apoiarmos no legado de gente extraordinária remete para uma gratidão em relação ao nosso passado, e aos sacrifícios que foram feitos por milhões de homo sapiens que nos precederam, até atingirmos um nível de vida sem paralelo na história da humanidade» («A minha carta para Greta Thunberg», João Miguel Tavares, Público, 3.12.2019, p. 48).

      Que exagero para aí vai, António Guerreiro. O que vejo logo é que João Miguel Tavares pelo menos usou o itálico, o que não fez no seu texto. Sim, homines sapientes é o plural de homo sapiens, mas atendamos ao contexto. A locução Homo sapiens designa uma espécie e, como tal, insusceptível de pluralização. (Neste ponto, também importava averiguar se em algum outro texto João Miguel Tavares a grafou Homo sapiens.) Todavia, como se pretendia referir um conjunto de espécimes do Homo sapiens, uma forma possível seria escrever «milhões de espécimes do Homo sapiens» ou algo semelhante. Jamais optaria — e eu também estudei Latim — por escrever homines sapientes, sob pena de trazer para um texto do século XXI alguma dessa miséria e bafio a que alude. Para terminar: nunca li em nenhum texto, científico ou não, português ou noutra língua, o plural homines sapientes para designar um conjunto de espécimes do Homo sapiens.

 

[Texto 12 426]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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03
Dez 19

Léxico: «índex»

Depende do país, querem ver?

 

      «Lê-se mais que nunca, possivelmente. Sobretudo SMS, legendas, títulos, palavras soltas. Livros inteiros, páginas de texto, sequencialmente, do principio [sic] ao fim, provavelmente, lê-se, cada vez menos. Os livros hoje têm muitas entradas: índices, indexes, capítulos, subcapítulos, títulos, legendas, tabelas, imagens, gráficos, etc. O texto de hoje é um texto imagético, que lemos como vemos uma imagem. Hoje é o mundo que é feito imagem, uma marca da nossa época como comentou Martin Heidegger, que evidentemente levou a escrita consigo» («O fim do alfabeto», Fernando Ilharco, Jornal de Negócios, 29.11.2019, p. 27).

      Os leitores vão lá saber a diferença entre «índice» e «índex»... Seja como for, não vamos agora preocupar-nos com essa questão, mas sim com o plural de índex. Fernando Ilharco, professor universitário, tem aqui 0 valores. O dicionário da Porto Editora afiança que se trata de um «nome masculino de 2 números». O VOLP da Academia Brasileira de Letras, entre outros, ensina que é «índices». É a minha opinião, e já aqui expliquei de forma bem singela porquê.

 

[Texto 12 393]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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15
Jun 19

Plural dos apelidos, mais uma vez

Vá lá

 

      «Mas já alguma vez aqueles que hoje falam das elites incluíram a Associação Industrial, ou a Confederação da Indústria, os Amorins e os Pereiras Coutinhos, ou os Soares dos Santos, ou os Melos, etc.? Mas certamente que incluiriam a Fenprof e a CGTP» («A nostalgia das causas», José Pacheco Pereira, Público, 15.06.2019, p. 12).

 

[Texto 11 540]

Helder Guégués às 19:41 | comentar | favorito
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07
Jun 19

Os Obamas no Spotify

Ainda há esperança

 

      «A produtora do ex-Presidente dos Estados Unidos Barack Obama e da sua mulher Michelle assinou um acordo com a plataforma Spotify para produzir ‘podcasts’ exclusivos» («Obamas vão produzir ‘podcasts’ exclusivos para o Spotify», Rádio Renascença, 7.06.2019, 2h10).

      Querem ver que isto ainda se endireita? Está bem que o mérito neste caso é relativo — pois se o jornalista tinha escarrapachado à frente do nariz «Obamas», foi apenas deixar-se ir, e nisto eles são bons.

 

[Texto 11 499]

Helder Guégués às 12:58 | comentar | favorito
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06
Jun 19

Plural: «social-democrata | sociais-democratas»

Tem de ser explícito

 

      «Na sequência de depurações ao mais alto nível, os partidos sociais-democratas de Leste, tal como outros, aceitaram o estatuto de meros instrumentos dos partidos comunistas» (Socialismo sem Dogma, Sottomayor Cardia. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982, p. 116).

      Há coisas que não podem ficar na sombra: bem sei que a opção da Porto Editora é a de pluralizar — como eu faço e defendo — em sociais-democratas tanto o adjectivo como o substantivo, mas tem de o fazer, para se tornar verdadeiramente útil, como decerto será o seu escopo, explicitamente. Dúvidas já os falantes têm, e não são poucas, agravadas por aqueles que vêm deliberadamente, a coberto do anonimato, sugerir o contrário do que eles próprios fazem.

 

[Texto 11 492]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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05
Jun 19

Vanzeleres

À altura dos olhos

 

      Um amigo meu, poeta e, logo, atento a estas questões da língua, esteve recentemente no Porto e ali nas imediações da Casa da Música não resistiu a fotografar uma placa toponímica: Rua dos Vanzeleres. Afinal, era por ali que existia uma extensa quinta que pertenceu a um holandês de apelido Van Zeller, que se estabelecera no Porto no século XVII e deu origem a uma família que se tornaria preponderante no comércio do vinho do Porto. Conclusão? Nas paredes de editoras e redacções devia estar pendurada, à altura dos olhos de jornalistas e editores, uma réplica ampliada daquela placa. Evitaria muitos erros estúpidos.

 

[Texto 11 483]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Mai 19

«A não ser | a não serem»

Ficam a saber hoje

 

      «A não ser os seguranças e os guarda-costas, mais ninguém sabia que era esta a derradeira vez que o primeiro-ministro discursava no Parlamento.» Está certo, mas, como também afirmei em relação à locução por si só, que tanta polémica por aqui deu, prefiro não a usar como expressão invariável, sinónima de partícula de exclusão como «excepto» ou «salvo», e estou bem acompanhado, pois vamos encontrar em Machado de Assis, entre outros grandes escritores, frases como esta: «As dissipações não produzem nada, a não serem dívidas e desgostos» (in Contos Fluminenses, 1870). Portanto, saibam os insipientes e os intolerantes que, ainda que a generalidade das vezes se use como locução invariável, é igualmente correcto usá-la flexionada.

 

[Texto 11 344]

Helder Guégués às 09:13 | comentar | favorito
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