05
Mar 19

Lengalenga/lengalengas

Em terra de cegos

 

      Ontem de manhã, José Carlos Trindade estava a divulgar um disco Antena 1, Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais, um álbum que junta Ana Bacalhau, Vitorino, Sérgio Godinho e Jorge Benvinda para relembrar as canções da nossa infância. Escrevo-o tal como está na capa — errado. Ora, por duas vezes, e em momentos diferentes, José Carlos Trindade disse «lengas-lengas». Isto, que é lamentável, fez-me lembrar que, no Brasil, está agora a tomar força — incluindo em muitos dicionários — o uso do hífen nestes casos: «tim-tim» («contar tim-tim por tim-tim» — deixem-me enxaguar a boca com uísque velho), «cri-cri», «glu-glu», etc. Até os gurus (ou que o queriam ser) brasileiros da língua afiançam e ensinam que é assim: «Expressões onamotopaicas escrevem-se com o hífen, eis a razão.» Quem o estabeleceu, onde está escrito?

      O que custava os nossos dicionários indicarem de forma explícita o plural de «lengalenga»? Nada, e contribuiriam para que se evitasse mais um erro, e não dos menores nem dos menos frequentes.

 

[Texto 10 924]

Helder Guégués às 10:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Jan 19

O plural, área crítica da língua

Isto é preocupante

 

      «Contactada pelo Público, a assessoria do MAI confirmou que a hipótese de as body cam serem usadas nas fardas está a ser estudada: “A proposta de lei de alteração ao regime jurídico que regula a utilização de sistemas de videovigilância pelas forças de segurança está em fase de conclusão no Ministério da Administração Interna. Estas alterações já integram a proposta da PSP relativa ao uso das designadas ‘body cam’ por parte dos efectivos das forças de segurança, cuja utilização é também objecto de regulamentação. A Comissão Nacional de Protecção de Dados será ouvida no âmbito do processo legislativo.”» («Governo avança com câmaras de vídeo nas fardas dos polícias», Alexandra Campos, Público, 24.01.2019, p. 16).

      Alexandra Campos, deixe lá de copiar os erros da assessoria do MAI — ou também acha que se diz «as body cam»? É que isso, diacho, está mal em português e em inglês. Não percebo. Parece-me elementaríssimo: «Boston police to expand use of body cams among force» (Brooks Sutherland, Boston Herald, 2.08.2018, 12h00).

 

[Texto 10 648]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Nov 18

Léxico: «taser/taseres»

Já é mais nossa

 

      «Nos Estados Unidos, onde qualquer pessoas pode usar uma arma à cintura, a tecnologia tenta aliar-se à defesa pessoal. A fabricante de armas elétricas Axon modificou os seus taseres de forma a aliar-se a uma tecnologia já existente, por exemplo, em carros. [...] Os taseres usam uma descarga elétrica de alta tensão para imobilizar momentaneamente uma pessoa. Podem causar desde contrações musculares a choque completo, queda e perda de orientação por vários minutos» («Esta arma taser chama a polícia automaticamente quando disparada», Carolina Rico, TSF, 26.11.2018, 13h26).

      Ah, então já vai sendo aportuguesado. Muito bem — mas: sofre do mesmo mal do «basebol». Vamos lá: beisebol e teiser/teiseres. Quem não quiser, paciência, ande desarmado.

 

[Texto 10 360]

Helder Guégués às 17:23 | comentar | favorito
24
Nov 18

O plural, esse monstro

O problema linguístico do século XXI

 

      «Primeiro mostra o cercado onde está o lote de vacas que pariram em Agosto, ainda na companhia das suas crias e dos semental (machos reprodutores). Na ganadaria existem cerca de 200 vacas-mãe, que por ano parem cerca de 160 animais, habitualmente metade fêmeas e outra metade machos. Os machos na herdade rondam os 170» («A “vida privada” do toiro bravo antes dos “20 minutos de fama”», Luciano Alvarez, Público, 24.11.2018, p. 6).

      Problemas com o plural, Luciano Alvarez? Algumas palavras são bravas como toiros de lide, sim, mas, neste caso, veja como ela fica mansa: o semental, os sementais. Acha que é capaz?

 

[Texto 10 346]

Helder Guégués às 19:33 | comentar | favorito
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22
Out 18

«Vatu/vatus»

Inacreditável

 

      «A seleção do Vanuatu está à procura do novo selecionador de futebol através das redes sociais. [...] A Federação também não teve problemas em referir o salário disposto a oferecer ao novo selecionador: um mínimo de 3,6 milhões de vatu por ano, o correspondente a algo como 28 mil euros» («Quer ser o novo selecionador do Vanuatu?», Rádio Renascença, 22.10.2018, 16h19).

      Estes jornalistas... Isto é para rir? O plural de «euro» é «euro»? Raciocinemos. Um dos defeitos dos dicionários gerais da língua é não indicarem o plural dos nomes, pelo menos nestes casos em que o falante, coitado, vacila mais. Está, por exemplo, no Vocabulário Ortográfico Português do ILTEC (no qual não faltam, diga-se, erros imperdoáveis).

 

[Texto 10 168]

Helder Guégués às 19:28 | comentar | favorito
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07
Out 18

Os Távoras

Ainda entra nos eixos

 

      Querem ver que isto, pelo menos isto, ainda entra nos eixos? «Alfredo é uma das pessoas às quais não deve passar indiferente ao visitar Mogadouro. Para ser o “dono” do Castelo da terra só lhe falta a chave da porta, porque a dos segredos ninguém lha tira. Inspira qualquer um a conhecer a terra que foi em tempos propriedade da família dos Távoras e que deixa transparecer sinais deste domínio» («Morreu o último rio selvagem e deu lugar a lagos de água quente», Liliana Valente, «Fugas»/Público, 29.09.2018, p. 5).

      É aí, na Quinta de Nogueira, que se pode encontrar o Monóptero de S. Gonçalo, um pequeno santuário mandado construir pelos Távoras em honra de S. Gonçalo, que foi recentemente classificado como imóvel de interesse público.

 

[Texto 10 052]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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05
Out 18

Os Trumps, pois então

É tão raro

 

      É tão raro, que temos de o aplaudir cada vez que acontece: «Feitas as contas, os Trumps terão deixado propriedades avaliadas em 900 milhões de dólares (780 milhões de euros) em 2004, quando Donald Trump e os irmãos decidiram vender esse património. Uma década antes, numa declaração de impostos, Fred Trump declarara que as mesmas propriedades valiam 41,4 milhões de dólares (35 milhões de euros)» («Donald Trump, um império assente na fortuna do pai e em suspeitas de fraude fiscal», Alexandre Martins, Público, 4.10.2018, p. 25).

 

[Texto 10 048]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Set 18

Plural de «corrimão»

Plural duplo

 

      «Mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos para-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes» (As Cidades Invisíveis, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2016, p. 19).

      É uma das muitas provas de que a língua não é o que devia ser, mas o que é. Em rigor, o plural de corrimão devia ser apenas corrimãos, mas, a par deste, foi ganhando direitos corrimões. Curiosamente, a palavra usada por Calvino, scorrimano, também não parece ser a mais escorreita em italiano. Boa escolha, a do tradutor...

 

[Texto 9955]

Helder Guégués às 19:57 | comentar | favorito
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