18
Jul 19

Pontuação e jornais

Menos palavras

 

      Só mais um exemplo, para que o leitor, sem deixar de aprender qualquer coisa, não se aborreça nestes tempos tão lúdicos. «Depois de tudo o que ouvi, votaria nela [em Ursula von der Leyen] sem hesitação. Foi o que fizeram, aliás, os deputados portugueses do PS, PSD e CDS (ao contrário dos do PAN, BE e PCP, numa espécie de espelho da caseira geringonça), o que já levou Rui Tavares a considerar a posição do PS, bem como a do PSOE que foi igual, como uma traição» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      É uma simples vírgula, mas ela faz ali falta: «posição do PS, bem como a do PSOE, que foi igual». Sem vírgula, pode levar a pressupor-se que o PSOE tem várias posições, uma das quais, esta, foi igual à do PS. E se quiséssemos poupar palavras, sem comprometer a compreensão, assim: «a posição do PS, e a do PSOE, que foi igual, uma traição». Escrever muito é fácil.

 

[Texto 11 806]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
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06
Mai 19

O «Expresso» errou

Pontapés na pontuação

 

      A «Revista E», do Expresso, publicou neste fim-de-semana uma entrevista com Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício do Vaticano. O título, porém, está mal pontuado, o que é estranhíssimo, pois nunca um título assim é visto por menos de três ou quatro pessoas. Saiu assim: «O problema não é se Deus existe. É qual Deus?» Ora, tal como está redigida, não podia ter ponto de interrogação. Havia algumas alternativas correctas. Por exemplo, entre outras, esta: «O problema não é se Deus existe, mas qual Deus». Ou estoutra: «O problema não é se Deus existe. É qual Deus». Ou ainda esta: «O problema não é se Deus existe, é antes este: qual Deus?»

 

[Texto 11 313]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | favorito
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08
Mar 18

Léxico: «pontuador»

Olha que dois

 

     «As cinco gravuras desenhadas em rochas que há dias foram encontradas por um ex-militar espanhol junto à ponte de Ajuda, nas margens do Guadiana têm cinco mil anos. A confirmação foi dada, esta quinta-feira, pelo especialista em arte rupestre, António Martinho Batista» («Gravuras encontradas nas margens do Guadiana têm 5 mil anos», Roberto Dores, TSF, 8.03.2018, 13h30).

   Pode juntar-se a outra grande pontuadora, a colega da Rádio Renascença, que vimos aqui. Pois se há pessoas que se ufanam de ter «intuição» para pontuar correctamente... Pois, pois. Nem intuição nem unção, é preciso gramática. Esperem: por que motivo não regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o vocábulo «pontuador»? Intuição ou embirração?

 

[Texto 8883]

Helder Guégués às 14:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se pontua por aí

Não vão presos

 

      «Pedro Dias conhece sentença. “Nem com 25 anos, é passível de ser ressocializado”, diz acusação» (Liliana Carona, Rádio Renascença, 8.03.2018, 6h28).

      «Nem com 25 anos, é passível de ser ressocializado.» Faz lembrar o caçador que tinha um cão e a mãe do caçador era também o pai do cão. No corpo do artigo, a jornalista volta a mostrar que é exímia no desconhecimento da pontuação. Ah, não sabiam que se pode ser exímio na inépcia? E a propósito, dava mesmo jeito que existisse o substantivo eximiedade, «qualidade do que é exímio», não dava? O facto é que, de quando em quando, se usa em todas as línguas novilatinas, eximiedade, eximiedad, esimità... Não se acanhem, se for pontualmente necessário, usem-no, não vão presos. Há coisas piores.

 

[Texto 8880]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | favorito
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07
Set 17

Como se pontua por aí

Mal, pois claro

 

    E agora dois exemplos singelos de pontuação errada: «Diamond compreendeu, nesse instante, que, em circunstância alguma, deveria regressar a esse tema, pois correria o risco de ser tratado por Newton abaixo de Leibniz, o que, na hierarquia de valores do seu ilustre dono ainda seria pior que “abaixo de cão”» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 52). «Companheira inseparável de Marilyn, Maf partilhava os seus segredos, incluindo aqueles que envolviam os dois poderosos irmãos Kennedy, a saber John e Robert, cujo trágico fim muito a comoveram» (Idem, ibidem, p. 192). Há, como sabemos, em muitíssimos casos, diversas formas de pontuar correctamente. Diversas, não arbitrárias.

 

[Texto 8136]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | favorito
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06
Jul 17

Vocativo e pontuação

Não me diga, Elsa

 

      «São cada vez menos as pessoas que usam a vírgula para separar a interjeição do vocativo em emails ou em comentários nas redes sociais. É o que acontece quando escrevemos “*Olá Joana!” ou “*Bom dia Joana!”» (101 Erros de Português Que Acabam com a Sua Credibilidade, Elsa Fernandes. Lisboa: Verso de Kapa, 2017, p. 104).

      Ai é, Elsa Fernandes? E se não se tratar de uma interjeição, já está correcto? A chave está no vocativo: deve aparecer sempre isolado, com uma ou com duas vírgulas, dependendo da frase. Não acha, Elsa Fernandes? Bem, Elsa Fernandes, fica pelo menos assente que não é a interjeição que está em causa. Promete não falhar?

 

[Texto 7985]

Helder Guégués às 20:31 | comentar | ver comentários (4) | favorito