23
Jun 20

Como se pontua por aí

O cartão-de-visita

 

      «É um abuso ridículo o ministro que não consegue manter aulas presenciais nas universidades, contratar duas vozes famosas da Opera Estatal de Berlim e um pianista para oferecer uma Gala de Ópera a umas dezenas de convidados no Teatro Thalia que tem à porta do MCTES» («Gala de Ópera», João Vaz, Correio da Manhã, 23.06.2020, p. 2).

      Julgam-se a reserva moral da República, mas não são o reduto da boa linguagem e do respeito das regras gramaticais. Neste excerto, é a pontuação, mas em todo o texto, além de mais erros de pontuação, é a ortografia que sai contundida. Isto, juntamente com a aplicação insipiente e trapalhona do Acordo Ortográfico de 1990, é o cartão-de-visita perfeito.

 

[Texto 13 604]

Helder Guégués às 12:30 | comentar | favorito
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22
Jun 20

Falta de vocabulário

Não é pedir muito

 

      «Os caminhos informais há muito improvisados pelos moradores da zona do Parrinho e Mourisca, em S. João da Madeira, para se desclocarem por exemplo à igreja do Parrinho, estão agora transformados num passadiço» («Moradores do Parrinho e Mourisca já têm passadiço», Catarina Silva, Jornal de Notícias, 17.06.2020, p. 20).

      Caminho informais, Catarina Silva? Diz-se caminho de pé posto, quando não atalho. E não sabe, acaso, que a expressão «por exemplo» é sempre isolada entre vírgulas? Faltou a esta aula de Português e, é claro, não lê.

 

[Texto 13 588]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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18
Abr 20

O que se diz por aí

Também parece mentira

 

      «O pivô do ‘Jornal da 8’ José Alberto Carvalho cometeu uma gaffe quando na passada 5ª feira fez um trocadilho com “voz” e “avós” para assinalar o Dia da Voz. “Que a voz nunca nos falte, como bem nos lembra o Hino Nacional quando menciona os nossos egrégios [que significa distinto, ilustre, insigne ou nobre] avós”, disse. A expressão refere-se aos nossos ilustres antepassados e não ao nosso aparelho fonador (voz). A gaffe surge numa semana em que a informação da TVI esteve debaixo de fogo devido a uma reportagem que referia que a população do Norte é “menos educada, mais pobre e envelhecida”» («José Alberto de Carvalho. Jornalista comete gaffe», «Vidas»/Correio da Manhã, 18.04.2020, p. 57). (Mas, meus meninos, é 5.ª-feira — habituem-se a fazer tudo como deve ser.)

 

[Texto 13 168]

Helder Guégués às 13:30 | comentar | favorito
14
Jan 20

A pontuação já era

Muito curto

 

      No Expresso Curto de ontem, assinado por João Silvestre, editor de Economia, o mais curto é mesmo o conhecimento da sintaxe e, logo, da pontuação. Algumas frases que o demonstram: «Rui Rio foi o mais votado nas eleições de sábado mas ficou a escassas décimas de ganhar à primeira volta.» «Dentro de cinco dias, no próximo sábado, vai defrontar Luís Montenegro que sonha com um resultado à Soares, a lembrar a segunda volta das presidenciais de 1986 quando Mário Soares derrotou Freitas do Amaral numa reviravolta histórica.» «Já Luís Montenegro, que conseguiu sobreviver depois de ter estado quase fora da segunda volta, recusa a ideia de Rio estar mais forte. Entretanto, já recebeu o apoio do líder da distrital de Setúbal que estava com Pinto Luz.» «Está marcada para hoje, às 14 horas, a decisão do debate instrutório de Rui Pinto que está acusado de 147 crimes ligados ao Football Leaks.»

 

[Texto 12 632]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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18
Jul 19

Pontuação e jornais

Menos palavras

 

      Só mais um exemplo, para que o leitor, sem deixar de aprender qualquer coisa, não se aborreça nestes tempos tão lúdicos. «Depois de tudo o que ouvi, votaria nela [em Ursula von der Leyen] sem hesitação. Foi o que fizeram, aliás, os deputados portugueses do PS, PSD e CDS (ao contrário dos do PAN, BE e PCP, numa espécie de espelho da caseira geringonça), o que já levou Rui Tavares a considerar a posição do PS, bem como a do PSOE que foi igual, como uma traição» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      É uma simples vírgula, mas ela faz ali falta: «posição do PS, bem como a do PSOE, que foi igual». Sem vírgula, pode levar a pressupor-se que o PSOE tem várias posições, uma das quais, esta, foi igual à do PS. E se quiséssemos poupar palavras, sem comprometer a compreensão, assim: «a posição do PS, e a do PSOE, que foi igual, uma traição». Escrever muito é fácil.

 

[Texto 11 806]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
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06
Mai 19

O «Expresso» errou

Pontapés na pontuação

 

      A «Revista E», do Expresso, publicou neste fim-de-semana uma entrevista com Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício do Vaticano. O título, porém, está mal pontuado, o que é estranhíssimo, pois nunca um título assim é visto por menos de três ou quatro pessoas. Saiu assim: «O problema não é se Deus existe. É qual Deus?» Ora, tal como está redigida, não podia ter ponto de interrogação. Havia algumas alternativas correctas. Por exemplo, entre outras, esta: «O problema não é se Deus existe, mas qual Deus». Ou estoutra: «O problema não é se Deus existe. É qual Deus». Ou ainda esta: «O problema não é se Deus existe, é antes este: qual Deus?»

 

[Texto 11 313]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | favorito
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08
Mar 18

Léxico: «pontuador»

Olha que dois

 

     «As cinco gravuras desenhadas em rochas que há dias foram encontradas por um ex-militar espanhol junto à ponte de Ajuda, nas margens do Guadiana têm cinco mil anos. A confirmação foi dada, esta quinta-feira, pelo especialista em arte rupestre, António Martinho Batista» («Gravuras encontradas nas margens do Guadiana têm 5 mil anos», Roberto Dores, TSF, 8.03.2018, 13h30).

   Pode juntar-se a outra grande pontuadora, a colega da Rádio Renascença, que vimos aqui. Pois se há pessoas que se ufanam de ter «intuição» para pontuar correctamente... Pois, pois. Nem intuição nem unção, é preciso gramática. Esperem: por que motivo não regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o vocábulo «pontuador»? Intuição ou embirração?

 

[Texto 8883]

Helder Guégués às 14:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se pontua por aí

Não vão presos

 

      «Pedro Dias conhece sentença. “Nem com 25 anos, é passível de ser ressocializado”, diz acusação» (Liliana Carona, Rádio Renascença, 8.03.2018, 6h28).

      «Nem com 25 anos, é passível de ser ressocializado.» Faz lembrar o caçador que tinha um cão e a mãe do caçador era também o pai do cão. No corpo do artigo, a jornalista volta a mostrar que é exímia no desconhecimento da pontuação. Ah, não sabiam que se pode ser exímio na inépcia? E a propósito, dava mesmo jeito que existisse o substantivo eximiedade, «qualidade do que é exímio», não dava? O facto é que, de quando em quando, se usa em todas as línguas novilatinas, eximiedade, eximiedad, esimità... Não se acanhem, se for pontualmente necessário, usem-no, não vão presos. Há coisas piores.

 

[Texto 8880]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | favorito
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