14
Jan 20

A pontuação já era

Muito curto

 

      No Expresso Curto de ontem, assinado por João Silvestre, editor de Economia, o mais curto é mesmo o conhecimento da sintaxe e, logo, da pontuação. Algumas frases que o demonstram: «Rui Rio foi o mais votado nas eleições de sábado mas ficou a escassas décimas de ganhar à primeira volta.» «Dentro de cinco dias, no próximo sábado, vai defrontar Luís Montenegro que sonha com um resultado à Soares, a lembrar a segunda volta das presidenciais de 1986 quando Mário Soares derrotou Freitas do Amaral numa reviravolta histórica.» «Já Luís Montenegro, que conseguiu sobreviver depois de ter estado quase fora da segunda volta, recusa a ideia de Rio estar mais forte. Entretanto, já recebeu o apoio do líder da distrital de Setúbal que estava com Pinto Luz.» «Está marcada para hoje, às 14 horas, a decisão do debate instrutório de Rui Pinto que está acusado de 147 crimes ligados ao Football Leaks.»

 

[Texto 12 632]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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18
Jul 19

Pontuação e jornais

Menos palavras

 

      Só mais um exemplo, para que o leitor, sem deixar de aprender qualquer coisa, não se aborreça nestes tempos tão lúdicos. «Depois de tudo o que ouvi, votaria nela [em Ursula von der Leyen] sem hesitação. Foi o que fizeram, aliás, os deputados portugueses do PS, PSD e CDS (ao contrário dos do PAN, BE e PCP, numa espécie de espelho da caseira geringonça), o que já levou Rui Tavares a considerar a posição do PS, bem como a do PSOE que foi igual, como uma traição» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      É uma simples vírgula, mas ela faz ali falta: «posição do PS, bem como a do PSOE, que foi igual». Sem vírgula, pode levar a pressupor-se que o PSOE tem várias posições, uma das quais, esta, foi igual à do PS. E se quiséssemos poupar palavras, sem comprometer a compreensão, assim: «a posição do PS, e a do PSOE, que foi igual, uma traição». Escrever muito é fácil.

 

[Texto 11 806]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
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06
Mai 19

O «Expresso» errou

Pontapés na pontuação

 

      A «Revista E», do Expresso, publicou neste fim-de-semana uma entrevista com Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício do Vaticano. O título, porém, está mal pontuado, o que é estranhíssimo, pois nunca um título assim é visto por menos de três ou quatro pessoas. Saiu assim: «O problema não é se Deus existe. É qual Deus?» Ora, tal como está redigida, não podia ter ponto de interrogação. Havia algumas alternativas correctas. Por exemplo, entre outras, esta: «O problema não é se Deus existe, mas qual Deus». Ou estoutra: «O problema não é se Deus existe. É qual Deus». Ou ainda esta: «O problema não é se Deus existe, é antes este: qual Deus?»

 

[Texto 11 313]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | favorito
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08
Mar 18

Léxico: «pontuador»

Olha que dois

 

     «As cinco gravuras desenhadas em rochas que há dias foram encontradas por um ex-militar espanhol junto à ponte de Ajuda, nas margens do Guadiana têm cinco mil anos. A confirmação foi dada, esta quinta-feira, pelo especialista em arte rupestre, António Martinho Batista» («Gravuras encontradas nas margens do Guadiana têm 5 mil anos», Roberto Dores, TSF, 8.03.2018, 13h30).

   Pode juntar-se a outra grande pontuadora, a colega da Rádio Renascença, que vimos aqui. Pois se há pessoas que se ufanam de ter «intuição» para pontuar correctamente... Pois, pois. Nem intuição nem unção, é preciso gramática. Esperem: por que motivo não regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o vocábulo «pontuador»? Intuição ou embirração?

 

[Texto 8883]

Helder Guégués às 14:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se pontua por aí

Não vão presos

 

      «Pedro Dias conhece sentença. “Nem com 25 anos, é passível de ser ressocializado”, diz acusação» (Liliana Carona, Rádio Renascença, 8.03.2018, 6h28).

      «Nem com 25 anos, é passível de ser ressocializado.» Faz lembrar o caçador que tinha um cão e a mãe do caçador era também o pai do cão. No corpo do artigo, a jornalista volta a mostrar que é exímia no desconhecimento da pontuação. Ah, não sabiam que se pode ser exímio na inépcia? E a propósito, dava mesmo jeito que existisse o substantivo eximiedade, «qualidade do que é exímio», não dava? O facto é que, de quando em quando, se usa em todas as línguas novilatinas, eximiedade, eximiedad, esimità... Não se acanhem, se for pontualmente necessário, usem-no, não vão presos. Há coisas piores.

 

[Texto 8880]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | favorito
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07
Set 17

Como se pontua por aí

Mal, pois claro

 

    E agora dois exemplos singelos de pontuação errada: «Diamond compreendeu, nesse instante, que, em circunstância alguma, deveria regressar a esse tema, pois correria o risco de ser tratado por Newton abaixo de Leibniz, o que, na hierarquia de valores do seu ilustre dono ainda seria pior que “abaixo de cão”» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 52). «Companheira inseparável de Marilyn, Maf partilhava os seus segredos, incluindo aqueles que envolviam os dois poderosos irmãos Kennedy, a saber John e Robert, cujo trágico fim muito a comoveram» (Idem, ibidem, p. 192). Há, como sabemos, em muitíssimos casos, diversas formas de pontuar correctamente. Diversas, não arbitrárias.

 

[Texto 8136]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | favorito
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06
Jul 17

Vocativo e pontuação

Não me diga, Elsa

 

      «São cada vez menos as pessoas que usam a vírgula para separar a interjeição do vocativo em emails ou em comentários nas redes sociais. É o que acontece quando escrevemos “*Olá Joana!” ou “*Bom dia Joana!”» (101 Erros de Português Que Acabam com a Sua Credibilidade, Elsa Fernandes. Lisboa: Verso de Kapa, 2017, p. 104).

      Ai é, Elsa Fernandes? E se não se tratar de uma interjeição, já está correcto? A chave está no vocativo: deve aparecer sempre isolado, com uma ou com duas vírgulas, dependendo da frase. Não acha, Elsa Fernandes? Bem, Elsa Fernandes, fica pelo menos assente que não é a interjeição que está em causa. Promete não falhar?

 

[Texto 7985]

Helder Guégués às 20:31 | comentar | ver comentários (4) | favorito
24
Jun 17

Como se escreve nos jornais

Dolorosamente chamuscados

 

   Venceu o 89.º Concurso de Quadras do Jornal de Notícias, e reza assim: «Nesta noite tão tripeira,/Um mistério aconteceu:/Tu, pulavas a fogueira,/Quem se queimava, era eu...» O JN também não deixa de sair chamuscado ao publicar tal qual a quadra, assinada com o pseudónimo Dorido. O jornal não tem revisor? Não sei como não se envergonham — e logo na capa.

 

[Texto 7943]

Helder Guégués às 15:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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