04
Jul 18

Léxico: «suprimento»

Há alternativas

 

      «As autoridades rejeitaram a hipótese de os rapazes e o treinador terem de ficar presos durante mais quatro meses, altura em que a estação das chuvas teria terminado e os níveis das águas descido consideravelmente. No entanto, foram preparados suprimentos para esse período de tempo» («Jovem equipa de futebol presa em caverna recebe lições de mergulho», Hélder Gomes, Expresso Diário, 4.07.2018).

      Será «suprimentos» a palavra certa? Creio que não. A razão da escolha há-de estar numa palavra que a imprensa de língua inglesa usou. No caso, «supply».

 

[Texto 9556]

Helder Guégués às 21:04 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
18
Jun 18

«Zelo nominal»?

Outro zelo

 

      «Parece que a história de Portugal se tornou um tema da actualidade. Tudo começou com a proposta de criar um Museu dos Descobrimentos em Lisboa. Um impressionante conjunto de historiadores e intelectuais manifestou-se contra o vocábulo “Descobrimentos”, por não ser justo para com os povos “descobertos” pelos portugueses, tanto mais que, no contacto com eles, os portugueses nem sempre foram exemplares. Julgo que há aqui excesso de zelo nominal, tão típico dos dias de hoje, em que as palavras são vistas como essências e não como convenções para comunicar. Nós queremos uma palavra que descreva o conjunto de acções resultantes das viagens dos portugueses a partir do século XV» («Descobrir tudo», Luciano Amaral, Correio da Manhã, 18.06.2018, p. 2).

      É só a mim que aquele «zelo nominal» não convence? Comentem, não se acanhem.

 

[Texto 9434]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
10
Jan 18

«Azar dos Távoras»

E azar o nosso

 

      «A ministra da Justiça tem uma certeza: “A Constituição prevê um mandato longo e único” para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Azar dos Távoras, não prevê nada disso. A revisão constitucional de 1997 definiu, sim, uma limitação de mandatos para juízes do Tribunal Constitucional, assim como para o Tribunal de Contas» («Nem um elogio, nem um “obrigado”», David Dinis, Público, 10.01.2018, p. 44).

      Faz sentido, neste contexto, o uso da expressão (de que já aqui falei) azar dos Távoras? Não me parece.

 

[Texto 8562]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
12
Nov 17

Sobre «predador»

Em sentido figurado, pois

 

      «Para identificar o predador, foram essenciais os vestígios biológicos deixados nos lençóis e no pijama da vítima» («Ataca jovem na cama e força-a a fazer sexo», Nelson Rodrigues, Correio da Manhã, 2.11.2017, p. 13).

    Fará sentido usar tal termo neste contexto? Não me parece. No Correio da Manhã, muito atreito ao drama, ao horror, ao desespero, à desgraça, não fica mal, mas o certo é que se lê por aqui e por ali a palavra para designar os violadores. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete está incompleto.

 

[Texto 8327]

Helder Guégués às 12:19 | comentar | favorito | partilhar
17
Set 17

«Naturais», de novo

Mas sabia

 

      Aqui da gaveta dos retroses tirei esta frase de Alçada Baptista: «Cada cidade tinha um bocadinho reservado para os exilados doutras cidades que, com alguns naturais, bebiam amarguras e absintos, em boémias que acabavam em livros e em conspirações» (A Cor dos Dias ­— Memórias e Peregrinações, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2003, p. 103). Lá está — naturais, não, como agora se lê em traduções e na imprensa, «locais». Alçada Baptista não era um escritor dado a apuros formais, muito longe disso, mas gosto de ler algumas das suas obras. No fundo, era apenas um excelente contador de histórias — e estas até num vídeo se podem contar.

 

[Texto 8156]

Helder Guégués às 12:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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04
Jul 17

Tradução: «cautionary tale»

Serve para prevenir, sim, mas...

 

      Há um livro, publicado em 1907, do escritor anglo-francês Hilaire Belloc com o título Cautionary Tales for Children: Designed for the Admonition of Children between the ages of eight and fourteen years. Nele, um rapazinho, Jim, depois de desobedecer à ama, é comido por um leão. Traduzir cautionary tale, expressão que surge noutros contextos, por «conto cautelar» não me parece nada feliz, mas é como o fazem tradutores com currículo... A mim, «conto cautelar» remete-me logo para o Direito, ocorre-me logo a providência cautelar. Não seria melhor traduzir, porque é disso que se trata e neste caso as expressões são usadas e conhecidas, por história exemplar ou conto edificante?

 

[Texto 7974]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (7) | favorito | partilhar
16
Jun 17

Léxico: «tecnicalidade»

Há melhor

 

      «Tecnicalidades limitam candidatura a Lisboa» (João Moniz, Destak, 16.06.2017, p. 11). Ia jurar que nunca tinha lido nem ouvido esta palavra, vinda directamente do inglês: tecnicality. Está registado nos dicionários, sim, mas usar-se-á no dia-a-dia? Já tínhamos tecnicidade, que leio por aí e uso. A outra questão é: terá sido usada com propriedade naquele título? E que «tecnicalidades» são essas no caso da escolha da sede da Agência Europeia do Medicamento? Segundo o jornalista, as «fáceis ligações aéreas para os cerca de oito mil funcionários da agência, escolas para os filhos desses trabalhadores e lista de edifícios com disponibilidade imediata para a sede ser instalada mal saia de Londres foram alguns dos pontos que terão sido apontados como impeditivos de uma candidatura forte no Porto».

 

[Texto 7923]

Helder Guégués às 07:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
07
Mar 17

«Aportar», verbo só para alguns

Esta vida de marinheiro

 

      «É lá que a coragem vai beber 
e ela aporta dinamismo, motiva, impulsiona a lutar por aquilo em que se acredita, etc.» Os nutricionistas é que julgam precisar do verbo «aportar», mas, na realidade, só os marinheiros precisam dele. Experimentem consultar um dicionário. Esperem! Não todos, naturalmente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, felizmente, só regista o que era de esperar: «(verbo transitivo e intransitivo) entrar em (um porto); (verbo transitivo) trazer a um porto». E chega.

 

[Texto 7538]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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