19
Mai 18

Regência nominal

Pode ser crucial

 

      A regência, tanto a verbal como a nominal, tem ou pode ter uma importância decisiva na compreensão dos enunciados verbais. Vejamos dois casos no sítio da Rádio Renascença. Ontem, um dos títulos era «34 bispos chilenos pedem a resignação ao Papa» (18.05.2018, 12h45, Ângela Roque). Percebe-se logo, claro, mas eu, apressado, li «34 bispos chilenos pedem a resignação do Papa». Pois, o sentido é diferente. Dois dias antes, outro título me chamou a atenção: «Religiões unidas na rejeição à eutanásia» (16.05.2018, 7h10, Ângela Roque e Filipe d’Avillez). «Rejeição à»?

 

[Texto 9246]

Helder Guégués às 13:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
01
Jul 16

Regência nominal

Não sabem reger(-se)

 

      «Nenhum deles deixaria, se as suas cronologias fossem diferentes, de aplaudir as intervenções de Miss De Havilland nos tempos conturbados da reeleição de Roosevelt: indefetível apoiante dos Democratas, foi também uma feroz combatente ao que considerava serem a propaganda e as infiltrações comunistas. Última ironia: nesse momento de avanço público, o seu grande apoio foi um ator mediano – sejamos simpáticos – chamado Ronald Reagan» («Olivia de Havilland, 100 anos. A que o vento não levou», João Gobern, Diário de Notícias, 1.07.2016, p. 40).

      Não é essa a regência nominal, mas sim combatente de; logo, Olivia De Havilland «foi também uma feroz combatente do que considerava, etc.».

 

[Texto 6928]

Helder Guégués às 23:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
06
Jun 16

Regência nominal: «aptidão para»

Será confusão

 

      «Até aqui, tudo bem. Mas Bethany [Hamilton], de 26 anos, não tem um braço e é, na verdade, um caso incrível de força de vontade e superação. Nasceu no Havai, sempre teve aptidão pelo surf e, aos oito anos, já competia» («Sobreviveu a tubarão e supera-se no surf», Pedro Queiroz da Costa, Público, 5.06.2016, p. 59).

      Quanto a regências nominais estamos mal, não é, Pedro Queiroz da Costa? Aptidão para ou aptidão a. Não será confusão com apetência por? «Mas prometo rechear esta perda (se de perda merece o nome) com uma resposta altamente prolixa, a ver se tu, farto e completamente enfastiado com a minha verborreia, vais deixando de ter apetência pelo que é nosso» (Carta a Bartolomeu de Quevedo, André de Resende. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1988, p. 67).

 

[Texto 6861]

Helder Guégués às 00:01 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
09
Abr 15

«Parecido a/parecido com»

Uma turma de repetentes?

 

      Só ontem me disseram: no programa Pontapés na Gramática, na Antena 3, Sandra Duarte Tavares, a 5 de Novembro passado, afirmou: «A explicação é breve, concisa, objectiva, como nós gostamos aqui no nosso Pontapés na Gramática, e diz assim: o adjectivo parecido rege, ou seja, é acompanhado da preposição com e não da preposição a. O adjectivo que gosta da preposição a é o adjectivo semelhante. “X é semelhante a x”, “x é parecido com y”. E por causa do semelhante, por contaminação do semelhante há tendência para dizermos “parecido a”. Não se esqueçam, queridos ouvintes, de que o adjectivo parecido pede, é acompanhado da preposição com.» Joana Dias ainda voltou a perguntar-lhe se não se podia mesmo usar a construção parecido a. «De todo. Não, não, não. De todo. É um erro sintáctico.»

   Pena é que esta lição não tenha efeitos retroactivos. Veja aqui os alunos que aproveitariam dela:

 

  • «Por esta causa Henrique Harfio, Varão iluminado, e um dos Doutores mysticos, e espirituaes da primeira classe, tratando dos actos anagogicos do amor Divino, ou jaculatorias abrazadas, adverte que pode este exercicio ser puramente natural, e por elle adquirir-se hum amor muy parecido ao Divino, porém que realmente o não seja; antes que pôde com elle a Alma andar em estado de condenação» (Luz e Calor, P.e Manuel Bernardes).
  • «Com um S. Ignacio, com uma imagem da mais heroica virtude: com uma imagem da mais consummada perfeição: com uma imagem da mais prodigiosa santidade: em fim, com um santo, não similhante e parecido a um só santo, senão similhante e parecido a todos: Et vos similes hominibus» (Sermão de Santo Inácio, P.António Vieira).
  • «O pleito com o Núncio é muito parecido ao nosso, e uns e outros parece navegamos para Inglaterra» (Cartas, P.e António Vieira).
  • «Não há acção mais parecida às de Cristo» (Cartas, P.e António Vieira).
  • «Rato, nome de hum peixe parecido ao rato» (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Francisco Solano Constâncio).
  • «Sahe de huma planta purpura rubente,/Sangue dimana, parecido ao nosso,/Para os que usão talhar os Cáspios Mares» (Obras Poéticas, Bocage).
  • «A outra mão segurava o carapuço, agudo na ponta, e largo na bocca, parecido ao funil, quasi pyramidal, de que a imaginação vesga de um poetastro toucou a serombatica fronte do sabio Abacadabro» (A Mocidade de D. João V, Rebelo da Silva).
  • «Madrépora, s f. t. d’Hist. Nat. Corpo marinho parecido a ramos de arbustos, semelhantes á pedra, em cujos vãos habitam polipos» (Dicionário da Língua Portuguesa, António de Morais Silva).
  • «Symbiota, m. espécie de ácaro, parecido ao psoropta» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, P.e Cândido de Figueiredo).

 

[Texto 5739]

Helder Guégués às 08:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
11
Mar 14

Afervorar o amor ao estudo

Um morto e um vivo

 

 

      «O PCP é como os filmes da Disney, não precisamos sequer de ir ao cinema para saber qual é o final. Desde que vivemos em democracia, tivemos três Governos socialistas: Mário Soares, António Guterres e José Sócrates. Dispenso-me de recordar o grande amor de Cunhal por Soares. Já sobre o Governo Guterres, dizia Carlos Carvalhas que ele era “cúmplice da política de direita”» («Pulseira electrónica até 2035», João Miguel Tavares, Público, 11.03.2014, p. 52).

   João Miguel Tavares queria escrever «amor de Cunhal a Soares», mas esqueceu-se da regência nominal adequada. Agora (tem de ser) um morto. Ora vejamos... Pode ser Camilo, no Amor de Perdição: «Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo.» Oxalá.

 

[Texto 4208]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
10
Fev 14

«Protecção à Criança»?

Falemos de preposições

 

 

      «O gabinete da equipa de Proteção à Criança era apertado e atravancado e cheirava a leite, porque Alex e Una tinham o hábito de despejar as borras das chávenas de café no vaso de uma iúca de aspeto deprimido pousado a um canto» (Uma Morte Súbita, J. K. Rowling. Tradução de Alberto Gomes, Manuel Alberto Vieira, Marta Fernandes e Helena Sobral. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, p. 87).

      «Child Protection», em inglês. Nós temos, por exemplo, o Instituto de Apoio à Criança, mas ainda hoje de manhã passei, em Cascais, pela Comissão de Protecção da Criança. Apoio à; protecção da. A iúca, não a ornamental, mas a comestível, vimo-la aqui.

      «The Child Protection team’s room was cramped and cluttered, and it smelt of spoilt milk, because Alex and Una had a habit of emptying the dregs of their coffee cups into the pot of a depressed-looking yucca plant in the corner.»

 

 [Texto 4018]

Helder Guégués às 17:12 | comentar | favorito | partilhar
29
Jan 14

Regência de «repúdio»

E se lesse um pouco?

 

 

      «Repúdio pelo diferente», escreve aqui o autor, que rejeitou a minha emenda. Está errado. «Desta incompatibilidade nasce o desentendimento com o advogado, o crescente isolamento final e, concomitantemente, com o total repúdio do mundo dos outros e dos valores que eles encarnam, uma progressiva e profunda identificação consigo mesmo» (A Felicidade em Albert Camus, Marcello Duarte Mathias. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013, 3.ª ed., p. 193).

 

  [Texto 3942]

Helder Guégués às 11:34 | comentar | ver comentários (10) | favorito | partilhar
20
Jan 14

«Apetite de aventura»

Urbanamente

 

 

      «– Refiro-me aos esforços ansiosos e descombinados para transcender a nossa mesquinha condição, àquele desafio constante do verdadeiro espanhol ao bom senso, à própria morte... Refiro-me à saudade de acção impetuosa que fermenta nos anos de apatia em que a Espanha periodicamente se revolve. Tudo isso me agrada: o espírito pouco prático, o orgulho do pobre; o apetite de aventura, de vida arrojada e palpitante... Mas desculpe, Mari-Paz, estou a castigá-la com um verdadeiro discurso...» (Obras Completas, Vol. 1, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 215).

 

  [Texto 3893]

Helder Guégués às 17:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar