16
Jan 19

«Cumprir com»

Neste caso, não a usaria

 

      «A questão é que para saber sair da União Europeia é preciso conhecê-la muito bem, e conhecer muito bem para onde se vai, e a elite brexiteira do Reino Unido nunca se esforçou por cumprir com nenhum desses desideratos. [...] Continua o mito do “Brexit” pela ideia de que, desamarrado da Europa, o Reino Unido pode cumprir com um “destino global”. Mas esse destino global tem um problema: depende da soberania dos outros» («Estranha forma de assumir controlo», Rui Tavares, Público, 16.01.2019, p. 48).

      Um leitor descontente pergunta-me se esta regência do verbo «cumprir» está correcta. Está. Foi consagrada por vários autores e encontramo-la nos dicionários de regências verbais e até em alguns dicionários gerais. No sentido de levar a efeito, executar cabal e pontualmente, é indiferente usar uma ou outra regência: Cumprir (com) a palavra. Ainda assim, diga-se que, neste caso concreto, eu não usaria esta regência.

 

[Texto 10 596]

Helder Guégués às 11:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
19
Jul 18

«Consistir em», de novo

Como usar o verbo

 

      «Tanto Michell como Laplace consideravam que a luz consistia de partículas, como balas de canhão, que podiam ser abrandadas pela gravidade e obrigadas a voltarem para a estrela» (A Minha Breve História, Stephen Hawking. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: Gradiva, 2014, p. 64).

      Saberão os tradutores e os revisores que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem, ainda não para todos, evidentemente, notas sobre a regência dos verbos? Em certa medida, já substitui, pelo menos nestes casos mais básicos, um mais completo e específico verbo de regências.

 

[Texto 9659]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Jan 18

Regência: «consistir em»

Não me lembro

 

      «A GNR deteve na sexta-feira, em Vouzela, um homem de 51 anos por posse ilegal de 43 armas, entre as quais seis armas de fogo de vários calibres, informou este sábado o Comando Territorial de Viseu. [...] Segundo a GNR, nas buscas realizadas, foram encontradas 43 armas: seis armas de fogo de vários calibres, 34 armas brancas, duas mocas de metal e uma soqueira» («Vouzela. GNR detém homem com 43 armas ilegais», Rádio Renascença, 27.01.2018, 16h57).

      Foi há três anos que sugeri a inclusão do termo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não me lembro de ter aprovado a definição: «arma que consiste de uma peça de metal com quatro orifícios circulares onde se encaixam cada um dos dedos, à excepção do polegar, como anéis». Acho que muita gente que escreve confunde regências: constar de, sim, mas consistir em.

 

[Texto 8628]

Helder Guégués às 20:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
24
Mar 17

O verbo «assistir», regência

Erro pouco poético

 

      Chegou ontem, e na linha do assunto vinha isto: «CCB | comemora o Dia Mundial da Poesia já este sábado, dia 25 de Março e as bilheteiras para os Dias da Música abrem no dia 23, sexta-feira. Apresse-se antes que esgotem os concertos que mais gostaria de assistir!» Não têm uma gramaticazinha lá no Centro Cultural de Belém?

 

[Texto 7609]

Helder Guégués às 11:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito
04
Fev 17

Regência de «protestar»

Nem de propósito

 

      Que coincidência: na primeira crónica, é também a regência verbal que claudica. «Claro que demasiadas pessoas correram para os aeroportos nas últimas semanas. Mas foi apenas para protestar as restrições à imigração, prova da maldade intrínseca do novo presidente e, em boa parte, herança do anterior» («Bem-vindos, refugiados da América», Alberto Gonçalves, Observador, 4.02.2017, 00h02). No sentido de insurgir-se, manifestar-se, como no contexto, exige a preposição contra. Mas não só: «Os Yeagers colocaram a casa à venda para fugir à “devastação eleitoral” (cito) e passar os próximos 4 ou 8 anos no estrangeiro.» Isto e mais uma mão-cheia de escusadas baldas modernas, como site, media e outras miudezas. Será uma pena eminentemente swiftiana, mas o tom de lengalenga previsível vai dispensar-me de o ler até 30 de Dezembro (sim, confirmei: um sábado).

 

[Texto 7461]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Regência de «ajudar»

Os factos como eles são

 

      Alberto Gonçalves é a nova aquisição, salvo seja, do Observador. Apresentou-se ontem aos leitores deste jornal digital, e não desilude. Ou não desilude mais, vá. Analisemos, para já, antes de chegar a primeira crónica, prometida para cada sábado, apenas uma frase. «Sonho escrever crónicas que saltitem de júbilo pelo facto de partidos estalinistas ajudarem ao governo do país.» «Saltitar pelo facto»... Está bem, está. E a regência do verbo «ajudar» estará correcta? Alberto Gonçalves pode ajudar, bitransitivamente, o Observador a ter mais leitores (ou não). Ajudar alguém a. Os partidos estalinistas, por sua vez, podem ajudar no governo do país. Ajudar em. Ou até, mais directa e transitivamente, e com resultados menos maus, podem ajudar o Governo do país. Para ajudar à missa, porém, vem Luft dizer-nos que conseguiu desencantar uma frase em que o verbo aparece assim preposicionado, e logo de Herculano: «Presume, e parece-nos que com razão, um dos nossos mais judiciosos historiadores que o conde aproveitaria para a sua passagem a armada genovesa que em 1104 ajudou Balduíno à conquista da Ptolemaida» (in História de Portugal). Também encontrei um exemplo em Eça de Queiroz e em mais meia dúzia de autores absolutamente não citáveis. Os grandes também erram e tresvariam.

 

[Texto 7460]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | ver comentários (4) | favorito
21
Dez 15

Regência de «consentir»

Dupla regência

 

      «[A Europa] Consentiu em ser apenas o eco precioso de expressões alheias, esquecido de que não é possível manter uma identidade singular por procuração» (Diário, Vols. XII a XVI, Miguel Torga. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, 5.ª ed., p. 74).

      Como pode ver, J. M., o verbo «consentir» admite duas construções: «consentir algo» e «consentir em».

 

[Texto 6494]

Helder Guégués às 17:15 | comentar | favorito
07
Jul 15

Regência do verbo «impedir»

Esta é nova

 

      «Tratava-se de mato cerrado e, graças à grande perícia daqueles cinco pilotos, fazíamos um voo raso, o que impedia de sermos localizados» (Até ao Fim — a Última Operação, António Vasconcelos Raposo. Lisboa: Sextante Editora, 2011, p. 15).

      Se houver aí alguém que não estranhe esta regência, levante o dedo (ou a G3). Eu seria, naturalmente, levado a escrever e a dizer «o que impedia que fôssemos localizados».

 

[Texto 6027]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito