18
Set 19

Léxico: «conina»

Codornizes e dicionários

 

      Sabem porque é que os Israelitas, depois da grande escassez que se seguiu à saída do Egipto (c. 1400-1300 a. C.), caíram como tordos quando comiam codornizes? Não sabem? Então, leiam a Bíblia (Nm 11,32-33). Noutro livro das Sagradas Escrituras encontrarão esta cominação: «Não comereis nenhum animal morto» (Dt 14,21). Ora, apanharam as codornizes na sua migração primaveril, quando há escassez nos campos e aquelas aves lançam mão — enfim, pata ou bico — de tudo, incluindo ervas venenosas, e entre elas a cicuta, que contém um alcalóide, a conicina, ou conina, ou cicutina. Este intróito serve apenas para falar da definição de conina no dicionário da Porto Editora: «FARMÁCIA alcalóide muito venenoso extraído da cicuta, também denominado conicina, conina, etc.» Primeiro: não tem de estar submetido ao domínio farmácia (ou perguntem aos desgraçados que ficaram com as codornizes nos dentes) nem se tem de dizer que é extraído da cicuta. Não: é um alcalóide que a cicuta contém.

 

[Texto 11 989]

Helder Guégués às 10:08 | comentar | favorito
13
Set 19

Léxico: «tropismo»

Tropismos

 

      Ontem perguntaram-me o que significa tropismo. Mais tarde, fui consultar a definição no dicionário da Porto Editora. Está bem, mas, como se pode afirmar em relação à maioria das coisas, podia estar melhor. Por exemplo, devia acrescentar-se que, em função do estímulo, existem quatro tipos de tropismo: fototropismo, quimiotropismo, geotropismo e tigmotropismo. Como o dicionário regista cada um destes vocábulos, bastava remeter para os respectivos verbetes. A ambição é ser o melhor dicionário (possível) ou apenas assim-assim?

 

[Texto 11 968]

Helder Guégués às 15:21 | comentar | favorito
12
Set 19

Léxico: «jerricã»

Até pode ser água do Luso, mas...

 

      «Perante a iminência de uma nova greve dos motoristas de matérias perigosas, os portugueses já começaram a tomar medidas: além de atestar o depósito do carro, levam consigo um extra de combustíveis em bidões (ou jerricãs)» («Greve dos motoristas. Sabe quanto combustível pode levar para casa?» Pedro Mesquita e Marta Grosso, Rádio Renascença, 6.08.2019, 15h21).

      A resposta é 60 litros. Quanto a jerricã. Por coincidência, ainda recentemente estive a consultar o verbete em vários dicionários. No da Porto Editora, lê-se isto: «recipiente portátil para armazenamento ou transporte de líquidos, de plástico ou metal, geralmente em forma de paralelepípedo e de tamanho grande; bidão». Porque não acrescentam, como em vários dicionários de língua inglesa, que é para transportar especialmente combustíveis?

 

[Texto 11 964]

Helder Guégués às 16:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «zagaia | mediterraneísmo»

Uma vaga ideia

 

      Zagaia, palavra do dia na Infopédia, é, na segunda acepção (a primeira é pacífica), o «utensílio de pesca em forma de peixe, com uma coroa de anzóis numa extremidade e um aro para introdução da linha na outra». Não tenho a certeza de que se perceba bem do que se trata. Vagamente, sim. Ana Maria Simões da Silva Lopes, autoridade nestas questões do léxico relativo à pesca, descreveu-a assim: «Recorre-se, então, à zagaia, espécie de chumbo pisciforme de uns 15 centímetros, que liga com o fio por uma argola metálica, tendo, na outra extremidade, três anzóis, para a captura do peixe, que, numa corrida cega, se lança vorazmente à isca artificial» («O vocabulário marítimo português e o problema dos mediterraneísmos», in Revista Portuguesa de Filologia, XVI-XVII. Coimbra: Instituto de Estudos Românicos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1975, p. 240). As palavras cruciais aqui são «espécie de chumbo» e «isca», que faltam na definição do dicionário da Porto Editora.

      Claro que os nossos dicionários também não acolhem o vocábulo mediterraneísmo. Para quê, não é?, os dicionários de língua inglesa é que são bons.

 

[Texto 11 958]

Helder Guégués às 08:23 | comentar | favorito
10
Set 19

Léxico: «utente»

Era bom, era

 

      Utente, lê-se no dicionário da Porto Editora, é a «pessoa que utiliza bens ou serviços públicos ou privados». Aplica-se mais a quem usa os serviços públicos, e em especial os serviços de saúde. Aliás — nenhum dicionário o diz, claro —, a designação apareceu pela primeira vez no articulado de um despacho da área da saúde (Despacho Normativo n.º 97/83, de 22 de Abril), que dizia o seguinte: «São naturais utentes do centro de saúde os indivíduos residentes, incluindo os residentes ou deslocados temporariamente, e ainda aqueles que, por motivo de doença súbita ou de acidente, necessitem de cuidados de saúde urgentes.» E assim ficou até hoje.

 

[Texto 11 947]

Helder Guégués às 15:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «prazo internupcial»

Ajudaria

 

      «De acordo com a nota publicada na página oficial na internet da Presidência da República, o chefe de Estado promulgou o diploma que “altera o Código Civil, revogando o instituto do prazo nupcial”, ou seja, estabelece o fim do prazo imposto pela lei para casar outra vez, depois de um divórcio. Antes da alteração legislativa aprovada em 11 de julho, em sede de especialidade parlamentar, as mulheres divorciadas tinham de esperar 300 dias para voltarem a casar e os homens tinham de aguardar 180 dias» («Já não é preciso esperar para voltar a casar depois de um divórcio», TSF, 7.08.2019, 8h27).

      Em rigor, isto não obriga a nenhuma alteração na definição de prazo internupcial no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dada a sua redacção: «período de tempo mínimo imposto por lei para que uma pessoa possa voltar a casar-se após a dissolução, a anulação ou a declaração de nulidade do casamento anterior». Ainda assim, eu proponho uma alteração que a tornaria mais útil e clara: «período de tempo mínimo imposto por lei para que uma pessoa possa voltar a casar-se após a dissolução (pela morte de um dos cônjuges ou pelo divórcio), a anulação ou a declaração de nulidade do casamento anterior». Afinal, estas definições são para leigos.

 

[Texto 11 946]

Helder Guégués às 15:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «torêutica»

E não só

 

      A palavra do dia, na Infopédia, é torêutica: «arte de cinzelar em metal, marfim ou madeira». Lá porque pouquíssimas vezes a vejamos na nossa vida não quer dizer que não deva estar bem definida. Na realidade, é a arte de esculpir ou cinzelar em metal, madeira ou marfim.

 

[Texto 11 940]

Helder Guégués às 15:27 | comentar | favorito
09
Set 19

Léxico: «fácula | plage»

Sim, mas

 

      A palavra do dia, na Infopédia, é fácula: «ASTRONOMIA região muito brilhante da fotosfera, geralmente relacionada com o posterior surgimento de uma mancha solar». Explicando melhor: sim, são regiões brilhantes e quentes da fotosfera (aumentam a irradiância) que podem ser observadas perto do limbo solar (acepção que falta naquele dicionário) à frente do fundo escuro. Mais importante, porque corrige aquela definição: as fáculas surgem frequentemente depois da formação de manchas solares e permanecem visíveis durante vários dias ou até semanas depois de as manchas terem desaparecido.

      Já agora refira-se que às manchas semelhantes na cromosfera se dá o nome de plages, vocábulo que os nossos dicionários também não acolhem.

 

[Texto 11 932]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | favorito
06
Set 19

Léxico: «expatriado»

Tenho um palpite

 

      «Para os expatriados, Portugal é o país do mundo com melhor qualidade de vida. Os estrangeiros que vivem fora do seu país de origem elegeram Portugal como o melhor país do mundo no que diz respeito à qualidade de vida, segundo a sondagem anual da InterNations» («Portugal tem a melhor qualidade de vida do mundo para os expatriados», Carolina Rico, TSF, 5.09.2019, 11h07).

      Expatriado, para o dicionário da Porto Editora, é a «pessoa que se exilou ou foi condenada a desterro». Corrigimos o dicionário ou a jornalista, que acham?

 

[Texto 11 928]

Helder Guégués às 11:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito