23
Jul 19

Péssimos exemplos

Errado e por explicar

 

      «O resultado final será um mínimo de 75% de alumínio, que seguirá para outras instalações em que será refundido, dando origem a novos bilets que serão de novo convertidos em caixilhos e portas de alumínio, encerrando o ciclo» («O alumínio também pode ser verde», Susana Torrão, Dinheiro Vivo, 20.07.2019, p. 14).

      Usa um termo estrangeiro desconhecido de 99,99 % dos leitores e não se digna explicá-lo. Lamentável. Bem, mas talvez fosse difícil fazê-lo — pois que nem sequer o sabe escrever. É billet, «lingote».

 

[Texto 11 822]

Helder Guégués às 14:47 | comentar | favorito
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Tremor de terra, sismo, terramoto...

Exercício de sinonímia?

 

      No Dinheiro Vivo, um bom artigo sobre a cobertura antissísmica em Portugal. Só 15 % das casas estão seguras, isto quando Lisboa é a segunda cidade da Europa com maior risco sísmico. Precipito-me para as condições gerais e especiais do seguro (Liberty Condomínios) do meu prédio, e respiro de alívio: «A presente Condição Especial garante os danos causados aos bens seguros em consequência da ação directa de tremores de terra, terramotos, erupções vulcânicas, maremotos e fogo subterrâneo e ainda incêndio resultante destes fenómenos.» Esperem... «tremores de terra, terramotos»... Então abalo ou tremor de terra, terramoto/terremoto e sismo não são sinónimos puros? Temos sempre a ideia de que estes clausulados são redigidos por juristas astutos que não deixam nem sequer uma vírgula ao acaso, mas, afinal, não é bem assim. Por acaso, sim, porque há-de ser por acaso, no dicionário da Porto Editora, a definição de «sismo» é muito (e injustificadamente) diferente da definição de «terramoto», mas, enfim, todos os mencionados termos aparecem como sinónimos.

 

[Texto 11 820]

Helder Guégués às 06:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Jul 19

«Coarctar | quartar», uma triste confusão

Demasiado mau

 

      «E [Francisco Assis] garante: “Não perco um minuto a pensar nisso e nunca fiz depender nada do exercício de qualquer função. Nada pode quartar a minha liberdade de intervenção pública”» («“Há uma espécie de ‘geringonça’ oculta, o PS, o PSD e o CDS”», São José Almeida, Público, 20.07.2019, p. 12).

      Parece demasiado mau para ser verdade — mas está escrito, não vão conseguir apagá-lo. Como é que uma jornalista cai em semelhante erro? De facto, quartar e coarctar pronunciam-se da mesma maneira, mas os significados não têm nenhuma relação. Francisco Assis disse coarctar, isto é, restringir, limitar, reduzir. Quanto a quartar, nem vale a pena dizer o que significa. Quando não conhecemos bem, quando temos dúvidas, São José Almeida, consultamos um dicionário — é para isso que eles existem. Por outro lado, que revisor deixava passar este erro? Logo, os textos não são revistos.

 

[Texto 11 816]

Helder Guégués às 10:13 | comentar | favorito
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19
Jul 19

Léxico: «sangrador»

Dessangrados

 

      «Nos quartos, na enfermaria, na rouparia, todos os aposentos ganham vida. Angelina Brandão faz de freira que adoece. “Há seis anos que me enterro. Já sei isto de cor”, brinca quem ensaia dores deitada na cama. “Passo três dias a gritar. Tenho sempre uma ama de companhia e uma freira comigo. Vem o padre e o sangrador, mas acabo por morrer”» («Freiras, moças e um incêndio para ver no Mosteiro de Arouca», Catarina Silva, Jornal de Notícias, 19.07.2019, p. 22).

      Se acabou por morrer, não lhe vamos desejar as melhoras — desejemo-las antes à Porto Editora, que em sangrador se limita a dizer que é «que ou aquele que sangra» (ora obrigadinho) ou o «matador de animais». Lá se vai a oportunidade de relembrar ou ensinar a importância do sangrador na história da medicina. E, ó Porto Editora, desce à rua, vai aí a uma oficina automóvel, uma Midas ou uma Precision, por exemplo, e pede que te mostrem um sangrador de travões. Aprende, moça.

 

[Texto 11 810]

Helder Guégués às 10:01 | comentar | favorito
18
Jul 19

Pontuação e jornais

Menos palavras

 

      Só mais um exemplo, para que o leitor, sem deixar de aprender qualquer coisa, não se aborreça nestes tempos tão lúdicos. «Depois de tudo o que ouvi, votaria nela [em Ursula von der Leyen] sem hesitação. Foi o que fizeram, aliás, os deputados portugueses do PS, PSD e CDS (ao contrário dos do PAN, BE e PCP, numa espécie de espelho da caseira geringonça), o que já levou Rui Tavares a considerar a posição do PS, bem como a do PSOE que foi igual, como uma traição» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      É uma simples vírgula, mas ela faz ali falta: «posição do PS, bem como a do PSOE, que foi igual». Sem vírgula, pode levar a pressupor-se que o PSOE tem várias posições, uma das quais, esta, foi igual à do PS. E se quiséssemos poupar palavras, sem comprometer a compreensão, assim: «a posição do PS, e a do PSOE, que foi igual, uma traição». Escrever muito é fácil.

 

[Texto 11 806]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
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Os seguidores do pastor Russell no dicionário

Nessa não me apanham

 

      «Helena Strzelecka, uma polaca do mesmo grupo, recordou uma ocasião em que foi com Gerda ao bunker recolher o corpo de uma testemunha de Jeová de uma cela» (Se Isto é Uma Mulher, Sarah Helm. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2015, p. 272).

      Não é teatro: sofri mesmo uma comoção ao ver que o dicionário da Porto Editora grafa com hífen o nome dos membros ou seguidores do movimento cristão Testemunhas de Jeová, fundado nos EUA pelo pastor Charles Taze Russell (na definição, escrevem «Russel», erro muito comum). Não sabia desta perfídia. Tenho duas soluções: ou adopto (adoto), em parte e neste aspecto (aspeto), o AO90, e escrevo como ali acima, ou, como mais informalmente se diz há décadas (e o dicionário da Porto Editora ainda não regista), escrevo jeová.

 

[Texto 11 803]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | favorito

Léxico: «doença dos pezinhos»

Demasiada e inútil dispersão

 

      «Mais de 42.100 crianças nasceram no primeiro semestre do ano em Portugal, um recorde dos últimos três anos para igual período, segundo dados do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, conhecido como “teste do pezinho”» («Nasceram mais 42 mil bebés nos primeiros seis meses do ano», Rádio Renascença, 18.07.2019, 7h48).

      Aqui acontece algo parecido: no dicionário da Porto Editora, doença dos pezinhos remete simplesmente para paramiloidose, onde se descreve a doença — mas num texto de apoio da Infopédia ficamos a saber que também tem o nome de polineuropatia amiloidótica familiar (eles escrevem com maiúsculas, mas isso foi antes do uso pleno do cérebro). Mas que esquizofrénica dispersão é esta, que fim persegue?

 

[Texto 11 802]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito