16
Jan 19

Léxico: «iberismo»

Comparemos

 

      «A obra de Torga é extensa e aborda, entre outros temas, o drama da criação poética, o desespero humanista, o sentimento telúrico, a problemática religiosa, o iberismo e o universal» («Sabrosa. Casa de Miguel Torga vai ser museu», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 16.01.2019, 110h36).

      Um exercício simples: comparemos como dois dicionários, um de português e outro de castelhano, definem iberismo, termo que, segundo Sérgio Campos Matos (aqui), só foi dicionarizado no início do século XX. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. qualidade ou condição do que é ibérico; 2. POLÍTICA doutrina que advoga a união política de Portugal e Espanha». No Dicionário da Real Academia Espanhola: «1. m. Carácter de ibero; 2. m. Estudio de la historia y cultura de los iberos; 3. m. Palabra o rasgo lingüístico propios de la lengua de los antiguos iberos y adoptados por otra lengua; 4. m. Doctrina que propugna la unión política o una especial relación sociopolítica entre España y Portugal.» Não é apenas uma questão de número de acepções, até porque o Dicionário da Real Academia Galega tem mais.

 

[Texto 10 599]

Helder Guégués às 20:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
14
Jan 19

Léxico: «transbordo»

Outros transportes

 

      «Outra novidade deixada pelo autarca é de que as obras no Metro de Lisboa não vão implicar maior tempo de viagem para quem vai de Odivelas para o centro da cidade. O autarca diz que tem garantias do Governo de que parte das ligações, sobretudo nas horas de ponta, vão seguir diretamente para Lisboa, sem necessidade de transbordo, mesmo depois da abertura da linha circular» («Recuperada grande parte dos azulejos do Mosteiro de Odivelas», Rádio Renascença, 14.01.2019, 9h33).

      Serve perfeitamente, embora o caso seja outro, para vermos que a definição de transbordo no dicionário da Porto Editora está errada: «passagem de passageiros ou mercadorias de um barco ou comboio para outro». Então não lemos e ouvimos regularmente que a CP faz transbordo, em certos troços e circunstâncias, dos seus passageiros em autocarro?

 

[Texto 10 586]

Helder Guégués às 15:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Léxico: «encarceramento/desencarceramento»

Vejamos mais em pormenor

 

      «Uma colisão entre dois veículos no IC2 causou, esta segunda-feira, a morte a um jovem de 19 anos em São João da Madeira, tendo o trânsito ficado cortado durante três horas no sentido Norte-Sul, indicaram os bombeiros locais. [...] “Um dos condutores ficou em situação de encarceramento de tipo 2, o que significa que a vítima ficou compactada dentro do carro”, explicou o comandante [dos Bombeiros Voluntários de São João da Madeira, Normando Oliveira]» («Jovem de 19 anos morre em despiste no IC2», Rádio Renascença, 14.01.2019, 12h13).

      É muito curioso (e anómalo) que o dicionário somente no verbete desencarceramento se refira explicitamente à «libertação de ocupantes retidos no interior de uma viatura sinistrada», mas não no verbete encarceramento. Não será o único problema: não há também operações de desencarceramento em helicópteros e aeronaves ligeiras, por exemplo? Ora, não se trata de viaturas. Mais: está o termo viatura bem definido? Vejamos: «qualquer veículo para transporte de pessoas ou coisas, carro». Estão a dizer-nos que «viatura» é sinónimo de «carro»? Então se for um camião já não estamos perante uma viatura? Finalmente, quanto aos tipos de encarceramento, é a primeira vez que o vejo referido, mas é mesmo assim: encarceramento mecânico, encarceramento físico de tipo I e encarceramento físico de tipo II, lê-se nesta publicação da Escola Nacional de Bombeiros.

 

[Texto 10 585]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
12
Jan 19

«Sob/sobre», de novo e sempre

Corrijam ou corrijam-se

 

      «O PSD é um partido grande de mais e importante de mais para poder estar sujeito a permanentes manobras tácticas ao serviço de interesses individuais ou de grupos, sejam estes mais às claras ou mais escondidos sobre o manto de qualquer secretismo», disse esta tarde Rui Rio, presidente do PSD, a propósito do desafio da traição de Luís Montenegro. Disse, eu ouvi, mas imperdoável, aqui, é os jornalistas transcreverem esta parte do discurso sem o corrigirem. É, em qualquer caso, condenável: os que sabem que é erro deviam corrigi-lo; os que não sabem, e não serão assim tão poucos a avaliar pelo panorama, deviam corrigir-se. É sob o manto, debaixo do manto, às escondidas, porque sobre o manto nada se esconde.

 

[Texto 10 581]

Helder Guégués às 19:24 | comentar | favorito | partilhar
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11
Jan 19

Como se escreve (e se pensa) por aí

Uma miséria

 

      «É o maior evento LGBTI da Europa — todos os anos, uma cidade europeia recebe conferências, concertos e uma Marcha Pride, para celebrar o orgulho LGBTI (Lésbico, Gay, Bissexual, Transexual e Intersexual). Portugal vai candidatar-se para receber a edição de 2022 do EuroPride» («Portugal avança com candidatura para receber o maior evento LGBTI da Europa», Joana Carvalho Reis, TSF, 11.01.2018, 7h29).

      Foi mesmo muito a tempo que, a 20 de Junho passado, propus que o dicionário da Porto Editora registasse intersexo e LGBTI. Quanto ao artigo da TSF, para quê aquela salsada de «marcha» e «pride»? Então não se costuma escrever «marcha do orgulho»? Não estamos em Portugal, Joana Carvalho Reis? (De vez em vez, espreito as caixas de comentários destas notícias, para avaliar a saúde mental dos Portugueses. Uma miséria. Choninhas que na vida real são incapazes de levantar os olhos para os outros, na vida virtual são uns facínoras. Um pede um novo terramoto em Lisboa para aqueles dias. Outro queria que fossem manifestar-se para o Árctico. E por aí fora. Um ponto em comum: escrevem todos mal como a porra. Mas hoje é Dia Internacional do Obrigado, e eu agradeço que toda essa gente exista: até parece que somos mais normais, não é? Já se sabe que, de perto, ninguém é normal.)

 

[Texto 10 576]

Helder Guégués às 14:34 | comentar | favorito | partilhar
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10
Jan 19

Léxico: «parada»

Não são daqui, confessem

 

       «Um veículo de transporte de doentes dos Bombeiros Voluntários de Borba, no distrito de Évora, foi furtado esta quinta-feira de manhã na parada do quartel, disse à agência Lusa o comandante da corporação, Joaquim Branco» («Furtado veículo de transporte de doentes dos Bombeiros de Borba», Rádio Renascença, 10.01.2019, 21h48).

     Para os nossos dicionários, parada é só em quartel militar. Até parece que não vivem aqui onde eu vivo. Mesmo assim, diga-se, a definição do dicionário da Porto Editora ainda é a melhor: «MILITAR espaço no interior de um quartel onde se realizam formaturas, instruções, revistas, etc.». Vá, embrulhem.

 

[Texto 10 572]

Helder Guégués às 22:44 | comentar | favorito | partilhar

Professores e jornalistas

Poing!

 

      «Os alunos que escolhem cursos do ensino superior da área da Educação, e esperam portanto virem a ser professores, estão entre os que têm pior desempenho a Português, indica um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC)» («Futuros professores são piores a Português do que aqueles que serão médicos», Clara Viana, Público, 10.01.2019, p. 14).

      De facto, tenho visto uma boa amostra desta espécie. Mas, que dizer dos que vão para o jornalismo? Clara Viana devia escrever «e que esperam portanto vir a ser professores» — porque a marca da pessoa já está no primeiro verbo.

 

[Texto 10 568]

Helder Guégués às 11:42 | comentar | favorito | partilhar
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09
Jan 19

Léxico: «nativo digital»

Actualizar os exemplos

 

      Usaram aqui a expressão «nascido digital», mas habitual é, como se sabe, «nativo digital». Há afinidade semântica, mas é esta segunda expressão que se usa e está dicionarizada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, é nativo digital que acolhe: «pessoa que nasceu e/ou cresceu na era da tecnologia digital, revelando facilidade em entender e interagir com a internet e dispositivos electrónicos (telemóvel, tablet, iPod, etc.)». Serão os melhores exemplos? Gostava de ver os resultados de uma sondagem a miúdos nascidos depois de 2005 para saber quantos sabem o que é um iPod, gostava mesmo. Ao que sei, a última geração é a 6.ª, de 2015, e, a meu ver, não faz sentido a Apple renovar este dispositivo. Aliás, o sonho destas grandes empresas é não fabricarem nada de nada, querem é viver da prestação de serviços. Retomando a questão: dicionário da Porto Editora, actualiza os exemplos e, por favor, usa o itálico nos casos em que o deves fazer.

 

[Texto 10 567]

Helder Guégués às 23:13 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar