27
Mai 20

Como se escreve por aí

Deus nos livre

 

      Mataram o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, e agora agridem violentamente a língua: «Seis crianças de pernas livres de meias é que o revelam as imagens dessa cerimónia em capela de St George, em Windsor, em maio de 2018, ao contrário dos ecos que surgem de abril de 2011, quando Kate e William trocaram alianças e a etiqueta foi mantida. Apenas um de vários sinais do mau estar que foi ganhando terreno entre duquesas enquanto os Sussex ainda viviam no Reino Unido. E uma gota no longo especial que analisa a personalidade da duquesa» («Meghan, os collants da discórdia e a exausta Kate, que tem trabalhado tanto como “um CEO de topo”», Observador, 27.05.2020, 00h29).

 

[Texto 13 442]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | favorito
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Como se escreve por aí

Uma APAV para a língua

 

      «Recorde-se que em Inglaterra já estavam a ser usados testes rápidos, mas não através da saliva. O teste desenvolvido pelo Imperial College de Londres baseava-se num teste de ADN e tem o avale para uso clínico da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde britânica» («Covid-19. Testes rápidos à saliva com resultado em menos de uma hora estão em produção», Maria João Costa, Rádio Renascença, 25.05.2020, 10h50).

      No perfil da RR, a jornalista, que já conhecemos daqui, fala de uma «história de amor [que] começou em 1997 quando cheguei à Renascença», mas é óbvio que é mais uma daquelas relações em que há amor, sim, mas também violência. Fazia falta uma APAV para a língua.

 

[Texto 13 437]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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Como se escreve no Brasil

O padre e o ministro

 

      «A Igreja celebra hoje, no Domingo da Ascenção do Senhor, o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Neste ano, tem como tema “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2) A vida faz-se história. Papa Francisco se dedicou ao tema. Segundo ele, para não nos perdermos, precisamos respirar a verdade das histórias que edificam» («Histórias que edificam», padre Omar, reitor do Santuário do Cristo Redentor do Corcovado, Dia, 24.05.2020, p. 4).

      Já menos edificante é a ortografia do padre Omar. Oh Senhor, é ascensão. Cá também temos muitas criaturas a darem o mesmo erro. E, ao mesmo tempo, vê-se isto: o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais chama-se Jorge Ascenção, mas na imprensa vê-se frequentemente o nome «corrigido» («errogido», diz a minha filha) para Jorge Ascensão. Ah, este mundo é muito curioso. O que mais falta é perspicácia e discernimento. Ainda assim, o P.e Omar parece saber um pouco mais de ortografia do que Abraham Weintraub, o ministro da Educação daquele país até há pouco decente e agora uma anedota.

 

[Texto 13 432]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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26
Mai 20

O latim mal usado

Limite-se ao português

 

      «Na última semana a Suécia foi o país com mais mortes per capita da Europa» (Maria João Guimarães, Público, 21.05.2020, p. 10). Há muito que não me ria com tanto gosto. Primeiro, quando li o título, quis ignorar, mas depois um leitor confessou-me a sua estranheza pelo uso da locução latina neste contexto e cá estou. (E outro leitor chamou-me a atenção para a incongruência, que depois comprovei, do corpo do artigo.) Maria João Guimarães, aqui, as contas não são feitas por cabeça — mas por milhão de cabeças! Se não sabe usar expressões estrangeiras, não o faça, limite-se a escrever em português.

 

[Texto 13 423]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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25
Mai 20

Definição: «caporroto»

Outra receita

 

      «Comunidades rurais dos municípios do Cazengo e Lucala, província do Cuanza-Norte, acreditam que a bebida caseira “caparroto” é o melhor antídito contra a pandemia da Covid-19. [...] Segundo ele, uns assim procedem por falta de recursos e outros por pura ignorância, tendo denunciado a existência de indivíduos que acreditam que o “caporroto” (aguardente caseira feita do bagaço da banana ou de açúcar) é o melhor antídoto contra o novo coronavírus» («“Caporroto” é “antídoto” em comunidades rurais do Cuanza-Norte», Marcelo Manuel, Jornal de Angola, 22.05.2020, p. 6).

      A Porto Editora tem outra receita de caporroto, ou capa-erre, como também é conhecido: «aguardente de milho muito forte, com destilação incompleta, de fabrico caseiro ou clandestino».

 

[Texto 13 417]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Ortografia: «febre-amarela»

E o hífen?

 

      «Sublinhou que efectuaram-se alguns testes, em laboratórios de âmbito nacional de referência, que resultaram negativo e com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), foram enviadas amostras para Portugal e França, para um estudo de arboviroses (doenças transmitidas por vectores)» («Síndrome febril ictérico e hemorrágico em Luanda», Jornal de Angola, 22.05.2020, p. 23).

      Tudo muito bem, está dicionarizado pela Porto Editora, mas em arbovírus há um erro: «MEDICINA grupo de vírus responsáveis por bastantes doenças, como a febre amarela, a dengue e diversas encefalites».

 

[Texto 13 416]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
22
Mai 20

Léxico: «basalioma | basocelular»

Não se diz

 

      «Anabela Faria [médica dermatologista] recorda ainda que há diferentes tipos de cancro de pele. Embora o melanoma seja aquele que mais preocupe os profissionais, a verdade é que anualmente são diagnosticados na Região outros cancros cutâneos, nomeadamente dos chamados carcinomas basocelulares (ou basaliomas) ou dos carcinomas espinocelulares. “Este é o cancro de pele não melanoma”, explica. Estes são cancros mais frequentes, mas um diagnóstico precoce leva a 99% de curas. “São situações que têm de ser tratadas e diagnosticadas com celeridade, mas nunca como um melanoma”» («60 casos de melanoma em três anos», Ana Luísa Correia, Jornal de Notícias da Madeira, 11.05.2020, p. 11). O primeiro, basocelular, só está no Dicionário da Língua Portuguesa; o segundo, basalioma, só está no Dicionário de Termos Médicos. Lógica? Em basalioma, diz-se que é o «termo obsoleto do carcinoma de células basais». Então e qual é o termo actualmente em uso? Não será carcinoma basocelular?

 

[Texto 13 409]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «choque hipovolémico»

A lógica e a adenda

 

      «Não fosse o socorro imediato por parte dos bombeiros e do INEM, com recurso a um garrote, e a vítima teria morrido por “choque hipovolémico” (perda de mais de 20% do sangue do corpo), refere a PJ de Aveiro, que deteve o suspeito, indiciado por homicídio qualificado, na forma tentada. Um juiz no DIAP de Aveiro colocou-o em prisão preventiva» («Esmagou o irmão contra um pilar», João Paulo Costa, Jornal de Notícias, 21.05.2020, p. 22).

      Era esta adenda que eu queria na definição de choque hipovolémico no dicionário da Porto Editora, que actualmente diz apenas isto: «situação em que há uma diminuição do volume total do sangue que circula no organismo». Bem, isto não é o pior; pior é a locução estar dicionarizada em «hipovolémico» e outras em tudo semelhantes, como choque anafiláctico, estarem em «choque». Está a escapar-me a lógica por detrás disto.

 

[Texto 13 405]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito