21
Out 20

Definição: «mata-leão»

Têm a certeza disso?

 

      «Condenado a 25 anos de prisão por matar e violar a freira ‘Tona’, Alfredo Santos vai voltar a tribunal para responder por rapto, agressões e roubo a uma mulher, a quem fez uma emboscada na garagem de casa dela, em julho do ano passado, em São João da Madeira. O cadastrado tentou colocar a vítima na bagageira do carro, com o objetivo de a levar para um outro local e a poder violar. Usou um golpe de mata-leão (asfixia com o braço por trás) e apontou-lhe um bisturi de lâmina afiada. A mulher foi salva por um vizinho que chegou à garagem. O homicida fugiu» («Violador de freira ataca com mata-leão e bisturi», Nelson Rodrigues, Correio da Manhã, 19.10.2020, p. 12).

      Mas alguém sabe mais sobre o mata-leão do que os jornalistas do Correio da Manhã?! Ninguém. Nunca. Pelo menos na Península Ibérica. O dicionário da Porto Editora assevera-nos que é a «manobra de estrangulamento que se executa pelas costas do oponente», mas acho que é um manifesto exagero.

 

[Texto 14 193]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Barroco, neobarroco...

Em flagrante

 

      «A peça saiu da oficina do organeiro Georg Jann, um alemão sediado no Porto, cujo trabalho se tornou uma marca na história da música da cidade e de Portugal, no que aos órgãos de tubos diz respeito. Na altura, em 1985, o instrumento foi descrito como “um órgão neobarroco, inteiramente mecânico, com três teclados, pedaleira completa e com um toque ibérico”» («Grande órgão de tubos da Sé Catedral celebra 35 anos», Jornal de Notícias, 19.10.2020, p. 32).

      Se consultarmos o verbete de neobarroquismo no dicionário da Porto Editora, lemos isto: «estilo surgido na Europa, na segunda metade do século XIX, inspirado no Barroco; neobarroco». Sendo assim, só uma pergunta se impõe: porquê um termo em maiúscula inicial e outro com minúscula? Querem acaso tornar a ortografia ainda mais esotérica?

 

[Texto 14 190]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Definição: «alquerque»

Isso é que era

 

      «O alquerque (ou alguergue) de doze (o jogo mais comum identificado em Portugal) joga-se num tabuleiro quadrado, dividido em dezasseis quadrados. As linhas paralelas e perpendiculares que os atravessam criam 25 intersecções onde se colocam as 24 peças (doze para cada jogador, em cada lado do tabuleiro). Fica, portanto, um lugar vazio no meio, e é precisamente aí que começa o jogo: quem joga primeiro ocupa essa casa, o segundo jogador põe a sua peça de onde saiu a primeira e retira aquela que foi movida anteriormente, passando sobre ela de uma casa para outra. E assim se joga sucessivamente até que um dos jogadores fique sem peças. Outra forma de jogar: um jogador tem 12 peças e o outro apenas uma, mas este é o com mais regalias (pode mover-se em todas as direções enquanto o adversário só pode avançar. Ganha o se eliminar todas as outras peças, ou o outro jogador se conseguir bloquear a peça única» («Como se jogava o alquerque?», Susete Francisco, Diário de Notícias, 17.10.2020, p. 33).

      Já estaríamos muito bem se uma fracção disto servisse para ir enriquecer a definição de alquerque no dicionário da Porto Editora: «antigo jogo de origem árabe, para dois jogadores, que se joga com pedrinhas ou pequenas peças sobre uma tábua ou superfície riscada e que conta com distintas variantes».

 

[Texto 14 186]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
20
Out 20

Como se escreve por aí

Em Angola, na verdade

 

      «Segundo a Angop, do material consta bacia, álcool em gel, sabão, luvas, tesoura, bisturi, algodão, detergente, gases, entre outros instrumentos, para prevenir a propagação da Covid-19 naquela circunscrição» («Parteiras tradicionais beneficiam de material de biossegurança», Jornal de Angola, 18.10.2020, p. 8).

      É claro que as «parteiras tradicionais» (como eles escrevem, mas ninguém dirá: são curiosas ou comadres — comadronas em castelhano) precisam, pelo menos de vez em quando, de gases, mas diária há-de ser a necessidade de gazes, tecido esterilizado. Precisam e muito, de metros e metros.

 

[Texto 14 182]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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«Enquanto que»? Ná

Uma só palavrinha

 

      Divulgo a mensagem, não o nome do autor: «Caro Helder, mais uma queixinha. Num post da Porto Editora aqui no Facebook, apareceu um “enquanto que”. O meu reflexo imediato foi ir ao dicionário... e lá está “enquanto que” a significar “ao passo que”. Faço esta queixinha, porque sei (fui ver ao Linguagista) que é, como eu, avesso ao “enquanto que”. Cá está a prova do crime.» Não digo o nome, mas sempre revelo que se trata de um linguista de mérito (porque linguistas de mérito não são apenas os que já morreram). É simplesmente enquanto, ou, se forem especialmente verbosos, ao passo que.

 

[Texto 14 179]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
19
Out 20

Léxico: «malvisto»

Lição do meio-dia

 

      Para a Porto Editora, ovelha ronhosa é «[embora erradamente, generalizou-se ovelha ranhosa] pessoa indesejável ou mal vista». Está bem, mas agora corrige-te, ficam muito mal nos dicionários tamanhas máculas. Aprendam, retenham: mal visto é sempre um problema de visão, não moral.

 

[Texto 14 176]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Gostaria que se preocupassem menos

Descomplique

 

      «Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: “Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral.” E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso» («Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 8.08.2020, p. 2).

      Descomplique, Leonídio Paulo Ferreira, descomplique. É bem verdade que o verbo gostar pede a preposição de, mas na sequência gostar de que podemos — ou até devemos — omitir a preposição. Não tem de quê.

 

[Texto 14 174]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | favorito
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16
Out 20

Acentuação: «Tessalonica»

Inexacta, a acentuação

 

      «Fugindo à inundação, alguns moradores fixaram-se na zona alta e teriam, talvez pelo século VI, erigido um templo a uma mártir venerada no Oriente: Santa Iria (ou Irene ou Ereia, que é tudo o mesmo), que segundo dizem os martirológios, morreu em Tessalonica, em 304» (Itinerário Português: o Tempo e a Alma, José H. Saraiva. Lisboa: Gradiva, 1987, p. 230).

      Tessalonica, exactamente: e não ensina Rebelo Gonçalves que «Tessalónica» é acentuação inexacta? Então, porque usa e recomenda a Porto Editora a forma menos correcta?

 

[Texto 14 159]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito