19
Set 18

Adjectivos próprios? Em inglês

Minúscula, byroniano

 

      «É possível que Poe estivesse realmente a desempenhar um papel, assumindo um lado Byronesco no que toca às suas admiradoras, embora estivesse ao mesmo tempo desesperado e desequilibrado» (Poe, Uma Vida Abreviada, Peter Ackroyd. Tradução de Alberto Simões e revisão de Idalina Morgado. Parede: Edições Saída de Emergência, 2009, p. 123).

      Só espanta que nem tradutor nem revisora saibam que a maiúscula é de regra em inglês, porque o adjectivo deriva de um nome próprio, mas não é essa a regra em português. Bastava consultarem um qualquer dicionário para o comprovar. Byron era grande, mas não vamos mudar, em sua homenagem, a gramática da língua portuguesa. Nós não temos adjectivos próprios.

 

[Texto 9948]

Helder Guégués às 17:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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16
Set 18

Tradução: «paddle»

À pazada

 

      «Neste caso, a punição tem algumas regras. “A palmatória não poderá ter mais de 60 centímetros de comprimento, 15 centímetros de largura e 19,05 milímetros de espessura. Além disso, o uso da palmatória tem o limite máximo de três palmadas. O estudante será levado para um escritório de porta fechada. O estudante vai colocar as mãos sobre os joelhos ou uma mobília e será atingido com a palmatória nas nádegas”, lê-se no documento que regula a punição na referida escola norte-americana [Georgia School for Innovation and the Classics]» («“Acho facílimo que se volte aos castigos físicos nas escolas portuguesas”», «Life»/Diário de Notícias, 16.09.2018).

      Se calhar não se lhe deve chamar palmatória, não? É que a palmatória — o nome não mente — serve para castigar nas palmas das mãos. Nos EUA, dá-se o nome de paddle a este instrumento de castigo/tortura, uma espécie de pá. Paddle, «a flat, wooden stick for administering punishment by beating» (in Collins).

 

[Texto 9927]

Helder Guégués às 14:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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12
Set 18

Os árbitros ajuízam?

Vá lá, juizinho

 

      «Árbitros de ténis estão a ponderar recusar ajuizar partidas de Serena Williams, devido à atitude da tenista na final do US Open com o árbitro português Carlos Ramos, avança o jornal “The Times”» («Árbitros querem boicotar jogos de Serena Williams», Rádio Renascença, 11.09.2018, 12h13).

      Usa-se este verbo como sinónimo de «arbitrar»? Nunca antes vi. No Times, o verbo usado é to officiate, cuja acepção desportiva o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora nem sequer regista. Mas no Collins: «When someone officiates at a sports match or competition, they are in charge and make sure the players do not break the rules.» Tudo leva a crer que foi o tradutor de ocasião que entendeu que se podia dizer desta maneira. «Umpires are considering refusing to officiate matches involving Serena Williams, such is the level of discontent over the treatment of Carlos Ramos during and after the US Open final.» Agora é preciso ficarmos atentos ao uso deste verbo na imprensa.

 

[Texto 9901] 

Helder Guégués às 07:17 | comentar | ver comentários (10) | favorito | partilhar
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10
Set 18

Léxico: «administração»

Como que encomendado

 

      «Desde então passaram-se 58 anos, e o Brasil teve 17 presidentes da República, contando os ditadores militares, os vices que assumiram o cargo e, duas vezes cada um, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff. Não é pouco – 17 administrações. E nenhuma delas, nesses 58 anos, jamais pôs os pés no Museu Nacional» («À mercê de uma faísca», Ruy Castro, Diário de Notícias, 9.09.2018, 6h29).

      Até parece que encomendei o parágrafo a Ruy Castro. (Entretanto, ninguém me disse como traduzir paragraphist.) Muito recentemente, pôs-se a questão de como traduzir administration referido ao Governo inglês. Habitualmente, só usamos o termo «administração» em relação aos EUA. Ou, como se exemplifica acima, ao Brasil. Não será preciso irmos caso a caso para generalizar: aplicar-se-á a qualquer sistema de governo presidencialista. É assim? «You can refer», lê-se no Collins, «to a country’s government as the administration; used especially in the United States.» E administração no Aulete: «P. ext. O tempo de gestão de um administrador: durante a administração de Juscelino Kubitschek». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é muito mais nebuloso: «gestão de negócios públicos ou privados; governo». Eu pelo menos ninguém ouvi falar na administração de Passos Coelho ou na administração de Mário Soares.

 

[Texto 9895] 

Helder Guégués às 21:36 | comentar | ver comentários (8) | favorito | partilhar
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Tradução: «call»

Discrição...

 

      «E acrescenta: “Foi aqui que a sr.ª Williams começou realmente a perder a compostura. Ela e o sr. Ramos começaram, efetivamente, a falar um por cima do outro. Ela insistia que não fez batota – completamente defensável, mas não era esse o ponto –, enquanto ele fazia um call sobre o qual, a determinada altura, foi muito pouco discreto”» («Martina Navratilova junta-se ao debate e critica Serena», Rui Frias, Diário de Notícias, 10.09.2018, 17h35).

      Bem, dir-se-á assim na gíria desportiva anglo-saxónica, não em português. Não se podia, sem prejuízo — antes pelo contrário — do significado desportivo, traduzir por «advertência», por exemplo? Já sobre a substância da questão, não compreendo o que pretende Martina Navratilova dizer com a pouca discrição do árbitro português. Veja-se a definição de call nos English Oxford Living Dictionaries: «(in sport) a decision or ruling made by an umpire or other official, traditionally conveyed by a shout, that the ball has gone out of play or that a rule has been breached». Até porque, por entre a berraria arrogante e despropositada da Sr.ª Serena Williams, que assim desmente o seu próprio nome, seria muito difícil fazer-se ouvir.

 

[Texto 9894]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | favorito | partilhar
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Tradução: «paragraphist»

Seria muito fácil

 

      «No turbilhão dos acontecimentos, Poe abandonou o seu lugar de ‘paragrafista’ no Evening Mirror e juntou-se ao rival Broadway Journal, onde começou a reeditar alguns dos seus primeiros contos e poemas» (Poe, Uma Vida Abreviada, Peter Ackroyd. Tradução de Alberto Simões e revisão de Idalina Morgado. Parede: Edições Saída de Emergência, 2009, p. 114).

      É uma forma muito expedita, oh se é!, de traduzir o termo inglês paragraphist. Só lhe vejo uma desvantagem: o leitor não ficará a saber do se trata, porque a palavra não existe em português. Paragraphist, lê-se no Collins, é «a writer of paragraphs, esp a journalist who writes paragraphs for a newspaper». Talvez haja, na gíria jornalística, de cá ou do Brasil, algum termo que se aproxime.

 

[Texto 9889]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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05
Set 18

Tradução: «fatality»

Ou faço um desenho?

 

      Houve um acidente ferroviário em Angola. Vai daí: «A Agência de Notícia de Angola, a oficial do Estado angolano, fala em 17 mortos mas a empresa de Caminhos de Ferro de Moçamedes (CFM) só confirma seis fatalidades. Há um número de feridos por determinar, em resultado da colisão entre dois comboios, na província angolana do Namibe, sul do país» («Pelo menos 17 mortos em colisão entre dois comboios em Angola», TSF/Lusa, 4.09.2018, 15h15).

      Eles dizem que sabem — mas nós sabemos bem que não. Senhores jornalistas, em inglês, fatality, além de «helplessness in the face of fate», a nossa fatalidade, o acontecimento que não se pode evitar, adiar ou alterar, também é o que a nossa fatalidade nunca foi — «an occurrence of death by accident, in war, or from disease», ou seja, a morte resultante de um acidente, de uma catástrofe, de uma guerra, etc. (Escreve-se, porque já vi que também não sabem, Moçâmedes.)

 

[Texto 9861]

Helder Guégués às 08:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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