22
Jul 19

Léxico: «correio | mula»

Casmurrices e aselhices

 

      «Dois “correios” de droga detidos à chegada a Portugal» (Jornal de Notícias, 20.07.2019, p. 21).

      É uma acepção de correio que se vê cada vez mais na imprensa. Serve para substituir o brasileirismo mula. O que me traz à mente outro erro de uma tradução do castelhano: no original, estava camello, que o tradutor verteu para «mula». Ora, basta ver no DRAE: «m. coloq. Persona que vende drogas tóxicas al por menor.» Ou seja, ao nosso correio/mula corresponde o castelhano correo; o camello castelhano é o nosso passador. O que me leva a isto: «The Mule, ou O Correio de Droga (desastrada tradução), é um pequeno grande filme, para todas as idades e crenças, na melhor tradição de Hollywood – que, infelizmente, os Oscars não souberam valorizar» («Um super Clint (Eastwood) no filme “The Mule – O Correio de Droga”», Manuel Halpern, Visão, 1.02.2019, 7h00). Suponho (não vi o filme) que a crítica à tradução tem que ver com as várias acepções de mule, que, além de correio de droga, também significa pessoa muito casmurra. Como o crítico nada explica, ficamos assim. (Ou não, devemos chamar-lhe a atenção para este erro crasso no seu artigo: «Sobre vários pontos de vista, Clint Eastwood é o maior herdeiro de John Ford. Insiste num cinema “clássico”, com uma estrutura linear em que se conta uma boa história, nunca perdendo de vista a escala humana e as dimensões interiores das personagens com todas as suas contradições.»)

      Avancemos um pouco mais: mula, para o dicionário da Porto Editora, é um termo coloquial brasileiro que designa a «pessoa que transporta droga através de fronteiras internacionais, frequentemente dentro do próprio estômago». Como há quem entenda (sem afirmar que é brasileirismo) que mula é sobretudo o transporte de drogas que atravessa fronteiras, não apenas a tradução de camello estaria certa se se optasse por «mula», como seria a tradução ideal do título do filme de Clint Eastwood — o protagonista, que seria obstinado e no fim acabaria como passador de droga. Na intenção do realizador, estaria então este duplo sentido do termo, que a tradução portuguesa arruinaria.

      Retomando a definição daquele dicionário: «frequentemente dentro do próprio estômago». «No corpo», diria eu. Nos últimos tempos, lemos notícias em que se diz que estava escondida no ânus, na vagina, na boca, colada ao tronco, debaixo do capachinho...

 

[Texto 11 819]

Helder Guégués às 11:10 | comentar | favorito
18
Jul 19

«Ad nutum, in primis, a latere...»

E vão três

 

      Mais um caso. Já tínhamos aqui visto que as locuções latinas ad nutum e in primis estão, erradamente, registadas como italianas no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora. Hoje, vi outra: a latere. Vê-se que não sabem como descalçar a bota, mas eu já indiquei um dos caminhos possíveis. Como as outras duas, esta também é latina; significa «ao lado» e tem, entre nós, uso exclusivamente jurídico. Já em castelhano é diferente, entrou na linguagem do dia-a-dia, vestida com outra roupagem, adlátere, nascida da confusão de preposições. Um adlátere é a pessoa inseparável de outra, assim como um par de jarras; também pode designar o assistente, quase a sombra subordinada de alguém, mais importante; por vezes, porém, tem um significado neutro, é o simples colega ou companheiro. Estranhamente, não está no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora.

 

[Texto 11 800]

Helder Guégués às 08:18 | comentar | favorito

Léxico: «amicícia»

Escrevivendo e aprendendo

 

      No original, de autor muito proclive a invenções lexicais, na linha do nosso Mia Couto, lia-se «amiguerío». A opção do tradutor foi pela palavra amicícia (obsoleta, mas que o dicionário da Porto Editora parece ser o único a esquecer), o que não me convence. Parece-me óbvio que, sempre que possível, para um termo obsoleto temos de encontrar um termo obsoleto, para um termo da gíria temos de achar um termo da gíria — e o mesmo temos de fazer para uma criação lexical, uma liberdade semântica, uma tirada nonsense, etc. Temos de adequar o registo, o que é muitas vezes esquecido. É difícil? Sim, é difícil — mas até nos pagam para o fazer.

 

[Texto 11 798]

Helder Guégués às 07:33 | comentar | ver comentários (5) | favorito
11
Jul 19

Léxico: «olho clínico»

É assim

 

      Deixem-me dizer aqui à coisinha que occhio clinico se traduz por olho clínico, e não «olhar clínico». Se a locução estivesse nos dicionários, acontecia menos.

 

[Texto 11 738]

Helder Guégués às 10:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
26
Jun 19

Tradução: «immersive»

Para o coreano perceber

 

      «Uma exposição que usa tecnologias digitais e de ‘media art’ para uma experiência imersiva do visitante em 35 obras da pintora Maria Helena Vieira da Silva é inaugurada hoje, no Centro Comercial Colombo (Lisboa)» («Vieira da Silva no Centro Colombo», Destak, 26.06.2019, p. 12).

      Vou tratá-lo como um caso de tradução, pois se de imersivo todos os nossos dicionários dizem apenas que é o que faz imergir, que se realiza por imersão, estamos longe do inglês immersive, «seeming to surround the audience, player, etc. so that they feel completely involved in something» (in Cambridge Dictionary). Se se concluir que este sentido do vocábulo já está bem solidificado na nossa língua, alguma coisa se tem de fazer.

 

[Texto 11 618]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Tradução: «plasticrust | intertidal»

Esforço mínimo

 

      «Os plasticrusts, o nome que os cientistas deram ao fenómeno agora descoberto, é uma espécie de crosta plástica que se formou em algumas rochas vulcânicas e que foram detectados numa zona “intertidal”, área costeira que apenas se encontra exposta ao ar durante a maré baixa, ficando submersa com a subida da maré, na Madeira» («Plasticrusts, as crostas de plástico nas rochas da Madeira», Sofia Neves, Público, 26.06.2019, p. 26).

      Não é nada: no artigo todo, incluindo título e legenda da imagem, o leitor é bombardeado seis vezes com a palavra plasticrust. Tanto quanto sei, o Público é o único jornal que não aportuguesou/traduziu o termo. Bonito serviço... E a jornalista Sofia Neves também não se esforçou por saber como se diz em português intertidal, que usou três vezes. Se se esforçasse um pouco, saberia que é intermareal.

 

[Texto 11 617]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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