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Linguagista

Tradução: «podestà»

Não é indiferente

 

      «O Palácio Bembo-Boldù é hoje um hotel boutique de seis quartos, mas conserva na fachada um nicho do séc. XVI que escapa aos mais incautos. Uma escultura de Cronos, i.e., Saturno, segurando um disco solar. Mandado colocar por Gianmatteo Bembo com a seguinte inscrição em latim: “Enquanto este girar (o Sol), Zara, Cattaro, Capodistria, Verona, Chipre e Creta serão testemunhas dos meus atos.” Assim imortalizou os seus feitos como podesta (presidente de câmara) nas referidas cidades. Riva del Carbon, 4793» («A Veneza de Corto Maltese também é nossa», Ana Pina, O Jornal Económico, 18.07.2025, p. 45).

      Talvez valha a pena dizer alguma coisa sobre a tradução de podestà, com que me debati para uma revisão (no caso, porém, era no contexto do fascismo). A tradução da jornalista é funcional para o leitor comum, mas claramente anacrónica. O cargo de podestà nessa época combinava competências judiciais, militares e administrativas, e não tem correspondência directa com o presidente de câmara moderno.

[Texto 21 598]

Como se escreve por aí

Simplesmente António

 

      «O Papa Leão XIV reuniu-se este sábado com o Metropolita Antonij, um clérigo sénior da Igreja Ortodoxa Russa, discutindo a guerra na Ucrânia durante um possível esforço para normalizar a relação entre as igrejas, desgastada pela invasão da Ucrânia» («Papa abordou guerra na Ucrânia em encontro com representante da Igreja Ortodoxa Russa», Rádio Renascença, 26.07.2025, 17h30).

      Um clérigo sénior... Cheira logo a inglês mal mastigado. E Antonij é a transliteração académica padronizada, e para isso mais valia o nome dele em russo transliterado, Anton. Mas não: na verdade, o nome dos metropolitas são sempre aportuguesados, logo, o nome deste prelado, deste alto dignitário da Igreja Ortodoxa Russa, é António.

[Texto 21 596]

Tradução: «garde à vue»

Têm de praticar mais

 

      «“No contexto de investigações desta natureza. É costume vir e fechar portas. Entre as hipóteses estava o aspeto intrafamiliar, que é o que deu origem a essa custódia policial e que espero que hoje possa ser descartado”, disse o advogado, acrescentando que a sua cliente “está agora a descansar, foram 48 horas tensas e difíceis”» («Caso Émile. Investigação admite que família pode não ser responsável pela morte», Olímpia Mairos, André Rodrigues e João Malheiro, Rádio Renascença, 27.03.2025, 6h58).

      Três a redigirem a notícia, e nenhum deles reparou que nós não usamos a locução «custódia policial». Então não dizemos detenção ou detenção para inquirição, senhores jornalistas? (E citam mal logo a primeira frase: «Dans le cadre d’investigations d’une telle nature [...] il est d’usage de venir fermer des portes.» Para três, não é mau — é péssimo.)

[Texto 21 100]