21
Jan 19

Tradução: «piqueta»

São 10 milhões

 

      «Ainda não sabem quando poderão entrar no túnel. Os mineiros que chegaram a Totalán (Málaga) no dia 15, terça-feira, para escavar o caminho até Julen e resgatar o menino ainda não sabem quando vão começar a trabalhar. [...] Debaixo do solo, equipa vai trabalhar com palhetas e martelos pneumáticos, de modo a desfazer as rochas. Tudo com grande precisão, para não colocar em causa a sua segurança e a da criança» («Talvez amanhã... Faltam poucos metros para chegar a Julen», Marta Grosso, Rádio Renascença, 21.01.2019, 12h11).

      Nestes últimos metros, o cuidado tem de ser extremo, e por isso será feito «con piqueta y, como mucho, herramientas mecánicas tipo martillo neumático» (in El Mundo). A jornalista pensa que é com palhetas dessas que se usam para fazer vibrar as cordas de certos instrumentos musicais... Senhora jornalista, piqueta traduz-se por «picareta». Ora, não tem de quê.

 

[Texto 10 626]

Helder Guégués às 20:20 | comentar | favorito | partilhar
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17
Jan 19

«Whistleblower», de novo

Lançador de alertas...

 

      «A justiça portuguesa já emitiu um pedido de extradição para Rui Pinto, que foi detido na Hungria. Os advogados anunciaram que se vão opôr ao pedido e apontam para os critérios de proteção dos lançadores de alertas, “whistleblowers”, presentes na legislação europeia» («Rui Pinto admite ser denunciante no caso “Football Leaks”», Rádio Renascença, 19.01.2019, 17h17).

      Na notícia, o verbo «opor» aparece duas vezes mal escrito, o que, para jornalistas, é lamentável. Não sei onde esta gente aprendeu a escrever. Então e whistleblower, que já nos ocupou aqui, agora traduz-se por «lançador de alertas»? Isso é o quê, eufemismo ou parolismo?

 

[Texto 10 609]

Helder Guégués às 19:31 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar

Tradução: «colegio»

Bastava, nos dois casos, copiarem

 

      «“O importante é chegar ao local o mais rápido possível, seja por uma opção ou por outra”, disse esta quinta-feira de manhã Juan López Escobar, delegado da Faculdade dos Engenheiros do Sul e membro da equipa responsável pelo resgate» («Resgate de Julien concentra-se agora na escavação de um túnel vertical», Diário de Notícias, 17.01.2019, 13h27).

      Ora cá temos mais um dos cerca de dez milhões de tradutores de castelhano. Juan López-Escobar é delegado do Colegio Oficial de Ingenieros de Minas del Sur. Colegio traduz-se por... colégio, na acepção discutida aqui e que quase chegou a concitar malquerenças na comunidade do Linguagista por causa da sua definição no dicionário da Porto Editora. De facto, era escusado, quando não descabido, usar-se a palavra «corporativa»: «ramo de organização corporativa de âmbito nacional que agrupa os indivíduos que, no contexto de uma dada profissão, exercem determinada especialidade». Bastava seguirem, quase literalmente, o que a lei diz, e acertavam. Voltando à notícia: Juan López-Escobar é delegado do Colégio Oficial de Engenheiros de Minas do Sul. Não sejam trapalhões. Tenham brio.

 

[Texto 10 607]

Helder Guégués às 14:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
06
Jan 19

Tradução: «chariot élévateur»

Nunca corrigem

 

      «O dia de protestos em Paris fica marcado — além das mais de 100 detenções e dezenas de incêndios em Paris — pela necessidade de evacuar o porta-voz do Governo francês, Benjamin Griveaux, depois de vários coletes amarelos terem invadido o ministério dos Assuntos Parlamentares com recurso a uma retroescavadora» («Porta arrombada e um carro destruído. Assessora portuguesa descreve invasão de ministério em Paris», Gonçalo Teles e Dora Pires, TSF, 5.01.2019, 23h12).

    Aos pares é sempre pior. Aqui no sossego da minha casa, em segundos, vi que não foi usada uma retroescavadora. A imprensa francesa fala num chariot élévateur (nada que o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora saiba o que é), e imagens divulgadas pela BFMTV mostram — uma empilhadora. Muito cuidadosos, os nossos jornalistas... Ficamos sem saber se o erro foi de tradução ou se procedeu de não verificarem em mais de uma fonte do que se tratava. Em qualquer caso, lamentável. E nunca corrigem!

 

[Texto 10 548]

Helder Guégués às 11:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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28
Dez 18

Tradução: «tonneau»

É assim

 

      «O barril tem três metros de comprimento por 2,10 de largura e está totalmente equipado para viver durante três meses: tem kitchenette, com um fogão para cozinhar, uma pequena dispensa, cama e até uma zona de escritório. No fundo deste barril gigante laranja, Jean-Jacques Savin tem uma vigia para poder ir observando o que se passa no fundo do oceano» («Ir com a maré. Francês de 71 anos atravessa o Atlântico de barril», Joana Carvalho Reis, TSF, 27.12.2018, 16h59).

      Isto de uma jornalista confundir «despensa» com «dispensa» é lamentável. (E cá está um caso em que podíamos, com toda a propriedade, usar o termo «galé» em vez do anglicismo.) Mas, como sempre, não estamos aqui apenas por isso. Será mesmo de um barril que se trata? Dito de outra forma, «barril» será mesmo a melhor tradução do termo francês tonneau? O termo mais genérico é tonel, e talvez fosse essa a melhor opção. Ou pipa. Le tonneau de Diogène: a pipa de Diógenes.

 

[Texto 10 502]

Helder Guégués às 11:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Tradução: «DCI»

Mais modestamente

 

      «Num artigo publicado na segunda-feira, o jornal The Guardian cita o comandante da polícia encarregado da investigação, Glen Lloyd, que diz que, apesar das detenções, a investigação continua» («Jovem pugilista português morto à facada em Londres», Público, 26.12.2018, p. 10). Comandante da polícia? «DCI Glen Lloyd», lê-se naquele jornal inglês. Detective chief inspector. Em português, inspector-chefe.

 

[Texto 10 497]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | favorito | partilhar
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20
Dez 18

Como se traduz por aí

É natural

 

      Barack Obama visitou o Hospital Pediátrico Nacional. Vai daí: «De acordo com o The Washington Post, o diretor executivo e presidente do Sistema Nacional de Saúde Infantil, Kurt Newman, admitiu que a visita do ex-presidente dos EUA vai marcar os pacientes durante muitos anos: “Numa época tão movimentada do ano, quando ninguém quer estar no hospital, o seu calor natural elevou os espíritos destas crianças, dos seus pais e de cada membro da equipa”» («Pai Natal presidencial. Obama visita hospital pediátrico vestido a rigor», Sara Beatriz Monteiro, TSF, 20.12.2018, 9h22, itálico meu).

      Calor natural... Talvez Obama viesse directamente do Havai. Natural warmth. Entretanto, Michelle ficou em casa a escrever a continuação das suas memórias. (Mais 22,90 euros.)

[Texto 10 479] 

Helder Guégués às 12:24 | comentar | favorito | partilhar
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