19
Jul 18

«In loco parentis»

Mais um pouco de latim

 

      «Nessa altura, os colégios eram vistos como in loco parentis (o lugar dos pais), o que significava que eram responsáveis pela atitude moral dos alunos» (A Minha Breve História, Stephen Hawking. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: Gradiva, 2014, p. 36).

      Não sei se os leitores percebem assim, parece-me equívoco. A melhor tradução é «no lugar dos pais», que é, de facto, essa doutrina de que a escola assume a responsabilidade dos pais, está em vez, em lugar dos pais.

 

[Texto 9656]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | favorito | partilhar
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Gotinga

Nada de estranho

 

      «Isto porque, durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães se haviam comprometido a não bombardear Oxford e Cambridge; em compensação, os Ingleses não bombardeariam Heidelberga nem Gotinga» (A Minha Breve História, Stephen Hawking. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: Gradiva, 2014, p. 11).

      Gotinga, pois claro. As formas vernáculas dos topónimos estrangeiros só são estranhas se não as usarmos. Até porque Göttingen dá muito mais trabalho a escrever, desde logo pelo trema, que nem todos conseguem obter nos teclados (coitados).

 

[Texto 9654]

Helder Guégués às 08:38 | comentar | favorito | partilhar
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18
Jul 18

Tradução: «rissaga»

Tudo menos em português

 

      «Um turista alemão morreu segunda-feira, em Maiorca, arrastado pelo que poderá ter sido um mini-tsunami [sic], avança a imprensa espanhola. O homem, de 53 anos, estava com a mulher e dois filhos quando foi surpreendido por uma “rissaga” ou tsunami meteorológico» («Mini-tsunami mata turista em Maiorca», Rádio Renascença, 17.07.2018, 22h18).

      Como aconteceu em Maiorca, a palavra tem de ser em catalão? A rissaga é a nossa... ressaca: «refluxo violento das vagas que se quebram contra um obstáculo» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Difícil, não é? Já na TVI 24 tiveram de recorrer ao inglês, coitados: «Também esta manhã as praias próximas foram inundadas por uma onda conhecida como “meteotsunami”. O fenómeno climático anormal que afetou as estâncias de férias em Maiorca, deixou bares e terraços inundados pela água do mar ao longo da costa de Andratx e cobriu as estradas junto à praia.»

 

[Texto 9648]

Helder Guégués às 08:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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14
Jul 18

Tradução: «food court»

Se houvesse multas, isso sim

 

       «A Sonae Sierra é uma das empresas apostadas em dar cada vez mais destaque às zonas de restauração. Além do Cascais Shopping e do seu Cascais Kitchen, a empresa também criou um novo conceito de food court no ParkLake, um centro comercial novo que inaugurou recentemente em Bucareste, na Roménia» («A moda da comida está a mudar os centros comerciais», A. B., Expresso, n.º 2385, 14.07.2018).

      Qual a necessidade de usar termos ingleses para o que tem nome português? Para mais, apenas uma linha mais à frente. Mais vale estarem quietos.

 

[Texto 9625]

Helder Guégués às 18:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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12
Jul 18

Tradução: «tonga»

Trabalho incompleto

 

      «Quatro dias mais tarde, um lugar para Kim e a sua pequena mala estava marcado na retaguarda de uma tonga de Kalka» (Kim, Rudyard Kipling. Tradução de Maria Madalena Esteves. S/l: Bibliotex Editor/Diário de Notícias, 2003, p. 161).

      Não encontrei nenhum dicionário de língua portuguesa que registe o termo tonga (exactamente como no original, tonga) nesta acepção. Trata-se de uma espécie de charrete puxada por um cavalo. Nos Oxford Living Dictionaries, encontramo-lo: «A light horse-drawn two-wheeled vehicle used in India.» Assim, o termo devia ser, já não digo grafado em itálico, mas pelo menos explicado em nota de rodapé.

 

[Texto 9611]

Helder Guégués às 22:06 | comentar | favorito | partilhar
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Tradução: «NEET»

Nem tentam

 

      «O número de jovens que não trabalham nem estudam na União Europeia atingiu o valor mais baixo dos últimos dez anos. No primeiro trimestre deste ano, a 10,6% dos jovens europeus entre os 15 e os 24 anos que não tinham ocupação laboral nem estudavam. [...] Os dados sobre os chamados NEET (Not in Education, Employment or Training) – ou jovens “nem-nem” – foram divulgados esta quinta-feira pelo Eurostat» («Número de jovens “nem-nem” é o mais baixo da última década», Rádio Renascença, 12.07.2018, 12h37).

      Em Espanha, são os jóvenes ninis. Aliás, como vimos com a sigla LGBT, que não pára de crescer, também já se fala do joven ninini, «ni estudia, ni trabaja, ni lo intenta».

 

[Texto 9605]

Helder Guégués às 13:13 | comentar | favorito | partilhar
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09
Jul 18

Léxico: «cardsharing»

Uma pena acrescentada à pena

 

      «“No decurso das buscas realizadas foram recolhidas informações e apreendidos documentos e outros objetos relacionados com a prática de factos, que consistiam na distribuição e receção ilícita de sinal de internet e pacotes de televisão, através de equipamentos adulterados, fenómeno criminal conhecido por ‘cardsharing’”, lê-se no comunicado» («Detidas 16 pessoas em flagrante delito por “piratearem” sinal de televisão e internet», Rádio Renascença, 6.07.2018, 12h22).

      Agora, o pobre cidadão já não tem contra si apenas o hermetismo jurídico, mas também a própria língua em que o acusam. Se todos os acusados fossem culpados, estaria muito bem, era mais uma pena acrescentada à pena, mas não é assim.

 

[Texto 9576]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | favorito | partilhar
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04
Jul 18

Leuven? Lovaina

Escreva cem vezes

 

      «Enquanto médico, Ricardo Camacho dedicava-se à investigação da sida, no Rega Institute for Medical Research, em Leuven, na Bélgica, país onde vivia. Anteriormente, foi diretor do Laboratório de Virologia do Hospital Egas Moniz e fez investigação no Centro de Malária e outras Doenças Tropicais» («Morreu Ricardo Camacho, médico e músico dos Sétima Legião», Rita Carvalho Pereira, TSF, 4.07.2018, 11h03).

      Valha-a Deus, Rita Carvalho Pereira, valha-a Deus, então agora vai pôr o zé-povinho a tentar pronunciar «Leuven»? Então não é Lovaina? Lovaina, por sinal um nome bem bonito.

 

[Texto 9553]

Helder Guégués às 15:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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30
Jun 18

Tradução: «dumpling»

Vejam-se as diferenças

 

      «Uma última nota para a curta da Pixar que será exibida no início da sessão [do filme The Incredibles]: “Bao”, de Domee Shi. Trata-se da história de uma solitária mulher de meia idade [sic] de ascendência chinesa que, um dia, vê um dos dumplings que costuma cozinhar ganhar vida. Este episódio surrealista desencadeará uma narrativa elíptica que, em rápidas mas certeiras pinceladas, descreve as principais fases da relação tecida ao longo dos anos entre uma mãe humana e um filho comestível. O resultado é um delicado conto familiar que, nas cenas finais, se revela mais profundo do que parecia» («Heróis domésticos», Vasco Baptista Marques, «Revista E»/Expresso, n.º 2383, 30.06.2018).

      De certa maneira, até gostei mais da curta-metragem Bao do que da longa-metragem The Incredibles 2. Não sei porque se usa aqui o termo inglês dumpling. Porquê, Vasco Baptista Marques? Bao é um bolinho da cozinha chinesa cozido a vapor. Dumpling, segundo o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, é uma «espécie de sonho (doce ou salgado)»; para os English Oxford Living Dictionaries, é «a small savoury ball of dough (usually made with suet) which may be boiled, fried, or baked in a casserole».

 

[Texto 9529]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar