02
Mai 19

Asteróide Apófis

Sendo assim, preferimos só 99942

 

      Basta um excerto do artigo (o suficiente para ficarmos afectados): «Chama-se 99942 Apophis — a designação grega para um deus egípcio, conhecido como “o Lorde do Caos”, que tenta engolir o sol» («Um asteroide gigante vai passar pela Terra e está a unir cientistas de todo o mundo», Rita Carvalho Pereira, TSF, 2.05.2019, 12h55).

      Que sentido faz, Rita Carvalho Pereira, manter o nome do asteróide em inglês? E que dizer da ressonância cinéfila do «Lorde do Caos»? Reescrevendo: «Chama-se 99942 Apófis. Este era o nome grego de um deus egípcio, conhecido como “Senhor do Caos”, que tenta engolir o Sol.» Só é pena o Dicionário de Nomes Próprios da Porto Editora não registar teónimos, em cuja grafia se erra mais do que em Vanessas e Sandras.

 

[Texto 11 295]

Helder Guégués às 13:50 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
28
Abr 19

Tradução: «corporation»

E é só o início

 

      Ainda estamos na primeira página, que tem mais erros: «No que respeita a permitir ou restringir a liberdade de expressã global, algumas corporações têm mais poder do que a maioria dos Estados. Se cada utilizador do Facebook fosse contabilizado como um habitante, o Facebook teria uma população maior que a da China» (Liberdade de Expressão – Dez Princípios para Um Mundo Interligado, Timothy Garton Ash. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2017, p. 13). Basta repetir o que já escrevi aqui um dia: empresa, firma, companhia, por exemplo, traduzem muito melhor o termo corporation. Sugiro a leitura da entrada na página 196 do Guia Prático de Tradução Inglesa, de Agenor Soares dos Santos (Rio de Janeiro: Elsevier, 2007). Quanto a «contabilizado», apenas sugiro o uso da cabeça.

 

[Texto 11 268]

Helder Guégués às 08:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
27
Abr 19

Tradução: «to rub shoulders with»

Maus começos

 

      «Agora somos todos vizinhos. Existem mais telefones do que seres humanos e cerca de metade da humanidade tem acesso à internet. Nas nossas cidades, ombreamos com estranhos de todos os países, culturas e fés» (Liberdade de Expressão – Dez Princípios para Um Mundo Interligado, Timothy Garton Ash. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2017, p.13).

      Logo na terceira linha do livro, erro de tomo. Quem traduz do inglês tem obrigação de saber que to rub shoulders with se traduz por «conviver com». Claro que podiam suspeitar que ombrear significa, ainda que metaforicamente, o mesmo — mas não significa, nem servem aqui suspeitas, bastava pegar num dicionário. Se falhou o tradutor, não podia falhar o revisor. Vá, passaram dois anos, mas consultem agora um dicionário.

 

[Texto 11 264]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
16
Abr 19

Tradução: «maîtriser»

Ouro ou esterco

 

    «“O fogo está completamente sob controlo. Está parcialmente extinto, há ainda incêndios residuais para extinguir”, explicou o tenente-coronel Gabriel Plus, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Paris» («Fogo na catedral de Notre-Dame “sob controlo” e “parcialmente extinto”», Rádio Renascença, 16.04.2019, 6h06).

      É este o domínio da língua que os nossos jornalistas mostram. O que o porta-voz dos Bombeiros de Paris disse foi que o incêndio estava «complètement maîtrisé». Se traduzem maîtriser por «controlar» e contrôler também por «controlar», estamos feitos. Na verdade, como já tenho demonstrado, e fá-lo-ei de novo se for necessário, até tradutores literários vertem meia dúzia de verbos franceses ou ingleses por um único — «controlar». E depois arrogam-se o estatuto de co-autores, co-criadores. Gabam-se de criar ouro, como escreveu Voltaire dos que procuravam a pedra filosofal, quando nem sequer seriam capazes de criar esterco.

 

[Texto 11 195]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

O drama da França

Da Estrige a minha nossa

 

      «Os 387 degraus que conduzem os visitantes até às torres da catedral revelam uma galeria de quimeras — criaturas míticas compostas por mais do que um animal. A mais famosa é a gárgula “Stryge”, que fica no topo da catedral, enquanto contempla Paris com a cabeça apoiada nas mãos» («Fotogaleria. O símbolo de Paris antes das chamas», Rádio Renascença, 15.04.2019, 19h31).

      Sempre mortinhos por escreverem noutra língua qualquer... Em português, é estrige que se diz. Sim, a Catedral de Notre-Dame é um símbolo de Paris, e até da Europa. Nas primeiras páginas dos jornais de hoje, é isso mesmo que se lê no Público: «Notre-Dame da Europa». O melhor título, e página, pelo jogo de palavras, é do francês Libération: «Notre Drame». Um que me deixou de pé atrás foi do nosso i: «Minha Nossa Senhora». Remete-nos (ou pelo menos a mim) logo para o «minha nossa», a exclamação de espanto da fraseologia brasileira, assim algo entre o excessivo, mesmo contraditório — é «minha» e é, ao mesmo tempo, «nossa» —, e o lamechas.

 

[Texto 11 194]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,
08
Abr 19

Léxico: «intrincância»

Era escusado

 

      «[Jan] Six dirigiu a sua atenção ao rendilhado no colarinho. A renda era um sinal de estatuto no século XVII, e Six acredita que Rembrandt tinha uma forma característica de mostrar aquele género de renda, tipo renda de bilros. Outros artistas do período executavam laboriosamente as suas intrincâncias pintando a branco por cima do casaco» («Rembrandt no sangue», Russell Shorto/The New York Times. Tradução de Luís M. Faria, «Revista E»/Expresso, 6.04.2019, p. 47).

      No original, está intricacies, qualquer coisa como «pormenores», mas o tradutor achou melhor complicar. Qual é o problema? Só um: nas minhas leituras ao longo dos anos, pouquíssimas vezes deparei com a palavra e só num dicionário — que em Portugal pouca gente conhece ou possui — a encontrei registada.

[Texto 11 138]

Helder Guégués às 22:22 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
30
Mar 19

Tradução: «town»

Não exagerem

 

      «Plains é uma cidadezinha minúscula, duas horas a sul de Atlanta, na Georgia, e está bem inscrita num cenário agrícola onde se cultiva milho e amendoins. Não se passa muito mais em Plains. A taxa de pobreza é, creio, à volta de 40%, portanto quase metade da população vive com dificuldades e sofrendo de algum tipo de pobreza. A população é de 700 pessoas. É uma cidade muito pequena [diz o jornalista Kevin Sullivan]» («“Jimmy Carter prova que a decência conta”», José Bastos, Rádio Renascença, 30.03.2019, 8h43).

      Uma cidadezinha minúscula, com 700 habitantes... Temos aldeias (já tivemos mais) com mais de 700 habitantes. Sim, é uma town. A questão é se devemos traduzir o termo por «cidade». Inequivocamente cidade, e cidade grande, é a city. «Plains, Georgia, home of Jimmy Carter, our 39th president.» Este acaso e o Festival do Amendoim de Plains são os únicos factos a pô-la no mapa. Meia dúzia de ruas e — zumba, é uma cidade. Uma cidadezinha minúscula. Que diabo, porque não traduzir então por «vilazinha»?

 

[Texto 11 077]

Helder Guégués às 18:01 | comentar | favorito
Etiquetas: ,