05
Nov 18

Como se traduz por aí

Ruínas e miséria

 

      «Pelo menos, duas pessoas ficaram feridas após o desmoronamento de dois edifícios esta manhã, em Marselha, França. [...] No local do incidente, o vice-prefeito de Marselha, Julien Ruas, encarregado do Batalhão de Bombeiros, indicou que um dos dois prédios estava considerado em perigo há cerca de dez dias por problemas no primeiro andar. Os ocupantes deste apartamento tiveram por isso de ser realojados» («Dois edifícios ruíram na cidade francesa de Marselha», Rádio Renascença, 5.11.2018, 10h09).

      Vá lá, o jornalista soube resistir ao «colapso», tão na moda, no primeiro parágrafo. No fim, porém, foi-se abaixo e teve de usar a palavra, ou nenhum português ia compreender. Começou bem, acabou mal. Mais? Na imprensa francesa, o que se pode ler é que Julien Ruas é «l’adjoint au maire de Marseille», e, é claro, adjunto é adjunto, não é vice. E será mesmo encarregado? Não me parece. Também aqui, a imprensa francesa nos elucida: Julien Ruas é «responsable du Bataillon de Marins-Pompiers». Quanto à tradução de «Bataillon de Marins-Pompiers», se não é errada, esconde toda a diferença entre estes bombeiros e os nossos. 

 

[Texto 10 238]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | favorito | partilhar
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26
Out 18

Tradução: «self-fulfilling prophecy»

Fica-lhe mal

 

      «É aquilo a que a língua inglesa chama self-fulfilling prophecy, uma profecia que acaba por se cumprir porque o seu obsessivo anúncio ajudou, e muito, a que ela viesse a concretizar-se» («A esquerda chamou os fascistas; os fascistas vieram», João Miguel Tavares, Público, 25.10.2018, p. 56).

      João Miguel Tavares, o respeitinho ao inglês não é bonito. Em português, bem ou mal, diz-se «profecia auto-realizável». Aqui fica, bem explicadinho: «Segundo este autor, se crescermos a ouvir ideias negativas acerca de nós próprios, acabamos por ser programados por elas, caindo nas profecias auto-realizáveis, ideias que tanto foram pronunciadas que acabaram por se tornar verdadeiras» (Clínica da Infância, Teresa Paula Marques. Alfragide: Oficina do Livro, 2011, p. 37).

 

[Texto 10 197]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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24
Out 18

Tradução: «sanseacabó»

Ponto final

 

      «La Sección Cuarta de la Sala de lo Penal de la Audiencia Nacional ha rechazado suspender la entrada en prisión del expresidente de Caja Madrid y Bankia, Rodrigo Rato, que tiene hasta este jueves al final del día para elegir en qué centro penitenciario quiere ingresar. “Mañana entro en prisión y sanseacabó”, ha dicho Rato, sin revelar la cárcel que escogerá, en declaraciones al periodista de la Sexta Noticias, Alfonso Medina, en la tarde de este miércoles. El exvicepresidente del Gobierno ha afirmado que, si bien va a entrar en prisión, seguirá recurriendo» («La Audiencia Nacional da de plazo hasta el jueves a Rato para entrar en prisión», eldiario.es, 24.10.2018, 11h31).

      Sempre achei muito engraçada esta interjeição castelhana. Como traduzi-la com a mesma graça? O Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora propõe «e ponto final!; e pronto!». Porque não «e adeus!», ou «e até ao meu regresso»? Aceito sugestões.

 

[Texto 10 184]

Helder Guégués às 21:04 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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09
Out 18

Quase tudo em inglês

Entretanto, no Intendente...

 

      Um acolhedor (ou encolhedor?) T1 nas Escadinhas das Olarias à venda. Ah, mas esperem: «Encontra-se neste momento em short term renting com uma yield a rondar os 10%.» Se o escreverem em português, fica mais barato?

 

[Texto 10 067]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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02
Out 18

Como se traduz por aí

De cortar os pulsos

 

      «Arthur Ashkin, de um lado, e Gérard Mourou e Donna Strickland, por outro, partilham o prémio Nobel da Física este ano. [...] Por seu lado, Gérard Mourou e Donna Strickland foram premiados “pelo seu método de gerar ultra-pequenos pulsos óticos de alta intensidade”» («Nobel da Física atribuído a três cientistas», Rádio Renascença, 2.10.2018, 10h52). Quatro minutos mais tarde, na TSF: «O norte-americano Arthur Ashkin foi distinguido pelo seu trabalho com “pinças óticas e a sua aplicação nos sistemas biológicos”, enquanto o francês a Gérard Mourou e a canadiana Donna Strickland “pelo método de geração de impulsos óticos ultracurtos de alta intensidade”» («Lasers valem a Arthur Ashkin, Gérard Mourou e Donna Strickland o Nobel da Física», Carolina Rico, TSF, 2.10.2018, 10h56).

 

[Texto 10 039] 

Helder Guégués às 11:32 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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«Jurisprudência»/«jurisdição»

Perdoai-lhes, que eu não posso

 

      «Referindo-se ao “caso grave de alegada violência racista” que se passou na esquadra da PSP de Alfragide, em 2015, e que resultou na acusação de 18 agentes, a ECRI [Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância] não tem dúvidas em afirmar que existe “um racismo institucional profundamente enraizado nesta esquadra da polícia, que tem jurisprudência sobre vários bairros densamente habitados por pessoas negras”» («Organismo europeu acusa PSP e IGAI de tolerância ao racismo», Rádio Renascença, 2.10.2018, 9h23 — consultado às 11h21).

      Para o jornalista, «jurisdição» ou «jurisprudência» é tudo a mesma coisa. Infelizmente, não os ensinam a corrigir estas enormidades ou julgam que não têm de as corrigir. É verdade, está assim, inacreditavelmente, na versão portuguesa do relatório, mas na versão inglesa lê-se «which has jurisdiction for several districts» e na francesa «qui est compétent pour plusieurs quartiers». No caso, bastava um incompetente, o tradutor; dois já é maldição.

 

[Texto 10 038]

Helder Guégués às 11:18 | comentar | favorito | partilhar
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27
Set 18

Grande Chambre do Tribunal Europeu?

Para dormir ou para chorar?

 

      «“O Estado decidiu não recorrer para a Grande Chambre do Tribunal Europeu. De acordo com a representante de Portugal no TEDH, para esta decisão contribuiu o facto de o acórdão em causa ter sido favorável ao Estado português em quatro das cinco questões que se colocavam”, respondeu o Ministério da Justiça à agência Lusa» («Estado não recorre de decisão do Tribunal Europeu sobre Carlos Cruz», Rádio Renascença, 26.09.2018, 17h38).

      Querem ver que só no Brasil é que se diz Grande Sala do Tribunal Europeu de Direitos Humanos? Muito estranho, tudo isto.

 

[Texto 10 003]

Helder Guégués às 08:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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24
Set 18

Como se escreve por aí

Nem tudo melhora

 

      «O mayor da cidade de Veneza, Luigi Brugnaro, propôs uma multa que pode ir até aos 500 euros para quem se sente fora dos locais apropriados para esse efeito» («Veneza: Multa até 500 euros para quem se sente fora de um banco», Carolina Rico, TSF, 24.09.2018, 11h23).

      Carolina Rico, porque não disse que Luigi Brugnaro é the current Mayor of Venice? Ou o sindaco di Venezia?

 

[Texto 9983]

Helder Guégués às 15:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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21
Set 18

Tradução: «zipline»

Há cinco anos

 

      A Câmara da Nazaré vai abrir concurso para a instalação de um projeto de “zipline” que permitirá fazer uma descida de 800 metros, entre o Sítio e a Praia, por cabo aéreo. [...] A Zipline ou tirolesa é uma experiência que “permitirá a descida entre o Sítio e a Praia por cabo aéreo de aço, numa extensão de pelo menos 800 metros”, explicou o autarca, que pretende concessionar o projeto a uma empresa privada por um período de 20 ou de 25 anos, conforme “o volume de investimento que vier a ser efetuado”» («Nazaré aprova concurso para instalação de um cabo entre o Sítio e a praia», Rádio Renascença, 20.09.2018, 19h02).

      A palavra que logo lhes acode em primeiro lugar é estrangeira (que nem sequer aparece em todos os nossos dicionários bilingues). Só depois, e nem sempre, se lembram de que são portugueses a escrever para portugueses. Tirolesa, nesta acepção, se se lembram, foi incluída no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora por sugestão minha, em 2013.

 

[Texto 9956]

Helder Guégués às 08:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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