13
Nov 19

X is the Herman Feshbach Professor

A quem interessar

 

   «Frank Wilczek is the Herman Feshbach Professor at the Massachusetts Institute of Technology (MIT), etc.» Isto traduz-se (e a tradutora acertou), é claro (mas não para toda a gente, pelos vistos, que errou em casos em tudo iguais), assim: «Frank Wilczek detém a cátedra Herman Feshbach do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), etc.» Alguém ficará agora a saber.

 

[Texto 12 279]

Helder Guégués às 19:00 | comentar | favorito
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18
Out 19

Tradução: «trough»

Em todas as línguas

 

      «Para assinalar o Dia Mundial do Pão, esta quarta-feira, a CNN fez um artigo que reúne os 50 melhores pães do mundo e incluiu a típica broa de milho portuguesa na lista. Ao lado do pão português estão os também famosos lavash, da Arménia, o pão de queijo, do Brasil, a baguete francesa e as tortilhas, do México. [...] O jornalista da CNN [Jen Rose Smith] quis que a lista refletisse a diversidade deste alimento ao mesmo tempo que conjuga “o sabor memorável” e os “ingredientes originais” de cada pão. No artigo, a broa de milho é descrita como um pão saudável, peneirado, amassado numa calha de madeira e tradicional do norte de Portugal» («CNN distingue broa de milho como um dos “50 melhores pães do mundo”», Cátia Carmo, TSF, 16.10.2019, 20h00).

      A jornalista parece ignorar que muitas palavras, em todas as línguas, são polissémicas: o inglês trough, neste contexto, traduz-se em português por masseira. (Espantosamente, os dicionários, entre os quais o da Porto Editora, não se esqueceram da ferrelha, a pá de ferro para tirar brasas do forno. Mas há sempre queixas: já esta semana um leitor do blogue reclamou por os dicionários não registarem rosário de pinhões.)

 

[Texto 12 190]

Helder Guégués às 05:00 | comentar | favorito
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03
Out 19

Léxico: «hot pit»

Vá, um pouco de inglês

 

      «A aeronave partiu da 509th Bomb Wing Whiteman de Missouri, nos Estados Unidos, com destino à base aérea de Fairforth, no Reino Unido, mas parou na ilha Terceira, nos Açores, onde os Estados Unidos também têm presença militar, para um abastecimento ‘hot pit’ (com os motores ligados), que demorou cerca de duas horas» («Bombardeiro furtivo B2 americano reabastece nas Lajes», Rádio Renascença, 9.09.2019, 22h13).

 

[Texto 12 096]

Helder Guégués às 03:30 | comentar | favorito
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05
Set 19

Isso mesmo, com os pés

Nunca

 

      Claro que nunca se pode dizer que já se viu tudo, é impossível. Já tinha visto traduções de expressões inglesas completamente parvas ou vergonhosas. Não é raro ouvir alguém — a Júlio Machado Pais já o ouvi várias vezes — falar em «pôr-se nos sapatos de alguém». Hoje foi outra: vote with one’s feet foi traduzida literalmente por «votar com os pés». Ah, Isabel, Isabel, isso é traduzir com os pés. Como traduzir? Sei lá, «abandonar, descontente», «voltar as costas», etc. Valia mais irem para a Escola de Pastores, talvez a sua aptidão se revelasse plenamente nessa nobre actividade.

 

[Texto 11 920]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | favorito (1)
25
Jul 19

Erros de tradução

Olha os comprimidos

 

      Estava escrito numa «abstruse language» — o tradutor quis que fosse «numa linguagem obtusa». Tentamos sempre identificar, e confundimos, o que ignoramos com aquilo que conhecemos. Claro que quanto menos soubermos, mais isso acontece. Por vezes, felizmente, alguém corrige. Ainda assim, respingam, intrigam, exigem (!) explicações. E se se tratassem?

 

[Texto 11 839]

Helder Guégués às 07:12 | comentar | favorito
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22
Jul 19

Léxico: «correio | mula»

Casmurrices e aselhices

 

      «Dois “correios” de droga detidos à chegada a Portugal» (Jornal de Notícias, 20.07.2019, p. 21).

      É uma acepção de correio que se vê cada vez mais na imprensa. Serve para substituir o brasileirismo mula. O que me traz à mente outro erro de uma tradução do castelhano: no original, estava camello, que o tradutor verteu para «mula». Ora, basta ver no DRAE: «m. coloq. Persona que vende drogas tóxicas al por menor.» Ou seja, ao nosso correio/mula corresponde o castelhano correo; o camello castelhano é o nosso passador. O que me leva a isto: «The Mule, ou O Correio de Droga (desastrada tradução), é um pequeno grande filme, para todas as idades e crenças, na melhor tradição de Hollywood – que, infelizmente, os Oscars não souberam valorizar» («Um super Clint (Eastwood) no filme “The Mule – O Correio de Droga”», Manuel Halpern, Visão, 1.02.2019, 7h00). Suponho (não vi o filme) que a crítica à tradução tem que ver com as várias acepções de mule, que, além de correio de droga, também significa pessoa muito casmurra. Como o crítico nada explica, ficamos assim. (Ou não, devemos chamar-lhe a atenção para este erro crasso no seu artigo: «Sobre vários pontos de vista, Clint Eastwood é o maior herdeiro de John Ford. Insiste num cinema “clássico”, com uma estrutura linear em que se conta uma boa história, nunca perdendo de vista a escala humana e as dimensões interiores das personagens com todas as suas contradições.»)

      Avancemos um pouco mais: mula, para o dicionário da Porto Editora, é um termo coloquial brasileiro que designa a «pessoa que transporta droga através de fronteiras internacionais, frequentemente dentro do próprio estômago». Como há quem entenda (sem afirmar que é brasileirismo) que mula é sobretudo o transporte de drogas que atravessa fronteiras, não apenas a tradução de camello estaria certa se se optasse por «mula», como seria a tradução ideal do título do filme de Clint Eastwood — o protagonista, que seria obstinado e no fim acabaria como passador de droga. Na intenção do realizador, estaria então este duplo sentido do termo, que a tradução portuguesa arruinaria.

      Retomando a definição daquele dicionário: «frequentemente dentro do próprio estômago». «No corpo», diria eu. Nos últimos tempos, lemos notícias em que se diz que estava escondida no ânus, na vagina, na boca, colada ao tronco, debaixo do capachinho...

 

[Texto 11 819]

Helder Guégués às 11:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Jul 19

«Ad nutum, in primis, a latere...»

E vão três

 

      Mais um caso. Já tínhamos aqui visto que as locuções latinas ad nutum e in primis estão, erradamente, registadas como italianas no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora. Hoje, vi outra: a latere. Vê-se que não sabem como descalçar a bota, mas eu já indiquei um dos caminhos possíveis. Como as outras duas, esta também é latina; significa «ao lado» e tem, entre nós, uso exclusivamente jurídico. Já em castelhano é diferente, entrou na linguagem do dia-a-dia, vestida com outra roupagem, adlátere, nascida da confusão de preposições. Um adlátere é a pessoa inseparável de outra, assim como um par de jarras; também pode designar o assistente, quase a sombra subordinada de alguém, mais importante; por vezes, porém, tem um significado neutro, é o simples colega ou companheiro. Estranhamente, não está no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora.

 

[Texto 11 800]

Helder Guégués às 08:18 | comentar | favorito

Léxico: «amicícia»

Escrevivendo e aprendendo

 

      No original, de autor muito proclive a invenções lexicais, na linha do nosso Mia Couto, lia-se «amiguerío». A opção do tradutor foi pela palavra amicícia (obsoleta, mas que o dicionário da Porto Editora parece ser o único a esquecer), o que não me convence. Parece-me óbvio que, sempre que possível, para um termo obsoleto temos de encontrar um termo obsoleto, para um termo da gíria temos de achar um termo da gíria — e o mesmo temos de fazer para uma criação lexical, uma liberdade semântica, uma tirada nonsense, etc. Temos de adequar o registo, o que é muitas vezes esquecido. É difícil? Sim, é difícil — mas até nos pagam para o fazer.

 

[Texto 11 798]

Helder Guégués às 07:33 | comentar | ver comentários (5) | favorito
11
Jul 19

Léxico: «olho clínico»

É assim

 

      Deixem-me dizer aqui à coisinha que occhio clinico se traduz por olho clínico, e não «olhar clínico». Se a locução estivesse nos dicionários, acontecia menos.

 

[Texto 11 738]

Helder Guégués às 10:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito