15
Jan 21

Tradução: «walk-in closet»

Imagino

 

       No Idealista, vejo um apartamento com uma «suíte que tem walk-in closet (roupeiro de entrar a caminhar) e o outro no corredor». Imagino que seja designação que já terá dado que fazer a alguns tradutores. Também imagino que já tenha sido vertido das formas mais díspares — e remotamente fiéis. Por outro lado, não será melhor traduzi-la por «quarto de vestir»? É, pois. Infelizmente, quanto a divisões, o dicionário da Porto Editora só se lembrou do quarto de banho e do brasílico quarto de despejo. É pouco.

 

[Texto 14 570]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (2) | favorito
06
Jan 21

Tradução: «driveway»

Há dificuldades maiores

 

      «A história é simples: um SUV da marca Lexus arranca e no passeio em frente à casa (a tal driveway para a qual não encontro tradução em português), lê-se pintado em giz “we’re all in this together”, o maior clichê publicitário de 2020» («Os riscos de não arriscar», João Coutinho, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 2.01.2021, p. 23).

      Faz lembrar o homem que foi ao médico com queixas de dificuldade em levantar uma perna. «Veja, veja, senhor doutor, não consigo sequer fazer isto» — e levanta a perna com toda a facilidade. Há casos em que essa dificuldade é bem maior. Por exemplo, legacy, que vi já esta semana, no sentido de «candidate for membership in an organization (such as a school or fraternal order) who is given special status because of a familial relationship to a member». O que não se pode é estar sempre à espera de encontrar um só termo em português que corresponda perfeitamente — pois há inúmeros termos que não têm correspondência na nossa língua, porque não encontramos correspondência na nossa realidade. Não é, portanto, uma questão de palavras, mas de conceitos.  

 

[Texto 14 547]

Helder Guégués às 11:00 | ver comentários (3) | favorito
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28
Dez 20

Tradução: «complexion»

Reputações

 

      Também valia a pena alguns tradutores — sobretudo esta, já com reputação firmada — aprenderem que complexion é um falso cognato, não? Isso de escreverem que as personagens tinham «a compleição acinzentada» é capaz de merecer figurar nos anais da ignorância.

 

[Texto 14 529]

Helder Guégués às 11:00 | favorito
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13
Nov 20

Tradução: «colored people»

Só com explicação

 

      «Clarke, que na terça-feira se demitiu da presidência da FA, usou a expressão “jogadores de cor” para se referir a atletas negros, durante um debate no qual se falava de homossexualidade e a dificuldade de a assumir no futebol» («Greg Clarke deixa vice-presidência da FIFA após comentário racista», TSD, 12.11.2020, 11h28).

      Será a melhor tradução? É que «pessoas de cor» não é propriamente ofensivo em português. Pode ser uma expressão imprecisa ou idiota, mas não ofensiva ou pejorativa. Logo, se não se traduzir de outra forma, tem de ir acompanhado de uma nota. Lê-se na página da Internet da CNN: «Speaking at a UK parliamentary committee, Clarke used the word “colored” to describe Black, Asian and minority ethnic football players. He had also been criticized for his comments concerning people from South Asia, gay players and female footballers at the same meeting.»

 

[Texto 14 321]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (2) | favorito
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13
Out 20

Léxico: «sparring»

Atitude incompreensível

 

      «‘Segunda Viagem’ [integrado no livro Desoras, de Julio Cortázar] conta a história de um pugilista mediano, Ciclón Molina, que se agiganta com a possibilidade de vingar a morte no ringue de um lutador seu amigo, de quem foi sparring (assistente de treino), só para repetir o desfecho trágico, como se tivesse sido arrancado de si mesmo, e transformado em marioneta, pelos desígnios sádicos de um deus cruel» («Desajustes», José Mário Silva, «Revista E»/Expresso, 4.01.2020, p. 70).

      Assistente ou auxiliar de treino. Sucedem-se as oportunidades para corrigir e melhorar os dicionários bilingues, mas ninguém agradece nem aproveita.

 

[Texto 14 140]

Helder Guégués às 10:00 | favorito
04
Set 20

Tradução: «lucarne»

Outra que não essa

 

    «De vez em quando o comboio atira-lhe pequenos papéis amarrotados, só que ela não sabe ler “em língua alguma”. Mas chega o dia em que, pela lucarna de um vagão, um braço atira um pequeno volume envolto num bonito xaile, na verdade um pano judaico de oração» («Os deuses dos comboios», José Riço Direitinho, «Ípsilon»/Público, 14.08.2020, p. 23). É o que se lê na obra recenseada, A Mais Preciosa Mercadoria, de Jean-Claude Grumberg, com tradução de Luísa Benvinda Álvares (Publicações Dom Quixote, 2020). Eu é que duvido que seja a melhor tradução de lucarne. Talvez «janela» ou até «fresta». Vamos ter de perguntar ao jornalista Carlos Cipriano, do Público, se conhece o termo certo.

 

[Texto 13 891]

Helder Guégués às 08:15 | favorito
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