18
Jun 18

Como se traduz por aí

Paciência desafiada

 

      «Um exemplo de sucesso que Pasi Sahlberg, educador, que escreveu “Lições Finlandesas: o que pode o mundo aprender com a mudança educacional na Finlândia?”, considera estar relacionado não só com os professores, mas com todo o ambiente escolar. “A liberdade para ensinar sem os constrangimentos de um currículo estandardizado e sem a pressão de testes estandardizados; a forte liderança de diretores que conhecem a sala de aula através de anos de experiência como professores; uma cultura profissional de colaboração; e o apoio em casas não desafiadas pela pobreza”, cita o jornal britânico “The Telegraph”» («Aulas depois das aulas», Joana Gonçalves, João Diogo Correia e Rita Carvalho, «Revista E»/Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      Sei lá se é a pior tradução de unchallenged — só sei que não se percebe. Sim, o que é isso de «casas não desafiadas pela pobreza»? To challenge é polissémico, menos preguiça e lá mais para o fim do verbete do dicionário bilingue encontravam a tradução adequada.

 

[Texto 9430]

Helder Guégués às 00:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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15
Jun 18

Em francês ou em português?

Comprenez-vous?

 

      «A decisão do Tribunal de Recurso em Paris sobre o processo judicial que opôs Paulo Branco ao realizador Terry Gilliam, por causa do filme “O homem que matou D. Quixote”, foi favorável ao produtor português, como disse à Lusa» («Paulo Branco vence batalha judicial contra Terry Gilliam», TSF, 15.06.2018, 17h11). «Paulo Branco discorda: “A partir de agora, se alguém se atrever a explorar o filme sem o nosso acordo... eu não correria esse risco”, disse ao telefone ao PÚBLICO horas depois da decisão do Cour d’Appel de Paris» («Dom Quixote: Paulo Branco vence batalha judicial, mas Terry Gilliam vai recorrer», Joana Amaral Cardoso, edição digital do Público, 15.06.2018, 12h46). Agora vamos ver como vai, se for, para a edição em papel.

 

[Texto 9416]

Helder Guégués às 18:19 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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14
Jun 18

Como se responde nos EUA

Ai é?

 

      «O ritual da votação da proposta que institui o dia de Portugal no Estado [da Califórnia] seguiu o ritual habitual nos EUA mas mais [sic] muito diferente do português: o secretário da Câmara chama cada um dos 39 senadores, que para indicar a votação positiva responde: “Aye”. Ouviram-se 39» («Aye! Dia de Portugal na Califórnia aprovado por unanimidade e com oração», Hugo Neutel, TSF, 14.06.2018, 18h53).

      Um bom ritual tinha de incluir arcaísmos. Sim, aye é uma interjeição, embora não se saiba exactamente a origem, mas talvez seja variante do pronome pessoal I, ou então uma alteração de yes, ou ainda, e por fim, do advérbio aye, «sempre». Para meu relativo espanto, está no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora.

 

[Texto 9407]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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13
Jun 18

Tradução: «ilusión»

O habitual

 

      No noticiário das seis da tarde, na Antena 1, passaram um excerto da conferência de imprensa de Fernando Hierro, o novo seleccionador de Espanha, que reconheceu que já não vai a tempo de mudar nada para o jogo de Espanha contra Portugal. Usou — quase inevitavelmente — a palavra ilusión, que o jornalista traduziu — também quase inevitavelmente — por «ilusão». Mal.

 

[Texto 9402]

Helder Guégués às 19:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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11
Jun 18

Tradução: «chive»

Agora somos mais finos

 

      A primeira vichyssoise de Anthony Bourdain, comida a bordo do Queen Mary, a caminho da Europa: «Lembro-me de tudo dessa experiência: a maneira como o nosso empregado a serviu de uma terrina prateada para a minha taça, o morder nos minúsculos pedaços de chalotas picadas que ele pescou com a colher e usou como decoração, o sabor rico e cremoso do alho-porro e da batata, o choque de prazer e a surpresa quando percebi que estava fria» (Cozinha Confidencial – Aventuras no submundo da restauração, Anthony Bourdain. Tradução de José Couto Nogueira. Alfragide: Livros d’Hoje, 2011, p. 22).

      Em chalotas, o tradutor achou que tinha de explicar do que se tratava numa nota de rodapé: «Embora a palavra não exista nos dicionários, o termo chalota tem sido usado livremente como tradução de challot, uma cebola arroxeada, geralmente mais pequena do que a cebola branca. (N. do T.)» Não sei onde foi desencantar aquele «challot», pois em francês é échalote, e no original, que é o que mais interessa no caso, está chives, que se traduz por «cebolinho» (Allium schoenoprasum). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista chalota (desde quando?), mas não o nome científico (Allium oschaninii e Allium ascalonicum), o que não ajuda nada: «BOTÂNICA planta herbácea, da família das Liliáceas, de bolbo pequeno, cultivada em Portugal». Sim, talvez em 2010, quando terá sido traduzido, ainda «chalota» não estava nos dicionários, mas isso não ia impedir nenhum erro. E quem é que, actualmente, se atrevia a traduzir leek por «alho-porro»? Agora, a começar pelos cozinheiros, todos somos mais finos.

 

[Texto 9392]

Helder Guégués às 18:51 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
05
Jun 18

Tradução: «empower»

Não posso concordar

 

      «A Alemanha pediu na segunda-feira ao Governo norte-americano que esclareça as recentes declarações do novo embaixador dos EUA em Berlim, dias depois de Richard Grenell ter dito numa entrevista ao controverso site “Breitbart News” que está “entusiasmado” com a subida da extrema-direita na Europa e que quer empoderar “outros conservadores” nacionalistas no continente» («Novo embaixador dos EUA em Berlim diz-se “entusiasmado” com subida da extrema-direita», Rádio Renascença, 5.06.2018, 12h28).

      Empoderar... Evidentemente, não passava o exame Vieira (de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público): «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?» Empoderar até está, infelizmente, nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se: «1. dar ou adquirir poder ou autoridade para fazer algo; 2. tornar(-se) mais forte e confiante, controlando a própria vida e conquistando os seus direitos». Não chega, é manifestamente pouco. Portanto, senhores lexicógrafos, vamos lá acrescentar mais uma dúzia de sinónimos no verbete. O mais irónico disto tudo é que, no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, para traduzir empower não se propõe «empoderar». Deus escreve direito por linhas tortas. E então, como traduzir a frase da Richard Grenell? Dado que é embaixador dos EUA, se está na Alemanha, o mais que pode fazer é promover, fortalecer, dar voz à extrema-direita.

 

[Texto 9350]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
02
Jun 18

Como se traduz por aí

Não se traduzindo

 

      «Espanha já tem novo primeiro-ministro. Pedro Sanchez não quer “geringonças”» (Rádio Renascença, 2.06.2018, 10h07). E, segundo o Expresso Diário de ontem, também não quer os pressupostos do PP: «Sánchez está, pois, atrelado a Rajoy e “terá de governar com os pressupostos do PP”, pressupostos que “criticou duramente”, assume Virgili» («Espanha entra “num tempo de pouca construção de futuro”», Hélder Gomes). Não, o jornalista não se enganou no nome, não queria escrever Virgílio, é mesmo Jordi Virgili, professor de Comunicação Política na Universidade de Navarra. Só se enganou a traduzir — simplesmente não traduzindo — presupuestos. Caro Hélder Gomes, presupuestos é o orçamento. Lá está, com dez milhões de tradutores de castelhano, apanha-se sempre um ou outro piorzinho. Pobres leitores.

 

[Texto 9328]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | favorito | partilhar
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31
Mai 18

Uma estranheza

Liberdade, sim, mas...

 

      «Bruno recordou, ou percebeu sem saber bem como, que era de tarde. Embora as cortinas estivessem bem fechadas, vigorava nos rebordos uma claridade fria e avermelhada» (O Sonho de Bruno, Iris Murdoch. Tradução de Vasco Gato. Lisboa: Relógio D’Água, 2018, p. 9).

      Escrever é sempre uma escolha de palavras e maneiras de dizer, mas na tradução essa liberdade está muito mais condicionada. Aquele «vigorava» provoca-me logo muita estranheza, que, confrontando com o original, aumenta: «The curtains were tightly pulled, but there was a cold reddish glow about the edges.» Aliás, edge traduzido, neste contexto, por «rebordo» não me deixa menos dúvidas.

 

[Texto 9313]

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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