30
Out 18

Léxico: «chamuça/samosa»

Grande desafio...

 

      «Logo aqui, a primeira diferença: a aplicação do UberEATS dava a opção de escolher entre uma chamuça de carne, de vegetais e de frango, enquanto a Glovo dizia que havia as três, mas não deixava optar. Outra diferença: a Glovo chama-lhe “chamussa”, num claro desafio à língua portuguesa» («Qual o melhor serviço de entrega de comida? Pusemos o UberEATS à prova contra os concorrentes», Manuel Pestana Machado, Observador, 5.12.2017).

      Grande desafio à língua portuguesa, realmente... Sabia o jornalista que há dicionários — não é o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — que registam a variante «samosa»? (E não seria melhor, em vez de «dava a opção de escolher entre», «permitia escolher entre»?)

 

[Texto 10 221]

Helder Guégués às 10:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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25
Set 18

Léxico: «jarmelista»

Do Jarmelo

 

      A Antena 1 estava há momentos a entrevistar o Professor Fernando Carvalho Rodrigues, que vive agora em Casal de Cinza, a 12 quilómetros da Guarda. Claro, hoje em dia já não põe satélites em órbita, mas tem um projecto para criar vacas jarmelistas. Jarmelista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, mas esquece-se das variantes: a primeira, jermela, podemos vê-la em Aquilino Ribeiro, e ainda há outra, jarmeleira.

 

[Texto 9988]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
09
Set 18

Léxico: «comparência/comparecência»

Mais breve

 

      «A sua comparecência em jantares literários, nos quais se reunia com outros autores e editores, era frequente, tal como frequente era também a sua presença à mesa do próprio Graham» (Poe, Uma Vida Abreviada, Peter Ackroyd. Tradução de Alberto Simões e revisão de Idalina Morgado. Parede: Edições Saída de Emergência, 2009, p. 87).

      Todas têm direito a existir, mas por algum motivo temos a variante, mais breve e vinda directamente do latim, comparência.

 

[Texto 9883]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | favorito | partilhar
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25
Ago 18

«Biólogo/biologista»

Conhece-nos muito mal

 

      «A proposta mais estranha virá talvez da Rejuvenate Bio, uma startup norte-americana com investimento da Harvard Medical School que quer, segundo o biologista George Church, fazer as pessoas viverem até aos 130 anos num corpo de 22» («Está preparado para viver até aos 100 anos?», João Valente, Montepio, Verão de 2018, p. 10).

      João Valente foi atrás do inglês biologist, mas, desta vez, sem consequências indesejáveis: também temos «biologista». Devo, porém, dizer que nunca antes eu vira a palavra fora dos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de biologista remete simplesmente para biólogo, como de paleontologista remete para paleontólogo. No Facebook, esse grande repositório de desinformação e outras coisas piores, leio na página Nomes Científicos, de Rafael Rigolon, que «biólogo está tão correto quanto biologista», mas que é preciso atentar em alguns matizes: «O sufixo ‘-logista’ é uma influência da língua inglesa, que usa o sufixo ‘-logist’ (‘biologist, aracnologist’). Há uma preferência regional pelos sufixos. Em Portugal e outros países usam-se muito o ‘-logista’ (biologista, primatologista) e no Brasil o ‘-ólogo’ (biólogo, primatólogo).» Rafael Rigolon, só lhe digo que teve azar com o exemplo das «preferências» em Portugal.

 

[Texto 9829]

Helder Guégués às 19:00 | comentar | ver comentários (7) | favorito | partilhar
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19
Jul 18

Monte Ararate

É claro que se atrevem

 

      «Viajámos de comboio até Istambul e, depois, para Erzurum, no leste da Turquia, perto do monte Ararate» (A Minha Breve História, Stephen Hawking. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: Gradiva, 2014, p. 39).

      Talvez o tradutor pensasse: «Só “Ararat” é que não tem cura. Com este ninguém se atreve.» Eu sabia desta tripla ortografia — Arará, Ararat, Ararate —, mas ver outra que não Ararat é que é mais raro. (Entretanto, a edição é de 2014, espero que tradutor e revisor já saibam que é «Leste da Turquia». Ainda mais estranho: só numa citação (!) grafam «Universo» com maiúscula — mas, como a obra tem revisão científica de Carlos Fiolhais, deve ser imperativo científico.)

 

[Texto 9657]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | favorito | partilhar
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08
Abr 18

Léxico: «geresiano»

Dos poucos casos

 

      «É a Adega do Ramalho, cujo nome é tributo ao escritor e ao local que frequentava. Trata-se de uma casa aberta por Lino Ribeiro, um geresiano de nascimento, descendente da primeira família, oriunda de Rio Caldo, que se fixou, no ano de 1860, em permanência nas termas» («Banco histórico do Gerês deu nome a casa tradicional», TSF, 5.04.2018, 19h11).

      Deve ser dos poucos casos com tantas variantes: geresano, geresão, geresiano, geresino. E todas elas estão registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9016]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito | partilhar
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28
Jan 18

Cidade Luz/Cidade das Luzes

Há escolha

 

      «Foram igualmente fechadas estradas nas margens do rio, bem como sete estações de comboio ao longo do seu curso, mas tais medidas não causaram perturbações de maior na Cidade das Luzes» («França. Água continua a subir em Paris», Rádio Renascença, 28.01.2018, 17h46).

      É um dos dois prosónimos de Paris, mas o meu preferido é Cidade Luz, talvez porque em francês é Ville Lumière. Há quem, porém, troque os fios e escreva «Cidade da Luz», como Estádio da Luz. Enfim.

 

[Texto 8630]

Helder Guégués às 22:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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16
Jan 18

«Cheché» ou «xexé»

O mundo não quer saber

 

      A magna questão do Jogo da Língua Portuguesa de hoje era sobre ortografia: «cheché» ou «xexé»? Estava o País à espera da solução, e ela veio: «A resposta correcta é a alínea b). A palavra “xexé” escreve-se com x. Esta palavra é de origem onomatopeica.» O ouvinte, claramente afastado da escrita e da leitura, propendia de início para a primeira, mas, depois, acabou por mudar de ideias. Justamente por ser de origem onomatopeica, seria mais ou menos indiferente escrever-se assim ou assado — e, de facto, sabia a «nossa especialista em língua portuguesa» que há dicionários que registam ambas as variantes e, sobretudo, que antes se escrevia apenas com ch, sabia? Escolha melhores exemplos, caramba. Que imaginação tão débil.

 

[Texto 8589]

Helder Guégués às 22:24 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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02
Dez 17

Léxico: «Antropoceno/Antropocénico»

Pensemos

 

      «A expressão “Antropoceno” é atribuída ao químico e prémio Nobel Paul Crutzen, que a propôs durante uma conferência em 2000, ao mesmo tempo que anunciou o fim do Holoceno — a época geológica em que os seres humanos se encontram há cerca de 12 mil anos, segundo a União Internacional das Ciências Geológicas (UICG), a entidade que define as unidades de tempo geológicas» («E se formos os últimos seres vivos a alterar a Terra? Antropoceno», Raquel Dias da Silva, Público, 2.12.2017, p. 28).

      Peguemos primeiro em Holoceno, se não se importam. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de Holoceno remete-se para Holocénico, e há quem afirme que esta forma é mais correcta. Em Plistocénico, porém, já remete para Plistoceno, por onde se prova que estas remissões não obedecem a nenhuma lógica. Estamos, agora, em condições de tratar do termo Antropoceno, o que se resolve com uma pergunta. Porque não regista aquele dicionário a variante Antropocénico?

 

[Texto 8425] 

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar