15
Jan 21

Regência: «aspirar | aspirar a»

Vejamos com o mesmo verbo

 

      «Annie Cohen Kopchovsky imigrou com os seus pais para os Estados Unidos em 1875. Aí, tornou-se cidadã americana aos cinco anos. Mas [sic] tarde, aspirou ser jornalista, faz-se promotora de marcas, perdeu os pais em 1887, casou com um judeu ortodoxo, teve três filhos e ganhou a imortalidade ao conquistar o título de primeira mulher a completar uma volta ao mundo em bicicleta» («Annie Londonderry, a ciclista do século XIX que deu a volta ao mundo», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 4.01.2021, p. 10).

      Ah, a regência verbal... Não, Jorge Andrade, não é como escreveu. No sentido de «ter por objectivo, pretender», é obrigatória a preposição: «aspirou a ser jornalista». «Começaram os monarcas a ser homens; e logo que um só homem podia muito nas monarquias, como dizia Pombal, também se poderá dizer que esta única mudança era bastante para fazer ruínas uma monarquia de bronze: — é porque um rei ambiciona ser bom rei; e um particular aspira a ser monarca» (Delitos de Mocidade, in Obras, Vol. 38, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1973, p. 118).

 

[Texto 14 568]

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03
Dez 20

Ter pagado e ter pago

Ou deixe-se ir

 

      «A construtora brasileira Odebrecht terá pagado alegadas luvas de mais de dois milhões de euros ao ‘Príncipe’, nome de código de um cidadão português, através de um suposto testa de ferro do BES e amigo de Ricardo Salgado» («Testa de ferro do BES acolhe luvas do ‘Príncipe’», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 28.11.2020, p. 4). Está certíssimo, mas cada vez se ouve e lê mais «ter pago». O meu corrector ortográfico, porém, ainda diz «corrija a forma de particípio passado».

 

[Texto 14 417]

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16
Ago 20

O verbo «demolir»

Deve continuar a ser assim

 

      «Entretanto, enquanto a investigação policial assim o exigir, as obras na mansão estão suspensas e só devem recomeçar depois do verão. Mas com regras: o plano de preservação imposto em Paris proíbe os novos proprietário que demulam o edifício, modifiquem a fachada original, ampliem o espaço ou construam novas zonas. Jean-Bernard Lafont já fez saber que planeia seguir todas as regras. Mas não comenta a arrepiante descoberta no sótão da Rue Oudinot, número 12» («O cadáver com 30 anos que suspendeu as obras numa misteriosa mansão abandonada no coração de Paris», Marta Leite Ferreira, Observador, 10.08.2020, 22h19).

      Os estudiosos da língua, quase sem excepção, consideram defectivo o verbo demolir. Como abolir, por exemplo. Percebe-se, creio, porquê. Não tanto por ter formas antieufónicas (outro que devia ser dicionarizado), mas por não terem sido assimiladas pelo uso. A solução, como sempre, está ou nos circunlóquios ou em sinónimos.

 

[Texto 13 865]

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04
Ago 20

«Tratar-se de», mais uma vez

Mostrem que aprendem

 

      «No mesmo sentido se pronunciou o Comando Territorial da GNR de Braga, já que se tratam de factos alegadamente ocorridos no concelho de Barcelos, naquele distrito. “Iremos efetuar diligências para apurar as circunstâncias da gravação. Caso se trate efetivamente de um guarda[,] haverá lugar a processo disciplinar, uma vez que a GNR não autorizou tal participação”, disse» («GNR investiga uso de farda de militar em vídeo de “rapper” minhoto», Joaquim Gomes, Jornal de Notícias, 31.07.2020, 19h55).

      Joaquim Gomes, não aprendeu isto, pelos vistos não lê nem relê, enfim. O mais estranho é não o corrigirem aí no jornal.

 

[Texto 13 844]

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11
Jul 20

O pobre verbo «faltar»

Simplesmente indocíveis

 

      «Faltam distribuir 560 ventiladores» (Francisca Genésio, Correio da Manhã, 27.06.2020, p. 19). A especialidade deles é mais sangue e crime, não gramática e língua.

 

[Texto 13 694]

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23
Jun 20

«Tratar-se de», milésima vez

De cortar os pulsos

 

      «Luís Gaiba justificou ainda que os códigos “papéis” ou “papelada” que o MP diz serem utilizados entre si e o principal vendedor das armas, António Laranginha, tratavam-se realmente de papéis de que necessitava para o batismo da enteada. [...] “Carregadores” era outro suposto código, que o arguido disse tratarem-se de carregadores de telemóvel» («Compra de Audi trama polícia em furto e tráfico de armas», Rogério Matos, Jornal de Notícias, 19.06.2020, p. 16). É escusado, não aprendem.

 

[Texto 13 597]

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