29
Nov 19

O pobre verbo «haver»

E os pobres leitores

 

      «Hajam fundos, já agora. Em Bruxelas, depois de ter visto a sua equipa confirmada pelo Parlamento Europeu, a nova presidente da Comissão Europeia esteve com a Susana Frexes, fugindo à pergunta para muitos milhões de euros: haverá mais fundos europeus, ou é inevitável o corte que António Costa anda a tentar contrariar?» («Quando ouvir dizer mal dos partidos, pense nisto», David Dinis, Expresso Curto, 28.11.2019).

      Este formato do Expresso só é curto no nome, que, no que toca (e não escrevo «tange» para não haver ambiguidades) a erros, é bem grosso. Com que então, David Dinis, é «hajam fundos» que se diz?

 

[Texto 12 378]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
10
Out 19

O verbo «abster» trucidado

Tubo de ensaio estilhaçado

 

      «Por hoje é tudo. Voltamos amanhã, se eu não me abster de aparecer» («Um outro pós-eleições», Bruno Nogueira, TSF, 8.10.2019). O erro anda no ar... Logo de manhãzinha, os ouvintes da TSF, tumba!, levam logo com um erro crasso em cima. Caro João Quadros, os verbos abster, ater-se, deter, entreter, manter, reter, suster e mais alguns conjugam-se pelo verbo ter: tiver — abstiver. «Se eu não me abstiver.» Não tem de quê. Vá falando (mas com menos erros).

 

[Texto 12 141]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
31
Jan 19

Dia ao Contrário

Gramática às avessas

 

      A emissão de hoje de Um Dia no Mundo, de Francisco Sena Santos, na Antena 1, era sobre os Irlandeses e os Norte-Irlandeses, sobre as duas Irlandas, os menos de 2 milhões de um lado, os 5 milhões do outro lado. «Todos sentem-se irlandeses», garante o cronista, num imperdoável deslize — com certeza não improvisa, a crónica é escrita. Deve ser porque hoje é o Dia ao Contrário, já que Sena Santos é uma das melhores vozes e cabeças da rádio.

 

[Texto 10 687]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
29
Jan 19

Léxico: «circulatura do quadrado»

Esta é para rir

 

      «Anteriormente designado de Quadratura do Círculo, na SIC, o programa que integra o jornalista Carlos Andrade, os antigos dirigentes do PSD José Pacheco Pereira e do CDS António Lobo Xavier e o antigo ministro socialista Jorge Coelho troca de canal e passa agora a denominar-se de Circulatura do Quadrado» («Marcelo é convidado especial no arranque da Circulatura do Quadrado», Rádio Renascença, 28.01.2019, 22h37, destaques meus).

      No Twitter, dizem que é um nome genial, e — atenção a isto — que esperam que paguem os direitos a Nilton. Não sei se com isto pretendem dizer que foi Nilton quem inventou a expressão. Espero que não, embora já saiba que certas alminhas não dão uma para a caixa. Circulatura do quadrado circula por aí há umas boas décadas, pelo menos, e designa, tal como a expressão quadratura do círculo — única dicionarizada — uma impossibilidade absoluta. (Senhor plumitivo, o verbo denominar-se é pronominal, e, por isso, comporta-se como verbo copulativo, não precisando de preposição: «e passa agora a denominar-se Circulatura do Quadrado». Tem de quê, mas agora fica assim.)

 

[Texto 10 672]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
25
Out 18

«Tratar-se de», mais uma vez

Só para não se esquecerem

 

      «A candidata à liderança da Juventude Socialista (JS) Maria Begonha reescreveu o seu currículo depois de o jornal Público ter esta terça-feira denunciado que várias informações biográficas não correspondiam à verdade. [...] Ao Público, o diretor de campanha, Tiago Estêvão Martins, disse que as informações incorretas se tratavam de “gralhas com relevância diminuta”, falando num eventual “erro na transposição” da informação para o site» («Erros no currículo levam candidata à liderança da JS a alterar biografia», Carolina Rico, TSF, 24.10.2018, 9h34, itálicos meus).

      E o «se tratam de» será erro na transposição ou um consistente, arreigado desconhecimento das regras da gramática, Carolina Rico?

 

[Texto 10 188]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,