17
Jun 18

Regência verbal

Um caso

 

      «Crianças a caminharem sozinhas pelas ruas, a apanharem o metro sozinhas, talvez porque existiam militares em cada esquina, talvez porque viviam num Estado policial ou talvez por outro motivo qualquer, que também poderemos considerar se nos permitirmos a ver as questões por mais do que apenas uma perspectiva» (Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto. Lisboa: Quetzal, reimpressão de Janeiro de 2017, p. 86).

      Que regência verbal é esta? Eu desconheço-a completamente. Se nos permitirmos a ousadia de considerar que é erro do revisor, fica o autor ilibado. Talvez, depois de tantas reimpressões, esteja afinal precisada de uma reedição. Digo eu.

 

[Texto 9428]

Helder Guégués às 23:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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10
Jun 18

A televisão é pior

Mau português... Onde?

 

      Ontem, vi, na SIC, uma reportagem sobre os youtubers portugueses. Uma das preocupações dos pais das criancinhas que vêem os vídeos é o «mau português». Pois bem, a determinada altura, a repórter, Catarina Marques, perguntou a um rapazinho de 10 anos, Gonçalo Martins, se tinha telemóvel. Que sim. «E levas-o para a escola?» Fica provado que ver televisão ainda pode ser mais pernicioso.

 

   [Texto 9380]

Helder Guégués às 09:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1) | partilhar
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09
Jun 18

Regência: «assistir»

Nem a polícia sabe

 

      «O homicídio a tiro foi assistido por duas pessoas, que ficaram em choque» («Dispara sobre o filho e mata-o no quintal», Magali Pinto, Joana de Sales e Sara G. Carrilho, Correio da Manhã, 8.06.2018, p. 10).

      O habitual: quantos mais são, menos fazem. Com que então, o tiro foi assistido? Quer dizer que o alegado homicida foi auxiliado por alguém, é isso? Ah, infelizes. Já sei que não vão compreender, mas sempre direi que, com o sentido de «presenciar, ver», assistir é um verbo transitivo indirecto, devendo reger a preposição a.

 

[Texto 9376]

Helder Guégués às 12:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Regência: «propor-se»

Mais curto e correcto: eu quero

 

      «Diz a magistrada que o atual quadro legal permite classificar como organização terrorista um agrupamento de adeptos de uma associação desportiva que se proponham a esbofetear atletas para os intimidar» («Magistrada defende tese de terrorismo», Correio da Manhã, 8.06.2018, p. 5).

   Mais simples e considerada mais correcta: «se proponham esbofetear». Não têm de quê, ou têm, mas o prazer é meu.

 

[Texto 9375]

Helder Guégués às 12:19 | comentar | favorito | partilhar
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10
Mar 18

O desgraçadíssimo verbo «haver»

Terceira e última

 

      É a terceira vez que os visito: a primeira foi quando me disseram que tentavam morder-me as canelas; a segunda, hoje de manhã, que fui lá parar por acaso e, com pena, apesar das dentadas liliputianas, vi que não publicavam nada desde 20 de Janeiro, e agora, depois de um leitor brasileiro do Linguagista me chamar a atenção. E é isto, que deve ser convicção, pois foi publicado ontem e até um leitor, num comentário, os corrigiu timidamente: «Como vemos sempre aqui na página, o Houaiss é um excelente dicionário – de longe o melhor dicionário de português existente hoje -, mas, apesar disso, tem erros – muitos erros, centenas de erros. Já vimos dezenas de erros do Houaiss aqui – vários e vários deles foram corrigidos pela própria equipe do Houaiss após termos tratado deles aqui, mas ainda assim, pelo próprio tamanho e pela natureza da obra, continuam a haver e é provável que sempre haverá erros» («A origem da palavra “tiete” (e de “tietar”, e “tietagem”)», dicionarioegramatica, 9.03.2018).

      Por sorte, para eles, podem escrever todos os disparates que lhes aprouver, não há ali um nome a responsabilizar-se — é uma «equipe», o casal dicionario e gramatica. Boa sorte.

 

[Texto 8898]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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08
Mar 18

Particípio passado de «ouvir»

Não mata, mas mói

 

      Foi hoje divulgado um inquérito, realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), que revela que quase um quarto dos Portugueses tem dificuldades em ouvir, até os que usam prótese auditiva. Ah, mas eu ouvi, também hoje, aquela criaturinha, professora de Português, usar a forma verbal errada «ouvisto»: «Nunca tinha ouvisto este som», disse a criaturinha. Senti uma guinada no estômago — mas era a terceira vez que lhe ouvia a enormidade, doeu menos. A gente habitua-se a tudo. Numa das outras vezes, chamei-lhe a atenção, mas desmentiu-me, indignada. Tenho de me precaver... Não é nada de novo: já, pelo menos, desde Madureira Feijó que andamos a alertar os descuidados: o único particípio pretérito do verbo «ouvir» é ouvido. Parece que estão a juntar o particípio de «ver» (visto) com o de «ouvir» (ouvido). Professora de Português, Dia Internacional da Mulher...

 

[Texto 8886]

Helder Guégués às 22:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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29
Jan 18

«Aerossolar», disse ela

Jamais aerossolizarei

 

      Este caso da legionela na CUF Descobertas está a proporcionar-nos matéria para reflexão linguística. Hoje de manhã, a directora-geral da Saúde dizia na rádio que aquele hospital não «aerossolava», corrigindo ou explicando logo de seguida que não «fazia aerossóis». Pode ter sido lapso, mas o mais provável é que os médicos usem esse verbo. Ora, os nossos dicionários apenas registam aerossolizar. De qualquer maneira, diga-se que é verbo transitivo.

 

[Texto 8633]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | favorito | partilhar
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«Diagnosticar», um verbo doente

Curem-se, emendem-se

 

      Diagnosticar pessoas? Aqui está uma boa questão, vinda da caixa de comentários do texto anterior, suscitada pelo leitor J. C. No noticiário das 8h00 na Antena 1, disse o jornalista Nuno Rodrigues, mas é erro quotidiano: «As quatro mulheres diagnosticadas com a doença continuam internadas em situação estável e com prognóstico positivo.» Ora, basta consultar um dicionário para concluir que as doenças é que são diagnosticadas, não as pessoas. Senhores profissionais da área da saúde, senhores jornalistas, vamos lá exprimir-nos correctamente.

 

[Texto 8632]

Helder Guégués às 09:26 | comentar | favorito | partilhar
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