31
Jan 19

Dia ao Contrário

Gramática às avessas

 

      A emissão de hoje de Um Dia no Mundo, de Francisco Sena Santos, na Antena 1, era sobre os Irlandeses e os Norte-Irlandeses, sobre as duas Irlandas, os menos de 2 milhões de um lado, os 5 milhões do outro lado. «Todos sentem-se irlandeses», garante o cronista, num imperdoável deslize — com certeza não improvisa, a crónica é escrita. Deve ser porque hoje é o Dia ao Contrário, já que Sena Santos é uma das melhores vozes e cabeças da rádio.

 

[Texto 10 687]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
29
Jan 19

Léxico: «circulatura do quadrado»

Esta é para rir

 

      «Anteriormente designado de Quadratura do Círculo, na SIC, o programa que integra o jornalista Carlos Andrade, os antigos dirigentes do PSD José Pacheco Pereira e do CDS António Lobo Xavier e o antigo ministro socialista Jorge Coelho troca de canal e passa agora a denominar-se de Circulatura do Quadrado» («Marcelo é convidado especial no arranque da Circulatura do Quadrado», Rádio Renascença, 28.01.2019, 22h37, destaques meus).

      No Twitter, dizem que é um nome genial, e — atenção a isto — que esperam que paguem os direitos a Nilton. Não sei se com isto pretendem dizer que foi Nilton quem inventou a expressão. Espero que não, embora já saiba que certas alminhas não dão uma para a caixa. Circulatura do quadrado circula por aí há umas boas décadas, pelo menos, e designa, tal como a expressão quadratura do círculo — única dicionarizada — uma impossibilidade absoluta. (Senhor plumitivo, o verbo denominar-se é pronominal, e, por isso, comporta-se como verbo copulativo, não precisando de preposição: «e passa agora a denominar-se Circulatura do Quadrado». Tem de quê, mas agora fica assim.)

 

[Texto 10 672]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
25
Out 18

«Tratar-se de», mais uma vez

Só para não se esquecerem

 

      «A candidata à liderança da Juventude Socialista (JS) Maria Begonha reescreveu o seu currículo depois de o jornal Público ter esta terça-feira denunciado que várias informações biográficas não correspondiam à verdade. [...] Ao Público, o diretor de campanha, Tiago Estêvão Martins, disse que as informações incorretas se tratavam de “gralhas com relevância diminuta”, falando num eventual “erro na transposição” da informação para o site» («Erros no currículo levam candidata à liderança da JS a alterar biografia», Carolina Rico, TSF, 24.10.2018, 9h34, itálicos meus).

      E o «se tratam de» será erro na transposição ou um consistente, arreigado desconhecimento das regras da gramática, Carolina Rico?

 

[Texto 10 188]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
23
Out 18

O verbo «polir» trucidado

Ervas daninhas

 

      «“Para além [sic] de ecológico, ainda permite remover pastilhas elásticas, que são um grande problema na manutenção do espaço público”, acrescenta a autarca [Sofia Dias, presidente da Junta de Freguesia da Penha de França]. A presidente elogia ainda o desempenho da máquina na calçada, porque, como “só utiliza água, não desaglomera as pedras nem as pole” como outros sistemas» («Penha de França usa máquina ecológica», Sebastião Almeida, Público, 23.10.2018, p. 17).

      A autarca usou essa forma verbal? Mas os jornalistas (o texto foi editado por Ana Fernandes) é que escreveram o artigo, suponho. Pois é, não as «pole» porque essa forma verbal não existe. É simples. O presente do indicativo é «pulo, pules, pule, polimos, polis, pulem». O mundo da língua é que não pula nem avança se continuarem a escrever desta maneira. Não pula, mas sobressalta-se.

 

[Texto 10 174]

Helder Guégués às 17:13 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
26
Set 18

O pobre verbo «haver», de novo

Cultura...

 

      Incêndio em Travassos, Póvoa de Lanhoso. Há habitações em risco? «Já houveram, já houveram. Ardeu um pequeno barraco, mas era mesmo só um pequeno barraco», declarou à Antena 1 Avelino Silva, o presidente da Câmara Municipal da Póvoa do Lanhoso. Não sei qual a profissão ou formação do autarca, mas posso adiantar que detém o pelouro da Cultura.

 

[Texto 10 002]

Helder Guégués às 17:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
20
Set 18

Léxico: «borregar»

Borregos, cavalos e aviões

 

      «Mais de uma dezena de voos tiveram de ficar em espera, um “borregou” a aproximação e dois tiveram de divergir para Faro com problemas de combustível» («‘Drone’ interrompeu operação no Aeroporto de Lisboa», Rádio Renascença, 20.09.2018, 14h01).

      Já em 2014, lembrar-se-ão, aqui tínhamos visto o verbo borregar. Não são necessárias as aspas, mas vá lá a gente meter isto na cabeça dos jornalistas. Se fossem robôs, já o sabiam, bastava pressionar com um ⍝.

 

[Texto 9952]

Helder Guégués às 14:37 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,
13
Set 18

Léxico: «triar»

É muito menos frequente

 

      «Sobre este caso, o Centro Hospitalar [do Tâmega e Sousa], em resposta à ERS[,] indicou que o doente, na primeira ida à urgência, foi medicado, tendo melhorado e tido alta. No dia seguinte, foi triado com a cor laranja “por agravamento clínico”, tendo sido verificado o óbito, situação que o hospital diz lamentar» («Urgências. Quase 200 reclamações recebidas por falhas do acompanhamento de doentes», Rádio Renascença, 13.09.2018, 12h31).

      Encontramos frequentemente o substantivo, triagem, mas o verbo verbo, triar, é de uso mais muito menos frequente. Está tudo bem, existe, use-se.

 

[Texto 9910]

Helder Guégués às 13:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,