21
Mai 20

«Receamos infectar-nos»

A dificuldadezinha com os verbos

 

      Antes de fechar a loja, vamos ajudar Pedro Tadeu, pode ser que ele agradeça. Uns agradecem, outros escoicinham, depende da natureza de cada um. «Estamos todos com medo de que a saída de casa, a ida à escola, ao trabalho, às compras, ao convívio com colegas de trabalho, com amigos, com familiares, com estranhos, possam ser um perigo. Receamos infetarmo-nos. Receamos infetar os outros. Receamos pelos nossos filhos, pelos nossos pais. Receamos uma segunda vaga da COVID-19 e achamos que a primeira ainda não passou» («É preciso salvar a Livraria Barata?», Pedro Tadeu, TSF, 18.05.2020, 7h09).

      Não, não, não, Pedro Tadeu: a marca da pessoa, no caso, a primeira pessoa do plural, já está na primeira forma verbal. Logo, escreve-se «receamos infectar-nos». Repare como escreveu a frase seguinte; essa está certa.

 

[Texto 13 402]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito
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06
Mar 20

Verbo «presidir»

Só para relembrar

 

       «Na leitura do acórdão, a juíza que presidiu o julgamento referiu que, “dada a compleição física” de Rosa Grilo, carregar o corpo do marido não seria “impossível”. Aliás, para o tribunal, a arguida terá usado o édredon onde embrulhou o corpo para o arrastar até ao carro e então transportá-lo até ao local onde o abandonou, a cerca de 160km de casa onde viviam, nas Cachoeiras» («Rosa Grilo condenada a 25 anos de prisão pelo homicídio do marido. António Joaquim absolvido», Sónia Trigueirão, Público, 4.03.2020, p. 20).

      O verbo presidir, como se sabe, constrói-se com objecto directo («presidir o julgamento»), como na frase acima, ou com objecto indirecto («presidir ao julgamento»), que é a forma mais comum e a que prefiro.

 

[Texto 12 909]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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15
Jan 20

O explosivo verbo «implodir»

Fica para a próxima

 

      «O médico lamenta a saída de profissionais para o sector privado e a dificuldade de contratação por parte do SNS. “Tenho algum receio de que se não forem contratados mais recursos humanos o SNS imploda» («Radiologia: “Tenho algum receio de que se não forem contratados mais recursos humanos o SNS imploda”», Ana Maia, Público, 13.01.2020, p. 13).

      Ai que vergonha, Ana Maia, que vergonha... Mas talvez tudo se explique pela numerologia: na página 13 da edição do dia 13 (mas felizmente não era sexta-feira), alguém se ia espalhar, e tinha de ser Ana Maia porque o resto da página é publicidade. Confunde — sempre as confusões — com o verbo explodir, que, segundo alguns (pouquíssimos, não é consensual), admite, no presente do conjuntivo, as formas expluda/exploda. Até sentimos o coração aos trancos.

 

[Texto 12 637]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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29
Nov 19

O pobre verbo «haver»

E os pobres leitores

 

      «Hajam fundos, já agora. Em Bruxelas, depois de ter visto a sua equipa confirmada pelo Parlamento Europeu, a nova presidente da Comissão Europeia esteve com a Susana Frexes, fugindo à pergunta para muitos milhões de euros: haverá mais fundos europeus, ou é inevitável o corte que António Costa anda a tentar contrariar?» («Quando ouvir dizer mal dos partidos, pense nisto», David Dinis, Expresso Curto, 28.11.2019).

      Este formato do Expresso só é curto no nome, que, no que toca (e não escrevo «tange» para não haver ambiguidades) a erros, é bem grosso. Com que então, David Dinis, é «hajam fundos» que se diz?

 

[Texto 12 378]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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10
Out 19

O verbo «abster» trucidado

Tubo de ensaio estilhaçado

 

      «Por hoje é tudo. Voltamos amanhã, se eu não me abster de aparecer» («Um outro pós-eleições», Bruno Nogueira, TSF, 8.10.2019). O erro anda no ar... Logo de manhãzinha, os ouvintes da TSF, tumba!, levam logo com um erro crasso em cima. Caro João Quadros, os verbos abster, ater-se, deter, entreter, manter, reter, suster e mais alguns conjugam-se pelo verbo ter: tiver — abstiver. «Se eu não me abstiver.» Não tem de quê. Vá falando (mas com menos erros).

 

[Texto 12 141]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
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31
Jan 19

Dia ao Contrário

Gramática às avessas

 

      A emissão de hoje de Um Dia no Mundo, de Francisco Sena Santos, na Antena 1, era sobre os Irlandeses e os Norte-Irlandeses, sobre as duas Irlandas, os menos de 2 milhões de um lado, os 5 milhões do outro lado. «Todos sentem-se irlandeses», garante o cronista, num imperdoável deslize — com certeza não improvisa, a crónica é escrita. Deve ser porque hoje é o Dia ao Contrário, já que Sena Santos é uma das melhores vozes e cabeças da rádio.

 

[Texto 10 687]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito
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29
Jan 19

Léxico: «circulatura do quadrado»

Esta é para rir

 

      «Anteriormente designado de Quadratura do Círculo, na SIC, o programa que integra o jornalista Carlos Andrade, os antigos dirigentes do PSD José Pacheco Pereira e do CDS António Lobo Xavier e o antigo ministro socialista Jorge Coelho troca de canal e passa agora a denominar-se de Circulatura do Quadrado» («Marcelo é convidado especial no arranque da Circulatura do Quadrado», Rádio Renascença, 28.01.2019, 22h37, destaques meus).

      No Twitter, dizem que é um nome genial, e — atenção a isto — que esperam que paguem os direitos a Nilton. Não sei se com isto pretendem dizer que foi Nilton quem inventou a expressão. Espero que não, embora já saiba que certas alminhas não dão uma para a caixa. Circulatura do quadrado circula por aí há umas boas décadas, pelo menos, e designa, tal como a expressão quadratura do círculo — única dicionarizada — uma impossibilidade absoluta. (Senhor plumitivo, o verbo denominar-se é pronominal, e, por isso, comporta-se como verbo copulativo, não precisando de preposição: «e passa agora a denominar-se Circulatura do Quadrado». Tem de quê, mas agora fica assim.)

 

[Texto 10 672]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
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24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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