Tradução: «chive»

Agora somos mais finos

 

      A primeira vichyssoise de Anthony Bourdain, comida a bordo do Queen Mary, a caminho da Europa: «Lembro-me de tudo dessa experiência: a maneira como o nosso empregado a serviu de uma terrina prateada para a minha taça, o morder nos minúsculos pedaços de chalotas picadas que ele pescou com a colher e usou como decoração, o sabor rico e cremoso do alho-porro e da batata, o choque de prazer e a surpresa quando percebi que estava fria» (Cozinha Confidencial – Aventuras no submundo da restauração, Anthony Bourdain. Tradução de José Couto Nogueira. Alfragide: Livros d’Hoje, 2011, p. 22).

      Em chalotas, o tradutor achou que tinha de explicar do que se tratava numa nota de rodapé: «Embora a palavra não exista nos dicionários, o termo chalota tem sido usado livremente como tradução de challot, uma cebola arroxeada, geralmente mais pequena do que a cebola branca. (N. do T.)» Não sei onde foi desencantar aquele «challot», pois em francês é échalote, e no original, que é o que mais interessa no caso, está chives, que se traduz por «cebolinho» (Allium schoenoprasum). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista chalota (desde quando?), mas não o nome científico (Allium oschaninii e Allium ascalonicum), o que não ajuda nada: «BOTÂNICA planta herbácea, da família das Liliáceas, de bolbo pequeno, cultivada em Portugal». Sim, talvez em 2010, quando terá sido traduzido, ainda «chalota» não estava nos dicionários, mas isso não ia impedir nenhum erro. E quem é que, actualmente, se atrevia a traduzir leek por «alho-porro»? Agora, a começar pelos cozinheiros, todos somos mais finos.

 

[Texto 9392]

Helder Guégués às 18:51 | comentar | favorito | partilhar