Um apóstrofo alienígena

Não precisa

 

 

     «E perguntaram o que iria fazer: limpar WC’s e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um “tacho” proporcionado pelos “amiguinhos”? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que “deixasse cá a reforma”. Os duzentos e tal euros. [...] Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC’s e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha» («Carta ao meu pai, Fernando Tordo», João Tordo, Público, 20.02.2014, p. 55).

    É impressionante, vergonhoso, como tratam mal os artistas — e Fernando Tordo não é um artista qualquer — neste país.

    Agora quanto aos WC: não precisam, como acabei de fazer, de apóstrofo, que, afinal, nem na língua inglesa, neste caso, se usa. «Mostrou as áreas de performing, o bar onde poderia servir-se à discrição, a pérgula onde podia fumar e a escada de acesso aos WC. De longe apontou para o dono da casa» (Cidade Proibida, Eduardo Pitta. Lisboa: QuidNovi, 2007, p. 103).

 

[Texto 4080]

Helder Guégués às 09:49 | comentar | favorito
Etiquetas: ,