Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | favorito
Etiquetas: ,